{"id":147872,"date":"2021-06-13T12:44:39","date_gmt":"2021-06-13T15:44:39","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=147872"},"modified":"2021-06-13T12:44:39","modified_gmt":"2021-06-13T15:44:39","slug":"nobres-cascas-talos-e-ramos-que-tanto-fazem-contra-o-desperdicio-alimentar-na-cozinha-de-sofia-magalhaes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/nobres-cascas-talos-e-ramos-que-tanto-fazem-contra-o-desperdicio-alimentar-na-cozinha-de-sofia-magalhaes\/","title":{"rendered":"Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p>Ao desmerecermos uma ma\u00e7\u00e3 madura n\u00e3o estamos apenas a descartar um alimento reaproveit\u00e1vel. H\u00e1 toda uma linha de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o que se perde. Ao ato chama-se desperd\u00edcio alimentar, um flagelo neste nosso mundo. Atenta ao facto, Sofia Magalh\u00e3es d\u00e1-nos o livro \u201cDa raiz \u00e0 rama. Nada se perde, tudo se cozinha\u201d. Em conversa com a autora, redescobrimos a simplicidade do reutilizar. T\u00e3o simples quanto \u00e9 olhar para uma casca, talo, rama ou caro\u00e7o como um recurso, n\u00e3o como lixo.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/thumbs.web.sapo.io\/?W=2100&amp;H=0&amp;delay_optim=1&amp;epic=ZDljgxeYtaxSqx5otf9AUQzBliXshuX2nBYwYtcB7AQi0aZl3RI6rl4VtyfKp7wCEojj\/vTYe2jNNwgZT1\/japFP3lVBmnZ590nKvpdMGVocNqg=\" alt=\"Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es\" width=\"640\" height=\"461\" \/>Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es<br \/>\nIN Edi\u00e7\u00f5es\/Cristina Vaz e Ant\u00f3nio Tom\u00e1s<\/p>\n<p>Um ch\u00e1 gelado que aproveita as cascas e os caro\u00e7os de fruta, um Gaspacho de \u201csalada velha\u201d, que faz uso das sobras de salada j\u00e1 temperada, ou um Gratinado de rama de alho-franc\u00eas e batata-doce, para utilizar a rama deste \u00faltimo vegetal, s\u00e3o receitas que \u201cvisitam\u201d com frequ\u00eancia a cozinha de Sofia Magalh\u00e3es. Para dar prova da forma engenhosa de aproveitar as partes \u201cmenos nobres\u201d de alimentos, tantas vezes desmerecidas nas nossas cozinhas, a autora do Blog da Spice, fez-se \u00e0 escrita do seu primeiro livro, \u201cDa raiz \u00e0 rama. Nada se perde, tudo se cozinha\u201d (IN Edi\u00e7\u00f5es). Com este, apresenta-nos receitas e conselhos para fazer da nossa mesa di\u00e1ria um ato de carinho para com o planeta. O tema subjacente \u00e0s mais de 220 p\u00e1ginas da obra \u00e9 o desperd\u00edcio alimentar.<\/p>\n<p>Um alerta de Sofia que se faz com n\u00fameros, como lemos no presente t\u00edtulo: \u201cum ter\u00e7o dos alimentos produzidos em todo o mundo (1,3 bili\u00f5es de toneladas) \u00e9 desperdi\u00e7ado\u201d<\/p>\n<p>Sofia acredita numa alimenta\u00e7\u00e3o feita \u00e0 medida de cada um, n\u00e3o um tamanho \u00fanico. Na sua dieta di\u00e1ria, a autora n\u00e3o dispensa os cereais integrais, vegetais, leguminosas, frutas e oleaginosas. Uma cozinha que, na vida de Sofia, \u00e9 algo de \u201cquase inato\u201d, um dom familiar que cultivou em Angola, onde viveu, mais tarde aprofundado j\u00e1 em Portugal, com o curso de culin\u00e1ria macrobi\u00f3tica.<\/p>\n<p>Sofia n\u00e3o se limita a levar \u00e0 mesa aquilo que lhe oferece a sua horta na regi\u00e3o Oeste, territ\u00f3rio para onde se mudou h\u00e1 alguns anos e onde vive. Para a autora, com um curso em Comunica\u00e7\u00e3o Social e especializa\u00e7\u00e3o em Marketing, o desperd\u00edcio alimentar \u00e9 um \u201cflagelo\u201d, n\u00e3o s\u00f3 pela perda do produto em si, mas de todos os recursos envolvidos na sua cadeia de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Sofia, choca-lhe a apatia sobre o problema: \u201ceste tema devia sim ser not\u00edcia de abertura dos telejornais com mais frequ\u00eancia\u201d, sublinha na entrevista ao SAPO Lifestyle.<\/p>\n<p>Como contributo para minimizar nas cozinhas nacionais o desperd\u00edcio alimentar, a autora incentiva-nos na utiliza\u00e7\u00e3o daqueles que s\u00e3o tidas como as partes menos nobres dos alimentos: ramas, talos, caro\u00e7os, cascas, recordando-nos as qualidades nutricionais dos mesmos e remontando aos porqu\u00eas de os desmerecermos, dado haver uma tradi\u00e7\u00e3o na cozinha portuguesa associada aos mesmos: \u201cnos \u00faltimos cem anos talvez tenhamos \u201cdesaprendido\u201d mais do que aprendido, em rela\u00e7\u00e3o a este tema\u201d.<\/p>\n<p>A autora incentiva os leitores \u00e0 compostagem porque \u201ctudo o que vem da terra pode e deve voltar \u00e0 terra\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/thumbs.web.sapo.io\/?W=2100&amp;H=0&amp;delay_optim=1&amp;epic=Yzhj9GNn\/dEBEppxaPmO4AgMdI06UT3w5cZRE5BGAZT2QkoUN9GWJA7C0pOSil+p4hXKmYREljAwdRWU1IGo1I\/IGYusvDi7MC4npBMqhCnc2m8=\" alt=\"Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es\" width=\"640\" height=\"960\" \/>Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es<br \/>\nIN Edi\u00e7\u00f5es\/Cristina Vaz e Ant\u00f3nio Tom\u00e1s<br \/>\nTodos temos uma hist\u00f3ria de vida. A da Sofia inclui uma mudan\u00e7a da cidade para o meio rural e, com ela, um novo rumo. Quer partilhar connosco?<\/p>\n<p>Sim \u00e9 verdade, foi uma mudan\u00e7a grande porque toda a vida vivi na cidade, apesar da minha M\u00e3e ter tido durante v\u00e1rios anos uma casa de campo, que era o meu ref\u00fagio de fim de semana. Essa mudan\u00e7a deu-se ap\u00f3s eu ter regressado de Angola, ter decidido mudar completamente de vida e dedicar-me ao meu projeto do &#8220;Blog da Spice&#8221;. Por\u00e9m, Lisboa j\u00e1 n\u00e3o era a cidade mais ou menos tranquila que eu tinha deixado tr\u00eas anos antes, Lisboa estava \u201cna moda\u201d e eu deixei de me encaixar no ritmo fren\u00e9tico que a acompanhava e acompanha. Toda esta mudan\u00e7a de vida s\u00f3 aconteceu porque eu me permiti abrandar o ritmo e por isso a mudan\u00e7a para um local mais tranquilo era inevit\u00e1vel. Senti que precisava de enraizar e reconectar-me com a Natureza.<\/p>\n<p>A Sofia pratica aquilo a que chama uma alimenta\u00e7\u00e3o \u201cconsciente\u201d, sem a querer encaixar em nenhum regime espec\u00edfico. Como comp\u00f5e a sua dieta alimentar?<\/p>\n<p>Acredito muito que cada pessoa deve criar a sua pr\u00f3pria realidade alimentar, a alimenta\u00e7\u00e3o deve ser \u201ctaylor made\u201d e n\u00e3o \u201ctamanho \u00fanico\u201d, porque cada corpo tem necessidades diferentes, s\u00f3 precisamos \u00e9 de o saber escutar. No meu caso a base da minha alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o os cereais integrais, vegetais, leguminosas, frutas e oleaginosas. Ocasionalmente consumo alguns produtos de origem animal como ovos, queijo, iogurtes e pescado. N\u00e3o quer isto dizer que n\u00e3o como uma fatia de bolo de anivers\u00e1rio quando vou a uma festa ou at\u00e9 umas batatas fritas, mas s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es e n\u00e3o a minha base alimentar.<\/p>\n<p>Como se d\u00e1 o seu relacionamento com a culin\u00e1ria e como evoluiu?<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro da minha exist\u00eancia sem algu\u00e9m pr\u00f3ximo de mim estar a cozinhar. As mulheres da minha fam\u00edlia sempre cozinharam bem e para muita gente, por isso sinto que foi algo quase inato, e talvez por me parecer t\u00e3o \u201ccomum\u201d nunca pensei profissionalizar-me nesta \u00e1rea. Cozinhava muito para os meus amigos e fam\u00edlia, at\u00e9 que em Angola uma amiga me sugeriu que eu come\u00e7asse um blogue, j\u00e1 que estavam sempre a pedir-me as receitas. Comecei quase por brincadeira, mas depois este projeto ganhou \u201cvida pr\u00f3pria\u201d. Por\u00e9m, s\u00f3 quando regressei a Portugal \u00e9 que decidi aprofundar o meu conhecimento nesta \u00e1rea com o curso de culin\u00e1ria macrobi\u00f3tica do Instituto Macrobi\u00f3tico Portugu\u00eas.<\/p>\n<p>ACREDITO MUITO QUE CADA PESSOA DEVE CRIAR A SUA PR\u00d3PRIA REALIDADE ALIMENTAR, A ALIMENTA\u00c7\u00c3O DEVE SER &#8216;TAYLOR MADE&#8217; E N\u00c3O &#8216;TAMANHO \u00daNICO&#8217;.<br \/>\nA Sofia tem a sua pr\u00f3pria horta onde produz parte dos alimentos que consome. Contudo, uma horta n\u00e3o \u00e9 replic\u00e1vel em apartamentos, embora haja solu\u00e7\u00f5es. O que podemos fazer?<\/p>\n<p>Sim, talvez uma horta como a minha n\u00e3o seja replic\u00e1vel num apartamento, mas h\u00e1 alimentos que se d\u00e3o perfeitamente em vasos, desde que com boa exposi\u00e7\u00e3o solar e rega, como por exemplo, tomates, alface, couves, ervas arom\u00e1ticas, entre outros. Quem tem uma marquise ou varanda pode come\u00e7ar uma horta vertical ou ent\u00e3o optar por uma horta urbana, h\u00e1 imensas em Lisboa e arredores \u00e9 mesmo uma quest\u00e3o de se informarem na junta de freguesia ou c\u00e2mara a que pertencem. Plantar para comer encerra o ciclo perfeito e ganhamos uma vis\u00e3o bem diferente sobre a alimenta\u00e7\u00e3o e a Natureza.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/thumbs.web.sapo.io\/?W=2100&amp;H=0&amp;delay_optim=1&amp;epic=YjAw1AtNvuPb+OyDkCbeqoiuJWofwu36UnLC5wzFJgZqKwkFRemuQwDR62EzyS7jwrdWMWUlVMCSlcBG6OZBt8JJgsnsEI0Ws6ZTP3mj\/zFe4Sc=\" alt=\"Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es\" width=\"639\" height=\"383\" \/>Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es<br \/>\ncr\u00e9ditos: IN Edi\u00e7\u00f5es\/Ant\u00f3nio Tom\u00e1s<br \/>\nSofia, podemos afirmar que ao levarmos para a cozinha ramas, talos, cascas e caro\u00e7os estamos, com pequenos gestos, a cuidar da nossa casa comum?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma, ali\u00e1s tudo o que fizermos para evitar o desperd\u00edcio alimentar contribui para cuidar do planeta. \u00c9 neste ponto que sinto que as pessoas n\u00e3o t\u00eam, infelizmente, no\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o deste flagelo. Quando pensamos em desperdi\u00e7ar comida pensamos apenas no final da cadeia, como deitar uma ma\u00e7\u00e3 para o lixo, mas esquecemo-nos que para aquela ma\u00e7\u00e3 chegar at\u00e9 n\u00f3s, foram precisos in\u00fameros recursos, como a \u00e1gua, o solo, a m\u00e3o de obra, os transportes, entre outros, e tudo isso tamb\u00e9m foi desperdi\u00e7ado. Desperdi\u00e7ar alimentos \u00e9 desperdi\u00e7ar recursos e ainda contribuir para a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa (\u00e9 uma das principais fontes). Em muitos outros flagelos ambientais podemos culpar os governos, as ind\u00fastrias, entre outros, neste n\u00e3o. Reverter isto depende maioritariamente de n\u00f3s e dos nossos h\u00e1bitos.<\/p>\n<p>O que mais a choca no desperd\u00edcio di\u00e1rio relacionado com os alimentos?<\/p>\n<p>A falta de consci\u00eancia sobre o problema \u00e9 o que me choca mais. Este tema devia sim ser not\u00edcia de abertura dos telejornais com mais frequ\u00eancia, j\u00e1 dever\u00edamos ter pol\u00edticas de sensibiliza\u00e7\u00e3o mais institu\u00eddas e inclusive educar para este tema desde tenra idade. Ali\u00e1s n\u00e3o s\u00f3 para este tema, para a import\u00e2ncia da alimenta\u00e7\u00e3o em geral, esta podia ser uma parte integrante da cadeira.<\/p>\n<p>Faz consultoria para restaurantes e marcas. H\u00e1 um interesse crescente por parte destes em desenvolverem ementas\/produtos mais sustent\u00e1veis?<\/p>\n<p>Noto que de uma forma geral sim, porque o consumidor tamb\u00e9m assim o exige, mas \u00e9 um tema sens\u00edvel &#8211; como qualquer tema relacionado com a sustentabilidade &#8211; porque as pessoas gostam de \u201capontar o dedo\u201d mais pelo que determinada marca n\u00e3o faz do que pelo que tenta efetivamente fazer neste \u00e2mbito. Acho que qualquer mudan\u00e7a real e com vista \u00e0 sustentabilidade do planeta \u00e9 positiva, se a sustentabilidade \u00e9 uma \u201cmoda\u201d que venha para ficar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/thumbs.web.sapo.io\/?W=2100&amp;H=0&amp;delay_optim=1&amp;epic=YzYxU8XBWbQrO96D40KcTMdCex8jQHPmyY6Jo9Gk18NF4mgNCEJ7mmtI\/+fyz1Sbt0W\/e1mCEyYvsCBWT6kG1KSIHbJ0yL5insIiB2dVjdqUZJo=\" alt=\"Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es\" width=\"640\" height=\"960\" \/>Nobres cascas, talos e ramos que tanto fazem contra o desperd\u00edcio alimentar na cozinha de Sofia Magalh\u00e3es<br \/>\nIN Edi\u00e7\u00f5es\/Cristina Vaz e Ant\u00f3nio Tom\u00e1s<br \/>\nConsegue determinar a raz\u00e3o que nos levou a deixar de consumir, por exemplo, ramas? Ser\u00e1 que as cadeias de distribui\u00e7\u00e3o as descartam antes de chegarem ao consumidor?<\/p>\n<p>Pelo que pude apurar na maioria dos casos as ramas s\u00e3o descartadas logo no produtor, n\u00e3o chegam sequer \u00e0s cadeias de distribui\u00e7\u00e3o, porque estas n\u00e3o as querem e porque o consumidor tamb\u00e9m n\u00e3o as quer e n\u00e3o sabe o que fazer com elas. As ramas s\u00e3o a parte mais perec\u00edvel dos alimentos, pela rama conseguimos logo perceber se aquela beterraba foi colhida ontem ou h\u00e1 uma semana. Se vendermos apenas a raiz da beterraba, sem a rama, n\u00e3o conseguimos perceber isso. Mas acho que este tema \u00e9 causa-efeito tamb\u00e9m, as pessoas \u201cdesaprenderam\u201d a usar as ramas, porque d\u00e3o mais trabalho de lavar, precisam de ser bem confecionadas, etc. e por isso as cadeias deixaram de as vender. Se o consumidor as passar a exigir garanto que em breve n\u00e3o haver\u00e1 \u00e0 venda uma cenoura sem rama.<\/p>\n<p>AS RAMAS S\u00c3O A PARTE MAIS PEREC\u00cdVEL DOS ALIMENTOS, PELA RAMA CONSEGUIMOS LOGO PERCEBER SE AQUELA BETERRABA FOI COLHIDA ONTEM OU H\u00c1 UMA SEMANA.<br \/>\nDe qualquer forma, encontramo-los, por exemplo, em mercados locais e mesmo assim n\u00e3o os utilizamos\u2026<\/p>\n<p>Verdade, eu acho que nos \u00faltimos cem anos talvez tenhamos \u201cdesaprendido\u201d mais do que aprendido, em rela\u00e7\u00e3o a este tema. Os nossos av\u00f3s e bisav\u00f3s aproveitavam integralmente os alimentos, muitos por necessidade e outros tantos por terem no\u00e7\u00e3o do que custa semear, tratar e colher cada alimento. Quando come\u00e7\u00e1mos a distanciar os produtores dos consumidores finais fomos perdendo esta no\u00e7\u00e3o e eu diria at\u00e9 esta considera\u00e7\u00e3o pelos alimentos. Passou a ser mais \u201cf\u00e1cil\u201d deitar alimentos no lixo.<\/p>\n<p>A nossa cozinha tradicional \u00e9 rica na utiliza\u00e7\u00e3o destas partes \u201cmenos nobres\u201d dos vegetais e frutos?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, se pensarmos nos pratos t\u00edpicos portugueses s\u00e3o pouco os que n\u00e3o aproveitam integralmente todas as partes dos vegetais e\/ou animais. Das migas ou esparregado, que em muitas zonas se faz com as ramas, at\u00e9 aos pratos com miudezas temos isto muito presente na culin\u00e1ria tradicional.<\/p>\n<p>Num tempo em que tanto se fala de sa\u00fade e bem-estar ser\u00e1 um contrassenso n\u00e3o usarmos as ramas e os talos. Estes s\u00e3o ricos em nutrientes?<\/p>\n<p>S\u00e3o bastante ricos em nutrientes e fibras, \u00e0s vezes at\u00e9 mais do que as restantes partes. Noto que na grande maioria das vezes as pessoas comem o que sempre se comeu l\u00e1 em casa e n\u00e3o questionam o \u201cporqu\u00ea\u201d de se comer isto e n\u00e3o aquilo. Quando pergunto porque comem a casca da batata, mas n\u00e3o a casca da cenoura a resposta na maioria das vezes \u00e9: \u201csempre vi fazer assim\u201d. E noto que est\u00e3o pela primeira vez a questionar isso para chegarem \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 uma raz\u00e3o v\u00e1lida. Se por um lado h\u00e1 saberes antigos que devemos resgatar em rela\u00e7\u00e3o aos alimentos, por outro falta um bocadinho de esp\u00edrito cr\u00edtico tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Que nova vida dar a ramas, talos e cascas? os conselhos de Sofia Magalh\u00e3es<\/p>\n<p>Rama de cenoura: bolo de cenoura inteira (com rama).<\/p>\n<p>Folha de rabanete: molho pesto.<\/p>\n<p>Talo de br\u00f3colos: salteadinho de talos e cogumelos.<\/p>\n<p>Cascas de ma\u00e7\u00e3: vinagre de cascas.<\/p>\n<p>Centro do abacaxi: geleia de abacaxi e erva pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Cascas de melancia: pickles.<\/p>\n<p>Morangos muito maduros: galette de frutos vermelhos.<\/p>\n<p>Casca de banana: crumble de banana e chocolate preto ou fertilizante natural para plantas.<\/p>\n<p>Pode dar-nos alguns exemplos de como desperdi\u00e7amos na cozinha e olhamos para bens alimentares aproveit\u00e1veis, ou partes deles, como se se tratasse de lixo?<\/p>\n<p>Primeiro, tudo o que vem da terra pode e deve voltar \u00e0 terra, ou seja, se em vez de compostarmos os nossos res\u00edduos org\u00e2nicos os estamos a colocar no lixo (que ir\u00e1 para um aterro), estamos a desperdi\u00e7ar nutrientes que podiam nutrir o nosso solo, j\u00e1 que o processo de degrada\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos org\u00e2nicos em aterro s\u00f3 traz polui\u00e7\u00e3o. salvo raras exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em termos mais pr\u00e1ticos, nos vegetais e frutas tudo se aproveita: cascas, ra\u00edzes, caro\u00e7os, talos, ramas, \u00e9 mesmo da raiz \u00e0 rama.<\/p>\n<p>Na m\u00e1 conserva\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se perdem alimentos?<\/p>\n<p>Sim, por essa raz\u00e3o \u00e9 que achei importante incluir um cap\u00edtulo s\u00f3 sobre acondicionamento e conserva\u00e7\u00e3o de alimentos, para que as pessoas pudessem consultar qual a melhor metodologia quando t\u00eam d\u00favidas. A falta de correto acondicionamento pode ser a diferen\u00e7a entre um alimento durar tr\u00eas dias ou mais de uma semana, sem exagero nenhum.<\/p>\n<p>Bolo de cenoura inteira<br \/>\nBolo de cenoura inteira<br \/>\nTempo<br \/>\nDificuldade Ver receita completa<br \/>\nSobre as receitas em concreto que apresenta no livro, implicaram muita pesquisa e testagem?<\/p>\n<p>Algumas mais do que outras. Na realidade este livro acaba por ser o culminar de quase dois anos de trabalho que venho desenvolvendo neste \u00e2mbito, j\u00e1 fiz workshops, lancei e-books, partilho nas minhas redes sociais, dicas e receitas sem desperd\u00edcio, tenho uma \u00e1rea do meu site dedicada a este tema. Ou seja, j\u00e1 estava acostumada a criar receitas com esses \u201cdesperd\u00edcios\u201d o que facilitou, mas tive alguns desafios claro, at\u00e9 porque quis ir mais al\u00e9m com algumas partes de alimentos e tamb\u00e9m entender porque deix\u00e1mos de as aproveitar.<\/p>\n<p>Quer dar-nos alguns exemplos, das entradas \u00e0s sobremesas, das receitas que incluiu no seu livro?<\/p>\n<p>Tenho dificuldade de escolher apenas algumas porque tenho muitas favoritas, mas aqui v\u00e3o: Ch\u00e1 gelado [para aproveitar as cascas e caro\u00e7os de fruta], Gaspacho de salada velha [para utilizar sobras de salada j\u00e1 temperada], Gratinado de rama de alho-franc\u00eas e batata-doce [para usar a rama do alho-franc\u00eas], Crumble de banana e chocolate [para usar bananas muito maduras e com casca].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao desmerecermos uma ma\u00e7\u00e3 madura n\u00e3o estamos apenas a descartar um alimento reaproveit\u00e1vel. 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