{"id":150275,"date":"2021-07-25T11:07:50","date_gmt":"2021-07-25T14:07:50","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=150275"},"modified":"2021-07-25T11:07:50","modified_gmt":"2021-07-25T14:07:50","slug":"entrevista-especial-com-andre-araujo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-andre-araujo\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Andr\u00e9 Araujo"},"content":{"rendered":"<h1>Deleuze e a ideia de uma comunica\u00e7\u00e3o al\u00e9m da linguagem. Chave para compreender o Antropoceno.<\/h1>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vespa.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-150276\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vespa.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vespa.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/vespa-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Reproduzimos, na forma de entrevista, parte da confer\u00eancia do pesquisador no IHU em que responde a perguntas dos espectadores pontualmente sobre quest\u00f5es contempor\u00e2neas como o negacionismo e o Antropoceno<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/3262-roberto-machado-2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gilles Deleuze<\/a>\u00a0(1925-1995) concebe uma\u00a0<strong>ideia de comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0que extrapola o enlace com a linguagem, uma caracter\u00edstica essencialmente humana. Com isso, coloca as pessoas e todo universo num mesmo patamar comunicacional que escancara a interdepend\u00eancia entre todos os seres do planeta. \u00c9 nesse sentido que vai a fala do pesquisador\u00a0<strong>Andr\u00e9 Araujo<\/strong>, doutor em Comunica\u00e7\u00e3o, na confer\u00eancia\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/evento\/ihu-ideias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O problema da Comunica\u00e7\u00e3o em Deleuze<\/a>, realizada h\u00e1 algumas semanas numa promo\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU<\/strong>. \u201cComo diria\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>, n\u00e3o estamos o tempo inteiro produzindo um consenso quando conversamos e nos entendemos; na verdade constitu\u00edmos outras ordens de simpatia e talvez estejamos em dissensos eternos\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Ao fim de sua explana\u00e7\u00e3o,\u00a0<strong>Araujo<\/strong>\u00a0ficou cerca de uma hora respondendo a quest\u00f5es propostas pelos espectadores. Reproduzimos a seguir esse debate [a \u00edntegra da confer\u00eancia pode ser acessada, em v\u00eddeo, abaixo], centrado em quest\u00f5es da atualidade, como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/582885-o-antropoceno-e-um-alerta-sobre-as-acoes-humanas-no-planeta-entrevista-especial-com-etienne-turpin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antropoceno<\/a>, entre outras. Para ele, \u00e9 preciso ter a consci\u00eancia de que h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es comunicacionais entre todos os seres do planeta. \u201cA\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 algo que faz parte de uma constitui\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do modo como o mundo opera, \u00e9 o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es. Assim, podemos observar\u00a0<strong>fen\u00f4menos comunicacionais<\/strong>\u00a0entre uma vespa e uma orqu\u00eddea, entre mim e voc\u00eas, entre mim e meu computador, entre uma bicicleta e outras bicicletas ou mesmo entre uma bicicleta e uma tela, tornando essa bicicleta uma obra de arte\u201d, detalha.<\/p>\n<p>O problema, conforme aponta, \u00e9 que num dado momento concebemos uma\u00a0<strong>ideia moderna de comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0que compreende apenas a articula\u00e7\u00e3o por meio da linguagem entre humanos, esquecendo da\u00a0<strong>interdepend\u00eancia<\/strong>. \u201cMantemos muitas rela\u00e7\u00f5es com a natureza o dia inteiro. Nos alimentamos, respiramos, fazemos um conjunto de coisas, mas s\u00f3 que terceirizamos parte dessas rela\u00e7\u00f5es a ponto de acharmos que somos independentes disso. \u00c9 como pensar que, na cidade, n\u00e3o temos rela\u00e7\u00f5es com os campos de cria\u00e7\u00e3o de gado ou com a ind\u00fastria de carne de porcos\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Sua hip\u00f3tese \u00e9 a de que ter\u00edamos nos cegado para compreender a conex\u00e3o entre todos e uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/609212-a-ilusao-do-eu-das-redes-de-comunicacao-digital-produz-um-tipo-de-democracia-aparente-mas-sem-uma-visada-democratica-entrevista-especial-com-rosane-borges\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ideia de comunica\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0para al\u00e9m da linguagem. \u201cE a quest\u00e3o \u00e9 esta: esquecemos em determinado momento que havia essas rela\u00e7\u00f5es ou essas rela\u00e7\u00f5es foram invisibilizadas de prop\u00f3sito? \u00c9 importante tamb\u00e9m notarmos que essa realiza\u00e7\u00e3o coletiva de que o mundo inteiro est\u00e1 conectado, que meu carro tem necessariamente rela\u00e7\u00e3o com o\u00a0<strong>furac\u00e3o no norte da \u00cdndia<\/strong>\u00a0ou que o\u00a0<strong>uso de dados<\/strong>\u00a0no meu celular tem a ver com a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/584432\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">constru\u00e7\u00e3o da usina de Belo Monte<\/a>\u00a0no Par\u00e1, ou seja, que essas coisas est\u00e3o conectadas e que a a\u00e7\u00e3o humana produz, invariavelmente, rea\u00e7\u00f5es violent\u00edssimas no planeta, essa tomada de\u00a0<strong>consci\u00eancia coletiva<\/strong>\u00a0precisa ser mapeada\u201d, provoca.<\/p>\n<p>Assim, rompendo com essa barreira e concebendo a ampla\u00a0<strong>ideia de comunica\u00e7\u00e3o como prop\u00f5e Deleuze<\/strong>, h\u00e1 a possibilidade de se compreender e assimilar o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/552037\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antropoceno<\/a>, revisando todas as nossas pr\u00e1ticas e rela\u00e7\u00f5es que nos trouxeram at\u00e9 aqui. \u201cPorque se n\u00f3s somos, na comunica\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de ci\u00eancia ou pensamento sobre a constitui\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es, n\u00f3s \u00e9 que vamos observar a passagem desses processos\u201d.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p>Andr\u00e9 Corr\u00eaa da Silva de Araujo (Foto: Frame do v\u00eddeo do Youtube)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Andr\u00e9 Corr\u00eaa da Silva de Araujo<\/strong>\u00a0\u00e9 doutor em Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul \u2013 UFRGS e mestre pela mesma institui\u00e7\u00e3o, onde tamb\u00e9m graduou-se em Comunica\u00e7\u00e3o Social \u2013 Bacharelado em Jornalismo. Integra o Grupo de Pesquisa Semi\u00f3tica e Culturas da Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 GPESC. \u00c9 associado da Associa\u00e7\u00e3o Pr\u00e1ticas e Pesquisas em Humanidades \u2013 APPH, onde desenvolve pr\u00e1ticas de pesquisa, ensino e extens\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 membro fundador do Grupo de Pesquisa em Ecologia das Pr\u00e1ticas \u2013 GPEP.<\/p>\n<h3>Confira a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>IHU \u2013 Segundo o pr\u00f3prio Deleuze, a filosofia n\u00e3o possui compromisso com o consenso. Voc\u00ea concorda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Araujo \u2013<\/strong>\u00a0Sim, isso \u00e9 bem importante. Refletia sobre essa\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/5573-ivana-bentes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ideia da comunica\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0como consenso, mas preciso tamb\u00e9m fazer essa observa\u00e7\u00e3o de que o consenso para\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0\u00e9 a coisa que mais produz ojeriza. Ele \u00e9 um pensador que tem um paradoxo muito importante que \u00e9 essa predile\u00e7\u00e3o por uma dimens\u00e3o do conflito como alguma forma de apaziguar qualquer problema. O consenso sempre soa para\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0como forma de imposi\u00e7\u00e3o de uma perspectiva dominante, por isso ele nunca vai buscar em seu pensamento uma forma de ser normativo ou como um mapeamento do modo como uma sociedade se articula e pensa.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, sempre vai buscar experi\u00eancias mais marginais, que est\u00e3o \u00e0 borda, do modo como vivemos coletivamente e que colocam em xeque os modos de vida mais estabelecidos, porque, para\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>, os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/572943-nao-existe-outro-mundo-para-se-construir-existem-outras-relacoes-e-modos-de-vida-a-se-construir-nesse-mesmo-mundo-entrevista-especial-com-alana-moraes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">modos de vida<\/a>\u00a0que temos s\u00e3o apenas um h\u00e1bito. N\u00e3o h\u00e1, para ele, raz\u00e3o metaf\u00edsica alguma para vivermos como vivemos. H\u00e1 raz\u00f5es pol\u00edticas para viver como vivemos, mas n\u00e3o h\u00e1 nada pr\u00f3prio no tecido do mundo que impe\u00e7a que a gente constitua um modo de viver absolutamente distinto do modo como a gente vive agora.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Para Deleuze, os modos de vida que temos s\u00e3o apenas um h\u00e1bito. N\u00e3o h\u00e1, para ele, raz\u00e3o metaf\u00edsica alguma para vivermos como vivemos \u2013 Andr\u00e9 Araujo<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Para%20Deleuze,%20os%20modos%20de%20vida%20que%20temos%20s%C3%A3o%20apenas%20um%20h%C3%A1bito.%20N%C3%A3o%20h%C3%A1,%20para%20ele,%20raz%C3%A3o%20metaf%C3%ADsica%20alguma%20para%20vivermos%20como%20vivemos%20%E2%80%93%20Andr%C3%A9%20Araujo%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Assim, \u00e9 um pensador marcado pelo instinto de produzir um dissenso naquilo que parece natural, estabelecido. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, ele \u00e9 um pensador muito atra\u00eddo por esses movimentos de simpatia. Numa ideia de simbiose, essas rela\u00e7\u00f5es precisam ser negociadas em cada detalhe. Por exemplo, n\u00e3o \u00e9 porque decidi que vou constituir uma rela\u00e7\u00e3o com algu\u00e9m que essa rela\u00e7\u00e3o vai se dar. \u00c9 preciso fazer um trabalho de simpatia, de sedu\u00e7\u00e3o para conseguir fazer com que elementos heterog\u00eaneos venham a se conectar. Parece paradoxal porque ele tem essa atitude conflituosa por tr\u00e1s, mas tamb\u00e9m \u00e9 um pensador muito preocupado com esses minimovimentos de constitui\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-C2BlFFUu9M\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Mais do que um bloco concreto<\/h3>\n<p>Para ele, \u00e9 nesse plano das\u00a0<strong>microrrela\u00e7\u00f5es<\/strong>\u00a0que o mundo se constitui. \u00c9 claro que o\u00a0<strong>poder<\/strong>, a\u00a0<strong>pol\u00edtica<\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong>marginaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0se apresentam para n\u00f3s como algo gigantesco, como um bloco que bate em nossas cabe\u00e7as. Mas\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0vai dizer que se olharmos com aten\u00e7\u00e3o para esse poder que parece um bloco que nos obriga a fazer coisas, perceberemos que ele \u00e9 tecido por diversas microrrela\u00e7\u00f5es que nem percebemos que est\u00e3o ali. Por isso acho que o\u00a0<strong>pensamento da comunica\u00e7\u00e3o em Deleuze<\/strong>\u00a0\u00e9 importante, pois mesmo na ordem do poder h\u00e1 essas minirrela\u00e7\u00f5es de simpatia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pensar essa\u00a0<strong>micropol\u00edtica<\/strong>\u00a0\u2013 que \u00e9 uma palavra importante para\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0\u2013 diz respeito a olhar para esses processos que parecem que s\u00e3o menores ou secund\u00e1rios, mas na verdade s\u00e3o eles os verdadeiros constitutivos. S\u00e3o\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00f5es<\/strong>\u00a0estabelecidas sobre coisas que parecem bastante diferentes que s\u00e3o apresentadas como se fosse um bloco. E, assim, tentamos politicamente brigar com isso como se realmente fosse um bloco \u2013 como o\u00a0<strong>fascismo<\/strong>\u00a0e assim por diante \u2013, sendo que \u00e9 realmente urdida de maneira simp\u00e1tica por diversas\u00a0<strong>microrrela\u00e7\u00f5es<\/strong>.<\/p>\n<p>Talvez, o desafio fosse justamente este: produzir um dissenso de bloco em bloco vai nos levar a um determinado lugar, mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m entender essas micromaquina\u00e7\u00f5es, que chamo de\u00a0<strong>comunicantes<\/strong>, as quais constituem essas grandes unidades que nos fazem viver de uma determinada maneira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Como diria Deleuze, n\u00e3o estamos o tempo inteiro produzindo um consenso quando conversamos e nos entendemos; na verdade constitu\u00edmos outras ordens de simpatia e talvez estejamos em dissensos eternos \u2013 Andr\u00e9 Araujo<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Como%20diria%20Deleuze,%20n%C3%A3o%20estamos%20o%20tempo%20inteiro%20produzindo%20um%20consenso%20quando%20conversamos%20e%20nos%20entendemos;%20na%20verdade%20constitu%C3%ADmos%20outras%20ordens%20de%20simpatia%20e%20talvez%20estejamos%20em%20dissensos%20eternos%20%E2%80%93%20Andr%C3%A9%20Araujo%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU \u2013 O argumento seria, ent\u00e3o, da cria\u00e7\u00e3o de uma comunica\u00e7\u00e3o efetiva?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Araujo \u2013<\/strong>\u00a0H\u00e1 um problema nessa ideia de\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o efetiva<\/strong>, \u00e9 algo com o que sempre me debato. \u00c9 como se essa\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o criticada por Deleuze<\/strong>\u00a0n\u00e3o fosse \u2018<strong>comunica\u00e7\u00e3o de fato<\/strong>\u2019. Penso que essa tend\u00eancia \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes, est\u00e1 no pr\u00f3prio pensamento de\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>, que opera por dicotomiza\u00e7\u00f5es, com maior, menor; molecular, molar; rizoma, \u00e1rvore, onde haveria um dos termos que seria o correto, o bom, o certo, e o outro lado seria o errado. No caso de duas comunica\u00e7\u00f5es, onde haveria uma comunica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 de fato efetiva, n\u00e3o opera ou existe, e uma outra que seria verdadeira, n\u00e3o podemos dicotomizar e dizer que essa an\u00e1lise, por exemplo, da troca de mensagens, di\u00e1logo irracional n\u00e3o existe no mundo. Isso existe, produz efeitos, \u00e9 algo que medeia nossa vida todo santo dia. \u00c9 uma dimens\u00e3o que merece ser estudada e n\u00e3o \u00e9 uma ideia de oposi\u00e7\u00e3o a uma\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica<\/strong>\u00a0como a ideia da vespa e da orqu\u00eddea [alus\u00e3o que\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0usa em sua obra\u00a0<a href=\"http:\/\/conexoesclinicas.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/deleuze-gilles-parnet-claire-dialogos.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Deleuze, G. e Parnet, C.<\/a>\u00a0(1977\/2002), Dialogues. Londres: Athlone Press], sendo essa a\u00a0<strong>verdadeira comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>O que\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0quer dizer \u00e9 que, dentro dessa\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o maior<\/strong>, dessa transmiss\u00e3o de mensagens e dos entendimentos m\u00fatuos, h\u00e1 processos que s\u00e3o tamb\u00e9m comunicacionais, mas n\u00e3o s\u00e3o contemplados por essa no\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o,\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0quer abrir um outro campo para discutir um conjunto de fen\u00f4menos, que tamb\u00e9m vai chamar de\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00f5es<\/strong>, para observar como coisas que nem notamos que s\u00e3o comunica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o tamb\u00e9m. \u00c9 nesse sentido que a\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o aberrante<\/strong>\u00a0ocorreria. E tem essa dimens\u00e3o inventiva e criativa que tamb\u00e9m opera em qualquer forma comunicacional, ainda que n\u00e3o propriamente como imaginamos. Como diria\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>, n\u00e3o estamos o tempo inteiro produzindo um consenso quando conversamos e nos entendemos; na verdade constitu\u00edmos outras ordens de simpatia e talvez estejamos em dissensos eternos.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 At\u00e9 que ponto a sociedade teria reduzido a comunica\u00e7\u00e3o como aquela restrita aos humanos e como isso tamb\u00e9m impactou ou produziu uma certa surdez sobre o que nos levou ao Antropoceno? Qual pode ser a contribui\u00e7\u00e3o de um outro conceito de comunica\u00e7\u00e3o para enfrentarmos os desafios contempor\u00e2neos, especialmente os relacionados \u00e0 cat\u00e1strofe clim\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Araujo \u2013<\/strong>\u00a0A ideia fundamental que est\u00e1 colocada de forma mais performativa \u00e9 o fato de que\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0escolhe um\u00a0<strong>modelo para comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0na sua obra\u00a0<strong>Uma vespa e uma Orqu\u00eddea<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 um di\u00e1logo, um parlamento, nem pessoas conversando. J\u00e1 o primeiro movimento de deslocamento para a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7720-reinscrever-no-mundo-uma-estetica-e-uma-etica-comunicacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ideia de comunica\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0\u00e9 no sentido de que comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, em nenhum n\u00edvel, propriedade de pessoas. Ela \u00e9 propriedade de pessoas tamb\u00e9m, mas n\u00e3o s\u00f3. A\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 algo que faz parte de uma constitui\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do modo como o mundo opera, \u00e9 o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es. Assim, podemos observar\u00a0<strong>fen\u00f4menos comunicacionais<\/strong>\u00a0entre uma vespa e uma orqu\u00eddea, entre mim e voc\u00eas, entre mim e meu computador, entre uma bicicleta e outras bicicletas ou mesmo entre uma bicicleta e uma tela, tornando essa bicicleta uma obra de arte, por exemplo.<\/p>\n<p>S\u00e3o fen\u00f4menos de rela\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se estabelecendo e que\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0vai dizer que s\u00e3o propriamente comunicacionais. O que \u00e9 posto na pergunta \u00e9 muito importante pelo fato de ter sido constitu\u00eddo, especialmente a partir do s\u00e9culo XVIII, na figura de [<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/ideias\/177cadernosihuideias.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">John] Locke<\/a>, por exemplo \u2013 que talvez seja um dos primeiros te\u00f3ricos modernos da ideia de comunica\u00e7\u00e3o \u2013, que constitui tamb\u00e9m uma ideia moderna do que \u00e9 \u201cser gente\u201d. Em algum momento podemos dizer \u201co animal racional\u201d, que pensa, que tem linguagem e assim podemos dizer que foi definido que \u201cos humanos comunicam\u201d, levando essa ideia de que a comunica\u00e7\u00e3o seria uma forma de eu ter acesso \u00e0 consci\u00eancia de uma outra pessoa atrav\u00e9s da linguagem.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 um problema fundamental porque, muito provavelmente, \u00e0s vezes confundimos a ordem dos fatores. Observamos fen\u00f4menos no mundo, da\u00ed observamos que tais fen\u00f4menos operam tamb\u00e9m em n\u00f3s e ent\u00e3o tomamos esses fen\u00f4menos em sua especificidade como se fosse a totalidade do fen\u00f4meno. Por exemplo, veremos que bichos mant\u00eam rela\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o e pensamos que n\u00f3s tamb\u00e9m mantemos rela\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o. Assim, supomos que a nossa\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 a certa e a dos bichos \u00e9 s\u00f3 secund\u00e1ria. Ou seja, avaliamos todo o resto depois de observarmos fen\u00f4menos em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">O fato de que, em determinado momento, entendemos que a comunica\u00e7\u00e3o era uma coisa s\u00f3, mediada pela linguagem, trouxe uma redu\u00e7\u00e3o das formas pelas quais nos relacionamos com o mundo \u2013 Andr\u00e9 Araujo<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=O%20fato%20de%20que,%20em%20determinado%20momento,%20entendemos%20que%20a%20comunica%C3%A7%C3%A3o%20era%20uma%20coisa%20s%C3%B3,%20mediada%20pela%20linguagem,%20trouxe%20uma%20redu%C3%A7%C3%A3o%20das%20formas%20pelas%20quais%20nos%20relacionamos%20com%20o%20mundo%20%E2%80%93%20Andr%C3%A9%20Araujo%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<h3>Uma comunica\u00e7\u00e3o apenas entre iguais<\/h3>\n<p>O fato de que, em determinado momento, entendemos que a\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0era uma coisa s\u00f3, mediada pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/observasinos\/images\/eventos\/Materiais\/linguagens-de-comunicao-para-cidadania.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">linguagem<\/a>\u00a0numa quest\u00e3o pr\u00f3pria de consci\u00eancia tal como\u00a0<strong>Locke<\/strong>\u00a0colocou, trouxe uma redu\u00e7\u00e3o das formas pelas quais nos relacionamos com o mundo. Parece que s\u00f3 estamos em rela\u00e7\u00e3o constitutiva, ou comunicacional, com nossos semelhantes, e as outras rela\u00e7\u00f5es que mantemos com o resto do mundo n\u00e3o s\u00e3o de fato rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o significativas quanto\u00a0<strong>rela\u00e7\u00f5es comunicacionais<\/strong>; essas n\u00e3o importam tanto, pois somos de certa forma independentes do mundo que est\u00e1 ao nosso redor.<\/p>\n<p>E constitu\u00edmos pr\u00e1ticas concretas \u2013 n\u00e3o que uma seja decorr\u00eancia da outra, n\u00e3o podemos fazer uma rela\u00e7\u00e3o causal \u2013 que ignoraram o fato de que mant\u00ednhamos uma rela\u00e7\u00e3o constitutiva com aquilo que n\u00e3o seja n\u00f3s mesmos. Ou de que precisamos manter rela\u00e7\u00f5es com animais, mesmo vivendo em uma cidade, que precisamos manter uma rela\u00e7\u00e3o com plantas mesmo num centro urbano. Mas \u00e9 evidente que mantemos essas rela\u00e7\u00f5es e \u00e9 muito curioso essa rela\u00e7\u00e3o de que o\u00a0<strong>ser humano urbano \u00e9 desconectado da natureza<\/strong>.<\/p>\n<p>Considero isso muito esquisito, pois mantemos muitas\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/590324-desvendar-as-complicadas-relacoes-entre-as-pessoas-e-a-natureza-para-um-futuro-sustentavel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">rela\u00e7\u00f5es com a natureza<\/a>\u00a0o dia inteiro. Nos alimentamos, respiramos, fazemos um conjunto de coisas, mas s\u00f3 que terceirizamos parte dessas rela\u00e7\u00f5es a ponto de acharmos que somos independentes disso. \u00c9 como pensar que, na cidade, n\u00e3o temos rela\u00e7\u00f5es com os campos de cria\u00e7\u00e3o de gado ou com a ind\u00fastria de carne de porcos, em que esses animais s\u00e3o criados aos milhares dentro de caixas sem que n\u00f3s nunca os tenhamos visto. Como vamos dizer que n\u00e3o estamos nos comunicando, ou n\u00e3o temos uma rela\u00e7\u00e3o constitutiva com animais porque eu sou urbano?<\/p>\n<h3>Reorganizando o olhar para essa comunica\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Reconstituir esses\u00a0<strong>processos de conex\u00f5es<\/strong>\u00a0\u00e9 muito importante do ponto de vista heur\u00edstico e \u00e9 um problema propriamente comunicacional. Como eu, aqui no meu apartamentinho, em Santa Cec\u00edlia, em<strong>\u00a0S\u00e3o Paulo<\/strong>, bem hipster, posso compreender como \u00e9 fundamental para a minha exist\u00eancia aqui que haja 100 mil porcos enjaulados no interior do\u00a0<strong>Mato Grosso<\/strong>, por exemplo? \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o imediata que se d\u00e1.<\/p>\n<p>E a quest\u00e3o \u00e9 esta: esquecemos em determinado momento que havia essas rela\u00e7\u00f5es ou essas rela\u00e7\u00f5es foram invisibilizadas de prop\u00f3sito? \u00c9 importante tamb\u00e9m notarmos que essa\u00a0<strong>realiza\u00e7\u00e3o coletiva<\/strong>\u00a0de que o mundo inteiro est\u00e1 conectado, que meu carro tem necessariamente rela\u00e7\u00e3o com o\u00a0<strong>furac\u00e3o no norte da \u00cdndia<\/strong>\u00a0ou que o\u00a0<strong>uso de dados<\/strong>\u00a0no meu celular tem a ver com a constru\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/567337\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">usina de Belo Monte<\/a>\u00a0no Par\u00e1, ou seja, que essas coisas est\u00e3o conectadas e que a a\u00e7\u00e3o humana produz, invariavelmente, rea\u00e7\u00f5es violent\u00edssimas no planeta, essa tomada de consci\u00eancia coletiva precisa ser mapeada. Isso porque grande parte dessas conex\u00f5es parece ser inalcan\u00e7\u00e1vel em algum sentido. Parece tudo muito amplo, mas h\u00e1 um estudo dessas infraestruturas comunicacionais nos quais essas coisas v\u00e3o se empilhando.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 que o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/599325-o-corpo-do-antropoceno-como-o-mundo-que-criamos-nos-esta-mudando\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antropoceno<\/a>\u00a0consiste na ideia de que agimos sobre o planeta e ele responde \u00e0s nossas a\u00e7\u00f5es, e essa \u00e9 uma ret\u00f3rica relativamente recente. O\u00a0<strong>Antropoceno<\/strong>\u00a0como tal n\u00e3o \u00e9, mas a ret\u00f3rica sobre ele sim. O fato de que estamos numa rela\u00e7\u00e3o constitutiva com nosso ambiente \u00e9 um fato ontol\u00f3gico fundamental desde sempre. Agora n\u00f3s temos elementos ou dados cient\u00edficos que provam algo que sempre foi, sempre \u00e9 e sempre ser\u00e1. Consiste na descoberta coletiva de que\u00a0<strong>nossas a\u00e7\u00f5es implicam necessariamente em comunica\u00e7\u00f5es conscientes<\/strong>, mas especialmente inconscientes com o que est\u00e1 ao nosso redor do ponto de vista da natureza, mas tamb\u00e9m do ponto de vista de redes ou estruturas sociais. Assim, \u00e9 invariavelmente relacionado o fato de haver pessoas morando na rua ou passando fome e determinados estilos de vida.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pensar uma comunica\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do humano, mas tamb\u00e9m uma comunica\u00e7\u00e3o que \u00e9 interessada no modo como n\u00f3s do terceiro mundo vamos viver nos pr\u00f3ximos 10, 15, 20 anos. Ali\u00e1s, j\u00e1 estamos vivendo \u2013 Andr\u00e9 Araujo.<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=N%C3%A3o%20%C3%A9%20s%C3%B3%20pensar%20uma%20comunica%C3%A7%C3%A3o%20para%20al%C3%A9m%20do%20humano,%20mas%20tamb%C3%A9m%20uma%20comunica%C3%A7%C3%A3o%20que%20%C3%A9%20interessada%20no%20modo%20como%20n%C3%B3s%20do%20terceiro%20mundo%20vamos%20viver%20nos%20pr%C3%B3ximos%2010,%2015,%2020%20anos.%20Ali%C3%A1s,%20j%C3%A1%20estamos%20vivendo%20%E2%80%93%20Andr%C3%A9%20Araujo.%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<h3>Maiores impactos no terceiro mundo<\/h3>\n<p>Por fim, acho muito importante, numa\u00a0<strong>no\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0que desloque nossa centralidade, deixando claro que fazemos parte de sistemas muito mais amplos que n\u00f3s, o fato de que quem sofre o efeito da imposi\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o somos n\u00f3s \u2013 e quando falo n\u00f3s, me refiro ao terceiro mundo como um todo. \u00c9 preciso entender que quem vai sofrer esses\u00a0<strong>impactos ambientais<\/strong>\u00a0primeiro somos n\u00f3s, porque aqui as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o constitu\u00eddas de maneira mais sutil, mais enjambrada. H\u00e1 esse grande sistema cujo centro \u00e9 a\u00a0<strong>Europa<\/strong>, mas que envolve todos n\u00f3s aqui embaixo. Tudo que se d\u00e1 l\u00e1 ter\u00e1 muito mais impacto por aqui.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pensar uma\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do humano<\/strong>, mas tamb\u00e9m uma comunica\u00e7\u00e3o que \u00e9 interessada no modo como n\u00f3s do terceiro mundo vamos viver nos pr\u00f3ximos 10, 15, 20 anos. Ali\u00e1s, j\u00e1 estamos vivendo aqui agora. \u00c9 muito evidente a forma como as coisas s\u00e3o organizadas no mundo quando vemos que no\u00a0<strong>Norte global<\/strong>\u00a0as pessoas est\u00e3o saindo na rua j\u00e1 sem m\u00e1scara e eu estou aqui h\u00e1 um ano e meio trancado na minha casa. Isso n\u00e3o \u00e9 gratuito, acontece de forma proposital. N\u00e3o tem algu\u00e9m l\u00e1 em cima que diz que vai ser assim; \u00e9 de prop\u00f3sito por causa de um arranjo de coisas que produz isso.<\/p>\n<p>E o modo de agir e pensar politicamente em rela\u00e7\u00e3o a elas \u00e9 mapear isso, porque na\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0o simples ato de ligar um carro pode causar um\u00a0<strong>furac\u00e3o na \u00cdndia<\/strong>. A maioria dessas rela\u00e7\u00f5es \u00e9 produzida politicamente, n\u00e3o tem nada natural que faz com que isso aconte\u00e7a e por isso \u00e9 um importante campo de estudo da comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Porque se n\u00f3s somos, na comunica\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de ci\u00eancia ou pensamento sobre a constitui\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es, n\u00f3s \u00e9 que vamos observar a passagem desses processos. O\u00a0<strong>sentido de comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>, para\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>, tem esse valor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Se n\u00f3s somos, na comunica\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de ci\u00eancia ou pensamento sobre a constitui\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es, n\u00f3s \u00e9 que vamos observar a passagem desses processos \u2013 Andr\u00e9 Araujo<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Se%20n%C3%B3s%20somos,%20na%20comunica%C3%A7%C3%A3o,%20uma%20esp%C3%A9cie%20de%20ci%C3%AAncia%20ou%20pensamento%20sobre%20a%20constitui%C3%A7%C3%A3o%20de%20rela%C3%A7%C3%B5es,%20n%C3%B3s%20%C3%A9%20que%20vamos%20observar%20a%20passagem%20desses%20processos%20%E2%80%93%20Andr%C3%A9%20Araujo%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU \u2013 H\u00e1 alguma associa\u00e7\u00e3o entre a comunica\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica e a \u2018literatura menor\u2019 de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/ihu.unisinos.br\/entrevistas\/11837-entre-o-riso-e-a-melancolia-uma-analise-sobre-proust-entrevista-especial-com-leda-tenorio-da-motta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marcel Proust<\/a>\u00a0ou\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/594437-euclides-da-cunha-kafka-morrison-conrad-e-balzac-a-literatura-para-pensar-o-brasil-entrevista-especial-com-kelvin-falcao-klein\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Franz Kafka<\/a>?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Araujo \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 100% relacionado. Inclusive,\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0lan\u00e7a a ideia de\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o aberrante<\/strong>\u00a0num congresso sobre\u00a0<strong>Proust<\/strong>, o que \u00e9 muito curioso porque est\u00e1 falando sobre vespa e orqu\u00eddea num congresso sobre literatura e isso parece uma coisa esquisita. Mas ele toma a ideia da rela\u00e7\u00e3o entre vespa e orqu\u00eddea de dois personagens do romance de\u00a0<strong>Proust<\/strong>\u00a0<em>Em busca do tempo perdido<\/em>\u00a0(Nova Fronteira, 2017), no quarto volume, que se chama\u00a0<strong>Sodoma e Gomorra<\/strong>, onde nas primeiras p\u00e1ginas do volume fala de uma rela\u00e7\u00e3o homossexual entre dois personagens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pp1neoTpxss\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E\u00a0<strong>Proust<\/strong>\u00a0traduz essa rela\u00e7\u00e3o entre os dois tal como se d\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o entre uma vespa e uma orqu\u00eddea. Ent\u00e3o,\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0vai tomar essas\u00a0<strong>rela\u00e7\u00f5es constitutivas<\/strong>\u00a0que supostamente escapa a uma regra coletivamente acordada, como at\u00e9 mesmo uma lei em determinados momentos, e olhar como s\u00e3o produtivas e merecem ser observadas. Ele vai discutir, muito amplamente, uma ideia de\u00a0<strong>lei<\/strong>,\u00a0<strong>sexualidade<\/strong>\u00a0e comunica\u00e7\u00e3o, usando-se da forma como\u00a0<strong>Proust<\/strong>\u00a0entende a rela\u00e7\u00e3o homossexual como uma forma de escape de uma lei social assim como a vespa e a orqu\u00eddea escapam a uma \u2018lei natural\u2019, que seria a lei da evolu\u00e7\u00e3o. Ou seja, n\u00e3o interessa a lei ou a regra fundamental, mas sim o fato de que sempre temos a possibilidade de romper essas regras ao agir de forma diferente, ao criar uma forma de rela\u00e7\u00e3o que as coloque em outro n\u00edvel.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Deleuze sempre fala sobre as n\u00fapcias contra a natureza ou como a natureza sempre procede contra a natureza pr\u00f3pria. Assim, o que a gente acha que \u00e9 natural, que \u00e9 do mundo, na verdade \u00e9 uma esp\u00e9cie de fotografia do natural em um determinado momento \u2013 Andr\u00e9 Araujo<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Deleuze%20sempre%20fala%20sobre%20as%20n%C3%BApcias%20contra%20a%20natureza%20ou%20como%20a%20natureza%20sempre%20procede%20contra%20a%20natureza%20pr%C3%B3pria.%20Assim,%20o%20que%20a%20gente%20acha%20que%20%C3%A9%20natural,%20que%20%C3%A9%20do%20mundo,%20na%20verdade%20%C3%A9%20uma%20esp%C3%A9cie%20de%20fotografia%20do%20natural%20em%20um%20determinado%20momento%20%E2%80%93%20Andr%C3%A9%20Araujo%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Deleuze<\/strong>\u00a0sempre fala sobre as\u00a0<strong>n\u00fapcias contra a natureza<\/strong>\u00a0ou como a natureza sempre procede contra a natureza pr\u00f3pria. Assim, o que a gente acha que \u00e9 natural, que \u00e9 do mundo, na verdade \u00e9 uma esp\u00e9cie de fotografia do natural em um determinado momento. A natureza se desenvolve sempre derrubando suas pr\u00f3prias regras \u2013 como se tivesse regras.<\/p>\n<h3>Kafka<\/h3>\n<p>E h\u00e1 um outro sentido que tem diretamente a ver com a ideia de\u00a0<strong>literatura menor<\/strong>, que est\u00e1 relacionada \u00e0 obra de\u00a0<strong>Kafka<\/strong>, quando\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0fala em\u00a0<strong>devir animal<\/strong>, ou seja, vai pensar o que seria um devir animal para ele a partir do que \u00e9 esse devir animal da\u00a0<strong>literatura kafkaniana<\/strong>. \u00c9 uma forma pela qual a linguagem de Kafka entra em uma rela\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o com um rato, por exemplo, e faz com que a pr\u00f3pria linguagem perca um pouco seu car\u00e1ter de humanidade, indo em dire\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter de animalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/blogdolabemus.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O-que-%C3%A9-um-devir-para-Gilles-Deleuze_Parte-1.pdf\" width=\"100%\" height=\"500\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/blogdolabemus.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O-que-%C3%A9-um-devir-para-Gilles-Deleuze_Parte-2.pdf\" width=\"100%\" height=\"500\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O resultado da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 o texto de\u00a0<strong>Kafka<\/strong>, porque a rela\u00e7\u00e3o constitutiva que estabelece com o rato, com um macaco, uma barata, vai abrindo e coloca que para ele virar um pouco barata precisa deixar um pouco de ser gente. E como vai deixar de ser gente? A partir da\u00a0<strong>linguagem<\/strong>. O corpo dele n\u00e3o deixa de ser corpo de gente, mas a linguagem, uma das coisas que nos define como gente, deixa de ser um pouco linguagem humana, come\u00e7a a gaguejar, a virar uma l\u00edngua estrangeira dentro da pr\u00f3pria l\u00edngua, como diz Deleuze. E isso se d\u00e1, entre as muitas formas, atrav\u00e9s de uma\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o aberrante<\/strong>, uma rela\u00e7\u00e3o evolutiva entre\u00a0<strong>Kafka<\/strong>\u00a0e o besouro que manipula, porque ele tenta escrever como se fosse esse animal, como se a linguagem deixasse apenas de manifestar a subjetividade do que chamamos de\u00a0<strong>coletivo de humano<\/strong>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wWFg3l-qvHg\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, se est\u00e1 expandindo um pouco a possibilidade de a\u00a0<strong>linguagem falar outras coisas<\/strong>\u00a0e n\u00e3o necessariamente esse conceito muito fechado de humano.\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0vai mapear diversas rela\u00e7\u00f5es entre gente e bicho em diversas formas, a partir desse\u00a0<strong>devir animal<\/strong>\u00a0da\u00a0<strong>literatura de Kafka<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Podemos tra\u00e7ar algum impacto pol\u00edtico dessas considera\u00e7\u00f5es de Deleuze sobre comunica\u00e7\u00f5es neste momento hist\u00f3rico em que o negacionismo determina grande parte do cen\u00e1rio pol\u00edtico contempor\u00e2neo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Araujo \u2013<\/strong>\u00a0Essa ideia de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/608442-negacionismo-na-pandemia-a-virulencia-da-ignorancia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">negacionismo<\/a>\u00a0est\u00e1 a\u00ed colocada. Agora, se responde ou se pode responder \u00e0 quest\u00e3o de as pessoas serem negacionistas por serem mal informadas, por exemplo, ou porque n\u00f3s perdemos a disputa entre uma comunica\u00e7\u00e3o efetivamente cient\u00edfica e de acordo com uma s\u00e9rie de preceitos e as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/575772\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pessoas est\u00e3o agora se informando no WhatsApp<\/a>. Mas acho que o\u00a0<strong>problema do negacionismo<\/strong>\u00a0n\u00e3o vai ser respondido fazendo checagem de fatos ou fazendo trending no Twitter para explicar \u00e0s pessoas que \u00e9 fisicamente imposs\u00edvel ter um chip de bluetooth inserido no corpo quando a pessoa \u00e9 vacinada. Temos, nesse caso, uma experi\u00eancia de mundo concreta que justifica o fato de acreditar ou constituir um mundo onde fa\u00e7a sentido se receber um chip atrav\u00e9s de uma vacina chinesa no bra\u00e7o.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">A quest\u00e3o do negacionismo \u00e9 esse fracionamento do que imaginamos que houvesse um mundo comum quando se est\u00e1 jogando na nossa cara que, na verdade, sempre houve diversos mundos que possuem suas pr\u00f3prias regras e que s\u00e3o, muitas vezes, impenetr\u00e1veis\u2013 Andr\u00e9 Ara\u00fajo<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=A%20quest%C3%A3o%20do%20negacionismo%20%C3%A9%20esse%20fracionamento%20do%20que%20imaginamos%20que%20houvesse%20um%20mundo%20comum%20quando%20se%20est%C3%A1%20jogando%20na%20nossa%20cara%20que,%20na%20verdade,%20sempre%20houve%20diversos%20mundos%20que%20possuem%20suas%20pr%C3%B3prias%20regras%20e%20que%20s%C3%A3o,%20muitas%20vezes,%20impenetr%C3%A1veis%E2%80%93%20Andr%C3%A9%20Ara%C3%BAjo%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>A quest\u00e3o do\u00a0<strong>negacionismo<\/strong>\u00a0\u00e9 esse fracionamento do que imaginamos que houvesse, por um per\u00edodo, um\u00a0<strong>mundo comum<\/strong>\u00a0quando se est\u00e1 jogando na nossa cara que, na verdade, sempre houve diversos mundos que possuem suas pr\u00f3prias regras e que s\u00e3o, muitas vezes, impenetr\u00e1veis. E n\u00e3o \u00e9 pela imposi\u00e7\u00e3o de uma voz exterior, superior ou autorizada e autorit\u00e1ria que vai substituir esse mundo comum para todo mundo. Inclusive, politicamente, n\u00f3s da\u00a0<strong>esquerda<\/strong>\u00a0sempre fomos contr\u00e1rios a essas vozes que falassem em nome de todo mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-7GzC6LXW9I\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje em dia, com o mundo esfacelado, a gente quer a volta dessa voz, tem um desejo de uma voz que possa trazer um estado de coisas unificado. Tudo isso porque \u00e9 complicado compartilhar o mesmo espa\u00e7o com pessoas que n\u00e3o vivem no mesmo mundo. Mas isso sempre foi feito. Essa ideia de um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/587973-o-sentimento-de-perder-o-mundo-agora-e-coletivo-entrevista-com-bruno-latour\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mundo comum<\/a>\u00a0\u00e9 muito recente e moderna.<\/p>\n<h3>Experi\u00eancia de vida entre mundos<\/h3>\n<p>Aqui mesmo no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, no per\u00edodo pr\u00e9-invas\u00e3o dos portugueses, existia uma forma de\u00a0<strong>comunica\u00e7\u00e3o entre mundos<\/strong>\u00a0bastante distintos entre si e que operavam muito bem coletivamente. N\u00e3o havia a necessidade de imposi\u00e7\u00e3o de um mundo sobre todos os mundos que estavam ali. \u00c9 claro que os povos brigavam, uns dominavam os outros, mas n\u00e3o havia esse mal-estar de n\u00e3o vivermos todos no mesmo mundo que estamos vivendo um pouco agora.<\/p>\n<p>Quando a gente n\u00e3o vivia no mesmo mundo do conjunto de pessoas que estavam no interior do continente africano, para n\u00f3s isso n\u00e3o era um problema. O problema agora \u00e9 que essa pessoa \u00e9 meu vizinho. Eu falo isso porque realmente n\u00e3o sei como resolver isso. N\u00e3o sei se o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/599535-o-negacionismo-nao-e-novidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">negacionismo<\/a>\u00a0\u00e9 assim por ele mesmo ou se n\u00e3o \u00e9 mais como a express\u00e3o de uma autonomia de um conjunto de pessoas pol\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o a uma realidade unificada. N\u00e3o sei o que\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0teria para responder, \u00e9 preciso pensar com mais calma.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Quando a gente n\u00e3o vivia no mesmo mundo do conjunto de pessoas que estavam no interior do continente africano, para n\u00f3s isso n\u00e3o era um problema. O problema agora \u00e9 que essa pessoa \u00e9 meu vizinho \u2013 Andr\u00e9 Araujo<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Quando%20a%20gente%20n%C3%A3o%20vivia%20no%20mesmo%20mundo%20do%20conjunto%20de%20pessoas%20que%20estavam%20no%20interior%20do%20continente%20africano,%20para%20n%C3%B3s%20isso%20n%C3%A3o%20era%20um%20problema.%20O%20problema%20agora%20%C3%A9%20que%20essa%20pessoa%20%C3%A9%20meu%20vizinho%20%E2%80%93%20Andr%C3%A9%20Araujo%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F611402-deleuze-e-a-ideia-de-uma-comunicacao-alem-da-linguagem-chave-para-compreender-o-antropoceno-entrevista-especial-com-andre-araujo+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU \u2013 H\u00e1 alguma rela\u00e7\u00e3o ente Deleuze e Ludwig Wittgenstein?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Araujo \u2013<\/strong>\u00a0H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de bastante inimizade entre os dois pela parte de\u00a0<strong>Deleuze.<\/strong>\u00a0Se quisermos saber os termos pelos quais ele trata\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/43853-wittgenstein-o-professor-o-filosofo-e-o-arquivo-reencontrado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Wittgenstein<\/a>, basta ver um v\u00eddeo chamado\u00a0<strong>ABCD\u00e1rio de Deleuze<\/strong>\u00a0[dispon\u00edvel abaixo, no original em franc\u00eas]. \u00c9 uma longa entrevista com\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0em que a entrevistadora faz perguntas que na verdade s\u00e3o palavras. Por exemplo: ela fala \u201cA de Animal\u201d e ele fala de animal. Ela diz: \u201cB de beb\u00ea\u201d e ele fala sobre beb\u00eas e assim segue. E o W, especificamente, \u00e9 de\u00a0<strong>Wittgenstein<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Deleuze<\/strong>\u00a0vai fazer seus coment\u00e1rios. Ele acha a filosofia de Wittgenstein muito perigosa, n\u00e3o gosta e acha muito problem\u00e1tico o modo como esse autor pensa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SlNYVnCUvVg\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assista \u00e0 \u00edntegra da confer\u00eancia<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PCWlOf4j2r4\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deleuze e a ideia de uma comunica\u00e7\u00e3o al\u00e9m da linguagem. 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