{"id":147761,"date":"2021-06-11T13:32:10","date_gmt":"2021-06-11T16:32:10","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=147761"},"modified":"2021-06-11T13:32:10","modified_gmt":"2021-06-11T16:32:10","slug":"no-ano-internacional-das-cavernas-e-do-carste-as-cavernas-do-brasil-estao-em-alto-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/no-ano-internacional-das-cavernas-e-do-carste-as-cavernas-do-brasil-estao-em-alto-risco\/","title":{"rendered":"No Ano Internacional das Cavernas e do Carste, as cavernas do Brasil est\u00e3o em alto risco"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-147762\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Cavernas s\u00e3o celeiros de esp\u00e9cies com extremo endemismo e frequentemente abrigam esp\u00e9cies conhecidas em apenas uma caverna e em nenhum outro lugar<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 internacionalmente conhecido pela sua impressionante biodiversidade. Mas h\u00e1 ainda outro patrim\u00f4nio natural pelo qual o Brasil deveria ser reconhecido: suas cavernas. Sendo um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais, e com uma rica hist\u00f3ria geol\u00f3gica, estima-se que o Brasil abrigue cerca de 310.000 cavernas \u2013 algumas delas entre as mais espetaculares do mundo. Assim como para a biodiversidade, a prote\u00e7\u00e3o das cavernas no Brasil tamb\u00e9m sempre foi uma tarefa desafiadora, especialmente considerando que muito da economia do pa\u00eds depende de setores com conhecidos e persistentes conflitos ambientais, como o agroneg\u00f3cio e a minera\u00e7\u00e3o. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/decreto\/1990-1994\/D99556.htm\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">Decreto Presidencial 99556 de 1990<\/a>\u00a0determinava que todas as cavernas naturais no Brasil deveriam ser tratadas como um patrim\u00f4nio cultural nacional, e, como tal, deveriam ser preservadas e conservadas. Mas em 2008, ap\u00f3s press\u00f5es do setor mineral brasileiro, o novo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2007-2010\/2008\/Decreto\/D6640.htm\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">Decreto 6640<\/a>\u00a0foi publicado determinando que as cavernas deveriam passar por um processo de classifica\u00e7\u00e3o podendo ter m\u00e1xima, alta, m\u00e9dia ou baixa relev\u00e2ncia, e apenas aquelas cavernas classificadas como de m\u00e1xima relev\u00e2ncia teriam prote\u00e7\u00e3o integral imediata.<\/p>\n<p>Embora o Decreto 6640 tenha sido mais t\u00e9cnico que o seu antecessor, estabelecendo, por exemplo, uma defini\u00e7\u00e3o legal para o que \u00e9 uma caverna, ele tamb\u00e9m deixou expl\u00edcito que apenas as cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia seriam totalmente protegidas. Por meio de licenciamento ambiental, cavernas em outras categorias poderiam sofrer impactos negativos irrevers\u00edveis, incluindo a total destrui\u00e7\u00e3o. O Decreto 6640 estabeleceu um sistema de compensa\u00e7\u00e3o: duas cavernas similares deveriam ser protegidas para cada caverna de alta relev\u00e2ncia que fosse destru\u00edda. Para as cavernas de m\u00e9dia relev\u00e2ncia a compensa\u00e7\u00e3o financeira pela destrui\u00e7\u00e3o poderia ser feita, priorizando recursos para a pesquisa e conserva\u00e7\u00e3o em cavernas de m\u00e1xima e alta relev\u00e2ncia. O Decreto 6640 provocou um aumento dos invent\u00e1rios espeleol\u00f3gicos no Brasil: 70% das esp\u00e9cies trogl\u00f3bias oficialmente registradas no pa\u00eds foram descritas ap\u00f3s 2009. De maneira similar, o n\u00famero de cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia tamb\u00e9m aumentou.<\/p>\n<p>Entretanto, em janeiro de 2019, em um processo unilateral, sem a devida transpar\u00eancia e discuss\u00f5es p\u00fablicas, e sem a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil, o Minist\u00e9rio das Minas e Energia do Brasil (MME) prop\u00f4s uma nova reda\u00e7\u00e3o para o Decreto 6640 que, se aceita, abriria espa\u00e7o para que as cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia pudessem ser impactadas ou mesmo destru\u00eddas. Adicionalmente, esta reda\u00e7\u00e3o permitiria que as ag\u00eancias ambientais estaduais e municipais relaxassem os crit\u00e9rios para a classifica\u00e7\u00e3o de relev\u00e2ncia das cavernas. O MME mandou esta proposta de reda\u00e7\u00e3o diretamente para o Gabinete da Presid\u00eancia, o qual a remeteu para a Advocacia Geral da Uni\u00e3o, onde ela teve parecer favor\u00e1vel para aprova\u00e7\u00e3o. Esta proposta foi ent\u00e3o encaminhada para aprecia\u00e7\u00e3o pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente. Entretanto, em setembro de 2020, o MME publicou o seu\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mme\/pt-br\/assuntos\/secretarias\/geologia-mineracao-e-transformacao-mineral\/publicacoes-1\/programa-mineracao-e-desenvolvimento\/programa-mineracao-e-desenvolvimento-pmd-2020-2023.pdf\/view\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">Plano Nacional de Minera\u00e7\u00e3o 2020-2023<\/a>, e entre os v\u00e1rios objetivos citados havia uma clara inten\u00e7\u00e3o de alterar a legisla\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s cavernas brasileiras. De acordo com este plano, h\u00e1 uma necessidade de \u201caprimorar\u201d esta legisla\u00e7\u00e3o, mas sem nenhuma clara indica\u00e7\u00e3o sobre que tipo de aprimoramento seria este.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-110570 jetpack-lazy-image shadow jetpack-lazy-image--handled\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta-768x1024.jpeg\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta-1152x1536.jpeg 1152w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta-1536x2048.jpeg 1536w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta-640x853.jpeg 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta-1320x1760.jpeg 1320w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta.jpeg 1920w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"853\" data-lazy-loaded=\"1\" \/>Gruta do Janel\u00e3o, Parque Nacional Cavernas do Perua\u00e7u (MG). Foto: Rodrigo Lopes Ferreira.<\/div>\n<p>A lista de decis\u00f5es que potencialmente afetam as cavernas no Brasil continua: O presidente da C\u00e2mara dos Deputados Arthur Lira, um aliado pr\u00f3ximo do presidente Bolsonaro, havia declarado publicamente a sua inten\u00e7\u00e3o de colocar em vota\u00e7\u00e3o projetos que afetam o licenciamento ambiental. Este controverso projeto, proposto para relaxar ainda mais os requisitos para o licenciamento ambiental no Brasil, era uma demanda de longa data de setores como o agroneg\u00f3cio, a minera\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o civil. E Lira assim o fez. O projeto votado em 12 de maio, teve como relator o deputado Neri Geller, que \u00e9 vice-presidente da Frente Parlamentar da Agricultura \u2013 entidade que teve um papel decisivo na implos\u00e3o do C\u00f3digo Florestal em 2012 \u2013 e foi aprovado por 300 dos 513 deputados federais. Apesar de avisos e protestos de v\u00e1rios setores incluindo ONGs ambientais, parte do agroneg\u00f3cio, e at\u00e9 mesmo de integrantes dos setores de petr\u00f3leo e g\u00e1s, o projeto de lei aprovado restringe, enfraquece ou, em alguns casos, elimina por completo importantes instrumentos para a avalia\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o e controle de impactos socioambientais decorrentes de infraestrutura e atividades econ\u00f4micas no Brasil. O projeto de lei aprovado precisa agora ser sancionado pelo Senado Federal. A proposta do MME e os movimentos pol\u00edticos no Congresso Federal se juntam a uma longa, alarmante e impactante lista de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.mongabay.com\/2021\/03\/enquanto-milhares-de-brasileiros-morrem-na-pandemia-governo-aproveita-para-enfraquecer-leis-ambientais\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">iniciativas similares<\/a>\u00a0colocadas em pr\u00e1tica pelo governo de Jair Bolsonaro para desestruturar a legisla\u00e7\u00e3o ambiental brasileira.<\/p>\n<h3><strong>Perda potencial de biodiversidade, recursos geol\u00f3gicos e servi\u00e7os de ecossistema<\/strong><\/h3>\n<p>Em 2019, o\u00a0<a href=\"https:\/\/portaldamineracao.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Econ-mineral-fev2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">setor de minera\u00e7\u00e3o respondia por cerca de 4% do PIB do Brasil<\/a>: aproximadamente 10.000 minas legalizadas produzem cerca de 2 bilh\u00f5es de toneladas de min\u00e9rio por ano; 87% delas s\u00e3o micro ou pequenas empresas (\u2264 100.000 toneladas\/ano), mas 154 minas alcan\u00e7am mais de 1 milh\u00e3o de toneladas por ano cada. Todas as minas legais no Brasil precisam passar por licenciamento ambiental. Apontar precisamente o n\u00famero de cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia no Brasil n\u00e3o \u00e9 trivial, uma vez que esta classifica\u00e7\u00e3o pode ser feita por ag\u00eancias federais ou estaduais e n\u00e3o h\u00e1 uma base de dados unificada. Entretanto, baseado em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.icmbio.gov.br\/cecav\/canie.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">uma amostra de 1400 cavernas em \u00e1reas pass\u00edveis de licenciamento ambiental<\/a>,\u00a0 182 tinham sido classificadas como de m\u00e1xima relev\u00e2ncia e outras 412 apontadas como cavernas-testemunho. Estes valores d\u00e3o uma no\u00e7\u00e3o do n\u00famero de cavernas que poderiam potencialmente ser impactadas pelas altera\u00e7\u00f5es propostas na legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cerca de 22.000 das estimadas 310.000 cavernas do Brasil est\u00e3o atualmente cadastradas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.icmbio.gov.br\/cecav\/canie.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">nas bases de dados oficiais<\/a>. Se implementada, a iniciativa do MME de modificar a legisla\u00e7\u00e3o atual colocar\u00e1 um patrim\u00f4nio incalcul\u00e1vel sob risco, amea\u00e7ando as mais excepcionais cavernas no pa\u00eds, al\u00e9m de milhares de suas esp\u00e9cies e os servi\u00e7os ambientais que elas prov\u00eam. As consequ\u00eancias para as esp\u00e9cies e seus habitats ser\u00e3o severas. Os ambientes subterr\u00e2neos est\u00e3o entre as \u00faltimas fronteiras da explora\u00e7\u00e3o moderna. A fauna extremamente especializada das cavernas \u00e9 muito mal documentada e os ambientes subterr\u00e2neos s\u00e3o fontes ricas de descobertas cient\u00edficas excepcionais e de pistas sobre processos e adapta\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e evolutivas. Cavernas s\u00e3o celeiros de esp\u00e9cies com extremo endemismo e frequentemente abrigam esp\u00e9cies conhecidas em apenas uma caverna e em nenhum outro lugar. H\u00e1 atualmente cerca de 250 esp\u00e9cies descritas no Brasil adaptadas a viverem exclusivamente em cavernas. Estas esp\u00e9cies s\u00e3o chamadas trogl\u00f3bios. E al\u00e9m das dezenas de trogl\u00f3bios descritos todo ano no Brasil, estimativas apontam outras 800 a 1000 esp\u00e9cies similares aguardando por uma descri\u00e7\u00e3o formal pela Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Na mais recente avalia\u00e7\u00e3o do estado de conserva\u00e7\u00e3o da fauna cavern\u00edcola do Brasil, 72 de uma amostra de 145 esp\u00e9cies ocorriam em uma \u00fanica caverna. Considerando os morcegos, 72 das 181 esp\u00e9cies conhecidas para o Brasil j\u00e1 foram registradas usando cavernas, e quatro das sete esp\u00e9cies nacionalmente amea\u00e7adas de morcegos dependem de cavernas como habitat. N\u00e3o por acaso, a perda das cavernas e seus habitats subterr\u00e2neos \u00e9 o fator que mais contribui para estas esp\u00e9cies estarem amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. O Brasil tamb\u00e9m abriga forma\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas sem similares em outras partes do planeta. Raras cavernas de min\u00e9rio de ferro, localizadas em Caraj\u00e1s, na Amaz\u00f4nia, junto \u00e0s maiores minas de min\u00e9rio de ferro do mundo, est\u00e3o altamente amea\u00e7adas em fun\u00e7\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o. De maneira similar, grandes ambientes cavern\u00edcolas brasileiros \u2013 incluindo algumas das mais tur\u00edsticas cavernas do pa\u00eds \u2013 est\u00e3o amea\u00e7ados pelo agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-110571 jetpack-lazy-image shadow jetpack-lazy-image--handled\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2-1024x683.jpeg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2-600x400.jpeg 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2-1200x800.jpeg 1200w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2-640x427.jpeg 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2-1320x880.jpeg 1320w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta2.jpeg 1920w\" alt=\"\" width=\"642\" height=\"428\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><\/p>\n<p>O amblip\u00edgeo\u00a0<em>Charinus eleonora<\/em>e, esp\u00e9cie adaptada a viver exclusivamente em cavernas. Foto: Rodrigo Lopes Ferreira<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large my-5 my-md-2\"><figcaption class=\"text-right text-muted font-italic small mt-2\">.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o das cavernas, como proposto pelo MME e pelo Congresso Nacional, n\u00e3o encontra suporte na literatura cient\u00edfica. Pelo contr\u00e1rio: cientistas apontam que a prote\u00e7\u00e3o das cavernas precisa aumentar globalmente. Tal demanda \u00e9 sustentada tanto pelo valor intr\u00ednseco de conserva\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies cavern\u00edcolas e sua fascinante hist\u00f3ria evolutiva, mas tamb\u00e9m porque est\u00e1 cada vez mais claro que as cavernas e sua biota prov\u00eam importantes servi\u00e7os de ecossistema para n\u00f3s humanos. Da remo\u00e7\u00e3o di\u00e1ria pelos morcegos cavern\u00edcolas de centenas de toneladas de insetos considerados pragas agr\u00edcolas e vetores de doen\u00e7as para humanos e para rebanhos, passando pelo papel que os morcegos cavern\u00edcolas t\u00eam na poliniza\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o de sementes de plantas de interesse comercial, os processos e intera\u00e7\u00f5es nos quais as cavernas e suas esp\u00e9cies est\u00e3o envolvidos t\u00eam impactos diretos na din\u00e2mica ecol\u00f3gica de outros sistemas n\u00e3o-cavern\u00edcolas, na ciclagem de nutrientes, no fluxo de energia, e at\u00e9 nos processos de fixa\u00e7\u00e3o do carbono atmosf\u00e9rico. Sistemas subterr\u00e2neos tamb\u00e9m participam efetivamente no suprimento, regula\u00e7\u00e3o e purifica\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, essenciais para a manuten\u00e7\u00e3o da qualidade dos recursos h\u00eddricos. No Brasil, v\u00e1rias cidades s\u00e3o supridas com \u00e1gua proveniente de aqu\u00edferos c\u00e1rsticos, um servi\u00e7o que pode ser comprometido pelo enfraquecimento do sistema de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s cavernas. As \u00e1reas c\u00e1rsticas tamb\u00e9m est\u00e3o diretamente envolvidas nos processos de forma\u00e7\u00e3o e reten\u00e7\u00e3o de solo. Um grande n\u00famero de esp\u00e9cies de fungos e bact\u00e9rias com grande potencial biotecnol\u00f3gico est\u00e1 escondido nos ecossistemas cavern\u00edcolas. De fato, v\u00e1rias cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia no Brasil t\u00eam processos e estruturas \u00fanicas, desenvolvidos por atividade microbiol\u00f3gica, algo que \u00e9 ainda pouco conhecido no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Arquivos paleoclim\u00e1ticos preciosos est\u00e3o abrigados nas paredes, pisos e tetos das cavernas brasileiras, fornecendo pistas de como o clima mudou na Am\u00e9rica do Sul nos \u00faltimos mil\u00eanios. Algumas das cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia do Brasil t\u00eam tamb\u00e9m extrema import\u00e2ncia arqueol\u00f3gica, ajudando-nos a entender a hist\u00f3ria da esp\u00e9cie humana.\u00a0<em>Luzia<\/em>, o f\u00f3ssil humano mais antigo encontrado na Am\u00e9rica do Sul, com cerca de 11.800 anos, foi encontrado em uma caverna em Minas Gerais. Dezenas de cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia recebem milhares de turistas anualmente no pa\u00eds, injetando dinheiro na economia local e permitindo o uso p\u00fablico deste inestim\u00e1vel patrim\u00f4nio natural e cultural. Assim, a import\u00e2ncia da prote\u00e7\u00e3o destas cavernas \u00e9 muito evidenciada quando seus valores biol\u00f3gicos, culturais, e socioecon\u00f4micos s\u00e3o corretamente considerados.<\/p>\n<p>As cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia do Brasil s\u00e3o assim classificadas exatamente porque elas cont\u00eam atributos identificados como \u00fanicos, excepcionais e insubstitu\u00edveis. Esta classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente feita por profissionais experientes que entendem que estas cavernas se destacam como nenhuma outra no Brasil ou no mundo. As propostas do MME e do Congresso Nacional de redefinir e reduzir o licenciamento ambiental, expondo estas cavernas de m\u00e1xima relev\u00e2ncia a impactos negativos irrevers\u00edveis, n\u00e3o consideram o real valor das cavernas brasileiras e ignoram a sua perda. Esta vis\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 alinhada com as\u00a0<a href=\"https:\/\/ipbes.net\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">discuss\u00f5es mais modernas sobre desenvolvimento sustent\u00e1vel<\/a>. Mais al\u00e9m, estas propostas violam a Pol\u00edtica Nacional de Biodiversidade e v\u00e1rios tratados internacionais dos quais o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio, como a Conven\u00e7\u00e3o da Diversidade Biol\u00f3gica. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar a possibilidade de que estas cavernas possam ser destru\u00eddas, o que seria uma perda irrepar\u00e1vel e sem precedentes de alguns dos mais relevantes componentes naturais e culturais subterr\u00e2neos do Brasil.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large my-5\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-110572 jetpack-lazy-image shadow jetpack-lazy-image--handled\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta3-1024x768.jpeg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta3-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta3-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta3-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta3-640x480.jpeg 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta3-1320x990.jpeg 1320w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/gruta3.jpeg 1920w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption class=\"text-muted font-italic small mt-2 text-center mx-2\">Pinturas rupestres na Gruta do Rezar, Parque Nacional Cavernas do Perua\u00e7u (MG). Foto: Rodrigo Lopes Ferreira.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Dada a import\u00e2ncia deste assunto e das fortes consequ\u00eancias negativas que ele pode ter, n\u00f3s defendemos fortemente que qualquer proposta de mudan\u00e7a nos crit\u00e9rios de classifica\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia das cavernas brasileiras deveria ser precedida por um debate cient\u00edfico p\u00fablico, cuidadoso e qualificado, e jamais de maneira acelerada e unilateral, como a que est\u00e1 sendo conduzida pelo MME. O Congresso Federal tem a obriga\u00e7\u00e3o de discutir qualquer proposta pendente de maneira correta, convocando audi\u00eancias p\u00fablicas para debat\u00ea-las. Um arcabou\u00e7o legal claro e efetivo \u00e9 necess\u00e1rio, mas a experi\u00eancia e os argumentos de profissionais e da comunidade cient\u00edfica brasileira precisam ser ouvidos e considerados. As propostas do MME e do Congresso Nacional cont\u00e9m erros e falhas conceituais e, se aprovadas, elas trar\u00e3o inevitavelmente inseguran\u00e7a t\u00e9cnica e jur\u00eddica para os processos de licenciamento ambiental do setor mineral brasileiro. Neste sentido, estas propostas n\u00e3o podem ser consideradas consensuais, e devem ser rejeitadas. O Ano Internacional das Cavernas e do Carste n\u00e3o pode ser lembrado como o ano em que o Brasil abandonou e condenou seu patrim\u00f4nio espeleol\u00f3gico.<\/p>\n<p><em>Imagem do banner: espeleotemas na Gruta Bonita, Parque Nacional Cavernas do Perua\u00e7u (MG). Foto: Rodrigo Lopes Ferreira.<\/em><\/p>\n<h3><strong>CITA\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/h3>\n<p>Abessa, D., Fam\u00e1, A. &amp; Buruaem, L. The systematic dismantling of Brazilian environmental laws risks losses on all fronts.\u00a0<em>Nat Ecol Evol<\/em>\u00a0<strong>3<\/strong>, 510\u2013511 (2019).\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/s41559-019-0855-9\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">https:\/\/doi.org\/10.1038\/s41559-019-0855-9<\/a>Mammola, S. et al. Scientists\u2019 warning on the conservation of subterranean ecosystems.\u00a0<em>BioScience\u00a0<\/em><strong>69<\/strong>, 641\u2013650 (2019)Medell\u00edn, R. A., Wiederholt. R. &amp; Lopez-Hoffman, L. Conservation relevance of bat caves for biodiversity and ecosystem services.\u00a0<em>Biological Conservation<\/em>\u00a0<strong>211<\/strong>, 45\u201350. (2017)<\/p>\n<p>Furey, N., &amp; Racey, P. A. in\u00a0<em>Bats in the Anthropocene: Conservation of bats in a changing world<\/em>\u00a0(eds. Voigt, C.C. &amp; Kingston, T.) Ch. 15 (Springer International Publishing, 2015).<\/p>\n<p>Luo, J. et al. Bat conservation in China: Should protection of subterranean habitats be a priority?\u00a0<em>Oryx<\/em>\u00a0<strong>47<\/strong>, 526-531. DOI: 10.1017\/S0030605311001505<\/p>\n<p>Ward, B. et al. Reconstruction of Holocene coupling between the South America Monsoon System and local moisture variability from speleothem \u03b418O and 87Sr\/86Sr records.\u00a0<em>Quaternary Science Reviews<\/em>\u00a0<strong>210<\/strong>, 51-63 (2019).<\/p>\n<p>Feathers, J. et al. How old is Luzia? Luminescence dating and stratigraphic integrity at Lapa Vermelha, Lagoa Santa, Brazil.\u00a0<em>Geoarchaeology<\/em>\u00a0<strong>25<\/strong>, 395-436 (2010).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cavernas s\u00e3o celeiros de esp\u00e9cies com extremo endemismo e frequentemente abrigam esp\u00e9cies conhecidas em apenas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":147762,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/caverna.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Cavernas s\u00e3o celeiros de esp\u00e9cies com extremo endemismo e frequentemente abrigam esp\u00e9cies conhecidas em apenas","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147761"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=147761"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147761\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":147763,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147761\/revisions\/147763"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/147762"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=147761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=147761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=147761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}