{"id":145414,"date":"2021-04-27T12:30:31","date_gmt":"2021-04-27T15:30:31","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=145414"},"modified":"2021-04-27T09:18:22","modified_gmt":"2021-04-27T12:18:22","slug":"microbiota-intestinal-pode-ser-o-mais-novo-recurso-no-combate-aos-virus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/microbiota-intestinal-pode-ser-o-mais-novo-recurso-no-combate-aos-virus\/","title":{"rendered":"Microbiota intestinal pode ser o mais novo recurso no combate aos v\u00edrus"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"css-ju6on1\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/microbio_intestinal.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-145415\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/microbio_intestinal-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/microbio_intestinal-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/microbio_intestinal.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Em busca de alternativas para combater infec\u00e7\u00f5es virais, incluindo a covid-19, microbi\u00f3logos est\u00e3o recorrendo \u00e0s bact\u00e9rias j\u00e1 existentes no intestino humano.<\/h2>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p>O estilo parasit\u00e1rio dos v\u00edrus os torna um inimigo desafiador. Os tratamentos tradicionais, como medicamentos antivirais e vacinas, s\u00e3o dif\u00edceis de desenvolver, podem produzir efeitos colaterais indesej\u00e1veis e ainda podem perder efic\u00e1cia se os v\u00edrus sofrerem muta\u00e7\u00e3o. Alguns cientistas agora buscam inova\u00e7\u00f5es e destacam que n\u00e3o estamos sozinhos nessa luta. Dentro de nosso organismo ou sobre sua superf\u00edcie, vivem trilh\u00f5es de micr\u00f3bios \u2014 conhecidos coletivamente como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/magazine\/article\/how-trillions-of-microbes-affect-every-stage-of-our-life-from-birth-to-old-age-feature\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">microbioma humano<\/a>\u00a0\u2014 que dependem do corpo humano para sua sobreviv\u00eancia. Os pesquisadores est\u00e3o atualmente analisando se podem utilizar esses micr\u00f3bios para refor\u00e7ar o sistema imune e colaborar com o combate aos invasores virais.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os cientistas aprenderam muito sobre a microbiota intestinal, sobretudo sua flora bacteriana. J\u00e1 existe um consenso cient\u00edfico de que as bact\u00e9rias intestinais auxiliam na digest\u00e3o e produzem alguns nutrientes. Tudo indica que tamb\u00e9m se comuniquem com outras partes do corpo, como o c\u00e9rebro, por meio de sinais qu\u00edmicos. Por exemplo, as bact\u00e9rias intestinais produzem neurotransmissores como a serotonina, que podem regular o humor ou os estados mentais. Elas tamb\u00e9m podem afetar o sistema imune, o que chamou a aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores de doen\u00e7as infecciosas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img ngart-img--medium\">\n<div class=\"ngart-img__cntr\" tabindex=\"0\" role=\"button\"><picture class=\"resp-img-cntr css-xdbfd6\"><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=320&amp;h=240\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 320px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=360&amp;h=270\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 360px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=430&amp;h=323\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 430px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=500&amp;h=375\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 500px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=768&amp;h=576\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=900&amp;h=675\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 900px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=1024&amp;h=768\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=664&amp;h=498\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 1280px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=710&amp;h=533\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 1600px)\" \/><source title=\"GutBiome\" srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.webp?w=710&amp;h=533\" type=\"image\/webp\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"GutBiome\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/gutbiome_2745739.jpg?w=710&amp;h=533\" alt=\"GutBiome\" width=\"639\" height=\"480\" \/><\/picture><\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont\">\n<div class=\"ngart-img__cont__copy\">\n<p>Na imagem da\u00a0<em>Escherichia coli<\/em>\u00a0em microsc\u00f3pio eletr\u00f4nico de varredura, s\u00e3o observados bastonetes amarelos agrupados em substrato roxo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont__author\">FOTO DE\u00a0<span class=\"ngart-img__cont--strong\">MARTIN OEGGERLI<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p>\u201cImagine micr\u00f3bios capazes de impedir a invas\u00e3o de um v\u00edrus a uma c\u00e9lula ou micr\u00f3bios que se comunicam com c\u00e9lulas, tornando-as menos desej\u00e1veis para o v\u00edrus se fixar\u201d, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/medicine.iu.edu\/faculty\/906\/kaplan-mark\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mark Kaplan<\/a>, chefe do departamento de microbiologia e imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana. \u201cManipular esses canais de comunica\u00e7\u00e3o pode nos oferecer um arsenal para ajudar o corpo humano a combater os v\u00edrus de forma mais eficiente.\u201d<\/p>\n<p>O tormento da covid-19, causada pelo v\u00edrus Sars-CoV-2, aumentou o interesse por uma poss\u00edvel associa\u00e7\u00e3o entre os microbiomas das pessoas e sua capacidade de combater viroses. A covid-19 produz poucos ou nenhum sintoma em muitas pessoas, mas pode ser fatal para outras. O motivo dessas rea\u00e7\u00f5es completamente discrepantes \u00e0 infec\u00e7\u00e3o por Sars-CoV-2 permanece um mist\u00e9rio, mas novos estudos sugerem que o estado do\u00a0<a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1136\/gutjnl-2020-323020\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">microbioma do paciente pode ser um fator contribuinte<\/a>.<\/p>\n<p>A covid-19 geralmente \u00e9 mais grave em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cdc.gov\/coronavirus\/2019-ncov\/need-extra-precautions\/people-at-increased-risk.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">idosos, bem como em pessoas de qualquer idade com doen\u00e7as preexistentes<\/a>,\u00a0como obesidade, diabetes e c\u00e2ncer. Essas doen\u00e7as preexistentes tamb\u00e9m j\u00e1 foram associadas a diferen\u00e7as no microbioma das pessoas. E uma\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/33436436\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">s\u00e9rie de<\/a>\u00a0estudos preliminares documentou\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32442562\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">microbiomas incomuns em pacientes internados com covid-19<\/a>. Se houver uma forte associa\u00e7\u00e3o entre os micr\u00f3bios intestinais e a gravidade da covid-19, h\u00e1 a possiblidade de alterar o microbioma para combater o Sars-CoV-2 e outros v\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cSe for considerado que as bact\u00e9rias intestinais s\u00e3o os guardi\u00f5es entre os alimentos e nosso corpo\u201d, pondera Kaplan, \u201c\u00e9 poss\u00edvel notar que alguns guardi\u00f5es podem ser mais eficazes do que outros no combate aos intrusos\u201d.<\/p>\n<h3>Como o microbioma intestinal ajuda<\/h3>\n<p>Centenas de esp\u00e9cies diferentes de bact\u00e9rias colonizam o intestino. Essa comunidade cont\u00e9m cerca de\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/27541692\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">40 trilh\u00f5es de c\u00e9lulas<\/a>, o que corresponde a pouco mais do que a quantidade de c\u00e9lulas do corpo humano. Essa flora enorme pode contribuir para a elimina\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus por meio de tr\u00eas mecanismos principais: forma\u00e7\u00e3o de uma barreira aos invasores, implanta\u00e7\u00e3o de um ataque avan\u00e7ado e suporte ao sistema imune.<\/p>\n<p>Para entender a primeira linha de defesa, lembre-se de que seu intestino \u00e9 como um tubo. Nesse tubo, o alimento \u00e9 degradado para que os nutrientes possam ser absorvidos. Ao mesmo tempo, s\u00e3o gerados metab\u00f3litos contendo compostos bioqu\u00edmicos prejudiciais e tamb\u00e9m est\u00e3o presentes pat\u00f3genos consumidos inadvertidamente. Para direcionar os metab\u00f3litos e micr\u00f3bios patog\u00eanicos diretamente \u00e0 rota de sa\u00edda, as c\u00e9lulas da parede interna do intestino produzem uma camada protetora constitu\u00edda de muco. As bact\u00e9rias intestinais parecem\u00a0<a href=\"http:\/\/doi.org\/10.1093\/gastro\/goy052\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">influenciar a produ\u00e7\u00e3o dessa importante barreira de muco<\/a>, o que poderia\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/22475261\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">impedir que os v\u00edrus<\/a>\u00a0no intestino atingissem outras partes do corpo.<\/p>\n<p>Mas danos a essa camada de muco podem tornar o intestino perme\u00e1vel, o que permite que os metab\u00f3litos e pat\u00f3genos possivelmente perigosos escapem a outros sistemas org\u00e2nicos, onde podem causar infec\u00e7\u00f5es ou inflama\u00e7\u00f5es nocivas. \u201c\u00c9 bastante prov\u00e1vel que os v\u00edrus tenham acesso a outros \u00f3rg\u00e3os al\u00e9m dos pulm\u00f5es e do intestino ao atravessar um intestino perme\u00e1vel\u201d, explica Heenam Stanley Kim, microbi\u00f3logo da Universidade da Coreia em Seul.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/28588585\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Um intestino perme\u00e1vel<\/a>\u00a0tamb\u00e9m pode promover doen\u00e7as autoimunes. Por isso, alguns cientistas sugeriram que dist\u00farbios na microbiota intestinal podem estar ligados \u00e0 chamada \u201ctempestade de citocinas\u201d, uma resposta imune descontrolada que se acredita ser um\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/33569053\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">poss\u00edvel fator causador de casos graves de covid-19<\/a>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos pulm\u00f5es e do intestino, o\u00a0<a href=\"http:\/\/doi.org\/10.1056\/NEJMc2011400\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">v\u00edrus Sars-CoV-2 foi detectado no<\/a>\u00a0f\u00edgado, rim, cora\u00e7\u00e3o e c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 cada vez mais evid\u00eancias de que\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/27694885\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">micr\u00f3bios no intestino podem afetar a sa\u00fade dos pulm\u00f5es<\/a>\u00a0por meio de comunica\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas. Em macacos, por exemplo, os pesquisadores constataram que o\u00a0<a href=\"http:\/\/doi.org\/10.1080\/19490976.2021.1893113\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Sars-CoV-2 provoca altera\u00e7\u00f5es no microbioma intestinal<\/a>\u00a0at\u00e9 o d\u00e9cimo dia de infec\u00e7\u00e3o; algumas das altera\u00e7\u00f5es persistem por mais de 26 dias. Vale destacar que macacos infectados apresentaram uma redu\u00e7\u00e3o na quantidade de esp\u00e9cies de bact\u00e9rias conhecidas por produzirem\u00a0<a href=\"http:\/\/doi.org\/10.1038\/cti.2016.17\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e1cidos graxos de cadeia curta<\/a>\u00a0(AGCCs), mol\u00e9culas importantes que podem regular o sistema imune. Estudos em ratos revelaram que AGCCs produzidos por micr\u00f3bios intestinais circulam na corrente sangu\u00ednea e chegam a outras \u00e1reas do corpo, como pulm\u00f5es,\u00a0<a href=\"http:\/\/doi.org\/10.1038\/s41467-019-11152-6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">protegendo os animais de v\u00edrus respirat\u00f3rios<\/a>.<\/p>\n<p>O microbioma tamb\u00e9m pode combater v\u00edrus ao produzir compostos qu\u00edmicos que interferem no ciclo de vida viral. Por exemplo, algumas bact\u00e9rias produzem toxinas denominadas bacteriocinas para combater outras cepas concorrentes de bact\u00e9rias. Mas estudos em culturas de c\u00e9lulas em laborat\u00f3rio sugerem que essas bacteriocinas tamb\u00e9m podem inibir as atividades de alguns v\u00edrus. As bact\u00e9rias\u00a0<em>Streptomycetes\u00a0<\/em>produzem uma bacteriocina, denominada\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/26575624\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">duramicina, que bloqueia a entrada\u00a0<\/a>do v\u00edrus-do-nilo-ocidental, da dengue e do ebola em suas c\u00e9lulas hospedeiras. Outras bacteriocinas\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/25087911\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">interrompem a replica\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0dos\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/12719003\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">v\u00edrus da herpes simples<\/a>.<\/p>\n<p>Um terceiro mecanismo pelo qual o microbioma pode colaborar com o combate aos v\u00edrus \u00e9 por seu refor\u00e7o ao sistema imune. Um estudo demonstrou que indiv\u00edduos que consumiram\u00a0<em>Lactobacillus<\/em>, bact\u00e9ria comumente encontrada em alimentos fermentados e iogurtes, em conjunto com uma dose de refor\u00e7o da vacina contra a poliomielite, produziram\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/15578195\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">anticorpos neutralizantes do v\u00edrus da poliomielite em uma taxa mais elevada<\/a>.<\/p>\n<p>Outro estudo, liderado por\u00a0<a href=\"https:\/\/kasperlab.hms.harvard.edu\/people\/dennis-l-kasper\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dennis Kasper<\/a>,\u00a0imunologista do Instituto Blavatnik da Faculdade de Medicina de Harvard, comprovou que bact\u00e9rias intestinais conhecidas como\u00a0<em>bacteroidetes<\/em>\u00a0estimulam\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/33212011\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a libera\u00e7\u00e3o de interferons por c\u00e9lulas imunes intestinais<\/a>. Os interferons s\u00e3o fatores importantes que aumentam a rea\u00e7\u00e3o do organismo aos v\u00edrus e ajudam a eliminar as c\u00e9lulas infectadas. Quando o microbioma se desequilibra ou se torna disbi\u00f3tico, nossas defesas imunol\u00f3gicas podem ficar comprometidas. As \u201c<em>bacteroidetes\u00a0<\/em>constituem entre 40% e 50% das mais de 200 esp\u00e9cies de micr\u00f3bios existentes no intestino da maioria das pessoas\u201d, explica Kasper. \u201cPessoas disbi\u00f3ticas e sem esse equil\u00edbrio normal de micr\u00f3bios ficam mais suscet\u00edveis a diversas doen\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>\u201cTalvez em pessoas disbi\u00f3ticas com quantidades menores dessas\u00a0<em>bacteroidetes<\/em>\u00a0no intestino, haja menos resist\u00eancia ao ser encontrado um v\u00edrus e, portanto, uma infec\u00e7\u00e3o mais grave\u201d, acrescenta Kasper.<\/p>\n<h3>Interferindo no microbioma<\/h3>\n<p>Diante das evid\u00eancias crescentes do papel do microbioma no fortalecimento do sistema imune para o combate aos v\u00edrus, os pesquisadores est\u00e3o buscando formas de aplicar essas descobertas em terapias e diagn\u00f3sticos.<\/p>\n<p>Como algumas esp\u00e9cies de bact\u00e9rias intestinais foram associadas a piores desfechos em infec\u00e7\u00f5es virais, alguns pesquisadores propuseram utilizar essas bact\u00e9rias como \u201cbiomarcadores\u201d ou indicadores de diagn\u00f3stico. Por exemplo,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.umassmed.edu\/maldonado-contreraslab\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ana Maldonado-Contreras<\/a>,\u00a0microbi\u00f3loga da Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts, relatou recentemente\u00a0<a href=\"https:\/\/theconversation.com\/a-healthy-microbiome-builds-a-strong-immune-system-that-could-help-defeat-covid-19-145668\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">em uma pesquisa preliminar<\/a>\u00a0que a bact\u00e9ria intestinal\u00a0<em>Enterococcus faecalis<\/em>, tamb\u00e9m relacionada \u00e0 inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, \u00e9 um\u00a0<a href=\"https:\/\/theconversation.com\/a-healthy-microbiome-builds-a-strong-immune-system-that-could-help-defeat-covid-19-145668\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">indicador confi\u00e1vel de casos graves de covid-19<\/a>. Maldonado-Contreras afirma que exames para detectar a presen\u00e7a dessa esp\u00e9cie de bact\u00e9ria \u201cpodem ser um meio eficiente para identificar pacientes com maior probabilidade de desenvolver uma forma grave de infec\u00e7\u00e3o que requer maior aten\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica\u201d.<\/p>\n<p>Em termos de tratamento, os pesquisadores obtiveram \u00eaxito not\u00e1vel no transplante de microbiomas saud\u00e1veis em pacientes sem um microbioma saud\u00e1vel. O procedimento, denominado\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/23152734\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">transplante de microbiota fecal<\/a>,\u00a0foi aprovado apenas para o tratamento de casos de colite bacteriana causada por infec\u00e7\u00e3o por\u00a0<em>Clostridium difficile<\/em>\u00a0(CDI, na sigla em ingl\u00eas). O transplante de microbiota fecal cura com sucesso mais de 90% dos pacientes com CDI, o que sugere que outras doen\u00e7as tamb\u00e9m podem ser tratadas com essa t\u00e9cnica. \u201cSe a sa\u00fade intestinal afetar o progn\u00f3stico de covid-19, \u00e9 preciso se valer disso para um melhor tratamento e preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a\u201d, argumenta Kim. \u201cAcredito que o transplante de microbiota fecal possa ser estudado como tratamento, ao menos para pacientes com um progn\u00f3stico ruim.\u201d<\/p>\n<p>Outra forma inovadora de\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/31175044\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">alterar o microbioma pode ser por meio de bacteri\u00f3fagos<\/a>, que s\u00e3o v\u00edrus que infectam e matam determinadas esp\u00e9cies de bact\u00e9rias. Em tese, os bacteri\u00f3fagos poderiam ser administrados a pacientes para eliminar esp\u00e9cies bacterianas do microbioma que suprimem a capacidade do sistema imune de combater viroses. Em outras palavras, um v\u00edrus que destr\u00f3i algumas bact\u00e9rias seria utilizado para combater outro v\u00edrus que infecta c\u00e9lulas humanas por meio da altera\u00e7\u00e3o das bact\u00e9rias colonizadoras do intestino humano.<\/p>\n<p>Em vez de remodelar o microbioma, alguns pesquisadores preferem uma abordagem mais refinada. Se as mol\u00e9culas ben\u00e9ficas produzidas por uma determinada esp\u00e9cie de bact\u00e9ria intestinal puderem ser identificadas, poderiam ser fabricadas e administradas na forma de p\u00edlulas.<\/p>\n<p>Por exemplo, as bact\u00e9rias\u00a0<em>bacteroidetes<\/em>,\u00a0mencionadas acima, possuem uma mol\u00e9cula espec\u00edfica na superf\u00edcie de suas c\u00e9lulas denominada glicolip\u00eddio, o qual estimula a libera\u00e7\u00e3o de interferons antivirais por parte das c\u00e9lulas intestinais do sistema imune. \u201cUma possibilidade promissora de nossa descoberta \u00e9 que o glicolip\u00eddio indutor do interferon do tipo I poderia ser sintetizado e talvez at\u00e9 utilizado como profilaxia em indiv\u00edduos de risco\u201d, afirma Kasper. Sua equipe testou essa hip\u00f3tese e concluiu que ratos poderiam ser protegidos de infec\u00e7\u00f5es virais ao\u00a0ser\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/33212011\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">acrescentado esse glicolip\u00eddio bacteriano em sua \u00e1gua<\/a>.<\/p>\n<p>A forma de intera\u00e7\u00e3o entre o microbioma e os v\u00edrus \u00e9 complexa. A maioria dos estudos vem se concentrando na flora bacteriana do microbioma humano, relegando amplamente as contribui\u00e7\u00f5es de fungos, protozo\u00e1rios, bacteri\u00f3fagos e outros v\u00edrus intestinais a um segundo plano. Mas novas pesquisas apontam para novas estrat\u00e9gias terap\u00eauticas que poderiam ser exploradas na batalha contra as doen\u00e7as infecciosas.<\/p>\n<h3>Cultivando um microbioma saud\u00e1vel<\/h3>\n<p>Como o conhecimento do microbioma intestinal ainda est\u00e1 em seus prim\u00f3rdios, alguns argumentam que \u00e9 prematuro chegar a conclus\u00f5es categ\u00f3ricas sobre seu papel no combate a infec\u00e7\u00f5es virais como a da covid-19.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/phylogenomics.me\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jonathan Eisen<\/a>, microbi\u00f3logo diretor do programa especial de pesquisas em microbioma da Universidade da Calif\u00f3rnia em Davis, adverte que s\u00e3o necess\u00e1rias mais pesquisas. \u201cEstou preocupado com as alega\u00e7\u00f5es de uma poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o causal entre o microbioma e o risco de infec\u00e7\u00e3o e de casos graves de covid-19 sem comprova\u00e7\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o causal.\u201d At\u00e9 o momento, foram observadas apenas correla\u00e7\u00f5es entre a infec\u00e7\u00e3o por covid-19, marcadores de inflama\u00e7\u00e3o e o microbioma, segundo Eisen. O desafio \u00e9 determinar qual \u00e9 o fator causador dessas correla\u00e7\u00f5es \u2014 elas podem, por exemplo, ser causadas por mudan\u00e7as diet\u00e9ticas ocorridas quando algu\u00e9m adoece ou ainda podem ser devidas \u00e0 resposta imune \u00e0 infec\u00e7\u00e3o. \u201cContudo, neste momento, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel concluir que o microbioma desempenhe algum papel direto sobre quest\u00f5es relacionadas \u00e0 covid-19.\u201d<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil fornecer instru\u00e7\u00f5es exatas sobre como aumentar o microbioma para uma maior resist\u00eancia a viroses. O microbioma de cada pessoa \u00e9 diferente, afetado por uma combina\u00e7\u00e3o complexa de fatores gen\u00e9ticos, diet\u00e9ticos e ambientais. H\u00e1 um consenso geral, entretanto, de que uma dieta rica em prebi\u00f3ticos e probi\u00f3ticos, junto com exerc\u00edcios f\u00edsicos regulares, ajude a promover um microbioma saud\u00e1vel e proteja contra a permeabilidade intestinal.<\/p>\n<p>Os prebi\u00f3ticos s\u00e3o um tipo de fibra encontrado apenas em vegetais e alguns suplementos. Alguns exemplos de alimentos ricos em fibras s\u00e3o alcachofras, aspargos, cebolas, feij\u00f5es e frutas vermelhas. \u201cOs prebi\u00f3ticos foram bastante estudados e foi demonstrado que melhoram a integridade intestinal\u201d, afirma Scott Anderson, jornalista m\u00e9dico, autor do livro\u00a0<em>The Psychobiotic Revolution\u00a0<\/em>(A Revolu\u00e7\u00e3o Psicobi\u00f3tica, em tradu\u00e7\u00e3o livre)<em>.\u00a0<\/em>Alimentos probi\u00f3ticos cont\u00eam bact\u00e9rias ou leveduras vivas ben\u00e9ficas \u00e0 sa\u00fade digestiva e incluem alimentos fermentados como kefir, chucrute, kimchi e iogurte.<\/p>\n<p>Quanto aos exerc\u00edcios f\u00edsicos, estudos em ratos demonstraram que\u00a0<a href=\"http:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0150502\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">exerc\u00edcios reduzem a inflama\u00e7\u00e3o e promovem a integridade intestinal<\/a>. \u201c\u00c9 de amplo conhecimento que exerc\u00edcios melhoram os n\u00edveis de AGCC ao equilibrar a microbiota, o que contribui para a nutri\u00e7\u00e3o e cicatriza\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas que revestem o intestino\u201d, acrescenta Anderson, o que, por sua vez, poderia prevenir complica\u00e7\u00f5es de infec\u00e7\u00f5es virais causadas por um intestino perme\u00e1vel.<\/p>\n<p>Kim espera que esses novos estudos ajudem a motivar as pessoas a cuidarem adequadamente de sua microbiota para se proteger contra infec\u00e7\u00f5es e doen\u00e7as inflamat\u00f3rias cr\u00f4nicas. \u201cO aumento do consumo de fibras \u00e9 uma forma eficaz de melhorar o microbioma intestinal e pode contribuir para um melhor tratamento e preven\u00e7\u00e3o de covid-19 no momento atual e tamb\u00e9m de doen\u00e7as cr\u00f4nicas ao longo da vida.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em busca de alternativas para combater infec\u00e7\u00f5es virais, incluindo a covid-19, microbi\u00f3logos est\u00e3o recorrendo 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