{"id":150160,"date":"2021-07-23T11:00:29","date_gmt":"2021-07-23T14:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=150160"},"modified":"2021-07-23T14:09:06","modified_gmt":"2021-07-23T17:09:06","slug":"abate-de-jumentos-para-exportacao-cresce-8-000-e-ameaca-a-especie-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/abate-de-jumentos-para-exportacao-cresce-8-000-e-ameaca-a-especie-no-brasil\/","title":{"rendered":"Abate de jumentos para exporta\u00e7\u00e3o cresce 8.000% e amea\u00e7a a esp\u00e9cie no Brasil"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"entry-subtitle font-weight-medium\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-150161\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Abate para comercializa\u00e7\u00e3o da pele no mercado externo, tanto legal quanto ilegal, subiu para quase 92 mil animais no Brasil entre 2015 e 2019<\/h2>\n<p>Imagine um Brasil sem jumentos. Exagero? Pois a extin\u00e7\u00e3o desta esp\u00e9cie, de grande import\u00e2ncia econ\u00f4mica e cultural \u2013 al\u00e9m do seu valor intr\u00ednseco \u2013 \u00e9 uma possibilidade muito real. O abate de jumentos para comercializa\u00e7\u00e3o da pele no mercado externo, tanto legal quanto ilegal, est\u00e1 amea\u00e7ando a exist\u00eancia destes animais no Pa\u00eds. O alerta \u00e9 feito por pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterin\u00e1ria e Zootecnia (FMVZ) da USP em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/bjvras\/article\/view\/174697\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo<\/a>\u00a0publicado numa edi\u00e7\u00e3o especial do\u00a0<em>Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science<\/em> sobre o bem-estar no manejo de jumentos e mulas. O trabalho mostrou que, considerando apenas os registros do Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento (Mapa), o abate\u00a0aumentou mais de 8.000% entre 2015 e 2019, quando foram mortos 91.645 animais. Entre 2010 e 2014, foram pouco mais de 1.000 abates em todo o Pa\u00eds. Os pesquisadores apontam que o ritmo atual coloca em risco a esp\u00e9cie, cujo rebanho estimado no Brasil \u00e9 de 400.000 animais, pois a taxa de reprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem a mesma velocidade.<\/p>\n<p>O abate de equ\u00eddeos, como cavalos, mulas e jumentos, \u00e9 aprovado no Brasil h\u00e1 muitos anos, e o decreto 9013\/2017 oferece o arcabou\u00e7o legal que permite o abate de jumentos e outras esp\u00e9cies. Com base em dados do Mapa, o artigo aponta que foram abatidos legalmente 135.254 jumentos entre 2002 e 2019. \u201cAt\u00e9 2010, a m\u00e9dia era de 4.825 abates anuais; ap\u00f3s cair para 46 por ano de 2011 a 2014, voltou a subir, chegando a 1.435 em 2015 e 2016\u201d, relatam dois dos autores do artigo, o professor Adroaldo Zanella e a pesquisadora Mariana Gameiro, que realizou p\u00f3s-doutorado na FMVZ. \u201cEm 2017, foram registrados 26.127 abates e, em 2018, o n\u00famero subiu para 62.622, por\u00e9m, em 2019, o abate legal caiu para 25 animais, pois a atividade foi banida do Estado da Bahia devido a uma a\u00e7\u00e3o da sociedade civil ajuizada em novembro de 2018, mas revertida em setembro do ano seguinte.\u201d<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento, Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio (MDIC) sobre a exporta\u00e7\u00e3o de peles cruas e couros, mencionadas no trabalho, incluem, al\u00e9m dos jumentos, cavalos e mulas, e mostram que entre 2002 e 2019, os principais destinos das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras eram It\u00e1lia, Portugal, Hong Kong, Espanha e China. \u201cEntre 2002 e 2010, foram exportadas, em m\u00e9dia, 7.354 toneladas de peles e couros por ano, a maior parte para atender \u00e0 demanda de pa\u00edses europeus pela carne e couro de cavalos, mas uma proibi\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia fez a m\u00e9dia diminuir para 18,3 toneladas anuais entre 2011 e 2020\u201d, apontam os autores do artigo. \u201cEm 2019, as exporta\u00e7\u00f5es foram de 98,8 toneladas, um aumento de 4.640% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, que provavelmente est\u00e1 relacionado com o aumento do abate de jumentos e da exporta\u00e7\u00e3o de peles, principalmente para China, Hong Kong e Vietn\u00e3.\u201d<\/p>\n<p>Ao pesquisarem o problema do abandono e desenvolverem um protocolo para avalia\u00e7\u00e3o de bem-estar para jumentos, em parceria com o projeto Animal Welfare Indicators, da Uni\u00e3o Europeia, os autores do trabalho tomaram conhecimento da demanda internacional pela pele dos jumentos. \u201cNa China, a eleva\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de vida da popula\u00e7\u00e3o criou demanda para produtos antes acess\u00edveis somente \u00e0 elite, como o\u00a0<em>eijao<\/em>, uma gelatina extra\u00edda da pele de jumentos, ingrediente de t\u00f4nicos e cremes faciais, usada na medicina tradicional chinesa para tratar anemia, problemas do aparelho circulat\u00f3rio e reprodutivos, principalmente em mulheres, al\u00e9m de ins\u00f4nia, sem nenhuma comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de efic\u00e1cia\u201d, apontam Zanella e Mariana. \u201cO aumento da demanda teve s\u00e9rias consequ\u00eancias para a popula\u00e7\u00e3o de jumentos na China, que diminuiu 75% entre 1994 e 2018, segundo dados de 2020 da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO).\u201d<\/p>\n<p><strong>Abate ilegal<\/strong><\/p>\n<p>Como boa parte do mercado mundial de pele de jumentos ocorre de modo ilegal, os dados sobre o abate e sua venda no mercado externo n\u00e3o s\u00e3o muito precisos. \u201cO que aconteceu foi uma a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria de captura de jumentos abandonados, roubos, compra de animais a pre\u00e7os irris\u00f3rios e transporte que atravessaram o Nordeste do Brasil sem as devidas comprova\u00e7\u00f5es de sanidade, colocando em risco a sa\u00fade animal e humana\u201d, ressaltam Zanella e Mariana.<\/p>\n<blockquote class=\"blockquote pl-4 pr-lg-5 font-italic\"><p>\u201cA Bahia concentrou a maior parte dos abatedouros que passaram por inspe\u00e7\u00e3o federal. Tudo improvisado, sem equipamentos adequados e sem treinamento para o abate. O transporte e a aglomera\u00e7\u00e3o provocaram dist\u00farbios metab\u00f3licos que causaram morte e sofrimento de milhares de animais.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Oficialmente, apenas na Bahia foram registrados 84.112 abates legais de jumentos entre 2017 e 2019, por\u00e9m os pesquisadores apontam que \u201co n\u00famero real efetivamente \u00e9 maior, em fun\u00e7\u00e3o dos abates ilegais ocorridos naquele Estado, com os animais sendo capturados em estradas ou comprados por at\u00e9 30 reais para serem levados ao abate e terem as peles exportadas\u201d. \u201cA ONG The Donkey Sanctuary calcula que, em 2021, 64 mil jumentos ser\u00e3o abatidos no Brasil e, considerando as perdas, o n\u00famero de animais mortos pode chegar a 76.800\u201d, afirmam. \u201cDe acordo com o \u00faltimo censo do IBGE, em 2017, a popula\u00e7\u00e3o brasileira de jumentos \u00e9 de 376.874 animais, n\u00famero que n\u00e3o inclui os animais abandonados, por\u00e9m, muito inferior, por exemplo, ao n\u00famero de cabe\u00e7as de gado bovino, que ultrapassam os 200 milh\u00f5es. Mantido o ritmo atual de abate, a exist\u00eancia da esp\u00e9cie est\u00e1 amea\u00e7ada, pois a taxa de reprodu\u00e7\u00e3o dos animais n\u00e3o acontece na mesma velocidade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA resili\u00eancia do jumento se confunde com a do povo nordestino, ele est\u00e1 na arte, na m\u00fasica, no folclore, e a ideia de que a comercializa\u00e7\u00e3o da pele sirva a uma ind\u00fastria sem benef\u00edcios pr\u00e1ticos contraria suas expectativas.\u201d Na imagem, jumentos que iriam para o abate \u2013 Foto: Mariana Gameiro e Adroaldo Zanella<\/p>\n<p>De acordo com os pesquisadores, a demanda pela pele para a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>eijao\u00a0<\/em>levou os chineses \u00e0 \u00c1frica e a outros pa\u00edses da \u00c1sia, onde causaram enormes problemas para pequenos produtores agr\u00edcolas e empreendedores que usavam jumentos, pelo fato de que inflacionaram o pre\u00e7o e criaram um ambiente prop\u00edcio para o roubo de animais. \u201cEspecula-se que, silenciosamente, o Brasil se transformou em um fornecedor de peles, especialmente pelo engajamento de empres\u00e1rios brasileiros que tinham a\u00e7\u00f5es de colabora\u00e7\u00e3o com chineses\u201d, apontam Zanella e Mariana. \u201cTudo ocorrendo de uma forma muito desorganizada.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o existe uma ind\u00fastria de abate de jumentos visando \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de carne ou peles, levando ao uso improvisado de sistemas adotados para outras esp\u00e9cies. \u201cPor exemplo, o banho de \u00e1gua no per\u00edodo pr\u00e9-abate \u00e9 extremamente aversivo para os jumentos, fazendo com que o animal se negue a caminhar, o que acarreta a utiliza\u00e7\u00e3o de choques el\u00e9tricos para facilitar a locomo\u00e7\u00e3o\u201d, destacam os autores do trabalho. \u201cApesar da cadeia de abate de animais com inspe\u00e7\u00e3o federal do Brasil ser uma das melhores do mundo, houve muita frustra\u00e7\u00e3o entre os fiscais ao constatarem que pessoas muito bem treinadas em abate de outras esp\u00e9cies fossem convidadas a operar em condi\u00e7\u00f5es abaixo de seu n\u00edvel de qualifica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O professor Zanella, coordenador do Centro de Estudos Comparativos em Sa\u00fade, Sustentabilidade e Bem-Estar (CECSBE) da FMVZ, desde 2016 supervisiona a\u00e7\u00f5es para melhorar o bem-estar dos jumentos na Bahia e no Cear\u00e1 e orienta pesquisas para desenvolver estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o de acidentes com jumentos. Em sua pesquisa, Mariana analisou as diferentes representa\u00e7\u00f5es sociais acerca dos jumentos nordestinos e os principais grupos de atores ligados ao com\u00e9rcio de peles, compondo um banco de dados qualitativos avan\u00e7ado para a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas sustent\u00e1veis. \u201cA resili\u00eancia do jumento se confunde com a do povo nordestino, ele est\u00e1 na arte, na m\u00fasica, no folclore, e a ideia de que a comercializa\u00e7\u00e3o da pele sirva a uma ind\u00fastria sem benef\u00edcios pr\u00e1ticos contraria suas expectativas, refor\u00e7ando a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil para proteger os animais\u201d, concluem.<\/p>\n<p><strong>Mais informa\u00e7\u00f5es: e-mails adroaldo.zanella@usp.br, com o professor Adroaldo Zanella, e marianaperozzi@gmail.com, com Mariana Gameiro<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abate para comercializa\u00e7\u00e3o da pele no mercado externo, tanto legal quanto ilegal, subiu para quase<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":150161,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/jumento.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Abate para comercializa\u00e7\u00e3o da pele no mercado externo, tanto legal quanto ilegal, subiu para quase","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150160"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=150160"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150160\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":150162,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150160\/revisions\/150162"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/150161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=150160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=150160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=150160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}