{"id":151862,"date":"2021-08-19T13:08:08","date_gmt":"2021-08-19T16:08:08","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=151862"},"modified":"2021-08-19T13:08:12","modified_gmt":"2021-08-19T16:08:12","slug":"como-brasileiros-comem-tubarao-sem-saber-e-ameacam-preservacao-da-especie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/como-brasileiros-comem-tubarao-sem-saber-e-ameacam-preservacao-da-especie\/","title":{"rendered":"Como brasileiros comem tubar\u00e3o sem saber e amea\u00e7am preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie"},"content":{"rendered":"<p><strong><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/como-brasileiros-comem-tubarao-sem-saber-e-ameacam-preservacao-da-especie\/tubarao-56\/\" rel=\"attachment wp-att-151863\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-151863\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao-1-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao-1-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao-1.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Voc\u00ea j\u00e1 comeu tubar\u00e3o? Provavelmente, n\u00e3o. Mas, e ca\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Se sim, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Segundo dados preliminares de uma sondagem encomendada por pesquisadores brasileiros aos quais a BBC News Brasil teve acesso, praticamente sete em cada 10 brasileiros (69%) \u201cn\u00e3o sabem que carne de ca\u00e7\u00e3o \u00e9 de tubar\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o problema \u2014 sem saber, comemos\u00a0tubar\u00e3o, um peixe com alto n\u00edvel de toxicidade e cuja popula\u00e7\u00e3o vem reduzindo em n\u00famero ao redor do mundo nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o comemos pouco \u2014 o Brasil \u00e9 o maior importador e consumidor de carne de tubar\u00e3o do mundo, apesar de a grande maioria dos brasileiros n\u00e3o ter ideia disso \u201cpor falta de rotulagem adequada\u201d, alertam as pesquisadoras Bianca Rangel e Nathalie Gil em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Essa rotulagem incorreta, aliada aos pre\u00e7os atraentes e \u00e0 falta de uma pol\u00edtica p\u00fablica adequada, fazem do Brasil uma amea\u00e7a para a\u00a0preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie \u2014 uma pesquisa estimou que a popula\u00e7\u00e3o de tubar\u00f5es e arraias no mundo caiu 71% desde 1970, ao passo que a pesca predat\u00f3ria desses animais aumentou 18 vezes.<\/p>\n<p>Neste sentido, uma maior conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sobre o que vai parar em sua mesa \u201cpode ajudar na preserva\u00e7\u00e3o dos tubar\u00f5es\u201d, diz Rangel, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>\u201cEm vez de ser embalada com rotulagem adequada, a carne de tubar\u00e3o \u00e9 vendida no Brasil normalmente como ca\u00e7\u00e3o, um nome amb\u00edguo usado para v\u00e1rias esp\u00e9cies\u201d, acrescenta Gil, da Sea Shepherd Brasil, ONG de conserva\u00e7\u00e3o da vida marinha.<\/p>\n<p>\u201cOu seja, os brasileiros n\u00e3o sabem que est\u00e3o comendo tubar\u00e3o\u201d, ressaltam as pesquisadoras.<\/p>\n<p>Prova disso est\u00e1 nas conclus\u00f5es iniciais do levantamento que abre esta reportagem. A pesquisa foi realizada pela ag\u00eancia independente de pesquisa Blend e comissionada pela Sea Sheperd Brasil com 5 mil brasileiros em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Recentemente, Rangel e Gil, em conjunto com tr\u00eas outros pesquisadores, escreveram um artigo,\u00a0publicado na prestigiada revista Science, em que alertam sobre essa situa\u00e7\u00e3o e sugerem como o Brasil pode ajudar a proteger a popula\u00e7\u00e3o de tubar\u00f5es.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/brasil_maior_consumidor_de_carne_de_tubarao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-172900\" src=\"https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/brasil_maior_consumidor_de_carne_de_tubarao.jpg\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/brasil_maior_consumidor_de_carne_de_tubarao.jpg 800w, https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/brasil_maior_consumidor_de_carne_de_tubarao-300x169.jpg 300w, https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/brasil_maior_consumidor_de_carne_de_tubarao-768x432.jpg 768w, https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/brasil_maior_consumidor_de_carne_de_tubarao-678x381.jpg 678w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/a><figcaption>Brasil \u00e9 maior importador e consumidor de carne de tubar\u00e3o \u2013 GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure>\n<h2 id=\"Importa\u00e7\u00e3o-e-consumo\">Importa\u00e7\u00e3o e consumo<\/h2>\n<p>Segundo explicam as pesquisadoras, o Brasil se tornou o principal destino de carca\u00e7as de tubar\u00e3o sem barbatanas. Por ano, nosso consumo anual \u00e9 de cerca de 45 mil toneladas.<\/p>\n<p>As barbatanas s\u00e3o uma iguaria no mercado asi\u00e1tico e podem alcan\u00e7ar valores astron\u00f4micos \u2014 seu quilo pode ultrapassar US$ 1,5 mil (cerca de R$ 8 mil).<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 pouca demanda pela carne de tubar\u00e3o.<\/p>\n<p>E, como a imensa maioria dos pa\u00edses pro\u00edbe a pesca do peixe apenas para o com\u00e9rcio exclusivo desse item \u2014 ou seja, retirando as nadadeiras e descartando a carca\u00e7a no mar (o chamado \u201cfinning\u201d) \u2014 o que sobra do animal acaba tendo desembarque certo: o Brasil.<\/p>\n<p>Curiosamente, o Brasil foi o primeiro pa\u00eds a assinar tratado ratificando a proibi\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil, maior importador mundial de carne de tubar\u00e3o, compra carca\u00e7as e bifes de tubar\u00e3o sem barbatanas de pa\u00edses que atuam no com\u00e9rcio de barbatanas, como China e Espanha, e do Uruguai, que exporta carne processada de tubar\u00e3o\u201d, diz o artigo.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, embora tubar\u00f5es protegidos n\u00e3o possam ser legalmente comercializados por pescadores ou empres\u00e1rios locais, eles podem ser importados sem quaisquer restri\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, \u00e9 obrigat\u00f3rio fornecer informa\u00e7\u00f5es para uma rotulagem adequada apenas se o peixe congelado importado pertencer \u00e0 fam\u00edlia\u00a0<em>Salmonidae\u00a0<\/em>(que inclui o salm\u00e3o e a truta) ou \u00e0 fam\u00edlia\u00a0<em>Gadidae\u00a0<\/em>(que inclui o bacalhau e a arinca)\u201d.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, \u201capesar do crescente debate sobre a rotulagem incorreta de tubar\u00f5es entre organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais e comunidades acad\u00eamicas, nenhuma medida governamental foi implementada\u201d.<\/p>\n<p>\u201cComo resultado, os consumidores no Brasil continuam sem saber que est\u00e3o comprando carne de tubar\u00e3o e contribuindo para o decl\u00ednio de esp\u00e9cies vulner\u00e1veis de tubar\u00e3o\u201d, afirmam.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao_no_topo_da_cadeia_alimentar.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-172901\" src=\"https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao_no_topo_da_cadeia_alimentar.jpg\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao_no_topo_da_cadeia_alimentar.jpg 800w, https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao_no_topo_da_cadeia_alimentar-300x169.jpg 300w, https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao_no_topo_da_cadeia_alimentar-768x432.jpg 768w, https:\/\/cdn.noticias.ambientebrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/tubarao_no_topo_da_cadeia_alimentar-678x381.jpg 678w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/a><figcaption>Grande predador, tubar\u00e3o est\u00e1 no topo de cadeia alimentar e, por isso, n\u00edvel de toxicidade de sua carne \u00e9 maior \u2013 GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure>\n<h2 id=\"Riscos-para-sa\u00fade\">Riscos para sa\u00fade<\/h2>\n<p>Rangel e Gil alertam ainda para o risco \u00e0 sa\u00fade relacionado ao\u00a0consumo da carne\u00a0de tubar\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cComo se trata de um grande predador, um animal topo de cadeia alimentar, o n\u00edvel de toxicidade de sua carne \u00e9 maior. Ou seja, existe um risco \u00e0 sa\u00fade para quem come tubar\u00e3o. E o pior: sem saber disso\u201d, diz Gil.<\/p>\n<p>Por um processo de bioacumula\u00e7\u00e3o, o tubar\u00e3o agrega metais pesados, como merc\u00fario e ars\u00eanio, presentes nos organismos que lhe serviram de alimento. Ingeridas al\u00e9m da conta, essas subst\u00e2ncias podem causar danos cerebrais.<\/p>\n<p>Um par\u00e2metro de consumo de merc\u00fario vem da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS). Ela preconiza o limite di\u00e1rio de 0,5 miligrama desse metal por quilo.<\/p>\n<p>Estudo publicado em 2008, por\u00e9m, revela que, em amostras de\u00a0<em>Prionace glauca<\/em>, ou tubar\u00e3o-azul, a esp\u00e9cie de tubar\u00e3o mais pescada no mundo, o \u00edndice presente excedeu em mais de duas vezes o limite di\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o por menos, a Food and Drug Administration (FDA), ag\u00eancia federal americana que regula alimentos e medicamentos, n\u00e3o recomenda a inclus\u00e3o de tubar\u00e3o no card\u00e1pio de gr\u00e1vidas, de mulheres que estejam amamentando e de crian\u00e7as, seja em que quantidade for.<\/p>\n<h2 id=\"A\u00e7\u00e3o-urgente\">A\u00e7\u00e3o urgente<\/h2>\n<p>No artigo, os pesquisadores defendem uma \u201ca\u00e7\u00e3o urgente em todo o mundo, especialmente no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>\u201cComo primeiro passo, o governo brasileiro deve divulgar amplamente o fato de que o ca\u00e7\u00e3o pode se referir \u00e0 carne de tubar\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO pa\u00eds deve exigir que todos os produtos nacionais e importados sejam rotulados com seus nomes cient\u00edficos em toda a cadeia de abastecimento, garantindo o monitoramento preciso das esp\u00e9cies no sistema e permitindo que os consumidores decidam se comem uma esp\u00e9cie em risco de extin\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cComo resultado de tais mudan\u00e7as, a demanda provavelmente diminuiria, limitando o mercado de tubar\u00f5es com barbatanas removidas ilegalmente. O Brasil tamb\u00e9m poderia proteger tubar\u00f5es em todo o mundo proibindo a importa\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPor causa do papel descomunal do Brasil no com\u00e9rcio global de tubar\u00f5es, essas mudan\u00e7as podem melhorar muito os esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o\u201d, concluem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 comeu tubar\u00e3o? Provavelmente, n\u00e3o. Mas, e ca\u00e7\u00e3o? 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