{"id":148677,"date":"2021-06-27T06:00:30","date_gmt":"2021-06-27T09:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=148677"},"modified":"2021-06-27T10:44:04","modified_gmt":"2021-06-27T13:44:04","slug":"anorexia-um-transtorno-alimentar-que-pode-levar-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/anorexia-um-transtorno-alimentar-que-pode-levar-a-morte\/","title":{"rendered":"Anorexia, um transtorno alimentar que pode levar \u00e0 morte"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/anorexia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-148678\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/anorexia-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/anorexia-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/anorexia.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Um em cada dez anor\u00e9xicos morre da doen\u00e7a. O que come\u00e7a como vontade de perder um pouco de peso, frequentemente na adolesc\u00eancia, muitas vezes se transforma em compuls\u00e3o. Mas h\u00e1 sa\u00edda.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de 20 anos Julia sofre de anorexia. Ela tem 1,60\u00a0metro de altura e pesa 42 quilos, o que para ela j\u00e1 \u00e9 muito. &#8220;Nos meus per\u00edodos piores, em cheguei a 30 quilos.&#8221; Na verdade, ela s\u00f3 queria emagrecer um pouquinho, n\u00e3o se sentia bem com o pr\u00f3prio peso, apesar de, com seus 56 quilos, estar absolutamente dentro do normal.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o foi tomada na noite de r\u00e9veillon, uma esp\u00e9cie de promessa de Ano Novo. &#8220;Logo de cara, funcionou bastante bem: entre janeiro e maio, perdi seis quilos. A maioria de quem me conhecia achou que eu estava muito bem, mas que 50 quilos bastavam. Mas a\u00ed eu j\u00e1 n\u00e3o conseguia mais parar de emagrecer&#8221;, conta a ex-paciente, hoje com 41 anos.<\/p>\n<p>Thomas Huber lida diariamente com esse tipo de problema, em seu trabalho na Klinik am Korso, uma cl\u00ednica especializada em dist\u00farbios alimentares na cidade Bad Oeynhausen, no oeste da Alemanha. &#8220;Os afetados costumam j\u00e1 ter chegado t\u00e3o fundo na fase patol\u00f3gica, que n\u00e3o t\u00eam mais a menor motiva\u00e7\u00e3o para mudar alguma coisa. E esse \u00e9, justamente, o perigo. Esses jovens resvalam cada vez mais fundo na anorexia, e abaixo de um certo peso, a doen\u00e7a pode realmente amea\u00e7ar a vida: cerca de 10% dos anor\u00e9xicos morrem da mol\u00e9stia.&#8221;<\/p>\n<p>A anorexia afeta\u00a01,1% das garotas e mulheres e 0,3% dos meninos e homens, a maioria entre 14 e 16 anos de idade. Antes, pensava-se que sua causa era a vontade das jovens de parecer uma modelo ou de imitar alguma atriz, mas hoje se conhecem diversos outros motivos, como baixa autoestima, abuso sexual e bullying. Para quem entra na espiral da doen\u00e7a, em geral \u00e9 quase imposs\u00edvel det\u00ea-la, e ela vai se agravando cada vez mais.<\/p>\n<h2>Sintomas crescentes<\/h2>\n<p>Ap\u00f3s os primeiros meses da dieta, Julia perdeu peso cada vez mais r\u00e1pido: em meados do ano, j\u00e1 pesava meros 40 quilos. Seu card\u00e1pio s\u00f3 continha vegetais crus, depois frutas, e por fim meio p\u00e3ozinho pela manh\u00e3 e outra metade \u00e0 noite. Uma vez ou outra, excepcionalmente, um potinho de comida de beb\u00ea.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca com 21 anos, sua vida s\u00f3 girava em torno do emagrecimento. Ela se alegrava por cada quilo a menos na balan\u00e7a, ficava verdadeiramente orgulhosa de si, com uma esp\u00e9cie de bem-estar. Mas a certo ponto seu corpo deu sinal, protestando contra o tratamento radical: durante um passeio, subitamente sentiu uma perna dormente.<\/p>\n<p>A m\u00e3e a levou a uma neurologista, e foi quando Julia escutou pela primeira vez o termo &#8220;anorexia&#8221;. &#8220;A\u00ed fui a um especialista em dist\u00farbios alimentares, que estabeleceu card\u00e1pios detalhados para mim. Eu achava que fosse me ajudar, mas n\u00e3o adiantou nada.&#8221; A jovem continuou perdendo peso, a tend\u00eancia descendente era irrefre\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ela est\u00e1 convencida que sua anorexia n\u00e3o remonta a experi\u00eancias dr\u00e1sticas na inf\u00e2ncia, pois cresceu bastante protegida. J\u00e1 na escola, por\u00e9m, apresentava uma autoestima muito baixa, sentindo sempre que era muito menor do que os demais. Isso ela n\u00e3o podia controlar, mas o queria ou n\u00e3o comer, sim: nesse aspecto, ela detinha sozinha o comando. E na primeira fase, n\u00e3o lhe estava claro que dano causava ao pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso corpo \u00e9 programado para sobreviver, e economiza energia onde pode. Na anorexia, por\u00e9m, em algum momento n\u00e3o se perde s\u00f3 gordura: o corpo lan\u00e7a m\u00e3o de de tudo que possa fornecer alguma energia&#8221;, explica Huber. At\u00e9 o tecido de \u00f3rg\u00e3os importantes passa a ser consumido. &#8220;Quando se trata, por exemplo, do m\u00fasculo card\u00edaco, as c\u00e1psulas adiposas em volta tamb\u00e9m podem ser danificadas. Os rins s\u00e3o outro exemplo. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se produz mais tanto sangue e anticorpos, ficando-se mais vulner\u00e1vel a infec\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>O corpo de Julia tamb\u00e9m reagiu por n\u00e3o receber mais energia: a dorm\u00eancia na perna fora apenas um sinal de advert\u00eancia. &#8220;Minha menstrua\u00e7\u00e3o parou, e eu desenvolvi o que se chama &#8216;lanugo&#8217;. \u00c9 como nos beb\u00eas, que s\u00f3 t\u00eam um pouco de penugem sobre a pele. Tive osteoporose, meus cabelos ficaram bem fininhos. E uma vez, nas f\u00e9rias com meus pais, fui nadar no mar e de repente vi tudo preto. Tive p\u00e2nico de verdade.&#8221;<\/p>\n<h2>Medo do julgamento social<\/h2>\n<p>Os sintomas foram um toque de despertar para Julia: sentindo que precisava de ajuda, pela primeira vez procurou uma cl\u00ednica psicossom\u00e1tica. Interna\u00e7\u00f5es se sucederam: a primeira durou sete semanas, depois veio tratamento ambulante. No come\u00e7o de 2004, mais tr\u00eas meses numa cl\u00ednica; em novembro, outras sete semanas; tr\u00eas meses em 2006; dois em 2008; outras hospitaliza\u00e7\u00f5es at\u00e9 2010.<\/p>\n<div class=\"col2\">\n<div class=\"standaloneWrap\">\n<div class=\"imgTeaserM video\" data-media-id=\"19185018\">\n<div class=\"mediaItem\" data-media-id=\"19185018\">\n<div class=\"teaserContentWrap information\">\n<h2>Culto \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel pode virar doen\u00e7a<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O tratamento nas cl\u00ednicas costumava incluir medi\u00e7\u00e3o de peso di\u00e1ria e alimenta\u00e7\u00e3o assistida. Julia n\u00e3o podia nem conseguia mais decidir o que comer: simplesmente recebia o prato pronto. Mas quem sofre de dist\u00farbio alimentar tem truques para ingerir menos calorias, explica: &#8220;Eles deixam talvez a manteiga de fora, ou raspam os gr\u00e3os do p\u00e3ozinho integral, que costumam conter bastante gordura; comem s\u00f3 a casca do p\u00e3o, deixam o miolo.&#8221;<\/p>\n<p>Sua vida girava exclusivamente em torno da anorexia. Todo o seu organismo funcionava em modo econ\u00f4mico, para consumir o m\u00ednimo poss\u00edvel de energia. Afastou-se dos amigos, tinha ataques de p\u00e2nico e de depress\u00e3o, o que a deixava sem iniciativa, sem vontade de fazer o que fosse, como encontrar-se com outras pessoas.<\/p>\n<p>As depress\u00f5es costumam ser acompanhadas por fobias sociais, envolvendo o medo do julgamento do grupo, explica Huber. &#8220;Concretamente, isso significa eu n\u00e3o ter coragem de me dirigir a estranhos. Se, por exemplo, sou novo num grupo, n\u00e3o tenho coragem de fazer contatos, prefiro ficar quieto no meu canto. Ou talvez tenha medo de fazer uma apresenta\u00e7\u00e3o diante de toda a classe.&#8221;<\/p>\n<p>Para Julia, foi uma \u00e9poca extremamente dif\u00edcil. Ap\u00f3s mais de 20 anos e todas as terapias, hoje ela pesa 42 quilos, tem dois filhos, ambos de peso normal. Contudo, &#8220;os dist\u00farbios alimentares devem ficar para sempre sendo uma parte de mim&#8221;, constata.<\/p>\n<h2>&#8220;Coalhada magra e pera&#8221;<\/h2>\n<p>Alguns anor\u00e9xicos, contudo, conseguem superar a doen\u00e7a e voltar a desenvolver h\u00e1bitos alimentares normais. Manuel \u00e9 uma prova disso. Embora seja raro a anorexia acometer homens, at\u00e9 oito anos atr\u00e1s o transtorno alimentar\u00a0o tinha inteiramente em seu poder.<\/p>\n<p>Hoje, o m\u00fasico de de 31 anos\u00a0procura ajudar outros: desde outubro de 2020, ele fala regularmente de seu dist\u00farbio e suas experi\u00eancias no podcast\u00a0<em><a class=\"icon external\" href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/1j7TMJMu28N2OYKiUW8q0W?si=54xTdrQISUi26BJ9cZHimA&amp;nd=1\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Magerquark &amp; Birne<\/a><\/em>\u00a0(Coalhada magra e pera). O t\u00edtulo se refere aos dois alimentos que, na fase mais severa, eram os \u00fanicos que ele consumia.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando quando Manuel tinha 19 anos, o dist\u00farbio durou tr\u00eas anos e meio. Tamb\u00e9m ele tinha necessidade de controle, pelo menos sobre o que comia ou n\u00e3o. &#8220;Eu tinha a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o saber muito bem onde estava na vida. Estava tamb\u00e9m com uma mania de poupan\u00e7a, e gastar pouco dinheiro tamb\u00e9m significa fazer poucas compras.&#8221; Outra consequ\u00eancia foi passar a comer cada vez menos, o que se transformou numa verdadeira compuls\u00e3o para ele.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, resvalou cada vez mais fundo na anorexia. Ela definia sua exist\u00eancia, ele passou a contar calorias, acabando por pesar apenas 57 quilos, com seu 1,80 metro de altura. &#8220;Eu sabia que a coisa n\u00e3o era normal, mas n\u00e3o me importava. Agora, tantos anos mais tarde, \u00e9 como se eu falasse de outra pessoa, ou estivesse assistindo a um filme.&#8221;<\/p>\n<div class=\"picBox full\n\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/anorexia-um-transtorno-alimentar-que-pode-levar-%C3%A0-morte\/a-58037558#\" rel=\"nofollow\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Homem de barba ri, encostado em parede, ao lado de quadro antigo\" src=\"https:\/\/static.dw.com\/image\/57951093_401.jpg\" alt=\"Homem de barba ri, encostado em parede, ao lado de quadro antigo\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/a>Depois de passar pelos tormentos da anorexia, m\u00fasico Manuel procura ajudar outros<\/p>\n<\/div>\n<h2>O poder da amizade<\/h2>\n<p>Uma experi\u00eancia-chave fez mudar sua vida: ele \u00e9 um m\u00fasico entusiasta, comp\u00f5e suas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es e toca guitarra numa banda, da qual tamb\u00e9m participa seu amigo. E, no fim das contas, foi este quem deu o impulso inicial para a sa\u00edda da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Foi uma briga de verdade. &#8216;Isso n\u00e3o pode continuar assim&#8217;, o meu amigo disse, na \u00e9poca. Ele n\u00e3o conseguia mais suportar a coisa, ficar assistindo. A\u00ed me ficou claro: se eu n\u00e3o mudar nada agora e procurar ajuda, vou perder tudo o que \u00e9 significativo para mim, meu melhor camarada, a banda, a m\u00fasica.&#8221;<\/p>\n<p>Manuel procurou uma central de aconselhamento e iniciou uma terapia centrada em dist\u00farbios alimentares e alimenta\u00e7\u00e3o em geral. &#8220;Achei uma terapeuta relativamente r\u00e1pido. Muitas vezes tamb\u00e9m tinha que fazer deveres de casa, recuperar minha rela\u00e7\u00e3o com a comida: como se avalia a comida corretamente? O que \u00e9 uma por\u00e7\u00e3o normal? O que \u00e9 muito pouco e o que \u00e9 demais?&#8221;<\/p>\n<p>Durante a terapia, Manuel tomou consci\u00eancia de quantas coisas a doen\u00e7a o privava. Ele est\u00e1 seguro de que sozinho e sem terapia n\u00e3o teria conseguido vencer, apesar de repetidamente tentar se lembrar de como era nos tempos antes de o dist\u00farbio come\u00e7ar. &#8220;Eu queria voltar a sentir prazer, queria que aqueles pensamentos constantes parassem, e que tudo parasse de girar em torno da anorexia. Estou simplesmente feliz de ter isso de novo.&#8221;<\/p>\n<h2>Ajudando os companheiros de sofrimento<\/h2>\n<p>Manuel voltou a seu peso normal relativamente r\u00e1pido, ap\u00f3s cerca de um ano. Hoje, pesa 84 quilos e est\u00e1 grato por ter escapado de sua compuls\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia de fazer um podcast, ele teve durante um encontro de anor\u00e9xicos, num posto de aconselhamento. Como ex-paciente, fora convidado a responder perguntas. &#8220;Uma das mais frequentes era: d\u00e1 realmente para superar, ou a pessoa \u00e9 anor\u00e9xica para o resto da vida?&#8221;<\/p>\n<p>Em sua plataforma, come\u00e7ou por contar sobre as pr\u00f3prias experi\u00eancias como anor\u00e9xico, para assim partilhar tanto viv\u00eancias negativas como positivas com outros, dar-lhes coragem. Acima de tudo, para afastar o medo de procurar uma central de aconselhamento.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, contudo, Manuel acabou de contar sua hist\u00f3ria, e convida cada vez mais interlocutoras e interlocutores a seu\u00a0<em>Magerquark &amp; Birne<\/em>. &#8220;Chegou a se formar um pequeno grupo cujos participantes se comunicam no Facebook. O mais dif\u00edcil \u00e9 que \u00e9 preciso admitir a pr\u00f3pria anorexia, e que se est\u00e1 procurando ajuda e disposto a aceit\u00e1-la. \u00c9 poss\u00edvel vencer, sim, mas n\u00e3o tenho nenhuma receita secreta para isso.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um em cada dez anor\u00e9xicos morre da doen\u00e7a. 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