{"id":146691,"date":"2021-05-23T17:36:50","date_gmt":"2021-05-23T20:36:50","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=146691"},"modified":"2021-05-23T17:36:50","modified_gmt":"2021-05-23T20:36:50","slug":"licenca-para-ser-livre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/licenca-para-ser-livre\/","title":{"rendered":"Licen\u00e7a para ser livre!"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3e6c24ae-5bdd-4405-8e8d-7db35ad70fe2.jpg\" width=\"640\" height=\"428\" \/><\/p>\n<p>A primeira prova que temos da domestica\u00e7\u00e3o de cavalos \u00e9 do ano 4.000 a.C., na Ucr\u00e2nia, segundo Jared Diamond no seu livro\u00a0<em>Armas, Germes e A\u00e7o<\/em>. Em seu estudo, ele diz que, de todas as esp\u00e9cies de animais existentes acima de 37 quilos, somente 14 se mostraram aderentes \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o e, destas, somente cinco se espalharam e passaram a ser utilizadas em todo o mundo. S\u00e3o elas: a vaca, a ovelha, a cabra, o porco e o cavalo. O que esses animais t\u00eam em comum? As caracter\u00edsticas sociais, tais como: vivem em rebanhos; ocupam a mesma pastagem; t\u00eam uma ordem estereotipada; e mant\u00eam uma hierarquia de domina\u00e7\u00e3o bem desenvolvida, que foi assumida pelos humanos. Ser domesticado significou perder a liberdade e ter a procria\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o controladas. Uma vida particularmente dif\u00edcil, n\u00e3o exatamente pelo \u201cmodo como eles morrem, mas, acima de tudo, o modo como eles vivem\u201d, como diz\u00a0 Yuval Noah Harari no seu livro\u00a0<em>Sapiens<\/em>.<\/p>\n<p>No momento, irei me deter na figura do cavalo. Pela sua forte estrutura e agilidade, foi exaustivamente utilizado, exaurido ao m\u00e1ximo de suas for\u00e7as. Cavalos est\u00e3o presentes ao longo do livro\u00a0<em>Guerra e Paz<\/em>, de Leon Tolst\u00f3i. Mesmo sendo coadjuvantes da hist\u00f3ria, n\u00e3o passam despercebidos em cenas dram\u00e1ticas, quando \u201cpor toda a parte havia cad\u00e1veres de cavalos e de homens, em variado estado de decomposi\u00e7\u00e3o (p\u00e1gina 1290 \u2013 Cap\u00edtulo XIII). Foi decisivo no campo e como meio de transporte. Impressionante o relato de Andrea Wulf, no livro\u00a0<em>A inven\u00e7\u00e3o da Natureza<\/em>, quando narra a \u00faltima viagem do naturalista alem\u00e3o Alexander Von Humbold, em 1829. Com um comboio de tr\u00eas carruagens, Humbold \u201cpercorreu 16.093 quil\u00f4metros em menos de seis meses, passando por 658 postos de correio, e usando 12.244 cavalos\u201d.<\/p>\n<p>Estamos no ano 2021. As guerras n\u00e3o s\u00e3o mais com cavalarias. N\u00e3o viajamos mais a cavalo. Desde a d\u00e9cada de 60, a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 urbana. Nossas cidades s\u00e3o \u00e1ridas, ruidosas, cimentadas e sem arboriza\u00e7\u00e3o. Nesses centros urbanos, n\u00e3o h\u00e1 mais \u00e1reas de pastagens, com sombra e \u00e1gua. Quando velhos, cavalos se tornam incapazes para puxar a carga. Para onde v\u00e3o? Quem ir\u00e1 cuidar? Afinal, estamos falando de um mam\u00edfero de, em m\u00e9dia, 500 quilos, que demanda espa\u00e7o e dinheiro para acessar um veterin\u00e1rio, comprar rem\u00e9dios e se ocupar em aliment\u00e1-lo diariamente. S\u00e3o in\u00fameros os casos dos \u201cdescartados\u201d, quando perdem a utilidade. S\u00e3o resgatados, muitas vezes, desorientados, doentes, feridos e esfomeados. A fatura tem ca\u00eddo no colo de volunt\u00e1rios, socorristas ou de ONGs que, sem estrutura e recursos, est\u00e3o na linha da frente atuando no resgate.<\/p>\n<p>Esse problema tem um forte apelo social, devido a sua interface com aquele que guia a carro\u00e7a: o carroceiro, que ainda depende do cavalo para a sua sobreviv\u00eancia. Alguns grandes centros urbanos, felizmente, j\u00e1 legislaram no sentido de realizar a substitui\u00e7\u00e3o gradual das carro\u00e7as para ve\u00edculos de tra\u00e7\u00e3o motorizada. O importante \u00e9 que as alternativas para a solu\u00e7\u00e3o do problema, sejam dignas, humanit\u00e1rias e justas com os carroceiros e com os cavalos.<\/p>\n<p>A humanidade, tardiamente, se desculpou diante de muitas atrocidades do passado e que hoje nos envergonham. Pelo reconhecimento a todo o bem que a humanidade, at\u00e9 agora, usufruiu \u00e0 custa dos cavalos, chegou a hora de dar a eles a licen\u00e7a para que sejam livres e abolir, definitivamente, essa explora\u00e7\u00e3o do nosso meio. Quero acreditar que, se fomos capazes da proeza de levar para Marte o rob\u00f4\u00a0<em>Perseverance<\/em>\u00a0da NASA, ap\u00f3s quase sete meses de viagem, teremos tamb\u00e9m a capacidade de dar uma resposta adequada a esse quadro que envolve a mis\u00e9ria do carroceiro e o sofrimento e escravid\u00e3o do animal. Que possamos escolher a via do di\u00e1logo, da liberta\u00e7\u00e3o, da compaix\u00e3o e da responsabilidade social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira prova que temos da domestica\u00e7\u00e3o de cavalos \u00e9 do ano 4.000 a.C., na<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A primeira prova que temos da domestica\u00e7\u00e3o de cavalos \u00e9 do ano 4.000 a.C., na","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146691"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=146691"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146691\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":146692,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146691\/revisions\/146692"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=146691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=146691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=146691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}