{"id":152059,"date":"2021-08-22T11:09:09","date_gmt":"2021-08-22T14:09:09","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=152059"},"modified":"2021-08-22T11:09:11","modified_gmt":"2021-08-22T14:09:11","slug":"mudancas-climaticas-ainda-e-possivel-evitar-cenarios-catastroficos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/mudancas-climaticas-ainda-e-possivel-evitar-cenarios-catastroficos\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: ainda \u00e9 poss\u00edvel evitar cen\u00e1rios catastr\u00f3ficos"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"css-ju6on1\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/mudancas-climaticas-ainda-e-possivel-evitar-cenarios-catastroficos\/mudanca_climatica-39\/\" rel=\"attachment wp-att-152060\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-152060\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Relat\u00f3rio mais abrangente j\u00e1 elaborado sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas analisa riscos clim\u00e1ticos possivelmente irrevers\u00edveis, como a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e a desacelera\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o dos oceanos, que ainda podem ser evitados com a\u00e7\u00f5es en\u00e9rgicas.<\/h2>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 atingiram todos os cantos do planeta e continuar\u00e3o a reformular a exist\u00eancia humana pelos pr\u00f3ximos s\u00e9culos, com impactos mais intensos \u00e0 medida que o aquecimento avan\u00e7a, alertam os cientistas.<\/p>\n<p>O aquecimento de 1,1 grau Celsius do planeta desde o per\u00edodo pr\u00e9-industrial provocou mudan\u00e7as irrevers\u00edveis na Terra, algumas das quais, inevit\u00e1veis. Mas uma a\u00e7\u00e3o decisiva para cortar as emiss\u00f5es de forma brusca e ampla \u2014 mantendo o aumento total da temperatura o mais baixo poss\u00edvel \u2014 pode reduzir bastante os riscos de ultrapassarmos outros limiares perigosos que colocariam o planeta ainda mais em risco, de acordo com um novo e extenso\u00a0relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (\u201cIPCC\u201d, na sigla em ingl\u00eas)\u00a0divulgado em 9 de agosto de 2021.<\/p>\n<p>\u201cPara estabilizar o clima, \u00e9 preciso cessar imediatamente as emiss\u00f5es e ponto final\u201d, afirma\u00a0Charles Koven, um dos autores do relat\u00f3rio e cientista clim\u00e1tico do Laborat\u00f3rio Nacional Lawrence Berkeley, na Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<h3>O risco de mudan\u00e7as irrevers\u00edveis ficou mais n\u00edtido<\/h3>\n<p>As temperaturas da Terra subiram de forma relativamente constante por d\u00e9cadas, em perfeita sincronia com o aumento dos gases de efeito estufa. A regra b\u00e1sica \u00e9 simples: quanto mais emiss\u00e3o de di\u00f3xido de carbono, mais calor, e essa rela\u00e7\u00e3o continuar\u00e1, segundo consta no relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>No entanto os cientistas sabem, h\u00e1 mais de 30 anos, que existem limites ao sistema clim\u00e1tico e que, se ultrapassados, podem remodelar drasticamente o mundo como o conhecemos \u2014 causando mudan\u00e7as irrevers\u00edveis na escala de tempo humana. A redu\u00e7\u00e3o das camadas de gelo na Groenl\u00e2ndia e na Ant\u00e1rtida al\u00e9m de determinados limites, por exemplo, pode desencadear c\u00edrculos viciosos de decl\u00ednios que persistir\u00e3o ainda que sejam suspensas as emiss\u00f5es amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u201cJogamos roleta russa com o clima e ningu\u00e9m sabe se h\u00e1 uma bala na agulha\u201d, escreveu\u00a0Wally Broecker, cientista clim\u00e1tico pioneiro\u00a0em 1987.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, uma profus\u00e3o de pesquisas vem demonstrando que muitas dessas consequ\u00eancias podem ocorrer com varia\u00e7\u00f5es na temperatura global ainda menores do que esperado e que algumas j\u00e1 podem ser sentidas. Embora ainda n\u00e3o se saiba ao certo os limites exatos,\u00a0alguns podem estar no intervalo de aquecimento entre 1,5 e dois graus Celsius, os mesmos limites de aquecimento sugeridos no Acordo de Paris de 2015.<\/p>\n<p>O novo relat\u00f3rio afirma que o planeta pode aquecer cerca de 1,4 grau Celsius acima das temperaturas pr\u00e9-industriais at\u00e9 2100 se for adotada uma estrat\u00e9gia mais ambiciosa de redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es, ou quatro graus Celsius, se menos ambiciosa.<\/p>\n<p>Ainda que sejam alcan\u00e7adas apenas as menores temperaturas desse intervalo, mudan\u00e7as irrevers\u00edveis poder\u00e3o ocorrer em todos os cantos do planeta: nas regi\u00f5es geladas, nos oceanos, em terra e na atmosfera. Mas os riscos se tornam muito maiores e mais dif\u00edceis de evitar com mais aquecimento.<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais modificarmos o sistema clim\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o ao estado em que ele se manteve nos \u00faltimos milhares de anos, maior ser\u00e1 a probabilidade de ultrapassarmos limites que mal prev\u00edamos\u201d, afirma\u00a0Bob Kopp, autor do relat\u00f3rio e cientista clim\u00e1tico da Universidade Rutgers.<\/p>\n<p>Algumas dessas mudan\u00e7as produzem efeitos bastante localizados. O\u00a0desaparecimento das geleiras nas montanhas, por exemplo, pode afetar profundamente as comunidades que dependem delas para seu abastecimento h\u00eddrico. Outras, como o derretimento das principais camadas de gelo, produzem impactos globais. Muitas criam um c\u00edrculo vicioso: por exemplo, os inc\u00eandios florestais s\u00e3o mais propensos a ocorrer em condi\u00e7\u00f5es de aridez e calor que est\u00e3o cada vez mais comuns devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u00c0 medida que a vegeta\u00e7\u00e3o queima, \u00e9 liberado carbono na atmosfera, acentuando o aquecimento planet\u00e1rio e tornando inc\u00eandios futuros ainda mais prov\u00e1veis \u2014 um padr\u00e3o bastante familiar nos dias de hoje.<\/p>\n<p>O que \u00e9 assustador, segundo Koven, \u00e9 que \u201cexistem limites que podem ser cruzados e n\u00e3o saberemos que os cruzamos at\u00e9 que sejam ultrapassados\u201d, o que ressalta a import\u00e2ncia de fazer o poss\u00edvel para ficar longe dos limites te\u00f3ricos.<\/p>\n<p>A seguir, explicamos algumas das mudan\u00e7as possivelmente irrevers\u00edveis que ainda podem ser evitadas com medidas decisivas.<\/p>\n<h3>Ainda \u00e9 poss\u00edvel evitar perdas catastr\u00f3ficas nas maiores reservas de gelo da Terra<\/h3>\n<p>O derretimento do gelo da Groenl\u00e2ndia e da Ant\u00e1rtida j\u00e1 est\u00e1 alimentando uma eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar mais r\u00e1pida do que em qualquer momento nos \u00faltimos tr\u00eas mil anos, amea\u00e7ando bilh\u00f5es de habitantes litor\u00e2neos em todo o mundo. As emiss\u00f5es de gases de efeito estufa at\u00e9 hoje j\u00e1 garantem um aumento incessante das temperaturas pelos pr\u00f3ximos s\u00e9culos, mas o ritmo e a intensidade desse aumento ainda est\u00e3o a nosso alcance, informa o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio conclui que o n\u00edvel do mar pode subir pouco mais de 0,5 metro at\u00e9 2100 se as emiss\u00f5es forem interrompidas drasticamente, ou entre 60 e 90 cent\u00edmetros se as emiss\u00f5es continuarem aumentando. Contudo, nas piores hip\u00f3teses \u2014 e se os pontos de inflex\u00e3o da Ant\u00e1rtida forem ultrapassados \u2014 esse n\u00famero pode chegar a cerca de 1,8 metro.<\/p>\n<p>As previs\u00f5es mais assustadoras s\u00f3 se concretizar\u00e3o se as camadas de gelo ultrapassarem limites cr\u00edticos, ap\u00f3s os quais as for\u00e7as da f\u00edsica determinariam um ciclo cont\u00ednuo de deteriora\u00e7\u00e3o, mas \u201ccertamente \u00e9 poss\u00edvel reduzir a possibilidade de que isso aconte\u00e7a diminuindo as emiss\u00f5es\u201d, afirma\u00a0Baylor Fox-Kemper, um dos autores do relat\u00f3rio e ocean\u00f3grafo da Universidade Brown.<\/p>\n<p>Somente a Ant\u00e1rtida Ocidental possui gelo suficiente para elevar o n\u00edvel global do mar em mais de\u00a0tr\u00eas metros\u00a0se todo ele for derretido, e suas caracter\u00edsticas geol\u00f3gicas fazem dessa possibilidade uma preocupa\u00e7\u00e3o concreta. A regi\u00e3o tem formato c\u00f4ncavo: a rocha sob a camada de gelo maci\u00e7o fica abaixo do n\u00edvel do mar. O oceano \u00e9 impedido de preencher a cavidade pela pr\u00f3pria camada de gelo, que se estende sobre a borda e alcan\u00e7a o oceano em uma parede convexa. Mas se essa parede for rompida ou at\u00e9 mesmo retroceder discretamente para tr\u00e1s da borda, a \u00e1gua do oceano poder\u00e1 escorrer pela lateral da cavidade e derreter o gelo por baixo,\u00a0provavelmente acelerando o desaparecimento da camada de gelo.<\/p>\n<p>H\u00e1 evid\u00eancias de que poder\u00e1 ser desencadeado um decl\u00ednio inevit\u00e1vel no gelo quando o aquecimento da Terra alcan\u00e7ar entre\u00a01,5 e dois graus Celsius acima das temperaturas pr\u00e9-industriais, e alguns cientistas acreditam que h\u00e1 sinais de que o processo j\u00e1 esteja em andamento, tornando urgente a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>O gelo no polo norte tamb\u00e9m pode passar a um estado novo e perigoso. J\u00e1 est\u00e1 bastante vulner\u00e1vel, pois o \u00c1rtico est\u00e1 aquecendo aproximadamente o dobro da m\u00e9dia mundial, segundo consta no relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A camada de gelo da Groenl\u00e2ndia, que, se desaparecesse, elevaria o n\u00edvel do mar global em mais de sete metros, est\u00e1 encolhendo mais r\u00e1pido do que em\u00a0qualquer outro momento dos \u00faltimos 350 anos\u00a0e est\u00e1 prestes a exceder o ritmo de degelo dos\u00a0\u00faltimos 12 mil anos. Em um \u00fanico dia extremamente quente no fim de julho, sua superf\u00edcie derreteu \u00e1gua suficiente\u00a0para cobrir todo o estado da Fl\u00f3rida com cinco cent\u00edmetros de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Um dos principais ciclos de retroalimenta\u00e7\u00e3o que poderia acelerar seu desaparecimento funciona assim: o forte sol durante o ver\u00e3o derrete a neve branca e brilhante acumulada sobre a camada de gelo, expondo o gelo mais denso e escuro abaixo e, algumas vezes, criando po\u00e7as de \u00e1gua derretida. O gelo e a \u00e1gua mais escuros absorvem mais calor, causando mais derretimento, o que provoca mais degelo em um ciclo destrutivo incessante. O problema da redu\u00e7\u00e3o do gelo durante os ver\u00f5es intensifica \u00e0 medida que a camada de gelo fica menor e mais delgada: \u00e0 medida que perde altura, sua superf\u00edcie se aproxima do n\u00edvel do mar, onde o ar \u00e9 substancialmente mais quente, acelerando ainda mais o seu desaparecimento.<\/p>\n<p>As \u00e1guas oce\u00e2nicas aquecidas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m derretem parte das bordas das camadas de gelo, provocando o rompimento de mais peda\u00e7os grandes. Mais gelo escorre para onde ficavam os peda\u00e7os desprendidos, provocando a ruptura de mais peda\u00e7os e assim por diante. \u00c9 como tirar um chiclete de uma m\u00e1quina de venda autom\u00e1tica de chicletes: os outros caem no lugar do que saiu para serem os pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>O gelo da Groenl\u00e2ndia n\u00e3o desaparecer\u00e1 amanh\u00e3. Os cientistas estimam que levaria mais de\u00a0mil anos\u00a0para que desintegrasse completamente e, talvez, milhares de anos a mais se conseguirmos cessar logo as emiss\u00f5es. No entanto, ap\u00f3s serem ultrapassados determinados limites, o que alguns grupos estimam que poderiam representar um aquecimento m\u00e9dio\u00a0de 2,7\u00b0C\u00a0ou\u00a0talvez ainda menos,\u00a0seu desaparecimento provavelmente n\u00e3o ser\u00e1 mais revers\u00edvel, o que significa que o gelo continuar\u00e1 desaparecendo por s\u00e9culos, ainda que as temperaturas se estabilizem.<\/p>\n<p>Apesar disso, \u201cn\u00e3o devemos desistir\u201d, enfatiza\u00a0Twila Moon, cientista clim\u00e1tica do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo, no Colorado. \u201cA quantidade de emiss\u00f5es lan\u00e7adas na atmosfera e o grau de aquecimento que permitirmos afetar\u00e3o o ritmo das mudan\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Limitar o aquecimento a 1,5\u00b0C, como constatado em um estudo recente,\u00a0reduziria pela metade a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar neste s\u00e9culo.<\/p>\n<h3>Uma importante corrente oce\u00e2nica pode desacelerar<\/h3>\n<p>Altera\u00e7\u00f5es perigosas em uma grande corrente oce\u00e2nica que controla o clima ao redor da bacia do Atl\u00e2ntico tamb\u00e9m podem se tornar permanentes com mudan\u00e7as clim\u00e1ticas descontroladas, concluiu o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A \u00e1gua circula continuamente pelos oceanos do mundo, transportando calor, carbono e muito mais ao redor do planeta. No Oceano Atl\u00e2ntico, parte dessa gigantesca e poderosa correia transportadora oce\u00e2nica transfere calor para o norte, \u00e0 medida que escoa pelo lado oeste da bacia. Esse calor afeta tudo, desde o clima di\u00e1rio nos Estados Unidos e na Europa at\u00e9 o n\u00edvel do mar ao longo da costa leste dos Estados Unidos e os padr\u00f5es de precipita\u00e7\u00e3o na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Mas as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u00a0j\u00e1 est\u00e3o desacelerando essa corrente. A velocidade da \u00e1gua \u00e9, em parte, controlada por sua densidade ao passar pela Groenl\u00e2ndia, onde geralmente resfria de modo r\u00e1pido e afunda nas profundezas do oceano, como uma bola rolando colina abaixo. Mas a \u00e1gua que atinge esse ponto de imers\u00e3o est\u00e1 cada vez mais quente e, simultaneamente, o gelo derretido da Groenl\u00e2ndia despeja \u00e1gua doce sobre ela \u2014 ambos os fatores deixam a \u00e1gua menos densa e, assim, menos propensa a afundar, o que desacelera toda a circula\u00e7\u00e3o. A pesquisa sugere que ela desacelerou cerca de\u00a015% desde meados do s\u00e9culo 20\u00a0e agora sua circula\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais lenta do que em\u00a0qualquer momento dos \u00faltimos mil anos.<\/p>\n<p>Um colapso ainda mais extenso pode ocorrer. No passado, a circula\u00e7\u00e3o\u00a0desacelerou\u00a0e talvez at\u00e9 mesmo tenha cessado, provocando um resfriamento abrupto e uma reformula\u00e7\u00e3o geral dos padr\u00f5es clim\u00e1ticos e de precipita\u00e7\u00e3o ao redor da bacia do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>O novo relat\u00f3rio do IPCC reafirma que essa desacelera\u00e7\u00e3o com efeitos planet\u00e1rios \u00e9 muito poss\u00edvel, embora improv\u00e1vel antes de 2100. Um decl\u00ednio persistente, que provavelmente se estenderia por s\u00e9culos, poderia deslocar os principais padr\u00f5es de precipita\u00e7\u00e3o da Europa e da \u00c1frica de suas localiza\u00e7\u00f5es atuais para o sul, enfraquecer as atuais mon\u00e7\u00f5es anuais nas regi\u00f5es tropicais da \u00c1frica e da \u00c1sia, provocar uma eleva\u00e7\u00e3o de mais de 30 cent\u00edmetros no n\u00edvel do mar ao longo dos costa leste dos Estados Unidos e muito mais.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe ao certo quais s\u00e3o os limiares perigosos da corrente. \u201cTodos os elementos para um cen\u00e1rio assustador est\u00e3o presentes\u201d, afirma Paola Cessi, ocean\u00f3grafa do Instituto Scripps de Oceanografia, na Calif\u00f3rnia. \u201cE se persistirmos nesse rumo, certamente ser\u00e1 inevit\u00e1vel.\u201d Mas\u00a0a\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas en\u00e9rgicas ainda podem reverter o decl\u00ednio, prevenindo ou at\u00e9 mesmo evitando os piores impactos.<\/p>\n<h3>O permafrost pode se desintegrar<\/h3>\n<p>O \u00c1rtico possui mais de\u00a023 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados\u00a0de permafrost, solos que permanecem congelados o ano todo. Esses solos cont\u00eam grandes quantidades de mat\u00e9ria org\u00e2nica morta \u2014 segura e inerte enquanto est\u00e1 congelada. Mas quando o permafrost descongela, a mat\u00e9ria morta se transforma em gases de efeito estufa:\u00a0o superpotente g\u00e1s metano de efeito estufa, al\u00e9m do di\u00f3xido de carbono.\u00a0H\u00e1 mais carbono preso nesses solos do que existe atualmente na atmosfera.<\/p>\n<p>Mas o \u00c1rtico est\u00e1 aquecendo mais r\u00e1pido do que o restante do planeta, desestabilizando o permafrost e lentamente liberando seu carbono na atmosfera,\u00a0o que, por sua vez, contribui para mais aquecimento e mais derretimento. Um relat\u00f3rio preliminar especial do IPCC publicado em 2019 sugeriu que o efeito de retroalimenta\u00e7\u00e3o poderia intensificar com um aquecimento aproximado de tr\u00eas graus Celsius, mas o processo continuar\u00e1, ainda que haja um aumento ainda maior nas temperaturas, afirma Koven.<\/p>\n<p>\u201cAcreditamos que esses processos funcionem como uma esp\u00e9cie de retroalimenta\u00e7\u00e3o positiva, desestabilizando o sistema clim\u00e1tico e dificultando ainda mais o cumprimento de nossas metas clim\u00e1ticas\u201d, prossegue ele. Mas redu\u00e7\u00f5es acentuadas nas emiss\u00f5es podem\u00a0desacelerar ou at\u00e9 reverter\u00a0as emiss\u00f5es de carbono pelo ecossistema do permafrost,\u00a0evitando o pior cen\u00e1rio\u00a0dos efeitos de retroalimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>A floresta amaz\u00f4nica pode se transformar em cerrado<\/h3>\n<p>Nos dias atuais, a floresta amaz\u00f4nica faz algo not\u00e1vel: produz sua pr\u00f3pria \u00e1gua.<\/p>\n<p>A chuva que atinge a parte oriental da floresta \u00e9 proveniente do Oceano Atl\u00e2ntico. As \u00e1rvores absorvem a \u00e1gua e a expelem de volta na forma de vapor que se condensa em novas nuvens, as quais s\u00e3o deslocadas, por sua vez, pela brisa na dire\u00e7\u00e3o oeste, chovendo pelo caminho e continuando o ciclo. Uma \u00fanica mol\u00e9cula de \u00e1gua pode ser reciclada cinco vezes ao longo da extens\u00e3o da floresta equatorial.<\/p>\n<p>Mas o desmatamento, a degrada\u00e7\u00e3o florestal e as pr\u00f3prias mudan\u00e7as clim\u00e1ticas interrompem esse processo, alerta\u00a0David Lapola, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas, no Brasil, estimulando uma transi\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o de floresta para outra mais adaptada a condi\u00e7\u00f5es \u00e1ridas e provocando uma mudan\u00e7a duradoura em todo o ecossistema.<\/p>\n<p>As esp\u00e9cies adaptadas \u00e0 estiagem conservam mais \u00e1gua, emitindo e devolvendo menos \u00e1gua \u00e0 atmosfera e, com isso, interrompendo o ciclo de chuva, o que acentua a aridez.\u00a0Esp\u00e9cies de cerrado j\u00e1 est\u00e3o presentes em trechos no sudeste da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia possui aproximadamente\u00a0entre 150 e 200 bilh\u00f5es de toneladas de carbono, cerca de 15% do or\u00e7amento de carbono restante sugerido por esse relat\u00f3rio do IPCC para ter 50% de chance de manter o aquecimento abaixo de dois graus Celsius. A perda h\u00eddrica implicaria a perda de grande parte do carbono armazenado, explica Lapola.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe exatamente qual \u00e9 o limiar cr\u00edtico. Um estudo sugere que uma perda de 40% da floresta ou um aquecimento superior a quatro graus Celsius poderia causar mudan\u00e7as permanentes e irrevers\u00edveis. Outros\u00a0acreditam que basta uma mudan\u00e7a ainda menor. O desmatamento desenfreado \u2014 estimativas sugerem que quase 20% da floresta foi desmatada \u2014 e o aquecimento implac\u00e1vel est\u00e3o tornando essa perspectiva\u00a0preocupantemente iminente.<\/p>\n<p>\u201cEssa previs\u00e3o foi feita h\u00e1 20 anos, mas, originalmente, a expectativa era que ocorreria a partir de 2050\u201d, afirma Lapola. Mas agora, ao analisar o cen\u00e1rio atual, fica evidente que \u201cfoi uma previs\u00e3o otimista em compara\u00e7\u00e3o com o que est\u00e1 sendo observado\u201d.<\/p>\n<p>E a lista n\u00e3o para por a\u00ed. \u00c9 hora de agir.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o somente algumas das mudan\u00e7as irrevers\u00edveis que podem ser esperadas se o clima planet\u00e1rio aquecer ainda mais, segundo o relat\u00f3rio. Grandes mudan\u00e7as nas mon\u00e7\u00f5es, a intensifica\u00e7\u00e3o do aquecimento, acidifica\u00e7\u00e3o e perda de oxig\u00eanio dos oceanos, mais eventos de calor extremo em n\u00edveis lim\u00edtrofes \u00e0 sobreviv\u00eancia humana: as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o deixam nenhum canto do planeta ileso.<\/p>\n<p>E como cada pequena fra\u00e7\u00e3o adicional de aquecimento produzir\u00e1 impactos ainda maiores do que a fra\u00e7\u00e3o anterior, os piores impactos podem ser evitados com a\u00e7\u00f5es en\u00e9rgicas. Por exemplo, uma onda de calor que teria ocorrido historicamente uma vez a cada 50 anos no momento atual \u00e9 cerca de cinco vezes mais prov\u00e1vel; com um aquecimento de dois graus Celsius, ser\u00e1 14 vezes mais prov\u00e1vel; mas em um mundo quatro graus Celsius mais quente, seria 40 vezes mais prov\u00e1vel, constata o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o momento categ\u00f3rico para evitar esses riscos adicionais, adverte\u00a0Tim Lenton, cientista clim\u00e1tico da Universidade de Exeter que alerta sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas irrevers\u00edveis h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso agir como se estiv\u00e9ssemos em uma emerg\u00eancia clim\u00e1tica\u201d, prossegue Lenton. \u201cAs pessoas despertaram e disseram: \u2018droga, o cientista n\u00e3o estava blefando\u2019, mas agora, passados 30 anos, esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o atual. \u00c9 preciso agir agora.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relat\u00f3rio mais abrangente j\u00e1 elaborado sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas analisa riscos clim\u00e1ticos possivelmente irrevers\u00edveis, como a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":152060,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mudanca_climatica.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Relat\u00f3rio mais abrangente j\u00e1 elaborado sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas analisa riscos clim\u00e1ticos possivelmente irrevers\u00edveis, como a","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/152059"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=152059"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/152059\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":152062,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/152059\/revisions\/152062"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/152060"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=152059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=152059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=152059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}