{"id":160,"date":"2014-05-10T03:37:46","date_gmt":"2014-05-10T03:37:46","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=160"},"modified":"2014-06-01T16:23:44","modified_gmt":"2014-06-01T16:23:44","slug":"as-licoes-do-mico-leao-preto-que-escapou-da-extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/as-licoes-do-mico-leao-preto-que-escapou-da-extincao\/","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es do mico-le\u00e3o-preto que escapou da extin\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"color: #1b6390;\" align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/kU4PbpVo5qMr7WsZMFO_cT2m9Ug=\/620x430\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2014\/03\/26\/mlp_ipe_mico-leao-preto.jpg\" alt=\" \" width=\"457\" height=\"317\" \/>Por Alexandre Mansur<\/p>\n<p>No meio de tanta not\u00edcia ambiental desanimadora, algumas hist\u00f3rias de sucesso realimentam a esperan\u00e7a. Uma delas \u00e9 o salvamento do mico-le\u00e3o-preto (Leontopithecus chrysopygus). A esp\u00e9cie foi considerada extinta por cerca de 65 anos. Nesse per\u00edodo, n\u00e3o houve nenhum registro de sua ocorr\u00eancia. Foi redescoberta nos anos 1970. Depois de d\u00e9cadas de trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o, o mico-le\u00e3o-preto deixou a lista das esp\u00e9cies mais amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>O estado das popula\u00e7\u00f5es continua delicado, mas \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o maior perigo j\u00e1 passou. Essa hist\u00f3ria \u00e9 contada em detalhes no livro Mico-Le\u00e3o-Preto &#8211; A hist\u00f3ria de sucesso na conserva\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie amea\u00e7ada, da bi\u00f3loga Gabriela Cabral Rezende, do Instituto de Pesquisas Ecol\u00f3gicas (IP\u00ca), que participou do salvamento. Uma das li\u00e7\u00f5es do mico \u00e9 a import\u00e2ncia de unidades de conserva\u00e7\u00e3o. A outra \u00e9 o envolvimento da popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>A aventura do mico-le\u00e3o come\u00e7ou com a redescoberta de uma popula\u00e7\u00e3o no Pontal do Paranapanema (extremo oeste do estado de S\u00e3o Paulo), em 1970. Isso animou os pesquisadores. Em 1983, por\u00e9m, alguns deles foram informados que a constru\u00e7\u00e3o de uma usina hidrel\u00e9trica inundaria 10% da \u00e1rea de ocorr\u00eancia daquela popula\u00e7\u00e3o de micos. Era a maior e \u00fanica capaz de sobreviver por um longo prazo. Na \u00e9poca, o mico-le\u00e3o-preto era considerado um dos primatas mais amea\u00e7ados do mundo, com cerca de 100 indiv\u00edduos vivendo na natureza.<\/p>\n<p>O risco motivou o in\u00edcio de pesquisas e a\u00e7\u00f5es de envolvimento comunit\u00e1rio para salvar a esp\u00e9cie. Assim, surgiu o Programa de Conserva\u00e7\u00e3o do Mico-le\u00e3o-preto (PCMLP), que completa 30 anos em 2014. O esfor\u00e7o de salvamento do mico tamb\u00e9m deu origem a organiza\u00e7\u00e3o socioambiental IP\u00ca (Instituto de Pesquisas Ecol\u00f3gicas), fundado em 1992 e respons\u00e1vel at\u00e9 hoje pelo plano de conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Gabriela conta mais sobre as li\u00e7\u00f5es do mico em entrevista a \u00c9POCA.<\/p>\n<p>\u00c9POCA: Como foi poss\u00edvel salvar o mico-le\u00e3o-preto?<\/p>\n<p>Gabriela Rezende: As principais a\u00e7\u00f5es que contribu\u00edram para salvar o mico-le\u00e3o-preto da extin\u00e7\u00e3o inclu\u00edram o manejo de popula\u00e7\u00f5es, feito atrav\u00e9s de movimenta\u00e7\u00f5es de micos-le\u00f5es de um fragmento a outro onde a esp\u00e9cie n\u00e3o era mais encontrada. Isso resultou no estabelecimento de uma nova popula\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m houve a cria\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o, essenciais para a prote\u00e7\u00e3o do que resta de habitat dispon\u00edvel para a esp\u00e9cie. Um exemplo \u00e9 a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Mico-le\u00e3o-preto, criada em 2002 no Pontal do Paranapanema. Tamb\u00e9m ocorreram a\u00e7\u00f5es de restaura\u00e7\u00e3o do habitat e da conectividade entre os fragmentos de ocorr\u00eancia de mico-le\u00e3o-preto.<\/p>\n<p>Elas geraram, em 2012, o maior corredor de biodiversidade j\u00e1 reflorestado no Brasil, com 1,4 milh\u00f5es de \u00e1rvores plantadas ligando a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Mico-Le\u00e3o-Preto ao Parque Estadual Morro do Diabo. Diversas estrat\u00e9gias de envolvimento comunit\u00e1rio abordaram mais de 20 mil pessoas ao longo dos anos. Algumas oferecem alternativas sustent\u00e1veis de gera\u00e7\u00e3o de renda. Como exemplo, temos o estabelecimento de viveiros comunit\u00e1rios em assentamentos rurais, que produzem mudas direcionadas aos pr\u00f3prios projetos de restaura\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Atualmente, a popula\u00e7\u00e3o de mico-le\u00e3o-preto conhecida na natureza \u00e9 constitu\u00edda de pouco mais de mil indiv\u00edduos, distribu\u00eddos em aproximadamente 20 pequenas \u00e1reas de floresta pelo estado de S\u00e3o Paulo, entre os rios Tiet\u00ea e Paranapanema. Devido aos esfor\u00e7os cont\u00ednuos, em 2008 o mico-le\u00e3o-preto deixou a categoria de \u201cCriticamente Amea\u00e7ado\u201d na Lista Vermelhade Esp\u00e9cies Amea\u00e7adas de Extin\u00e7\u00e3oda IUCN (International Union for Conservation of Nature), passando a ser considerado \u201camea\u00e7ado\u201d. Apesar dos progressos, ainda h\u00e1 muito a ser feito.<\/p>\n<p style=\"color: #1b6390;\" align=\"justify\">\n<img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/pGzVp8jHOJmrqgw0CFBQWlbKoqg=\/300x400\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2014\/03\/26\/mlp_ipe_gabriela.jpg\" alt=\" \" width=\"457\" height=\"609\" \/><br \/>\nA bi\u00f3loga Gabriela Rezende com seu livro (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)A bi\u00f3loga Gabriela Rezende com seu livro (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>\u00c9POCA: Que garantias temos de que o h\u00e1bitat dele ser\u00e1 conservado agora?<\/p>\n<p>Gabriela: A conserva\u00e7\u00e3o de uma ou de diversas esp\u00e9cies \u00e9 completamente dependente da conserva\u00e7\u00e3o do h\u00e1bitat em que elas ocorrem. A garantia de prote\u00e7\u00e3o do h\u00e1bitat ainda \u00e9 muito vinculada a quest\u00f5es pol\u00edticas. Por isso, apesar de a cria\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o ser o mecanismo mais seguro para garantir a perpetuidade das manchas de floresta que ainda restam, essas mesmas \u00e1reas podem sofrer perdas, tamb\u00e9m sob respaldo legal, seja por raz\u00f5es ambientais, pol\u00edticas,sociais ou econ\u00f4micas. Por isso, sensibilizar e envolver cada vez mais pessoas na conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies ou de um ecossistema pode fortalecer essa garantia, de que daqui muitos anos tais \u00e1reas ainda existir\u00e3o e ter\u00e3o sofrido um impacto m\u00ednimo ao longo do tempo.<\/p>\n<p>\u00c9POCA: Quais s\u00e3o as li\u00e7\u00f5es desse caso para esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o de outras esp\u00e9cies?<\/p>\n<p>Gabriela: As estrat\u00e9gias utilizadas para a conserva\u00e7\u00e3o do mico-le\u00e3o-preto podem ser facilmente replicadas para outras esp\u00e9cies amea\u00e7adas ao redor do mundo, desde que adaptadas \u00e0 realidade local e com objetivos claros. Mas a principal li\u00e7\u00e3o que podemos tirar desse caso \u00e9 a import\u00e2ncia de pessoas engajadas e motivadas a lutarem para salvar uma esp\u00e9cie. O mico-le\u00e3o-preto \u00e9 um caso de sucesso porque encontrou em seu caminho algumas pessoas, atuantes nas mais diversas\u00e1reas (governo, terceiro setor, universidades), que tornaram o objetivo de suas vidas melhorar as condi\u00e7\u00f5es para que a esp\u00e9cie pudesse sobreviver. Se n\u00e3o fosse o comprometimento e a vontade dessas pessoas, gente como a gente, talvez n\u00e3o encontrar\u00edamos mais esse primatinha correndo pelas matas paulistas. Meu desejo em disseminar essa hist\u00f3ria atrav\u00e9s de um livro \u00e9 que mais gente se inspire para que mais esp\u00e9cies sejam salvas.<\/p>\n<p>\u00c9POCA: Algumas esp\u00e9cies conseguem atrair a empatia do p\u00fablico. Elas s\u00e3o usadas para justificar e financiar esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o de grandes ambientes naturais. S\u00e3o as esp\u00e9cies-bandeira. Essa estrat\u00e9gia ainda \u00e9 eficaz hoje?<\/p>\n<p>Gabriela: A estrat\u00e9gia de esp\u00e9cies-bandeira j\u00e1 foi mais utilizada. Atualmente elas est\u00e3o perdendo um pouco do foco para a abordagem mais abrangente de ecossistemas. Apesar disso, elas ainda atraem bastante a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e n\u00e3o devem ser deixadas de lado. Eu, particularmente, acredito no potencial dessas esp\u00e9cies carism\u00e1ticas em difundir a mensagem conservacionista e engajar mais pessoas na causa. A meu ver, as pessoas tem uma certa facilidade em se identificar com esp\u00e9cies, mais que com h\u00e1bitats, sensibilizando-se com as amea\u00e7as e apropriando-se do problema para buscar uma solu\u00e7\u00e3o. Se as estrat\u00e9gias atuais de conserva\u00e7\u00e3o seguem outras tend\u00eancias, o segredo para n\u00e3o perder o foco \u00e9 utiliz\u00e1-las em conjunto.<\/p>\n<p>\u00c9POCA: Usar esp\u00e9cies-bandeira como estrat\u00e9gia de conserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa o p\u00fablico menos consciente do papel do pr\u00f3prio ecossistema como um todo? Isso n\u00e3o deixa de fora a import\u00e2ncia de uma floresta para equilibrar o clima ou gerar nascentes, por exemplo?<\/p>\n<p>Gabriela: Isso pode acontecer, dependendo da estrat\u00e9gia de divulga\u00e7\u00e3o que se utiliza. A fun\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies-bandeira \u00e9 chamar aten\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o de perigo do ecossistema a que est\u00e3o associadas e auxiliar na difus\u00e3o da mensagemconservacionista. Se elas forem capazes de mostrar a import\u00e2ncia de se conservar florestas, n\u00e3o somente pela sua exist\u00eancia em si, mas por todos os benef\u00edcios que estas podem trazer e por toda a biodiversidade que estar\u00e1 sendo salva embaixo do guarda-chuva de uma esp\u00e9cie-bandeira, o uso dessa estrat\u00e9gia estar\u00e1 cumprindo com seus objetivos. Al\u00e9m disso, cada pessoa se sensibiliza com a conserva\u00e7\u00e3o de uma forma diferente, exigindo essa diversidade de abordagens para conscientiza\u00e7\u00e3o. O que realmente importa, no fim das contas, s\u00e3o os benef\u00edcios para o meio ambiente e para todos n\u00f3s, esp\u00e9cies desse planeta.<\/p>\n<p>\u00c9POCA: Qual \u00e9 o primata brasileiro em estado mais cr\u00edtico hoje?<\/p>\n<p>Gabriela: Alguns primatas brasileiros est\u00e3o atualmente em estado bastante cr\u00edtico e preocupante, sendo a redu\u00e7\u00e3o de seus h\u00e1bitats a principal amea\u00e7a. Na Mata Atl\u00e2ntica, ecossistema que o mico-le\u00e3o-preto habita, temos o bugio-ruivo do norte do rio Jequitinhonha (Alouatta guariba guariba) e o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus). Na Amaz\u00f4nia,os primatas em estado cr\u00edtico ocorrem principalmente na regi\u00e3o do arco do desmatamento ou pr\u00f3ximos aos grandes centros urbanos,tais como o caiarara (Cebus kaapori), o cuxi\u00fa-preto (Chiropotes satanas) e o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor). E ainda h\u00e1 a Caatinga, um ecossistema que corre s\u00e9rios riscos, e que tem uma esp\u00e9cie de guig\u00f3 exclusiva dela, o Callicebus barbarabrownae, t\u00e3o amea\u00e7ada quanto. Destas, o bugio-ruivo e o caiarara integram a lista de 2012-2014 das 25 esp\u00e9cies de primata mais amea\u00e7adas do mundo, publicada bianualmente pelo Grupo Especialista em Primatas da IUCN. O mico-le\u00e3o-preto fez parte dessa lista no bi\u00eanio 2000-2002.<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a style=\"color: #096ae2;\" href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/colunas-e-blogs\/blog-do-planeta\/noticia\/2014\/03\/licoes-do-mico-leao-preto-que-escapou-da-extincao.html\" target=\"_blank\">\u00c9poca<\/a>\u00a0&#8211; Blog do Planeta<br \/>\n29.03.2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alexandre Mansur No meio de tanta not\u00edcia ambiental desanimadora, algumas hist\u00f3rias de sucesso realimentam<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"sabrina","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/sabrina\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Alexandre Mansur No meio de tanta not\u00edcia ambiental desanimadora, algumas hist\u00f3rias de sucesso realimentam","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=160"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}