{"id":146276,"date":"2021-05-16T13:33:37","date_gmt":"2021-05-16T16:33:37","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=146276"},"modified":"2021-05-16T13:34:29","modified_gmt":"2021-05-16T16:34:29","slug":"uma-cacada-no-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/uma-cacada-no-sertao\/","title":{"rendered":"Uma Ca\u00e7ada no Sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/agenciaeconordeste.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/trilha-serra-das-almas-maristela-crispim.jpg\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p>Era o inverno de 1950. Choveu muito naquele ano. Os\u00a0<strong>a\u00e7udes<\/strong>\u00a0sangraram, as\u00a0<strong>lagoas<\/strong>\u00a0encheram, a terra estava encharcada, os\u00a0<strong>caminhos embrejados<\/strong>. Est\u00e1vamos em per\u00edodo de lua cheia. Meu pai falou:<\/p>\n<p>\u2013 Hoje os pebas v\u00e3o sair da toca. Vamos fazer uma\u00a0<strong>ca\u00e7ada<\/strong>.<\/p>\n<p>Eu estava muito animado. Com\u00a0<strong>seis anos<\/strong>, nunca tinha sa\u00eddo para uma ca\u00e7ada. Senti-me inclu\u00eddo desde o in\u00edcio, n\u00e3o passou pela minha cabe\u00e7a que meu pai n\u00e3o pensasse em me levar. Ele n\u00e3o reclamou, eu fui.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos de casa a\u00ed pelas oito horas da noite,\u00a0<strong>sob o claro da lua<\/strong>. Passamos pela parede do a\u00e7udinho, que j\u00e1 estava sangrando. Isto em si j\u00e1 era para mim\u00a0<strong>uma grande aventura<\/strong>. Apertei a m\u00e3o de meu pai. Atravessamos um ro\u00e7ado de milho e feij\u00e3o. O milho j\u00e1 estava mais alto do que eu, mas ainda n\u00e3o estava bonecando. Os p\u00e9s j\u00e1 estavam molhados, porque as alpercatas n\u00e3o os protegiam das \u00e1reas de brejo. Entramos numa regi\u00e3o de\u00a0<strong>Caatinga original<\/strong>, com \u00e1rvores grandes de\u00a0<strong>sabi\u00e1<\/strong>. Meu pai seguiu uma trilha que ele conhecia, mas onde eu n\u00e3o havia passado. Ele tinha o cuidado de explicar para mim o que estava acontecendo:<\/p>\n<p>\u2013 Logo na frente tem um\u00a0<strong>buraco de tatu<\/strong>. Logo que ele perceber que estamos aqui, ele vai andar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel para entrar l\u00e1 e desaparecer. Mas o cachorro vai segui-lo, vai meter o focinho no buraco e, se ele n\u00e3o estiver muito longe, vai sair com ele e nos entregar.<\/p>\n<p>Ele nunca chamava o nosso cachorro pelo nome dele, era como se ele n\u00e3o tivesse um nome. Mas n\u00f3s todos o cham\u00e1vamos esse cachorro de Rei.<\/p>\n<p>Aquela ca\u00e7ada foi infrut\u00edfera. N\u00e3o conseguimos ca\u00e7ar nenhum\u00a0<strong>peba<\/strong>. No entanto, ficou gravada na minha mem\u00f3ria. Normalmente, eu iria para a cama, quero dizer, para a rede \u00e0s oito horas. Em vez disso, estava ca\u00e7ando com o meu pai e o Rei. Embora ele n\u00e3o fosse propriamente um animal de estima\u00e7\u00e3o, criado dentro de casa, pois o Rei ficava fora \u00e0 noite, rondando a casa para nos dar not\u00edcia de qualquer perigo, a gente tinha muito amor por aquele animal. Ele ficava alegre ao brincar conosco, mas latia para pessoas desconhecidas.<\/p>\n<p>Os pebas provavelmente j\u00e1 tinham sido ca\u00e7ados.\u00a0<strong>N\u00f3s, os homens, somos uma esp\u00e9cie muito degradadora<\/strong>. Somos a \u00fanica esp\u00e9cie que mata as outras por simples prazer.\u00a0<strong>A ca\u00e7ada \u00e9 um esporte, o animal morto \u00e9 uma presa<\/strong>. A gente se diverte. Isso vem acontecendo desde os prim\u00f3rdios. As ca\u00e7adas reais j\u00e1 aconteciam nos tempos antigos, na P\u00e9rsia e na Gr\u00e9cia. Acontecem ainda nos dias de hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira, pois, que a esp\u00e9cie humana se tenha espalhado sobre a terra e\u00a0<strong>dominado as demais esp\u00e9cies, reduzindo drasticamente suas popula\u00e7\u00f5es, extinguindo outras<\/strong>. J<strong>\u00e1 os animais carn\u00edvoros s\u00f3 atacam quando est\u00e3o com fome<\/strong>.\u00a0<strong>A natureza tem um equil\u00edbrio que n\u00f3s j\u00e1 rompemos<\/strong>. J\u00e1 utilizamos, a cada ano, muito mais do que a Terra pode disponibilizar em termos de capacidade de reposi\u00e7\u00e3o, de nascimento e crescimento de plantas, de animais que nascem e animais que morrem, ca\u00e7ados pelo homem, de manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da Caatinga original, quando n\u00e3o deixa o solo totalmente desnudo, d\u00e1 lugar a uma\u00a0<strong>Caatinga secund\u00e1ria<\/strong>. Na nossa fazenda, essa Caatinga secund\u00e1ria era formada por\u00a0<strong>marmeleiros<\/strong>\u00a0e por\u00a0<strong>juremas<\/strong>, com grande redu\u00e7\u00e3o na diversidade das esp\u00e9cies encontradas. Nos ro\u00e7ados e nas capoeiras de\u00a0<strong>algod\u00e3o<\/strong>, a dissemina\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>carrapicho<\/strong>\u00a0estava por todo lado.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, eu n\u00e3o pensava nessas coisas. Estava feliz de ficar ao lado do meu pai, de parecer importante para os objetivos dele.<\/p>\n<p>Bom, voltemos \u00e0 ca\u00e7ada. Meu pai achou que estava ficando tarde, que dev\u00edamos regressar \u00e0 casa. Eu me sentia seguro, sob a prote\u00e7\u00e3o dele. O tempo estava nublado, poderia chover mais tarde. E, de fato, choveu, logo depois que chegamos em casa. Mas, ent\u00e3o, j\u00e1 est\u00e1vamos protegidos, deitados sob o som da chuva que ca\u00eda no telhado da casa.<\/p>\n<p><img class=\"alignright\" src=\"https:\/\/agenciaeconordeste.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/antonio-rocha-magalhaes-233x300.jpg\" \/><em>Por\u00a0<strong>Antonio Rocha Magalh\u00e3es<\/strong><\/em><br \/>\n<em>Economista<\/em><br \/>\n<em>Ex-Secret\u00e1rio de Planejamento do Cear\u00e1<\/em><br \/>\n<em>armagalhaes@gmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era o inverno de 1950. Choveu muito naquele ano. Os\u00a0a\u00e7udes\u00a0sangraram, as\u00a0lagoas\u00a0encheram, a terra estava encharcada,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Era o inverno de 1950. Choveu muito naquele ano. Os\u00a0a\u00e7udes\u00a0sangraram, as\u00a0lagoas\u00a0encheram, a terra estava encharcada,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146276"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=146276"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146276\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":146278,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146276\/revisions\/146278"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=146276"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=146276"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=146276"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}