{"id":147172,"date":"2021-06-01T11:00:38","date_gmt":"2021-06-01T14:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=147172"},"modified":"2021-06-01T09:09:28","modified_gmt":"2021-06-01T12:09:28","slug":"o-surpreendente-e-vasto-universo-das-dimensoes-humanas-nas-interacoes-com-as-aves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-surpreendente-e-vasto-universo-das-dimensoes-humanas-nas-interacoes-com-as-aves\/","title":{"rendered":"O surpreendente e vasto universo das dimens\u00f5es humanas nas intera\u00e7\u00f5es com as aves"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-147174\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Como promover a coexist\u00eancia (n\u00e3o hier\u00e1rquica) entre as aves e as pessoas? Precisaremos sacrificar esp\u00e9cies, como j\u00e1 ocorreu, em detrimento de comportamentos, normas e valores culturais?<\/p>\n<p>Se voc\u00ea assistiu ao que muitos consideram ser a \u00faltima grande obra de Alfred Hitchcock, \u201cOs p\u00e1ssaros\u201d (1963), e ficou tenso por semanas esperando ser atacado no meio da rua por uma inofensiva ave, junte-se ao clube. No filme, as aves locais passam a ter comportamentos agressivos e atacar as pessoas. N\u00e3o, nenhuma das integrantes desta coluna \u00e9 da \u00e9poca da estreia do filme. Mas como investigadoras das rela\u00e7\u00f5es com fauna e rela\u00e7\u00f5es interpessoais por causa da fauna, sim, vemos dimens\u00f5es humanas das intera\u00e7\u00f5es com a natureza o tempo todo, em todo o lugar. Livros, filmes e m\u00fasicas s\u00e3o materiais riqu\u00edssimos e t\u00edtulos com aves, infinitos. Se duvidar, escute com aten\u00e7\u00e3o \u201cAssum preto\u201d ou \u201cAsa-branca\u201d, de Luiz Gonzaga.<\/p>\n<p>O filme \u201cOs p\u00e1ssaros\u201d n\u00e3o tem trilha sonora composta por m\u00fasicas! Quando sabemos que \u00e9 o canto das aves grande parte de sua atra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ter trilha sonora \u00e9 de destacar. A surpresa de ser atacado por aves (\u201cp\u00e1ssaros n\u00e3o saem por a\u00ed atacando pessoas\u201d, \u00e9 uma das falas no filme), a transi\u00e7\u00e3o da beleza e placidez das aves para uma agressividade espont\u00e2nea que n\u00e3o poupa nem crian\u00e7as, tornam este filme aterrador e, como j\u00e1 foi, sujeito a v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es, pol\u00edticas, m\u00edsticas e psicanal\u00edticas.<\/p>\n<p>Basta uma breve viagem no mundo das artes para ilustrar como as aves est\u00e3o presentes n\u00e3o s\u00f3 no mundo natural, \u00e0s vezes convivendo com o ser humano, mas, sobretudo no imagin\u00e1rio humano. Aves s\u00e3o retratadas desde as pinturas rupestres, como \u00e9 o caso de emas (<em>Rhea americana<\/em>) nos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos da Serra da Capivara (<a href=\"http:\/\/revistas.ung.br\/index.php\/geociencias\/article\/view\/965\/1206\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">em quantidade s\u00e3o o segundo grupo faun\u00edstico mais representado<\/a>\u00a0at\u00e9 personagens de Pok\u00e9mon (inspirados em pombas, corujas, pica-paus e tucanos).<\/p>\n<p>Entre os animais vertebrados, as aves constituem o grupo mais conhecido em todo o mundo e, talvez, o mais amplo em significados culturais. S\u00e3o antigas, surgiram no Per\u00edodo Jur\u00e1ssico, h\u00e1 mais de 100 milh\u00f5es de anos e hoje conhecemos cerca de 11 mil esp\u00e9cies. Justamente por existirem tantas refer\u00eancias, torna-se um desafio escrever sobre essas rela\u00e7\u00f5es. As aves traduzem valores filos\u00f3ficos, religiosos, m\u00edticos, financeiros, cient\u00edficos, art\u00edsticos, para nomear alguns (Figura 1). A capacidade de voo, os cantos complexos, as cores intensas e vibrantes, a variedade de comportamentos alimentares (comem de frutos, gr\u00e3os, insetos, lagartos, cobras, caramujos \u00e0 carni\u00e7a) e reprodutivos (de monog\u00e2micas e que cuidam dos filhotes a parasitas de ninhos e polig\u00e2micas), as formas como dan\u00e7am, cantam, nadam e at\u00e9 \u201cfalam\u201d(!) s\u00e3o algumas das caracter\u00edsticas inerentes desse grupo de esp\u00e9cies que as tornam proeminentes.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-large my-5\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-110274 jetpack-lazy-image shadow jetpack-lazy-image--handled\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Figura-1-1024x597.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Figura-1-1024x597.jpg 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Figura-1-300x175.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Figura-1-1536x896.jpg 1536w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Figura-1-640x373.jpg 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Figura-1-1320x770.jpg 1320w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Figura-1.jpg 1920w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"373\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption class=\"text-right text-muted font-italic small mt-2\">Figura 1<\/figcaption><\/figure>\n<p>A mitologia eg\u00edpcia traz v\u00e1rias aves como animais sagrados, representa\u00e7\u00f5es divinas e iconogr\u00e1ficas. Atrav\u00e9s das aves associadas a essas representa\u00e7\u00f5es entende-se parte desse simbolismo religioso, bem como das rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas e as aves. Muitas das aves utilizadas eram aves aqu\u00e1ticas que passavam pelo Egito em sua rota migrat\u00f3ria. \u00c0s aves eram atribu\u00eddos simbolismos de prote\u00e7\u00e3o, eternidade, transforma\u00e7\u00e3o, conex\u00e3o e at\u00e9 de coletivo\/grupo. Ainda no contexto religioso, o Candombl\u00e9 tamb\u00e9m recorre \u00e0s aves como simbolismo do sagrado. As aves tamb\u00e9m s\u00e3o referidas como met\u00e1foras e s\u00edmbolos em passagens b\u00edblicas do Velho Testamento, inclusive com cita\u00e7\u00f5es fazendo refer\u00eancia tanto para condi\u00e7\u00f5es em que se repudiava a ca\u00e7a e captura (por exemplo, quando em fase de reprodu\u00e7\u00e3o), quanto para esp\u00e9cies consideradas impuras e, portanto, impr\u00f3prias para o consumo, especialmente as que se alimentavam de animais mortos.<\/p>\n<p>Do et\u00e9reo ao mundo f\u00edsico, as aves constitu\u00edram fonte importante de alimenta\u00e7\u00e3o. Historicamente, por sua abund\u00e2ncia e disponibilidade, se tornaram um dos recursos da fauna mais utilizados no mundo. Segundo os dados de um podcast relevante sobre o assunto, \u201cAves da Col\u00f4mbia\u201d, em torno de 1.200 esp\u00e9cies de aves s\u00e3o utilizadas para alimenta\u00e7\u00e3o em todo o mundo. A evid\u00eancia mais clara da import\u00e2ncia das aves para a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 o alto consumo de aves dom\u00e9sticas, principalmente o frango \u2013 embora o frango pare\u00e7a ter sido destitu\u00eddo de sua identidade de \u201cave\u201d quando desvinculado do comportamento humano de ca\u00e7a e sendo transformado em commodity. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Prote\u00edna Animal, o consumo de carne de frango no Brasil em 2020 foi de 45 kg\/habitante, na frente do consumo de carne su\u00edna, de 16 kg\/habitante.<\/p>\n<h3>Passarinhadas<\/h3>\n<p>No sul do Brasil e no interior do estado de S\u00e3o Paulo, fam\u00edlias de imigrantes italianos tinham como h\u00e1bito alimentar-se da \u201cpassarinhada\u201d. Pombos, jacu, nambu, e sabi\u00e1s eram refogados ou assados depois de uma pr\u00e1tica familiar de ca\u00e7a. Com o tempo, esta pr\u00e1tica, que primeiramente era realizada para sobreviv\u00eancia, passou a ser recreativa, reunindo a fam\u00edlia. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.revista-pub.org\/post\/na-05\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">podcast Narrativas do Antropoceno<\/a>\u00a0traz aspectos interessantes das aves utilizadas na alimenta\u00e7\u00e3o, principalmente sob uma vis\u00e3o cultural e da legisla\u00e7\u00e3o. Interessante que ornit\u00f3logos, guias tur\u00edsticos e conservacionistas se apropriaram do verbo \u201cpassarinhar\u201d, ressignificando-o. Esse termo, \u201cpassarinhar\u201d, deixa de referir-se \u00e0 retirada de aves da natureza e passa a ser uma alus\u00e3o \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o das aves em vida livre. A adrenalina (e fasc\u00ednio) do ca\u00e7ador, substitu\u00edda pela adrenalina (e fasc\u00ednio) do observador.<\/p>\n<p>O semi\u00e1rido do nordeste do Brasil traz um cen\u00e1rio especialmente interessante para a investiga\u00e7\u00e3o das motiva\u00e7\u00f5es da ca\u00e7a de aves para alimenta\u00e7\u00e3o. No semi\u00e1rido baiano (Casa Nova), por exemplo, ao serem questionados sobre as motiva\u00e7\u00f5es para ca\u00e7ar aves, 25% dos\u00a0<a href=\"https:\/\/ethnobioconservation.com\/index.php\/ebc\/article\/view\/303\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">moradores atribuem exclusivamente a necessidade alimentar (fonte proteica) e 55 % atribuem motiva\u00e7\u00f5es culturais (sabor e como parte de reuni\u00f5es sociais<\/a>. Esses dados corroboram com o entendimento de que muito dessa pr\u00e1tica n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o somente associada a uma necessidade de um recurso alimentar.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de citar que a cria\u00e7\u00e3o de aves para alimenta\u00e7\u00e3o traz quest\u00f5es importantes relacionadas \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. Alguns v\u00edrus da gripe avi\u00e1ria, por exemplo, podem ser zoon\u00f3ticos, ou seja, podem cruzar a barreira da esp\u00e9cie e \u2018saltar\u2019 para humanos. Assim, sem a devida vigil\u00e2ncia e controle, h\u00e1 o potencial de causarem novas epidemias, em um ciclo que pode envolver tamb\u00e9m aves silvestres e migrat\u00f3rias \u2013 dificultando o controle da doen\u00e7a. Lembramos que isso j\u00e1 aconteceu em 2005 com o v\u00edrus Influenza H5N1 e recentemente, alertas nesse sentido foram levantados para o\u00a0<a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/372\/6544\/784\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">v\u00edrus Influenza H5N8<\/a>.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-110283 jetpack-lazy-image shadow jetpack-lazy-image--handled alignnone\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado-640x427.jpg 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado-1320x880.jpg 1320w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/engaiolado.jpg 1920w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" data-lazy-loaded=\"1\" \/>Foto: Fl\u00e1via de Campos Martins<\/div>\n<p>Em torno de 40% das esp\u00e9cies conhecidas de aves no mundo s\u00e3o relacionadas a alguma utilidade. Por exemplo, os pombais como estruturas da arquitetura vernacular, subsistem em aldeias e vilas do nordeste de Tr\u00e1s-os-Montes, Portugal, como testemunhos do potencial alimentar e de comunicabilidade que os pombos ofereciam \u00e0s comunidades humanas ali fixadas centenas de anos atr\u00e1s. Ou a pr\u00e1tica da falcoaria por sheiks do presente, que remete a uma atividade da qual se desconhece quando come\u00e7ou. Trechos da\u00a0<em>Epopeia de Gilgam\u00e9s<\/em>\u00a0parecem sugerir que capturar e treinar falc\u00f5es para ca\u00e7ar animais, que os humanos n\u00e3o conseguiam usando armadilhas ou flechas, remontam a mais de quatro mil anos atr\u00e1s, no Iraque. Hoje, alguns sheiks trocaram o uso de aves silvestres por aves criadas em cativeiro, para temporadas de ca\u00e7a e corridas, ao mesmo tempo em que\u00a0<a href=\"https:\/\/nationalgeographic.pt\/natureza\/grandes-reportagens\/1936-falcoes-os-senhores-dos-ceus\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">afirmam desenvolver um novo modelo de prote\u00e7\u00e3o deste grupo<\/a>. Sim, em muitos casos, os comportamentos naturais das aves podem contribuir com a conserva\u00e7\u00e3o destas esp\u00e9cies, como \u00e9 o caso da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.naturezaeconservacao.eco.br\/2016\/08\/jacu-bird-coffee-cafe-produzido-partir.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">conserva\u00e7\u00e3o do Jacu (<em>Penelope\u00a0<\/em>sp.). Ap\u00f3s descobrir que os gr\u00e3os de caf\u00e9 ao serem comidos pelo jacu e defecados ganhavam sabor especial e alta qualidade, sua popula\u00e7\u00e3o foi conservada, pois lhe foi atribu\u00eddo um valor como esp\u00e9cie viva<\/a>.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es humanas com os pombos nos mostram a complexidade cultural em que se estabelecem, com grandes varia\u00e7\u00f5es espaciais e temporais. Nos centros urbanos as pombas dom\u00e9sticas,\u00a0<em>Columba livia<\/em>, esp\u00e9cie ex\u00f3tica no Brasil, se aglomeram nas pra\u00e7as e locais onde h\u00e1 lixo e restos de alimento. Desencadeiam sentimentos extremos nas pessoas, do medo e avers\u00e3o ao encanto e associa\u00e7\u00e3o com representa\u00e7\u00f5es de paz e espiritualidade. J\u00e1 nas zonas rurais, mais afastadas das cidades, as rolinhas e juritis, esp\u00e9cies de pombas nativas, s\u00e3o ca\u00e7adas para alimenta\u00e7\u00e3o. Na internet \u00e9 poss\u00edvel encontrar ofertas de arriba\u00e7\u00e3 ou avoante (<em>Zenaida auriculata<\/em>) para comprar, not\u00edcias de indiv\u00edduos ca\u00e7ados e imagens das pessoas se admirando com os voos da esp\u00e9cie em bandos, nos per\u00edodos de migra\u00e7\u00e3o. No estudo de Casa Nova, Bahia, a arriba\u00e7\u00e3 foi a esp\u00e9cie com maior valor de uso entre as aves citadas e a \u00fanica citada com tr\u00eas tipos de usos: alimentar, estima\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio. \u00c9 a esp\u00e9cie da m\u00fasica\u00a0<em>Asa Branca<\/em>\u00a0de Luiz Gonzaga, que mencionamos no in\u00edcio. Sem d\u00favida algumas dessas esp\u00e9cies podem ser consideradas como esp\u00e9cies-chave culturais, esp\u00e9cies importantes no imagin\u00e1rio das pessoas e que caracterizam a identidade cultural de comunidades humanas.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio de tantos contrastes de representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e culturais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s aves, reflex\u00f5es sobre a sua conserva\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentais. Uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica, conduzida por Ben\u00edtez-Lop\u00e9z e colaboradores (2017), compara as abund\u00e2ncias de aves em \u00e1reas ca\u00e7adas e n\u00e3o ca\u00e7adas em regi\u00f5es tropicais e identifica uma redu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 58% em um raio de 7 km das \u00e1reas de ca\u00e7a. Segundo a Birdlife International (2018) 13% das esp\u00e9cies de aves atualmente t\u00eam algum n\u00edvel de amea\u00e7a de extin\u00e7\u00e3o. A ca\u00e7a e captura s\u00e3o respons\u00e1veis pela amea\u00e7a a 35% dessas esp\u00e9cies. Possivelmente o olhar sobre as aves lan\u00e7ado por uma pessoa que vive na cidade \u00e9 diferente da pessoa que vive no campo, subordinado a vari\u00e1veis tais como seu conhecimento, proximidade afetiva, psicol\u00f3gica e cognitiva com o mundo rural, \u00e1reas naturais e esp\u00e9cies silvestres, para referir apenas alguns. Os valores de ambos os grupos foram constru\u00eddos distintivamente, podendo para alguns a ave representar sustento\/recurso e para outros representar mercadoria\/prazer.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como promover a coexist\u00eancia (n\u00e3o hier\u00e1rquica) entre as aves e as pessoas? Precisaremos sacrificar esp\u00e9cies, como j\u00e1 ocorreu, em detrimento de comportamentos, normas e valores culturais? N\u00e3o temos respostas prontas, mas as Dimens\u00f5es Humanas surgem com o objetivo de promov\u00ea-la. Nesse caminho, nenhuma esp\u00e9cie tem mais valor do que outra, o direito \u00e0 exist\u00eancia \u00e9 comum a todas. Esse status de coexist\u00eancia, em que o conflito entre as partes \u00e9 substitu\u00eddo por benef\u00edcios para as partes, \u00e9 dif\u00edcil de determinar, uma vez que, do lado humano, exige disposi\u00e7\u00e3o a aceitar preju\u00edzo econ\u00f4mico, por exemplo, ou disposi\u00e7\u00e3o a mudar comportamentos seculares. Mas \u00e9 poss\u00edvel, e \u00e9 onde reside a beleza deste mundo diverso. A contempla\u00e7\u00e3o da natureza e a observa\u00e7\u00e3o das aves (o\u00a0<em>birdwatching<\/em>) em seu ambiente natural s\u00e3o op\u00e7\u00f5es mais sustent\u00e1veis do que as rela\u00e7\u00f5es de uso que reduzem as popula\u00e7\u00f5es de aves. F\u00e1bio\u00a0<a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/analises\/o-pais-onde-alimentar-passarinhos-e-crime\/\" data-wpel-link=\"internal\">Olmos traz uma reflex\u00e3o importante sobre diferentes pr\u00e1ticas e implica\u00e7\u00f5es de alternativas<\/a>\u00a0para aproximar as pessoas da avifauna, atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o das aves em comedouros e outras formas de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCvxHXvMaTv_hrLwoaPfpPrg\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">Cantos da Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0\u00e9 uma s\u00e9rie de v\u00eddeos exibindo a diversidade de esp\u00e9cies e comportamentos em ambiente urbano e nos diferentes ecossistemas da Amaz\u00f4nia, sob uma bel\u00edssima e cuidadosa produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse esp\u00edrito art\u00edstico e inspirador que convidamos o leitor a olhar pelas janelas, a tirar o fone de ouvido em algum momento da caminhada, da corrida; a observar; e a dialogar para construirmos novas rela\u00e7\u00f5es com a avifauna, repleta de esp\u00e9cies coloridas, intrigantes e surpreendentes. Que todas as aves representadas pela figura da F\u00eanix possam ressurgir das cinzas de um passado de amea\u00e7a e que novas rela\u00e7\u00f5es entre as aves e as pessoas iluminem o nosso futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como promover a coexist\u00eancia (n\u00e3o hier\u00e1rquica) entre as aves e as pessoas? Precisaremos sacrificar esp\u00e9cies,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":147174,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/passaro_eco.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Como promover a coexist\u00eancia (n\u00e3o hier\u00e1rquica) entre as aves e as pessoas? 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