{"id":14738,"date":"2015-01-25T10:56:03","date_gmt":"2015-01-25T10:56:03","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=14738"},"modified":"2015-01-25T10:56:03","modified_gmt":"2015-01-25T10:56:03","slug":"ilha-do-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/ilha-do-medo\/","title":{"rendered":"Ilha do medo"},"content":{"rendered":"<h2><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Jararaca-ilhoa d\u00e1 o bote no gancho de coleta do bi\u00f3logo na ilha Queimada Grande, S\u00e3o Paulo\" src=\"http:\/\/imgms.viajeaqui.abril.com.br\/94\/carrossel-home-620-jg.jpeg?1336657810\" alt=\"Jararaca-ilhoa d\u00e1 o bote no gancho de coleta do bi\u00f3logo na ilha Queimada Grande, S\u00e3o Paulo\" width=\"639\" height=\"237\" \/><\/h2>\n<h2>N\u00e3o h\u00e1 mam\u00edferos nem fontes de \u00e1gua pot\u00e1vel na Queimada Grande. Quem sobrevive nessa ilha paulista s\u00e3o milhares de cobras e aranhas venenosas. E a evolu\u00e7\u00e3o se encarrega do resto<\/h2>\n<div class=\"chapeu-source\"><\/div>\n<div class=\"chapeu-source\"><span class=\"post-source\"><i>Por: Andr\u00e9 Juli\u00e3o<\/i><\/span><\/div>\n<div class=\"chapeu-source\"><\/div>\n<div class=\"chapeu-source\">\n<p>\u201cOlha uma ali!\u201d Enrodilhada em galhos que parecem prestes a se quebrar com o peso, ela n\u00e3o se mexe nem mesmo com a nossa aproxima\u00e7\u00e3o. Demoro para ver, em meio \u00e0 folhagem, o que meus parceiros de expedi\u00e7\u00e3o \u2013 o bi\u00f3logo Breno Damasceno e o fot\u00f3grafo Jo\u00e3o Marcos Rosa \u2013 percebem logo. A serpente amarela com manchas marrons, quase invis\u00edvel atr\u00e1s das folhas, \u00e9 a jararaca-ilhoa, o perigoso animal que ocupa o degrau mais alto da cadeia alimentar na ilha da Queimada Grande, um rochedo de granito forrado de Mata Atl\u00e2ntica, 33 quil\u00f4metros distante da costa da cidade de Itanha\u00e9m, no litoral sul de S\u00e3o Paulo. Sou tomado de um sentimento misto de empolga\u00e7\u00e3o e medo.<\/p>\n<p>A Queimada Grande, afinal, n\u00e3o \u00e9 nada hospitaleira com seus visitantes, das pequenas aves migrat\u00f3rias aos raros seres humanos que ousam pisar em seus 43 hectares (o equivalente a 40 campos de futebol). Como n\u00e3o h\u00e1 praias, o embarque e o desembarque s\u00e3o sempre complicados, quando n\u00e3o imposs\u00edveis. N\u00e3o h\u00e1 fontes de \u00e1gua pot\u00e1vel ou alojamento esperando pelos visitantes. As trilhas s\u00e3o \u00edngremes e faz muito calor; a chuva, n\u00e3o raro, vem com tempestades de vento cortante. H\u00e1 aranhas venenosas e, claro, cobras, milhares delas \u2013 no ch\u00e3o, nas pedras, na relva, nas \u00e1rvores, por toda parte.<\/p>\n<p>Mesmo assim, pisar pela primeira vez na rocha escorregadia que serve de porto \u00e9 um al\u00edvio para quem passou a noite balan\u00e7ando em uma lancha ancorada \u2013 com as devidas consequ\u00eancias g\u00e1stricas inerentes a marinheiros de primeira viagem, como era o meu caso. O percurso desde o continente levara apenas duas horas, mas era madrugada quando chegamos, e desembarcar sem a luz do sol estava fora de cogita\u00e7\u00e3o. Por isso, permanecemos chacoalhando at\u00e9 as 6 da manh\u00e3 \u2013 s\u00f3 ent\u00e3o pudemos deixar o barco que voltaria ao continente para esperar o dia do nosso resgate. Eu estava debilitado e confuso quando ele come\u00e7ou a se distanciar da ilha, com as pessoas a bordo acenando. N\u00e3o havia tempo, por\u00e9m, para refletir sobre aquele momento ins\u00f3lito, muito menos para descansar. Uma chuva se anunciava no horizonte e precis\u00e1vamos armar acampamento o quanto antes. A barraca seria o m\u00e1ximo de conforto que eu teria nos pr\u00f3ximos dias. Sono tranquilo, banho, banheiro e boas refei\u00e7\u00f5es eram privil\u00e9gios que tinham ficado na costa.<\/p>\n<p>Formada h\u00e1 55 milh\u00f5es de anos, em um desdobramento das origens da serra do Mar, a ilha da Queimada Grande foi ligada ao continente em diferentes per\u00edodos do passado. Entre 10 mil e 12 mil anos atr\u00e1s, quando terminou a \u00faltima glacia\u00e7\u00e3o da Terra, a \u00e1rea acabou cercada pelo mar, em decorr\u00eancia da eleva\u00e7\u00e3o no n\u00edvel dos oceanos. A popula\u00e7\u00e3o de serpentes, que provavelmente eram da mesma esp\u00e9cie do continente \u2013 <em>Bothropoides jararaca<\/em> \u2013, ficou ilhada. Sem pequenos mam\u00edferos para ca\u00e7ar, as cobras precisaram se adaptar \u00e0 vida em cima das \u00e1rvores, pois a principal comida dispon\u00edvel eram as aves, de passagem pela ilha em suas migra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de padr\u00e3o alimentar for\u00e7ou altera\u00e7\u00f5es no comportamento. Enquanto o parente continental preserva h\u00e1bitos terrestres na vida adulta, a ilhoa aprendeu a prender-se no alto das \u00e1rvores pela cauda, a qual forma um la\u00e7o em volta dos galhos e a sustenta pendurada \u2013 apenas os indiv\u00edduos jovens ficam o tempo todo no ch\u00e3o, pois se alimentam de lacraias, lesmas e sapos.<\/p>\n<p>Outra diferencia\u00e7\u00e3o significativa est\u00e1 na pot\u00eancia de seu veneno. Pioneiro nas pesquisas sobre a cobra \u2013 descreveu a esp\u00e9cie em 1921 \u2013, Afr\u00e2nio do Amaral, um dos primeiros diretores do Instituto Butantan, em S\u00e3o Paulo, aplicou em pombos o veneno da jararaca-ilhoa e da continental. Concluiu que, para matar a ave com a pe\u00e7onha da Bothropoides insularis, era suficiente uma dose cinco vezes menor que a dose letal do veneno da <em>Bothropoides jararaca<\/em>. \u201cEle \u00e9 mais potente para aves, mas n\u00e3o para mam\u00edferos\u201d, explica Ot\u00e1vio Marques, do Butantan. Se a pe\u00e7onha n\u00e3o matasse a presa em poucos segundos, ela poderia morrer distante, impossibilitando o predador de com\u00ea-la. Assim, para garantir a refei\u00e7\u00e3o, a cobra pica o p\u00e1ssaro e n\u00e3o o solta mais, come\u00e7ando a engoli-lo logo em seguida.<\/p>\n<p>O que mata suas v\u00edtimas na natureza, por\u00e9m, pode salvar vidas humanas. Ao estudar o veneno da jararaca comum, pesquisadores brasileiros descobriram, em 1948, o vasodilatador bradicinina, que tem a\u00e7\u00e3o anti-hipertensiva e que mais tarde deu origem ao medicamento Captopril. Em 2001, foi patenteado outro anti-hipertensivo baseado nas mesmas toxinas, o Evasin. Embora essas subst\u00e2ncias, do ponto de vista bioqu\u00edmico, sejam parecidas nas duas esp\u00e9cies \u2013 tanto que o soro antiof\u00eddico \u00e9 o mesmo \u2013, acredita-se que as poucas enzimas diferentes da pe\u00e7onha da jararaca-ilhoa possam dar origem a novos f\u00e1rmacos.<\/p>\n<p>Para os ambientalistas, esse \u00e9 um dos motivos da retirada ilegal de cobras da Queimada Grande. \u201cPor ser uma esp\u00e9cie end\u00eamica e pelas propriedades ainda inexploradas do veneno, ela tornou-se um alvo cobi\u00e7ado da biopirataria\u201d, afirma Raulff Lima, coordenador executivo da Renctas, ONG de combate ao tr\u00e1fico de animais. \u201cAs serpentes, de um modo geral, s\u00e3o muito resistentes. Elas podem ficar dias sem comer, o que facilita seu envio a outros pa\u00edses\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A pesquisadora Karina Kasperoviczus, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), ficou cara a cara com um dos intermedi\u00e1rios do tr\u00e1fico. Em 2008, ao desembarcar em S\u00e3o Vicente depois de estudos na Queimada Grande, ela foi abordada por um homem, que anunciou estar disposto a pagar 30 000 d\u00f3lares para cada jararaca-ilhoa. \u201cEle dizia ter compradores para quantas cobras fossem capturadas\u201d, conta. Karina j\u00e1 ouviu relatos de pescadores que afirmaram ter visto pessoas com caixas de isopor na Queimada Grande.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Instituto Butantan retirou da ilha por volta de 830 exemplares desde a d\u00e9cada de 1920 \u2013 quantidade significativa para uma popula\u00e7\u00e3o total de 2 134 indiv\u00edduos, segundo a estimativa mais precisa realizada at\u00e9 hoje publicada em 2008 por pesquisadores da USP e do instituto. Segundo essa contagem, a densidade populacional da Queimada Grande \u00e9 de 50 serpentes por hectare, o que a torna um dos maiores serpent\u00e1rios naturais do mundo.<\/p>\n<p>Mas, por estar concentrada em uma \u00e1rea t\u00e3o pequena, a esp\u00e9cie corre s\u00e9rios riscos. A endogamia resulta, no longo prazo, em baixa variabilidade gen\u00e9tica dos indiv\u00edduos, o que os torna mais suscet\u00edveis a doen\u00e7as e \u00e0 ocorr\u00eancia de caracter\u00edsticas anormais \u2013 uma prova disso seria o \u00f3rg\u00e3o sexual masculino n\u00e3o desenvolvido encontrado em algumas f\u00eameas, sem nenhuma fun\u00e7\u00e3o reprodutiva. Tamb\u00e9m j\u00e1 foi identificado por cientistas um esp\u00e9cime hermafrodita. \u201cEssa \u00e9 uma caracter\u00edstica primitiva, e sua ocorr\u00eancia na jararaca-ilhoa est\u00e1 associada a altera\u00e7\u00f5es em cromossomos relacionados ao sexo, devido \u00e0 cosanguinidade\u201d, diz Marcus Augusto Buononato, bi\u00f3logo que j\u00e1 esteve mais de 20 vezes na ilha.<\/p>\n<p>Buononato diz que, nos anos 1980, em suas primeiras viagens, \u201cn\u00e3o passava cinco minutos sem ver uma cobra\u201d. Nas \u00faltimas visitas, o n\u00famero de encontros \u00e9 bem menor e os animais, que podiam chegar a 1,20 metro, n\u00e3o passam de 70 cent\u00edmetros. \u201cA popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00e0 beira de um colapso\u201d, acredita ele, ainda mais por habitarem um lugar conhecido por suas queimadas naturais \u2013 da\u00ed o nome da ilha. As excurs\u00f5es humanas levaram esp\u00e9cies invasoras, como o capim-gordura e o sap\u00e9, que hoje formam capinzais que ocupam mais de 11 hectares da ilha. \u201cEsse mato, quando seco, \u00e9 muito vulner\u00e1vel ao fogo. Um grande inc\u00eandio poderia matar todos os indiv\u00edduos\u201d, alerta An\u00edbal Megarejo, herpet\u00f3logo do Instituto Vital Brazil, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Somam-se a esses fatores a presen\u00e7a de carrapato, comum em ilhas oce\u00e2nicas \u2013 notamos algumas cobras com o corpo coberto por esses parasitas \u2013, e uma poss\u00edvel escassez de alimentos, plaus\u00edvel em um lugar pequeno e sens\u00edvel a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Basta imaginar um per\u00edodo sem chuvas, j\u00e1 que a \u00e1gua doce s\u00f3 \u00e9 obtida em pequenos reposit\u00f3rios naturais, como as brom\u00e9lias. Tais condi\u00e7\u00f5es levaram o animal a ser considerado criticamente em perigo de extin\u00e7\u00e3o pela lista de esp\u00e9cies amea\u00e7adas no Brasil e pela Lista Vermelha, da Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>O implante de chip sob a pele dos animais, feito por pesquisadores do Butantan, \u00e9 um dos m\u00e9todos para um monitoramento da popula\u00e7\u00e3o. J\u00e1 para avaliar invasores, existem armadilhas fotogr\u00e1ficas, instaladas em pontos estrat\u00e9gicos, que disparam se algu\u00e9m passar na frente delas. O trabalho \u00e9 coordenado por fiscais do Instituo Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), pois a ilha faz parte da \u00c1rea de Relevante Interesse Ecol\u00f3gico (Arie) Ilhas Queimada Pequena e Queimada Grande.<\/p>\n<p>Cientistas e ecologistas acreditam que o n\u00edvel de prote\u00e7\u00e3o desse tipo de unidade de conserva\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 baixo, pois apenas restringe o acesso a uma \u00e1rea de 1 quil\u00f4metro no entorno da ilha \u2013 al\u00e9m disso, a pesca, atividade comum na \u00e1rea, \u00e9 feita sem nenhuma fiscaliza\u00e7\u00e3o. Por isso, come\u00e7a a ganhar corpo o plano de transformar a Arie em parque nacional marinho. \u201cO status de parque poderia atrair turistas interessados em mergulho, haja vista a grande biodiversidade de peixes naquela \u00e1rea\u201d, afirma Wilson Almeida Lima, chefe da reserva. \u201cA presen\u00e7a dessas pessoas em volta da ilha vai inibir os biopiratas\u201d, acredita.<\/p>\n<p>Mas salvar a jararaca-ilhoa depende tamb\u00e9m de a\u00e7\u00f5es localizadas, como a cria\u00e7\u00e3o de animais em cativeiro. Al\u00e9m de possibilitar estud\u00e1-los de perto, essas cria\u00e7\u00f5es mant\u00eam uma reserva gen\u00e9tica da esp\u00e9cie. Em um futuro hipot\u00e9tico, seus descendentes poderiam ser introduzidos na ilha.<\/p>\n<p>As lanternas e a pequena chama do fogareiro s\u00e3o as \u00fanicas fontes de luz na noite sem estrelas. Depois de passar o dia \u00e0 base de p\u00e3o, macarr\u00e3o instant\u00e2neo e atum enlatado, estamos empolgados com o projeto de cachorro-quente que ferve na panela. A cozinha \u00e9 um abrigo sob uma rocha, cuja superf\u00edcie irregular serve de prateleira para os poucos artigos de cozinha. Naquele espa\u00e7o compartilhamos hist\u00f3rias, nos assustamos com aranhas armadeiras, que podem matar um homem com uma picada, e recarregamos nossa energia para voltar \u00e0 mata em busca das ilhoas.<\/p>\n<p>Na Queimada Grande, todo movimento deve ser calculado, desde onde p\u00f4r a m\u00e3o at\u00e9 onde pisar. Mais de uma vez rolei no ch\u00e3o, escorreguei e me ralei nas pedras por n\u00e3o ter seguido essa regra \u00e0 risca. Damasceno, o bi\u00f3logo da expedi\u00e7\u00e3o, sabe disso, mas n\u00e3o toma cuidado com algo aparentemente inofensivo: uma panela cheia de salsichas e molho. Ao tentar se servir, vira todo o nosso precioso jantar no ch\u00e3o. Eu e Rosa nos dividimos entre rir e tentar conter a frustra\u00e7\u00e3o do companheiro com o movimento desastrado.<\/p>\n<p>A precariedade de nossas instala\u00e7\u00f5es acaba servindo para uma aula de hist\u00f3ria. Segundo Damasceno, em pleno s\u00e9culo 21, somos meros amadores se comparados aos cientistas pioneiros que visitaram a ilha, como Jo\u00e3o Flor\u00eancio Gomes, do Butantan, que, j\u00e1 em 1919, levou exemplares da jararaca ao instituto, em S\u00e3o Paulo. As primeiras e bem aparelhadas expedi\u00e7\u00f5es come\u00e7aram depois de relatos de moradores da ilha \u2013 funcion\u00e1rios da Marinha que cuidavam do farol, instalado em 1909 (automatizado na d\u00e9cada de 1940, o equipamento dispensa at\u00e9 hoje a presen\u00e7a de pessoas em tempo integral). \u201cPara c\u00famulo de infelicidade, os moradores [faroleiros da Queimada Grande] de vez em quando se veem privados at\u00e9 das pr\u00f3prias galinhas, que criam para sua subsist\u00eancia, pois que, sendo l\u00e1 o \u2018para\u00edso das cobras\u2019, esses pobres animais s\u00e3o frequentemente dizimados\u201d, escreveu o sucessor de Gomes, Afr\u00e2nio do Amaral, em 1921.<\/p>\n<p>A quantidade assombrosa de serpentes atraiu outros cientistas, como o belga Alphonse Richard Hoge, a partir da metade da d\u00e9cada de 1960, Pedro Ant\u00f4nio Federsoni J\u00fanior, nos anos 1980, e Ot\u00e1vio Marques, dos anos 1990 at\u00e9 hoje. \u201cA Queimada Grande \u00e9 um sonho para qualquer herpet\u00f3logo\u201d, diz An\u00edbal Megarejo, ao qual Damasceno e Rosa acompanharam em sua primeira expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 ilha, no fim de 2010. \u201cNa Mata Atl\u00e2ntica existe grande biodiversidade de serpentes, mas sempre com densidade populacional pequena. H\u00e1 esconderijos, e \u00e9 dif\u00edcil de localiz\u00e1-las.\u201d<\/p>\n<p>Na Queimada Grande, n\u00e3o. Na noite anterior \u00e0 nossa partida, contabilizamos 48 encontros com jararacas-ilhoas em tr\u00eas dias de sa\u00eddas. Eu e Jo\u00e3o estamos na cozinha, depois de falar com as fam\u00edlias ao telefone \u2013 o isolamento n\u00e3o \u00e9 o bastante para afetar o alcance do sinal de celular \u2013, quando ouvimos os gritos de Damasceno, em cima da mesma rocha de onde Jo\u00e3o acabou de descer. \u201cTem uma cobra bem no lugar em que voc\u00ea estava sentado!\u201d Entreolhamos-nos, at\u00f4nitos. At\u00e9 ent\u00e3o, sabia-se que a esp\u00e9cie n\u00e3o fica em lugares com muito vento, como era o caso do acampamento, e que ela \u00e9 ativa apenas durante o dia. A ilha nos surpreendia de novo.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, o mar est\u00e1 calmo como uma piscina. Todo o equipamento e as roupas foram embarcados na lancha que veio nos resgatar, e o pessoal da expedi\u00e7\u00e3o saiu para uma miss\u00e3o final: instalar mais uma c\u00e2mera-armadilha na mata. Dou-me o direito de n\u00e3o ver mais cobras pelos pr\u00f3ximos meses e fico de bobeira, enfim relaxado, olhando para o mar \u2013 aonde as jararacas n\u00e3o chegam! Ent\u00e3o me dou conta de que avisto uma mulher pela primeira vez em mais de 72 horas. Ela pula do barco com gra\u00e7a e acena para mim. \u00c9 uma miragem? Jogo-me na \u00e1gua de cal\u00e7a, t\u00eanis e camiseta. Chego ao encontro dela em minutos, e sou recebido com uma m\u00e1scara de mergulho. \u201cD\u00e1 uma olhada l\u00e1 embaixo\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Assim que des\u00e7o abaixo da superf\u00edcie, avisto duas enormes arraias-pintadas e uma infinidade de peixes menores e \u00e1guas-vivas. Um mundo novo, belo e sereno, que contrasta com a tens\u00e3o da vida em terra na Queimada Grande.<\/p>\n<p>Os momentos no mar aliviam o cansa\u00e7o e a ansiedade. Se dias antes eu chegara fraco e amedrontado, hoje me sinto resistente e corajoso. Minha estadia na ilha faz sentido. Presenciei um momento-chave para uma criatura que se adaptou a condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis. E que, agora, v\u00ea seu destino em uma encruzilhada: a jararaca-ilhoa pode se readaptar ou deixar de existir. Conservar o seu lar, a ilha da Queimada Grande, n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de salvar uma esp\u00e9cie, mas de manter vivo um grande laborat\u00f3rio, que nos ensina, todos os dias, a import\u00e2ncia de evoluir.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"chapeu-source\"><span class=\"post-source\">Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL \u00a0 | \u00a0\u00a0 <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 mam\u00edferos nem fontes de \u00e1gua pot\u00e1vel na Queimada Grande. Quem sobrevive nessa ilha<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"N\u00e3o h\u00e1 mam\u00edferos nem fontes de \u00e1gua pot\u00e1vel na Queimada Grande. Quem sobrevive nessa ilha","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14738"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14738"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14738\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14738"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14738"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14738"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}