{"id":145924,"date":"2021-05-10T08:29:29","date_gmt":"2021-05-10T11:29:29","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=145924"},"modified":"2021-05-10T08:29:29","modified_gmt":"2021-05-10T11:29:29","slug":"descobertos-fragmentos-raros-do-manto-terrestre-expostos-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/descobertos-fragmentos-raros-do-manto-terrestre-expostos-nos-eua\/","title":{"rendered":"Descobertos fragmentos raros do manto terrestre expostos nos EUA"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"css-ju6on1\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-145925\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O conjunto de rochas distribu\u00eddas por Baltimore provavelmente representa um segmento do leito pr\u00e9-hist\u00f3rico de um oceano que j\u00e1 n\u00e3o existe mais.<\/h2>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p>Sobre um trecho de neve lamacenta nos arredores de Baltimore, Maryland, nos Estados Unidos, abaixei-me para apanhar um peda\u00e7o do planeta que deveria estar oculto quil\u00f4metros abaixo de meus p\u00e9s.<\/p>\n<p>Naquele dia frio de fevereiro, sa\u00ed com dois ge\u00f3logos para verificar um trecho exposto do manto terrestre. Embora essa camada rochosa seja normalmente encontrada entre a crosta e o n\u00facleo do planeta, um segmento se projetou para fora em meio aos arbustos da floresta de Maryland, oferecendo aos cientistas uma oportunidade rara de estudar o interior da Terra de perto.<\/p>\n<p>Ainda mais intrigante \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica incomum da rocha, que sugere que essa parte do manto, juntamente com peda\u00e7os da crosta inferior dispersos ao redor de Baltimore, j\u00e1 fez parte do leito de um oceano agora desaparecido.<\/p>\n<div class=\"ngart-img__cntr\" tabindex=\"0\" role=\"button\"><picture class=\"resp-img-cntr css-1i8rpod\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"George Guice, mineralogista do Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural do Instituto Smithsoniano, examina camadas de rocha ...\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/bmc-8.jpg?w=710&amp;h=947\" alt=\"George Guice, mineralogista do Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural do Instituto Smithsoniano, examina camadas de rocha ...\" width=\"640\" height=\"854\" \/><\/picture><\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont\">\n<div class=\"ngart-img__cont__copy\">\n<p>George Guice, mineralogista do Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural do Instituto Smithsoniano, examina camadas de rocha a oeste de Baltimore, no estado de Maryland, outrora situadas na divis\u00e3o entre o manto e a crosta terrestre.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont__author\">FOTO DE\u00a0<span class=\"ngart-img__cont--strong\">JOE BROWNING-HANSON<\/span><\/div>\n<\/div>\n<p>Ao longo dos cerca de 490 milh\u00f5es de anos desde sua forma\u00e7\u00e3o, esses fragmentos da Terra foram deformados pelo deslocamento das placas tect\u00f4nicas e aquecidos por correntes de fluidos quentes que atravessaram as fendas, alterando sua composi\u00e7\u00e3o e brilho. A rocha do manto geralmente \u00e9 repleta de cristais verdes cintilantes do mineral olivina, mas a rocha em minhas m\u00e3os apresentava um aspecto surpreendentemente comum: possu\u00eda manchas marrom-amareladas e alguns pontos pretos esparsos.<\/p>\n<p>\u201cEssas rochas passaram por processos extremos\u201d, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/naturalhistory.si.edu\/staff\/george-guice\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">George Guice<\/a>, mineralogista do Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural do Instituto Smithsoniano.<\/p>\n<p>Por causa dessa deforma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica, os cientistas tentaram por mais de um s\u00e9culo determinar as origens exatas desse conjunto de rochas. Agora, Guice e seus colegas adotaram uma nova perspectiva e realizaram an\u00e1lises qu\u00edmicas de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o no conjunto de afloramentos rochosos em Baltimore. Seu estudo demonstra que o grupo aparentemente banal de rochas j\u00e1 esteve oculto sob o antigo oceano de J\u00e1peto.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de meio bilh\u00e3o de anos, esse oceano possu\u00eda uma extens\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/topics\/earth-and-planetary-sciences\/iapetus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entre 4,8 mil e oito mil quil\u00f4metros e atravessava<\/a>\u00a0a atual Costa Leste dos Estados Unidos. Grande parte do territ\u00f3rio atual dos Montes Apalaches ocupava um lado do oceano, ao passo que trechos da Costa Leste atual ocupavam o outro lado.<\/p>\n<p>\u201cHavia um oceano enorme entre esses locais e parte desse oceano cobria Baltimore\u201d, conta Guice, autor principal de um estudo recente\u00a0<a href=\"https:\/\/pubs.geoscienceworld.org\/gsa\/geosphere\/article\/17\/2\/561\/594550\/Suprasubduction-zone-ophiolite-fragments-in-the\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que descreve a descoberta no peri\u00f3dico\u00a0<em>Geosphere<\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria do nosso planeta, os oceanos se revelaram inconstantes, surgindo e desaparecendo ao longo dos tempos \u00e0 medida que seus leitos oce\u00e2nicos retornam \u00e0s profundezas do planeta em zonas de subduc\u00e7\u00e3o, onde uma placa tect\u00f4nica afunda sob a outra. Mas, ocasionalmente, segmentos do leito oce\u00e2nico, como o grupo de rochas em Baltimore, s\u00e3o lan\u00e7ados \u00e0 superf\u00edcie. Essas rochas fornecem um raro vislumbre sobre os processos oce\u00e2nicos antigos e podem ajudar os cientistas a entender melhor o futuro do Oceano Atl\u00e2ntico que, algum dia, provavelmente desaparecer\u00e1 tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cAcontecer\u00e1 com o Atl\u00e2ntico o que aconteceu com o J\u00e1peto\u201d, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/eps.jhu.edu\/directory\/daniel-viete\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Daniel Viete<\/a>, coautor do estudo e ge\u00f3logo especializado em processos tect\u00f4nicos da Universidade Johns Hopkins em Baltimore. \u201c\u00c9 essa dan\u00e7a eterna de fragmentos continentais, que se mant\u00e9m na superf\u00edcie da Terra.\u201d<\/p>\n<h3>O fasc\u00ednio do brilho verde<\/h3>\n<p>Guice h\u00e1 muito busca rochas verdes brilhantes, conhecidas pelos ge\u00f3logos como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/topics\/agricultural-and-biological-sciences\/ultramafic-rocks\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ultram\u00e1ficas<\/a>. S\u00e3o ricas em magn\u00e9sio e comp\u00f5em a maior parte do nosso planeta na forma do manto terrestre. Mas peda\u00e7os do manto s\u00e3o raros na superf\u00edcie e as rochas ultram\u00e1ficas podem se formar de diferentes maneiras, como em grandes c\u00e2maras de magma em cristaliza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, s\u00e3o extremamente dif\u00edceis de estudar.<\/p>\n<p>Rochas ultram\u00e1ficas se formam nas profundezas sob altas temperaturas e press\u00f5es, assim seus minerais n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1veis perto da superf\u00edcie da Terra. Nesse ambiente superficial, costumam ficar expostas a correntes de fluidos quentes que atravessam as fendas, o que transforma sua composi\u00e7\u00e3o mineral, como pode ser observado nas rochas dispersas ao redor de Baltimore. Segundo Guice, compreender a hist\u00f3ria das rochas por meio dessas modifica\u00e7\u00f5es, \u00e9 como enxergar atrav\u00e9s de uma neblina espessa.<\/p>\n<p>\u201cFico cansado s\u00f3 de pensar\u201d, conta ele com uma mistura de des\u00e2nimo e humor.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img ngart-img--medium\">\n<div class=\"ngart-img__cntr\" tabindex=\"0\" role=\"button\"><picture class=\"resp-img-cntr css-1ocsxc4\"><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=320&amp;h=214\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 320px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=360&amp;h=240\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 360px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=430&amp;h=287\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 430px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=500&amp;h=334\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 500px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=768&amp;h=512\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=900&amp;h=600\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 900px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=1024&amp;h=683\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=664&amp;h=443\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 1280px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=710&amp;h=474\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 1600px)\" \/><source title=\"rock\" srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.webp?w=710&amp;h=474\" type=\"image\/webp\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"rock\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/mwh_6925.jpg?w=710&amp;h=474\" alt=\"rock\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/picture><\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont\">\n<div class=\"ngart-img__cont__copy\">\n<p>Guice segura um fragmento do manto, apontando para um min\u00fasculo cristal preto de espin\u00e9lio \u2014 o \u00fanico mineral da rocha que sobreviveu praticamente intacto a milh\u00f5es de anos. A composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica desses cristais cont\u00e9m vest\u00edgios fundamentais que indicam a forma\u00e7\u00e3o original da rocha sob um antigo leito oce\u00e2nico.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont__author\">FOTO DE\u00a0<span class=\"ngart-img__cont--strong\">MAYA WEI-HAAS, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p>Quando soube das curiosas rochas ultram\u00e1ficas em Baltimore, ficou ansioso para saber mais. Logo depois de se mudar para Washington, D.C. em agosto de 2019, ele tomou um trem para se encontrar com Viete e outros pesquisadores da Johns Hopkins. Todos se apertaram em um micro-\u00f4nibus que partiu para um local conhecido como Soldiers Delight.<\/p>\n<p>Guice me levou a esse mesmo ponto. Ao seguir seu ve\u00edculo SUV prata alugado at\u00e9 o local, longe do denso centro urbano de Baltimore, observei a paisagem sofrer uma mudan\u00e7a not\u00e1vel. A vegeta\u00e7\u00e3o mudou de uma variedade de plantas herb\u00e1ceas e \u00e1rvores frondosas para campos gramados est\u00e9reis cobertos com carvalhos e pinheiros subdesenvolvidos. A diferen\u00e7a na vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 reflexo da mudan\u00e7a geol\u00f3gica na regi\u00e3o, indicando rochas com excesso de magn\u00e9sio e\u00a0<a href=\"https:\/\/dnr.maryland.gov\/wildlife\/Pages\/NaturalAreas\/Central\/Soldiers-Delight.aspx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">defici\u00eancia em c\u00e1lcio<\/a>\u00a0para a maioria das plantas. Hav\u00edamos chegado ao manto.<\/p>\n<p>Muitos j\u00e1 haviam insinuado que essas pedras de apar\u00eancia comum j\u00e1 estiveram sob um antigo leito oce\u00e2nico, o que demonstra evidentemente que passaram despercebidas por gera\u00e7\u00f5es de cientistas. Segmentos da crosta oce\u00e2nica e do manto subterr\u00e2neo empurrados em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 superf\u00edcie terrestre s\u00e3o conhecidos como ofiolitos, que tamb\u00e9m s\u00e3o encontrados em outros locais em todo o mundo, como uma sequ\u00eancia em Om\u00e3, onde \u00e9 poss\u00edvel caminhar do manto at\u00e9 a crosta.<\/p>\n<p>Outros ofiolitos tamb\u00e9m foram identificados na regi\u00e3o norte dos Montes Apalaches, atravessando as fronteiras entre os Estados Unidos e o Canad\u00e1 e aflorando novamente na Irlanda, no Reino Unido e at\u00e9 na Noruega \u2014 a\u00a0<a href=\"https:\/\/iat-sia.org\/the-trail\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mesma cordilheira original<\/a>, agora conhecida por diferentes nomes. Todas essas forma\u00e7\u00f5es atualmente distintas se empilharam em um engavetamento entre\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nps.gov\/subjects\/geology\/plate-tectonics-collisional-mountain-ranges.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">300 e 500 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s,<\/a>\u00a0quando v\u00e1rios continentes colidiram formando o que viria a ser o supercontinente de Pangeia. Hoje, essas paisagens montanhosas se estendem por mais de cinco mil quil\u00f4metros, mas o cintur\u00e3o original de montanhas pode ter sido ainda mais longo, conta Viete.<\/p>\n<p>Entretanto, ao contr\u00e1rio dos demais ofiolitos conhecidos, o grupo de rochas em Baltimore est\u00e1 disperso e desordenado, com uma metr\u00f3pole extensa sobre as rochas. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel visualizar a sequ\u00eancia, apenas fragmentos menores\u201d, observa Guice.<\/p>\n<h3>Jornada de meio bilh\u00e3o de anos<\/h3>\n<p>Desde sua primeira expedi\u00e7\u00e3o a Soldiers Delight, Guice e seus colegas coletaram diversas amostras de rochas em Baltimore. Estabeleceram uma colabora\u00e7\u00e3o com uma equipe que escavava uma bacia aberta em uma regi\u00e3o destinada a se tornar um reservat\u00f3rio de \u00e1gua, identificada posteriormente como correspondente \u00e0 divis\u00e3o entre o manto e a crosta. As escavadeiras extra\u00edram peda\u00e7os de rochas cinzentas do solo, facilitando muito o trabalho dos cientistas.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1 por toda parte, h\u00e1 pilhas e mais pilhas\u201d, disse Viete, apontando para os montes de rochas ao caminharmos pelo estacionamento do local cerca de um ano depois.<\/p>\n<p>Em novembro de 2019, os pesquisadores tamb\u00e9m passaram uma tarde ensolarada coletando amostras de rochas no Forest Park Golf Course, campo de golfe localizado onde tamb\u00e9m esteve a divis\u00e3o entre o manto e a crosta. As rochas pareciam artisticamente ordenadas entre o capim silvestre pr\u00f3ximo ao gramado bem aparado do nono buraco. A equipe extraiu rochas da \u00e1rea exposta a marteladas, interrompendo por educa\u00e7\u00e3o sempre que um grupo de jogadores de golfe passava para uma tacada.<\/p>\n<p>Ao todo, foram coletadas 19 amostras de rocha ultram\u00e1fica em cinco pontos, depois levadas ao laborat\u00f3rio para uma an\u00e1lise mais detalhada. A diferen\u00e7a, explica Guice, est\u00e1 na composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica do manto. O manto superior normalmente \u00e9 derretido de forma gradual, mas minerais diferentes derretem sob diferentes temperaturas. Assim, quando o manto derrete parcialmente, \u00e9 previs\u00edvel que diversos elementos se percam de modo progressivo, o que cria uma marca qu\u00edmica caracter\u00edstica.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o que n\u00e3o havia sido identificado nessa regi\u00e3o dos Apalaches\u201d, afirma Guice.<\/p>\n<p>Ao analisar esses e outros vest\u00edgios qu\u00edmicos, os cientistas identificaram a hist\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o do sistema. H\u00e1 quase meio bilh\u00e3o de anos, o oceano de J\u00e1peto come\u00e7ou a encolher devido a uma zona de subduc\u00e7\u00e3o originada na costa do antigo continente Laur\u00eancia, que inclu\u00eda o centro da atual Am\u00e9rica do Norte. Essa subduc\u00e7\u00e3o provocou um empilhamento continental que deformou a superf\u00edcie e ergueu os imponentes Apalaches, que, segundo acreditam alguns cientistas, j\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nps.gov\/subjects\/geology\/plate-tectonics-collisional-mountain-ranges.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tiveram altitude compar\u00e1vel \u00e0 dos Himalaias<\/a>.<\/p>\n<p>As movimenta\u00e7\u00f5es violentas, de acordo com a nova pesquisa, tamb\u00e9m arrancaram um peda\u00e7o do fundo do mar, lan\u00e7ando fragmentos espalhados pela regi\u00e3o atual de Baltimore \u2014 um dos poucos locais onde ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar evid\u00eancias de um oceano h\u00e1 muito desaparecido.<\/p>\n<h3>Hist\u00f3rias das rochas \u00e0 nossa volta<\/h3>\n<p>Apesar das antigas suspeitas acerca da origem das rochas curiosas de Baltimore, o novo estudo apresenta os melhores dados obtidos at\u00e9 hoje para confirmar essas suspeitas.<\/p>\n<p>\u201cVisitamos alguns desses locais h\u00e1 d\u00e9cadas em nossas expedi\u00e7\u00f5es de petrologia\u201d, conta\u00a0<a href=\"https:\/\/www.geol.umd.edu\/richardwalker\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Richard Walker<\/a>, geoqu\u00edmico da Universidade de Maryland, que n\u00e3o integrou a equipe do estudo. \u201cFoi \u00f3timo ler um artigo que finalmente fornecesse algumas evid\u00eancias geoqu\u00edmicas para nossas suposi\u00e7\u00f5es t\u00e3o antigas.\u201d<\/p>\n<p>Nem todas as pe\u00e7as desse quebra-cabe\u00e7a geol\u00f3gico se encaixam com perfei\u00e7\u00e3o. Mas em um sistema t\u00e3o tectonicamente aquecido e comprimido quanto o das rochas de Baltimore, s\u00e3o esperadas algumas excentricidades, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.geol.umd.edu\/valeriefinlayson\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Val Finlayson<\/a>, geoqu\u00edmica da Universidade de Maryland, que n\u00e3o participou do estudo. \u201cNa maioria das vezes, a realidade neste planeta \u00e9 muito mais complexa do que gostar\u00edamos\u201d, conta ela, acrescentando como ficou impressionada com a vasta quantidade de informa\u00e7\u00f5es obtidas pela equipe sobre as rochas com amplas deforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para Guice, o estudo \u00e9 um importante ponto de partida para a identifica\u00e7\u00e3o de peda\u00e7os do leito oce\u00e2nico ainda mais antigos e mais deformados que foram empurrados em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 superf\u00edcie terrestre. Essas sequ\u00eancias s\u00e3o caracter\u00edsticas das placas tect\u00f4nicas e, portanto, ao identificar os ofiolitos mais antigos, explica ele, ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar ind\u00edcios do in\u00edcio desse processo geol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m aborda uma quest\u00e3o maior sobre a subduc\u00e7\u00e3o, afirma Viete. \u00c9 um mist\u00e9rio de longa data como exatamente s\u00e3o formadas as zonas de subduc\u00e7\u00e3o. Uma hip\u00f3tese \u00e9 que muitas dessas zonas n\u00e3o sejam originadas especificamente em uma regi\u00e3o e sim sejam propagadas de uma regi\u00e3o a outra. Seria algo semelhante a rasgar um tecido. Quando inteiro, o material \u00e9 dif\u00edcil de rasgar, mas, se houver um pequeno recorte em uma lateral, todo o tecido se rasga facilmente.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de ofiolitos foi associada anteriormente a\u00a0<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s00410-011-0638-z\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">zonas de subduc\u00e7\u00e3o formadas em seus prim\u00f3rdios<\/a>, assim, se for obtida uma data precisa do conjunto de ofiolitos ao longo dos Apalaches, Viete acredita que ter\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o da velocidade de propaga\u00e7\u00e3o de um corte geol\u00f3gico, transformando uma zona de subduc\u00e7\u00e3o em milhares de quil\u00f4metros de atividade tect\u00f4nica. Tal fen\u00f4meno despertaria uma s\u00e9rie de vulc\u00f5es, semelhante ao que ocorre no c\u00edrculo de fogo no atual Oceano Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas buscas cient\u00edficas, a hist\u00f3ria serve como um lembrete das bases geol\u00f3gicas da sociedade moderna. As rochas deixaram um legado que moldou Baltimore como \u00e9 atualmente.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.mgs.md.gov\/geology\/geology_tour\/soldiers_delight.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Com abund\u00e2ncia do mineral cromita<\/a>, esses antigos fragmentos do fundo do mar alimentaram a ambi\u00e7\u00e3o de Isaac Tyson Jr. no in\u00edcio do s\u00e9culo 19. Ele come\u00e7ou a comprar terras repletas de rochas marrom-amareladas, inaugurando sua primeira f\u00e1brica de cromo em 1845 e lan\u00e7ando Maryland no mapa como a capital mundial do cromo naquela \u00e9poca. Embora a descoberta tenha sido uma d\u00e1diva financeira, tamb\u00e9m produziu uma forma cancer\u00edgena de cromo\u00a0que\u00a0<a href=\"https:\/\/engineering.jhu.edu\/ctfr\/majorprojects\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ainda afeta a cidade nos dias atuais.<\/a><\/p>\n<p>Muito antes de humanos caminharem sobre a Terra, uma dan\u00e7a tect\u00f4nica lan\u00e7ou as bases para as ind\u00fastrias modernas e a circula\u00e7\u00e3o de pessoas ao redor do mundo. Embora as cidades tenham pavimentado grande parte desse passado, ocultando o solo sob estacionamentos e rodovias, essas hist\u00f3rias remotas ainda est\u00e3o gravadas na pedra \u2014 basta saber onde procurar.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e3o nas constru\u00e7\u00f5es e sob nossos p\u00e9s\u201d, afirma Viete. \u201cAs rochas est\u00e3o \u00e0 nossa volta.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conjunto de rochas distribu\u00eddas por Baltimore provavelmente representa um segmento do leito pr\u00e9-hist\u00f3rico de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":145925,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/manto_sagrado.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O conjunto de rochas distribu\u00eddas por Baltimore provavelmente representa um segmento do leito pr\u00e9-hist\u00f3rico de","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145924"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=145924"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145924\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":145926,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145924\/revisions\/145926"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/145925"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=145924"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=145924"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=145924"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}