{"id":152075,"date":"2021-08-22T11:44:16","date_gmt":"2021-08-22T14:44:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=152075"},"modified":"2021-08-22T11:44:16","modified_gmt":"2021-08-22T14:44:16","slug":"nao-ha-plano-b-precisamos-de-um-novo-sistema-socioeconomico-diz-membro-brasileiro-do-ipcc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/nao-ha-plano-b-precisamos-de-um-novo-sistema-socioeconomico-diz-membro-brasileiro-do-ipcc\/","title":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 plano B: precisamos de um novo sistema socioecon\u00f4mico, diz membro brasileiro do IPCC"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"css-ju6on1\">Em entrevista \u00e0 National Geographic, o cientista Paulo Artaxo, um dos autores do Sexto Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, divulgado na semana passada, diz que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de fim do mundo, mas um chamado para agir.<\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/nationalgeographic_2764209.jpg?w=1600&amp;h=900\" alt=\"Torre de observa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ZF-2, pr\u00f3ximo a Manaus, no Amazonas. &quot;O aumento da temperatura e a ...\" width=\"639\" height=\"360\" \/><\/p>\n<p>Torre de observa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ZF-2, pr\u00f3ximo a Manaus, no Amazonas. &#8220;O aumento da temperatura e a redu\u00e7\u00e3o da precipita\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e3o afetando o ecossistema amaz\u00f4nico, fazendo com que ele deixe de ser [&#8230;] um absorvedor de di\u00f3xido de carbono\u00a0para se tornar uma fonte de carbono&#8221;, explica o cientista Paulo Artaxo.<\/p>\n<div class=\"paragraph css-0\">\n<div>\n<p>O novo relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas das Na\u00e7\u00f5es Unidas (IPCC), divulgado em 9 de agosto de 2021, \u00e9 o mais contundente e urgente alerta sobre a crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>A humanidade tem aquecido o planeta a uma taxa sem precedentes h\u00e1 pelos menos dois mil anos. O impacto da a\u00e7\u00e3o humana sobre o planeta \u00e9 inequ\u00edvoco e torna eventos clim\u00e1ticos extremos \u2013 como ondas de calor, chuvas violentas e secas severas \u2013 mais intensos e frequentes. Tudo pode piorar.<\/p>\n<p>Parte desses impactos em curso s\u00e3o irrevers\u00edveis, mas alguns podem ser retardados se limitarmos as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>O painel apresentou o relat\u00f3rio em uma coletiva de imprensa virtual, para uma audi\u00eancia no mundo inteiro. S\u00e3o mensagens curtas e diretas, simplificadas e acompanhadas de dados e cen\u00e1rios de m\u00e9dio e longo prazo. Com linguagem clara e destinada a tomadores de decis\u00e3o, o sum\u00e1rio executivo da primeira parte desse Sexto Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o (AR6) traz o que a ci\u00eancia, e o IPCC em particular, j\u00e1 vem avisando desde a d\u00e9cada de 1990. Mas o documento traz algumas novidades: a quantifica\u00e7\u00e3o do aquecimento global, cen\u00e1rios a curto prazo, um mapa interativo de proje\u00e7\u00f5es de um planeta cada vez mais quente e caminhos ainda poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Em meio ao esfor\u00e7o para transmitir a urg\u00eancia da crise clim\u00e1tica, entrevistamos Paulo Artaxo, pesquisador brasileiro que \u00e9 um dos l\u00edderes do IPCC e coautor do primeiro cap\u00edtulo do relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O pesquisador esclarece os cen\u00e1rios do Brasil presentes no AR6. Um deles \u00e9 o Nordeste brasileiro, que aparece como uma das regi\u00f5es do planeta que mais sofrem com o aquecimento global. A Amaz\u00f4nia e o Centro-Oeste tamb\u00e9m s\u00e3o \u00e1reas que devem ser impactadas por calor extremo j\u00e1 nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Paulo Artaxo evita falar em cat\u00e1strofe, diz preferir usar urg\u00eancia \u2013 \u00e9 hora de arrega\u00e7ar as mangas, unir esfor\u00e7os e mudar o sistema socioecon\u00f4mico\u00a0e a \u201cforma de encarar os recursos naturais do nosso planeta.\u201d<\/p>\n<p>O pesquisador encerra a conversa, feita por videochamada, trazendo a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o neste momento<strong>. \u201c<\/strong>A ci\u00eancia j\u00e1 fez o seu papel e deu o recado: mais claro, imposs\u00edvel. Agora \u00e9 a vez dos comunicadores de levar essa mensagem para a popula\u00e7\u00e3o em geral. E isso \u00e9 um trabalho que n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil. Vamos em frente, todos juntos, construir uma nova sociedade mais justa e mais sustent\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"paragraph css-yzbgtn\">\n<div>\n<p><strong>Nota do editor:<\/strong>\u00a0a entrevista foi editada para fins de clareza e concis\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img ngart-img--small css-ap3tdr\">\n<div class=\"ngart-img__cntr\" tabindex=\"0\" role=\"button\"><picture class=\"resp-img-cntr css-1oor6ww\"><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.webp?w=320&amp;h=229\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 320px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.webp?w=360&amp;h=257\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 360px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.webp?w=430&amp;h=307\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 430px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.webp?w=500&amp;h=357\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 500px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.webp?w=768&amp;h=549\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.webp?w=344&amp;h=246\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.webp?w=315&amp;h=225\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 1600px)\" \/><source title=\"foto do professor paulo artaxo discursando em comiss\u00e3o do Senado Federal\" srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.webp?w=315&amp;h=225\" type=\"image\/webp\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"foto do professor paulo artaxo discursando em comiss\u00e3o do Senado Federal\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/47974196692_4f4c47b118_k.jpg?w=315&amp;h=225\" alt=\"foto do professor paulo artaxo discursando em comiss\u00e3o do Senado Federal\" width=\"639\" height=\"456\" \/><\/picture><\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont\">\n<div class=\"ngart-img__cont__copy\">\n<p>Paulo Artaxo discursa durante audi\u00eancia p\u00fablica conjunta das comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e Meio Ambiente do Senado em maio de 2019. Al\u00e9m de membro do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas,\u00a0Artaxo \u00e9\u00a0professor titular do Departamento de F\u00edsica Aplicada do Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo\u00a0e vice-presidente da Academia de Ci\u00eancias do Estado de S\u00e3o\u00a0Paulo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont__author\">FOTO DE\u00a0<span class=\"ngart-img__cont--strong\">MARCOS OLIVEIRA\/AG\u00caNCIA SENADO<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"paragraph css-0\">\n<div>\n<p><strong>Paulina Chamorro, National Geographic:<\/strong>\u00a0Algo bastante importante nesse relat\u00f3rio e nas coletivas dos cientistas \u00e9 o refor\u00e7o de que \u00e9 inequ\u00edvoco que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o causadas pela a\u00e7\u00e3o humana. Por que isso?<\/p>\n<p><strong>Paulo Artaxo:<\/strong>\u00a0H\u00e1 quase 30 anos, o IPCC coloca, com v\u00e1rios graus de linguagem, que a atividade humana est\u00e1 mudando o clima do planeta. \u2018Virtualmente certo\u2019 foi a linguagem utilizada no relat\u00f3rio anterior. Para este relat\u00f3rio, [usou-se] inequ\u00edvoco. Basicamente, hoje j\u00e1 \u00e9 indiscut\u00edvel a atribui\u00e7\u00e3o humana nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Isso reflete o avan\u00e7o da ci\u00eancia. A ci\u00eancia hoje d\u00e1 a palavra de uma maneira muito clara e expl\u00edcita de que s\u00e3o as atividades humanas que est\u00e3o impactando o clima do planeta de uma maneira que pode trazer preju\u00edzos socioecon\u00f4micos enormes para nossa sociedade e para os ecossistemas hoje e no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><strong>P.C.:<\/strong>\u00a0Nesse sentido, tem uma quantifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma outra novidade que vem neste relat\u00f3rio. O planeta j\u00e1 aqueceu, em m\u00e9dia, 1,1\u00baC, mas nos continentes \u00e9 um aquecimento mais forte, com 1,6\u00baC. Como \u00e9 isso?<\/p>\n<p><strong>P.A.:<\/strong>\u00a0Exatamente. O aumento global da temperatura, levando em conta os oceanos e as \u00e1reas continentais, \u00e9 de 1,1\u00baC. Entretanto, como 70% da \u00e1rea do nosso planeta \u00e9 coberta pelos oceanos, e eles tem uma capacidade t\u00e9rmica muito grande, a \u00e1gua absorve esse calor de uma maneira muito mais forte do que os ecossistemas continentais. Ent\u00e3o, o que acontece \u00e9 que o aquecimento nos continentes j\u00e1 aumentou 1,6\u00baC. Ou seja, traduzindo em mi\u00fados: [aqueceu] onde a nossa sociedade est\u00e1 estruturada. Onde ocorre a maior quantidade de biodiversidade do planeta, que \u00e9 nos continentes, n\u00f3s j\u00e1 aquecemos mais do que o prometido no Acordo de Paris, que era limitar o aquecimento em 1,5\u00baC. Isso \u00e9 um recado claro de que n\u00f3s precisamos reduzir j\u00e1, hoje, as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa para evitar um impacto ainda maior do que n\u00f3s j\u00e1 estamos tendo das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no funcionamento dos ecossistemas e da nossa sociedade.<\/p>\n<p><strong>P.C.:<\/strong>\u00a0Outro destaque \u00e9 justamente nesses cen\u00e1rios que s\u00e3o colocados no relat\u00f3rio. A\u00ed eu queria falar sobre o Brasil. Tem a quest\u00e3o do Nordeste brasileiro como uma das regi\u00f5es do planeta onde \u00e9 mais clara a influ\u00eancia do aquecimento global. E tem tamb\u00e9m a Amaz\u00f4nia. Quais s\u00e3o esses cen\u00e1rios apontados no relat\u00f3rio?<\/p>\n<p><strong>P.A.:<\/strong>\u00a0O Brasil tem vulnerabilidades muito importantes nas quest\u00f5es das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais. Al\u00e9m do Nordeste brasileiro e da Amaz\u00f4nia, n\u00f3s temos a quest\u00e3o do Cerrado e do Brasil central e temos a extensa \u00e1rea costeira brasileira, que \u00e9 muito vulner\u00e1vel ao aumento do n\u00edvel do mar. \u00c9 fundamental termos pol\u00edticas p\u00fablicas que enderecem essas quest\u00f5es das vulnerabilidades brasileiras. No Nordeste, h\u00e1 locais onde a precipita\u00e7\u00e3o j\u00e1 diminuiu em m\u00e9dia 30% e a temperatura j\u00e1 aumentou 2\u00baC. Portanto, temos uma regi\u00e3o que era semi\u00e1rida, onde j\u00e1 chovia pouco; com uma redu\u00e7\u00e3o dessa precipita\u00e7\u00e3o, n\u00f3s podemos chegar em uma regi\u00e3o \u00e1rida.<\/p>\n<p>E, com isso, o Brasil vai ter que decidir o que vai acontecer com os milh\u00f5es de nordestinos que podem estar vivendo numa regi\u00e3o onde, basicamente, a agricultura de subsist\u00eancia pode n\u00e3o mais ser poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia tem a sua vulnerabilidade particular, que est\u00e1 sendo, digamos assim, atacada em duas frontes principais. Uma \u00e9 no desmatamento \u2013 uma taxa da ordem de 11 mil km2 de florestas desmatadas a cada ano, o que \u00e9 uma enormidade. Mas a Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m \u00e9 muito sens\u00edvel \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais. Ou seja, o aumento da temperatura e a redu\u00e7\u00e3o da precipita\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e3o afetando o ecossistema amaz\u00f4nico, fazendo com que ele deixe de ser um sumidouro, um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/meio-ambiente\/2021\/07\/queimadas-e-desmatamento-estao-transformando-amazonia-em-fonte-de-carbono-diz-estudo\">absorvedor de di\u00f3xido de carbono, para se tornar uma fonte de carbono<\/a>\u00a0para a atmosfera global. Isso \u00e9 importante porque a Amaz\u00f4nia cont\u00e9m em torno de 120 bilh\u00f5es de toneladas de carbono no ecossistema, o que corresponde a dez anos de toda queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis do planeta. Para a Amaz\u00f4nia, temos que ter um olhar muito cuidadoso e diferenciado. E, por \u00faltimo, vou enfatizar o Centro-Oeste brasileiro, onde o nosso agroneg\u00f3cio est\u00e1 fincado, com grandes produ\u00e7\u00f5es de soja, grandes \u00e1reas de pecu\u00e1ria com produ\u00e7\u00e3o de carne. O clima no Brasil central j\u00e1 est\u00e1 mudando e a previs\u00e3o do IPCC \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o significativa da precipita\u00e7\u00e3o, um aumento da temperatura de 4 a 5\u00baC se mantivermos as atuais emiss\u00f5es e o desmatamento na Amaz\u00f4nia. Isso \u00e9 uma vulnerabilidade do agroneg\u00f3cio brasileiro, e a ci\u00eancia est\u00e1 dando o recado de uma maneira muito clara e expl\u00edcita. Esses s\u00e3o alguns dos pontos principais do relat\u00f3rio que impactam no Brasil.<\/p>\n<p><strong>P.C.:<\/strong>\u00a0O secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Ant\u00f3nio Guterres, disse que o AR6 \u00e9 o alerta vermelho para a humanidade. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>P.A.:<\/strong>\u00a0Esse novo relat\u00f3rio do IPCC faz uma compila\u00e7\u00e3o do estado atual da ci\u00eancia mostrando para a sociedade os riscos importantes que estamos tendo se continuarmos as emiss\u00f5es dos gases de efeito estufa no est\u00e1gio em que elas est\u00e3o. O nosso risco \u00e9 basicamente de termos um aumento de temperatura m\u00e9dia no planeta na ordem de 4\u00baC. O que em \u00e1reas continentais implica um aumento de 5 a 5,5\u00baC, que vai ter impactos enormes sobre a nossa sociedade. Isso n\u00e3o \u00e9 para o final do s\u00e9culo, parte desses impactos est\u00e3o acontecendo hoje. Parte desses impactos s\u00e3o irrevers\u00edveis. O relat\u00f3rio usa uma linguagem muito clara e expl\u00edcita. Muito mais clara do que os relat\u00f3rios anteriores, de que o homem \u00e9 sim culpado por essas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. E n\u00f3s precisamos mudar o nosso sistema socioecon\u00f4mico de uma maneira muito forte para que possamos deixar para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es um planeta minimamente sustent\u00e1vel do ponto de vista do nosso clima. A mensagem do IPCC \u00e9 muito clara quanto aos riscos iminentes que a nossa sociedade est\u00e1 correndo atualmente.<\/p>\n<p><strong>P.C.:<\/strong>\u00a0Eu vi algumas apresenta\u00e7\u00f5es e \u00e9 muito louv\u00e1vel todo o esfor\u00e7o que voc\u00eas pesquisadores e pesquisadoras t\u00eam feito com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem. O pr\u00f3prio IPCC tem, ao longo desses \u00faltimos anos, se esfor\u00e7ado na comunica\u00e7\u00e3o para que se chegue \u00e0 mensagem definitiva. Algumas vezes, o vi dizer que n\u00e3o gosta particularmente do tom catastr\u00f3fico, o tom de fim de mundo. Minha pergunta \u00e9: o que ainda pode ser feito ainda hoje e por que que a gente n\u00e3o pode pensar nesse fim de mundo?<\/p>\n<p><strong>P.A.:<\/strong>\u00a0Eu enfatizo sempre que n\u00e3o \u00e9 uma cat\u00e1strofe e n\u00e3o \u00e9 um fim do mundo. \u00c9 um recado para a sociedade de que n\u00f3s temos que mudar a maneira de encarar os recursos naturais do nosso planeta. Temos que mudar toda a nossa estrutura socioecon\u00f4mica para uma estrutura socioecon\u00f4mica que seja minimamente sustent\u00e1vel. Enxergo esse relat\u00f3rio do IPCC como um recado claro da ci\u00eancia para a humanidade, de que o atual caminho que n\u00f3s estamos seguindo n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel. E o relat\u00f3rio deixa isso muito claro: precisamos mudar nossos h\u00e1bitos de consumo, precisamos descarbonizar toda a maneira que a gente gera e usa energia. E o que \u00e9 importante: n\u00e3o precisamos de nenhuma tecnologia nova, de nenhuma nova quest\u00e3o que precise ainda ser desenvolvida. As ferramentas est\u00e3o na nossa m\u00e3o: a energia solar e energia e\u00f3lica, hoje, podem ser geradas a pre\u00e7os competitivos em rela\u00e7\u00e3o aos combust\u00edveis [f\u00f3sseis]; o setor de transporte precisa se eletrificar e deixar de usar combust\u00edveis f\u00f3sseis, e por a\u00ed afora. Quer dizer, o caminho \u00e9 muito claro. N\u00f3s temos as ferramentas para fazer essa nova transi\u00e7\u00e3o, mas faltam a\u00e7\u00f5es governamentais que indiquem para a sociedade as necessidades de mudan\u00e7as r\u00e1pidas, fortes e radicais, em como n\u00f3s utilizamos recursos naturais do nosso planeta.<\/p>\n<p><strong>P.C.:<\/strong>\u00a0Sobre o ponto de n\u00e3o retorno e os riscos que corremos: o que o relat\u00f3rio aponta neste sentido?<\/p>\n<p><strong>P.A.:<\/strong>\u00a0S\u00e3o v\u00e1rios aspectos de pontos de n\u00e3o retorno que n\u00f3s estamos correndo risco de atingir. Eu vou citar alguns e por que que algumas dessas mudan\u00e7as s\u00e3o irrevers\u00edveis e por que o IPCC usa essa linguagem. \u00c9 muito simples de entender. Por exemplo: o derretimento de um bilh\u00e3o de toneladas de \u00e1gua da Groenl\u00e2ndia, que est\u00e1 acontecendo agora. Essa \u00e1gua \u00e9 derretida nas geleiras continentais e na Groenl\u00e2ndia e aumenta o n\u00edvel do mar. N\u00e3o h\u00e1 processo f\u00edsico conhecido que possa recongelar essa \u00e1gua e lev\u00e1-la de volta, onde ela estava originalmente. Esse \u00e9 um exemplo muito simples que mostra que alguns dos processos s\u00e3o realmente irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p>Outros processos irrevers\u00edveis s\u00e3o as florestas tropicais. Uma vez que desmata a regi\u00e3o, voc\u00ea reduz a evapotranspira\u00e7\u00e3o dessa regi\u00e3o. Mesmo que se replante parte dessa floresta, pode demorar s\u00e9culos para ela recuperar a biodiversidade original, que \u00e9 essencial para a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da floresta. Outro exemplo: o mar j\u00e1 aumentou 20 cm e, de acordo com o relat\u00f3rio do IPCC, pode aumentar 1 m ao longo deste s\u00e9culo. E em 2300, se n\u00f3s continuarmos as nossas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, o aumento do n\u00edvel do mar pode chegar a 15 m. Imagine as cidades costeiras \u2013 como Rio de Janeiro, Santos, Recife \u2013 com o aumento do mar da ordem de 15 m. E por que o IPCC fez as simula\u00e7\u00f5es de aumento do n\u00edvel do mar para daqui 300 anos? Basicamente porque uma vez que voc\u00ea inicia esse processo, \u00e9 imposs\u00edvel, com nosso conhecimento cient\u00edfico hoje, par\u00e1-lo. N\u00f3s estamos produzindo mudan\u00e7as irrevers\u00edveis no nosso planeta, e as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es certamente v\u00e3o nos agradecer muito se pararmos esse caminho que estamos seguindo hoje e come\u00e7armos a trilhar um caminho de sustentabilidade socioecon\u00f4mica, que torne vi\u00e1vel a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais do nosso planeta para as dez bilh\u00f5es de pessoas que teremos em 2050.<\/p>\n<p><strong>P.C.:<\/strong>\u00a0Por fim, falemos de sustentabilidade socioecon\u00f4mica, o impacto para grupos mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>P.A.:<\/strong>\u00a0As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam um aspecto bastante perverso com a nossa sociedade. Primeiro, os mais impactados s\u00e3o os pa\u00edses de baixa renda, os pa\u00edses em desenvolvimento. Dentro de cada pa\u00eds, os mais impactados s\u00e3o os grupos sociais de menor renda. H\u00e1 um aspecto de desigualdade social enorme nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e, na verdade, em quase tudo o que fazemos no nosso planeta. O desenho deste novo sistema socioecon\u00f4mico que teremos que implementar passa pela redu\u00e7\u00e3o das desigualdades. N\u00e3o podemos esquecer que somente 5% da popula\u00e7\u00e3o mundial \u00e9 respons\u00e1vel por 60% das emiss\u00f5es. Veja o grau de concentra\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa. Nem todos n\u00f3s somos respons\u00e1veis por essa situa\u00e7\u00e3o. Quem mais vai sentir os impactos s\u00e3o os 95% da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis pelas emiss\u00f5es. Isso \u00e9 certamente uma quest\u00e3o que teremos que endere\u00e7ar e est\u00e1 embutida\u00a0nos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel das Na\u00e7\u00f5es Unidas e nas diretrizes m\u00ednimas para construir uma nova sociedade. Vamos ter que fazer isso, porque n\u00e3o temos um plano B, n\u00e3o temos um planeta B. Isso vai ter que ser feito pela nossa gera\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o temos muito tempo para fazer isso. Vamos arrega\u00e7ar as mangas, juntar as ci\u00eancias, todas as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, as minorias e lutar por um planeta mais justo e mais sustent\u00e1vel.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"paragraph css-yzbgtn\">\n<div>\n<p>Trechos dessa entrevista tamb\u00e9m foram publicados no\u00a0<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/4Qbbx1JYKUij2erAMGbtnN\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">podcast Vozes do Planeta<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"css-se91k\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 National Geographic, o cientista Paulo Artaxo, um dos autores do Sexto Relat\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Em entrevista \u00e0 National Geographic, o cientista Paulo Artaxo, um dos autores do Sexto Relat\u00f3rio","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/152075"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=152075"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/152075\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":152076,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/152075\/revisions\/152076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=152075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=152075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=152075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}