{"id":145215,"date":"2021-04-24T00:00:16","date_gmt":"2021-04-24T03:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=145215"},"modified":"2021-04-23T10:51:48","modified_gmt":"2021-04-23T13:51:48","slug":"entrevista-especial-com-franco-berardi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-franco-berardi\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Franco Berardi"},"content":{"rendered":"<h1><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/globo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-145217\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/globo.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/globo.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/globo-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/h1>\n<h1>A ruptura antropol\u00f3gica e o colapso econ\u00f4mico global. Oportunidades para recodificar as vidas.<\/h1>\n<p>A entrevista a seguir \u00e9 uma transcri\u00e7\u00e3o integral da confer\u00eancia de Franco Berardi no IHU, que integra a programa\u00e7\u00e3o do evento \u201cO mundo dist\u00f3pico do s\u00e9culo XXI. (In)sustentabilidades e os novos poss\u00edveis\u201d<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>devasta\u00e7\u00e3o ambiental, social e econ\u00f4mica<\/strong>\u00a0que nos conduziu \u00e0\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/607439-e-a-guerra-contra-a-terra-desembocou-em-uma-pandemia-global\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pandemia global<\/a>\u00a0que vivemos em escala planet\u00e1ria \u00e9 resultado, segundo sustenta\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/598374-voltar-a-normalidade-que-viviamos-e-perigoso-afirma-franco-berardi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Franco Berardi (Bifo)<\/a>, de \u201c40 anos de\u00a0<strong>agress\u00e3o neoliberal e financeira<\/strong>\u00a0que destru\u00edram antecipadamente as defesas imunit\u00e1rias da sociedade\u201d. A fala do pensador italiano foi proferida durante o evento\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/evento\/mundo-distopico-seculo-xxi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O mundo dist\u00f3pico do s\u00e9culo XXI. (In)sustentabilidades e os novos poss\u00edveis<\/a>, cuja transcri\u00e7\u00e3o \u00e9 publicada pelo\u00a0<strong>Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU<\/strong>. As perguntas que comp\u00f5em o texto foram formuladas pelo pr\u00f3prio autor.<\/p>\n<p>\u201cComo se sabe, as grandes empresas que produzem vacinas, por exemplo\u00a0<strong>Pfizer<\/strong>,\u00a0<strong>AstraZeneca<\/strong>,\u00a0<strong>Johnson &amp; Johnson<\/strong>, trabalharam com grande seguran\u00e7a, porque o dinheiro necess\u00e1rio \u00e0 pesquisa foi dado pela sociedade, por meio dos Estados Nacionais\u201d, pontua\u00a0<strong>Berardi<\/strong>\u00a0para sustentar que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para n\u00e3o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/608574-vacinas-apelo-a-draghi-suspender-as-patentes-para-salvar-todos-nos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">liberar o conhecimento cient\u00edfico do v\u00ednculo privado e do lucro<\/a>. \u201cAs\u00a0<strong>vacinas<\/strong>\u00a0foram produzidas pelo trabalho cognitivo, cient\u00edfico, t\u00e9cnico, intelectual e bra\u00e7al daqueles que t\u00eam compet\u00eancia t\u00e9cnica para tanto\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Uma das alternativas, sugere\u00a0<strong>Berardi<\/strong>, \u00e9 recuperar a\u00a0<strong>frugalidade<\/strong>\u00a0como forma de habitar o mundo. \u201cA palavra\u00a0<strong>frugalidade<\/strong>\u00a0se torna central na \u00e9poca que vivemos.\u00a0<strong>Frugalidade<\/strong>\u00a0n\u00e3o significa pobreza, ren\u00fancia, mas adequa\u00e7\u00e3o da nossa necessidade \u00e0s possibilidades produtivas da comunidade. Significa a possibilidade de autodefinir nossas necessidades e de sair do\u00a0<strong>ciclo destrutivo das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de publicidade e consumo<\/strong>, que provocam explora\u00e7\u00e3o, sofrimento mental e produ\u00e7\u00e3o constante de mis\u00e9ria\u201d, prop\u00f5e.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/franco_berard.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-145216\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/franco_berard.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"435\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/franco_berard.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/franco_berard-300x204.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a>Franco (Bifo) Berardi\u00a0durante o evento do IHU<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/589636-franco-berardi-provoca-e-depois-do-futuro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Franco Berardi<\/a>\u00a0\u00e9 graduado em Est\u00e9tica pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Bolonha. Passou pela Juventude Comunista, teve grande destaque no Movimento Oper\u00e1rio durante o Maio de 1968 e atuou no movimento anarco-sindicalista italiano nos anos 70. Fundou a revista A\/traverso (1975-1981) e fez parte da equipe da Radio Alice, primeira r\u00e1dio livre da It\u00e1lia (1976-1978). Foi professor de Teoria da M\u00eddia na Academia de Belas Artes de Brera, em Mil\u00e3o.<\/p>\n<h3>Confira a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como pensar o futuro diante da ruptura antropol\u00f3gica e do colapso econ\u00f4mico global?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Franco Berardi \u2013<\/strong>\u00a0Eu tenho consci\u00eancia de que, de fato,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/607803-300-mil-mortos-nao-existiu-nem-existe-gestao-das-crises-vividas-no-brasil-entrevista-especial-com-rubens-ricupero-roberto-romano-e-ruda-ricci\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">para o Brasil \u00e9 um momento de especial dramaticidade<\/a>. Tenho muitos amigos brasileiros e diariamente recebo mensagens sobre a desgra\u00e7a pol\u00edtica, representada pelo\u00a0<strong>golpe de Estado jur\u00eddico<\/strong>, que levou ao poder um perigoso incompetente. Ent\u00e3o eu sei que se trata de medir as avalia\u00e7\u00f5es e hip\u00f3teses sobre o futuro com a condi\u00e7\u00e3o na qual vivemos hoje. Por outro lado, se o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o dram\u00e1tica, a\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m est\u00e1 e a\u00a0<strong>It\u00e1lia<\/strong>\u00a0em especial.<\/p>\n<p>Deste ponto quero partir de uma considera\u00e7\u00e3o do que aprendemos com esta\u00a0<strong>pandemia<\/strong>\u00a0com a\u00a0<strong>vacina\u00e7\u00e3o em massa<\/strong>. Antes de mais nada, a humanidade n\u00e3o estava preparada para uma explos\u00e3o viral, mesmo que os cientistas, virologistas tenham anunciado isso anteriormente, em um livro de 2012, que falava antecipadamente o que acabamos experimentando em 2020. Mesmo assim, o mundo n\u00e3o estava preparado, por qu\u00ea? N\u00e3o porque n\u00e3o existiam instrumentos sociais, cient\u00edficos, farmacol\u00f3gicos para agir em casos como este, mas porque\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/606338-a-pandemia-demonstrou-as-consequencias-de-40-anos-de-neoliberalismo-avalia-joseph-stiglitz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">40 anos de agress\u00e3o neoliberal e financeira<\/a> destru\u00edram antecipadamente as defesas imunit\u00e1rias da sociedade.<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong>It\u00e1lia<\/strong>, nos \u00faltimos dez anos depois da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?client=internal-element-cse&amp;cx=001663938647112038785:048jb5ntigg&amp;q=http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571048-a-crise-financeira-e-a-implosao-das-ignorancias&amp;sa=U&amp;ved=2ahUKEwjP9oKtwpLwAhXFrpUCHb0GDXgQFjACegQICBAC&amp;usg=AOvVaw3XyA5bFS4kO4tCUozjUm8t\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">crise financeira de 2008<\/a>, como os bancos estavam mal, a sociedade inteira, os trabalhadores, tiveram que pagar as d\u00edvidas dos bancos. Ent\u00e3o foram cortados o or\u00e7amento da educa\u00e7\u00e3o em 8 bilh\u00f5es de euros e o da sa\u00fade em mais de 10 bilh\u00f5es de euros, fora os servi\u00e7os sociais. Tudo isso para tornar poss\u00edvel ao sistema banc\u00e1rio recome\u00e7ar o seu sistem\u00e1tico roubo que j\u00e1 existia antes e continuou depois. Isso n\u00e3o basta. Temos que considerar que h\u00e1 40 anos desde que uma senhora inglesa disse \u201cN\u00e3o existe nada que se possa chamar de sociedade, existem indiv\u00edduos, fam\u00edlias, empresas em conflito para obter lucro\u201d. Desde que\u00a0<strong>Margaret Thatcher<\/strong>\u00a0lan\u00e7ou a campanha de\u00a0<strong>transforma\u00e7\u00e3o neoliberal da economia<\/strong>, iniciou-se um processo de\u00a0<strong>privatiza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos servi\u00e7os<\/strong>\u00a0que haviam sido constru\u00eddos pelos trabalhadores para os trabalhadores, tais como a escola p\u00fablica, a sa\u00fade p\u00fablica, o transporte p\u00fablico, a comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica etc. Essa guinada privatista foi feita porque nos disseram que o interesse da maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 ser mais bem servida por quem busca o melhor lucro pessoal. Esse foi o esfor\u00e7o dos te\u00f3ricos neoliberais para convencer a sociedade de que o melhor para a nossa vida \u00e9 deix\u00e1-la\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/?q=300%20mil%20mortes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">na m\u00e3o de Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Goldman and Sachs, do Fundo Monet\u00e1rio Internacional &#8211; FMI<\/a>, porque eles se ocupar\u00e3o de n\u00f3s muito melhor (sic) do que poder\u00edamos fazer sozinhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para realizar o\u00a0<strong>processo de privatiza\u00e7\u00e3o<\/strong>, a\u00a0<strong>teoria neoliberal<\/strong>\u00a0afirmou que para garantir a inova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e a inova\u00e7\u00e3o farmacol\u00f3gica, da cria\u00e7\u00e3o das vacinas, por exemplo, \u00e9 necess\u00e1rio o lucro. \u00c9 inacredit\u00e1vel que todo o mundo pol\u00edtico e a maioria da sociedade tenham acreditado em f\u00e1bulas, mentiras, paralogismos, isto \u00e9, um racioc\u00ednio que parece verdadeiro, mas com premissas falsas.<\/p>\n<p>Como se sabe, as\u00a0<strong>grandes empresas que produzem vacinas<\/strong>, por exemplo\u00a0<strong>Pfizer<\/strong>,\u00a0<strong>AstraZeneca<\/strong>,\u00a0<strong>Johnson &amp; Johnson<\/strong>, trabalharam com grande seguran\u00e7a, porque o dinheiro necess\u00e1rio \u00e0 pesquisa foi dado pela sociedade, por meio dos Estados Nacionais. O investimento era garantido desde o in\u00edcio. Depois estas grandes empresas produziram a vacina e agora vendem para quem oferece mais. Na\u00a0<strong>It\u00e1lia<\/strong>, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/605986-fornecer-doses-a-todos-e-uma-meta-possivel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">vacina<\/a>\u00a0n\u00e3o chega. Por qu\u00ea? Porque vai para\u00a0<strong>Inglaterra<\/strong>,\u00a0<strong>Estados Unidos<\/strong>,\u00a0<strong>Israel<\/strong>, que pagam mais. Ent\u00e3o algu\u00e9m protesta, repetindo o discurso das grandes empresas, \u201cmas a vacina n\u00e3o teria chegado se n\u00e3o tivesse o lucro e para proceder com a inova\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter muito lucro\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o mentiras como essa que o\u00a0<strong>neoliberalismo<\/strong>\u00a0tem nos contado h\u00e1 40 anos. Acionistas n\u00e3o produzem\u00a0<strong>vacinas<\/strong>. Na verdade, a\u00a0<strong>vacina<\/strong> existe por conta dos virologistas, dos bi\u00f3logos, dos engenheiros, dos programadores, dos m\u00e9dicos, todos estes profissionais que recebem seus sal\u00e1rios mais ou menos altos, mas que nada tem a ver com o lucro.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que mudar\u00e1 como efeito desta situa\u00e7\u00e3o pand\u00eamica que estamos vivendo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Franco Berardi \u2013<\/strong>\u00a0Eu vejo na imprensa europeia algumas pessoas dizerem que \u201cagora\u201d todos entenderemos a necessidade de mudar de dire\u00e7\u00e3o, que a loucura do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597216-a-pandemia-e-o-fim-do-neoliberalismo-pos-moderno\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">neoliberalismo<\/a>\u00a0acabar\u00e1 e se voltar\u00e1 a uma interven\u00e7\u00e3o direta do Estado e a uma socializa\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 social. Bem, n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo, muito antes pelo contr\u00e1rio. Em 13 de mar\u00e7o a\u00a0<strong>Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio &#8211; OMC<\/strong>, uma das grandes institui\u00e7\u00f5es criadas nas \u00faltimas d\u00e9cadas para garantir o dom\u00ednio total das corpora\u00e7\u00f5es globais, junto ao\u00a0<strong>FMI<\/strong>\u00a0e ao\u00a0<strong>Banco Mundial<\/strong>, recusou um pedido muito simples feito pela\u00a0<strong>\u00cdndia<\/strong>\u00a0e por outros pa\u00edses do Sul do mundo. Tratava-se, simplesmente, de autorizar que os pa\u00edses pobres do mundo pudessem produzir a vacina para a sua popula\u00e7\u00e3o sem ter que pagar o custo da patente, que torna imposs\u00edvel para muitos pa\u00edses ter acesso \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o da vacina. Ou seja, significa\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/605483-sem-quebra-de-patente-vacinas-contra-covid-nao-chegarao-a-todas-as-pessoas-do-mundo-entrevista-especial-com-maite-gauto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">liberar o conhecimento cient\u00edfico do v\u00ednculo privado<\/a>\u00a0e do lucro para permitir a toda a humanidade usufruir de um bem que n\u00e3o foi produzido pelos acionistas das corpora\u00e7\u00f5es do capital. As\u00a0<strong>vacinas<\/strong>\u00a0foram produzidas pelo trabalho cognitivo, cient\u00edfico, t\u00e9cnico, intelectual e bra\u00e7al daqueles que t\u00eam compet\u00eancia t\u00e9cnica para tanto.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem nada a ver com os chefes ou\u00a0<em>shareholders<\/em>\u00a0da\u00a0<strong>Pfizer<\/strong>, que n\u00e3o t\u00eam nenhuma compet\u00eancia em virologia ou engenharia, o que sabem \u00e9 algo que tem a ver sobre como roubar da humanidade, uma ci\u00eancia que se chama economia. Ali\u00e1s, n\u00e3o existe uma ci\u00eancia chamada economia. Eu sinto muito pelos economistas que est\u00e3o ouvindo, inclusive tenho amigos economistas, mas eles concordam comigo que a economia n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia, \u00e9 uma t\u00e9cnica que busca maximizar o lucro. Uma t\u00e9cnica que foi criada dentro de um saber, de um modelo epist\u00eamico, baseado em princ\u00edpios que modelaram uma tecnologia espec\u00edfica, que se chama\u00a0<strong>economia<\/strong>, mas que \u00e9 uma ci\u00eancia que n\u00e3o sabe nada, afinal quando os economistas previram o que ia acontecer? Quase nunca. Um em um milh\u00e3o sabe o que vai acontecer, os outros n\u00e3o sabem nada, porque o economista n\u00e3o est\u00e1 ali para saber, est\u00e1 ali para executar. Caso contr\u00e1rio n\u00e3o se chamaria economista, mas cr\u00edtico da economia pol\u00edtica.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/525\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Karl Marx<\/a>\u00a0era economista? N\u00e3o. Sem d\u00favidas \u00e9 o maior entre aqueles que se ocuparam da economia nos \u00faltimos 200 anos e ele mesmo se intitulava \u201c<strong>cr\u00edtico da economia pol\u00edtica<\/strong>\u201d.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\"><\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual \u00e9 o modelo econ\u00f4mico que est\u00e1 destruindo o planeta e o g\u00eanero humano?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Franco Berardi \u2013<\/strong>\u00a0Chamam de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570979-neoliberalismo-a-grande-ideia-que-engoliu-o-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">neoliberalismo<\/a>\u00a0porque \u00e9 uma palavra que agrada aos cretinos. Na realidade \u00e9 uma outra coisa, trata-se de um\u00a0<strong>absolutismo do capital<\/strong>\u00a0e esta palavra d\u00e1 a ideia mais adequada a este sistema. O poder absoluto \u00e9 aquele que n\u00e3o reconhece ningu\u00e9m, nenhum limite, nem \u00e9tico, nem pol\u00edtico, nem ecol\u00f3gico, nem jur\u00eddico. Este \u00e9 o dom\u00ednio que, h\u00e1 40 anos, tomou o poder em todo o mundo. Ent\u00e3o, esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o na qual nos encontramos. Agora nos perguntamos: e depois? O que vai mudar?<\/p>\n<p>No in\u00edcio da\u00a0<strong>pandemia<\/strong>\u00a0alguns pensavam que a experi\u00eancia da pandemia mudaria o curso da pol\u00edtica mundial. Mas a decis\u00e3o da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/607985-yunus-tirem-as-patentes-das-vacinas-o-egoismo-de-poucos-ameaca-o-planeta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">OMC<\/a>\u00a0nos demonstra que n\u00e3o \u00e9 assim, mas que as popula\u00e7\u00f5es globais est\u00e3o aproveitando esta ocasi\u00e3o como possibilidade de tornar seu dom\u00ednio mais completo e de encontrar novas possibilidades de explora\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o da vida e da sociedade. Essa \u00e9 a previs\u00e3o mais realista e mais prov\u00e1vel. Essa decis\u00e3o da\u00a0<strong>OMC<\/strong>\u00a0nos mostra que o\u00a0<strong>capital<\/strong>\u00a0entrou em sua era\u00a0<strong>genocida<\/strong>, de modo que o genoc\u00eddio se torna a estrat\u00e9gia final do\u00a0<strong>capitalismo<\/strong>. No\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0voc\u00eas sabem bem do que estou falando, pois o poder daquele indiv\u00edduo do qual n\u00e3o vou dizer o nome \u00e9 um poder que tem um car\u00e1ter, evidentemente, genocida. Ent\u00e3o n\u00f3s temos que pensar o nosso futuro, sobretudo das novas gera\u00e7\u00f5es, tentando imaginar sa\u00eddas e como se desenvolver\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o concreta, mas, sobretudo, a subjetividade. \u00c9 da subjetividade que depende evitarmos uma pr\u00f3xima\u00a0<strong>extin\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano<\/strong>.<\/p>\n<p>Acredito que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/597618-a-agudizacao-das-condicoes-da-existencia-e-a-busca-de-mundos-diferentes-entrevista-especial-com-andityas-soares-de-moura-costa-matos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pandemia<\/a>\u00a0marque uma passagem, uma transforma\u00e7\u00e3o, uma muta\u00e7\u00e3o que tem car\u00e1ter certamente t\u00e9cnico, provavelmente pol\u00edtico, mas sobretudo antropol\u00f3gico. Isso porque a modalidade de rela\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, ps\u00edquica, atrav\u00e9s desta experi\u00eancia pand\u00eamica, se configura como uma margem. Estamos em uma passagem, estamos atravessando um trauma prolongado e durante este trauma elaboramos condi\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que possam tornar poss\u00edveis um novo equil\u00edbrio que nos permita analisar e entender as modalidades deste trauma, isto \u00e9, como ele se manifesta, como se desenvolve e o que ele se torna.<\/p>\n<p>Se eu quero pensar este trauma, vem \u00e0 minha mente as palavras da respons\u00e1vel pelo\u00a0<strong>controle sanit\u00e1rio do Canad\u00e1<\/strong>, em setembro de 2020, que disse \u201c<em>skip kisses<\/em>\u201d, evitem o beijo, e quando tiverem rela\u00e7\u00f5es sexuais, n\u00e3o esque\u00e7am da m\u00e1scara sanit\u00e1ria. Essa senhora tamb\u00e9m disse que o melhor nesses tempos era \u201c<em>is going solo<\/em>\u201d, ou seja, fa\u00e7am por conta pr\u00f3pria. Quando ouvi isso pensei que tinha algo exagerado, mas depois pensei que, afinal de contas, ela disse o que tinha que dizer como respons\u00e1vel sanit\u00e1ria, que \u00e9 dar conselhos para evitar o cont\u00e1gio, que em alguns casos pode ser mortal e em outros muito grave, al\u00e9m de ser socialmente destrutivo.<\/p>\n<p>O ponto \u00e9: o que ocorre na mente e no corpo dos seres humanos, especialmente dos jovens e das crian\u00e7as, que chegam ao mundo e recebem a \u201csugest\u00e3o\u201d ps\u00edquica de que o corpo do outro \u00e9 perigoso? Que a pele do outro \u00e9 perigosa? Que os l\u00e1bios do outro s\u00e3o perigosos? Voc\u00eas entendem o que quero dizer? Os l\u00e1bios n\u00e3o s\u00e3o somente a parte do corpo que nos permite experimentar o prazer, que torna a vida toler\u00e1vel, s\u00e3o tamb\u00e9m o lugar de emiss\u00e3o da palavra, do significado. Estamos atravessando uma passagem na qual se redefine a percep\u00e7\u00e3o do nosso corpo e do corpo dos outros.<\/p>\n<p>Naturalmente isso \u00e9 importante do ponto de vista ps\u00edquico, mas tamb\u00e9m \u00e9 importante do ponto de vista da\u00a0<strong>solidariedade social<\/strong>\u00a0e da capacidade de empreender o\u00a0<strong>processo pol\u00edtico de transforma\u00e7\u00e3o coletiva no futuro<\/strong>. A primeira coisa a dizer \u00e9 que temos uma tarefa psicanal\u00edtica, psicoterap\u00eautica, que est\u00e1 antes de qualquer outra tarefa. Precisamos saber que esta passagem, esta transi\u00e7\u00e3o pode produzir efeitos de devasta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica muito profundos. A\u00a0<strong>depress\u00e3o em massa<\/strong>, mas tamb\u00e9m um tipo de sensibiliza\u00e7\u00e3o f\u00f3bica em rela\u00e7\u00e3o ao corpo do outro, que se manifesta como medo da emo\u00e7\u00e3o e, tendencialmente, como autismo. A\u00a0<strong>pandemia<\/strong>\u00a0est\u00e1 desenhando a possibilidade de uma verdadeira\u00a0<strong>epidemia de autismo<\/strong>\u00a0ou de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/607793-cansaco-depressao-videonarcisismo-os-efeitos-da-pandemia-segundo-byung-chul-han\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">depress\u00e3o<\/a>. Isto se refere, sobretudo, \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 crescendo. Como professores, psicoterapeutas e intelectuais, precisamos saber disso, porque, quem sabe, somos n\u00f3s, aqueles que trabalham com as palavras, os conceitos e as met\u00e1foras, quem poder\u00e1 agir em uma situa\u00e7\u00e3o com esta periculosidade.<\/p>\n<p>No plano ps\u00edquico precisamos nos preparar para uma elabora\u00e7\u00e3o do trauma que evite uma solu\u00e7\u00e3o de tipo depressivo ou aut\u00edstico. Mas ao mesmo tempo precisamos saber que a subjetividade a ser constru\u00edda n\u00e3o \u00e9 a guerra de todos contra todos, e sim a reconstru\u00e7\u00e3o de uma liga\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria com os outros. Al\u00e9m disso, devemos levar em considera\u00e7\u00e3o o fato de que o\u00a0<strong>absolutismo capitalista<\/strong>\u00a0se demonstrou irremov\u00edvel. O lucro vir\u00e1 antes de tudo. Morrer\u00e3o dez milh\u00f5es de pessoas? N\u00e3o interessa. O que interessa \u00e9 que o\u00a0<strong>lucro privado das grandes corpora\u00e7\u00f5es e dos acionistas<\/strong>\u00a0seja garantido.<\/p>\n<p>Lembremos que o princ\u00edpio do\u00a0<strong>nazismo hitleriano<\/strong>\u00a0\u00e9 o mesmo princ\u00edpio do capitalismo: os mais fortes e os mais violentos t\u00eam o direito de sobreviver. \u00c9 duro admitir, eu sei, mas precisamos nos acostumar com o fato de que essa ideia venceu no s\u00e9culo XX. Um fil\u00f3sofo alem\u00e3o de origem judaica chamado\u00a0<strong>G\u00fcnther Anders<\/strong>, pouco conhecido no mundo latino, infelizmente, escreveu, nos anos 1950\/1960, que depois de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/606463-auschwitz-estudar-o-que-aconteceu-em-auschwitz-significa-entrar-nas-profundezas-da-natureza-humana-para-tentar-entender-o-que-somos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Auschwitz<\/a><strong>\u00a0<\/strong>e<strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/545420-hiroshima-70-anos-qnao-esquecam-da-rosa-radioativa-e-estupida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Hiroshima<\/a><\/strong>\u00a0o\u00a0<strong>nazismo<\/strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio fechado, mas a tend\u00eancia mais profunda de uma sociedade na qual o saber \u00e9 submetido aos interesses da classe dominante, do lucro. Mais, que este\u00a0<strong>dom\u00ednio sobre a t\u00e9cnica<\/strong>\u00a0a torna infinitamente potente e os homens impotentes. \u00c9 a impot\u00eancia da sociedade e da pol\u00edtica o grande problema de nosso tempo.<\/p>\n<p>Sei que isso \u00e9 horr\u00edvel, forte e ruim, mas acredito que seja melhor pensar sobre estas coisas, ainda que eu deseje estar errado. A minha convic\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que entramos em uma \u00e9poca em que o\u00a0<strong>dom\u00ednio da m\u00e1quina absolutista do capital<\/strong>\u00a0e a impot\u00eancia da pol\u00edtica nos colocam em uma condi\u00e7\u00e3o na qual se torna leg\u00edtimo pensar que o horizonte do nosso tempo seja o da extin\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que esta palavra, \u201cextin\u00e7\u00e3o\u201d, que n\u00e3o existia no l\u00e9xico pol\u00edtico, se tornou importante para esta nova gera\u00e7\u00e3o de jovens militantes. Sobretudo aqueles que criaram movimentos como o \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/593238-o-que-e-o-extinction-rebellion-movimento-que-quer-parar-londres-em-mega-protesto-ambiental-e-ja-esta-presente-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Extinction rebellion<\/a>\u201d e o \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/602360-fridays-for-future-organiza-acoes-globais-pela-amazonia-entre-esta-sexta-feira-28-e-domingo-30\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fridays for future<\/a>\u201d, que protestam com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588579-voces-nao-agiram-a-tempo-o-discurso-de-greta-thunberg-ao-parlamento-britanico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Greta Thunberg<\/a>\u00a0contra o perigo extremo de uma\u00a0<strong>extin\u00e7\u00e3o em massa<\/strong>. Este \u00e9 o horizonte.<\/p>\n<p>Acredito que as armas da pol\u00edtica estejam impotentes e que h\u00e1 grandes pol\u00edticos capazes de suscitar a nossa intelig\u00eancia, o nosso sentimento e nossa solidariedade. O discurso realizado pelo ex-presidente\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/607539-lula-o-retorno-do-ostracismo-artigo-de-andre-singer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lula<\/a>\u00a0semanas atr\u00e1s foi uma fala de um grande pol\u00edtico e grande fil\u00f3sofo, um grande poeta. Mas acredito que\u00a0<strong>Lula<\/strong>\u00a0n\u00e3o fala somente a seus eleitores brasileiros, pois n\u00f3s vimos que podemos eleger um\u00a0<strong>governo de esquerda ou direita<\/strong>, mas o poder est\u00e1 nas m\u00e3os dos\u00a0<strong>financeiristas<\/strong>, dos\u00a0<strong>militares<\/strong>, e a pol\u00edtica conta pouco. Ent\u00e3o acredito que desta experi\u00eancia e deste trauma sairemos com uma nova percep\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a, que n\u00e3o \u00e9 mais a pol\u00edtica, a vontade, mas uma sensibilidade. A hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o moderna, desde o\u00a0<strong>maquiavelismo italiano<\/strong>, se baseia na ideia de que a vontade humana pode governar os eventos do mundo, n\u00e3o todos, mas aqueles que interessam. A vontade governa a dire\u00e7\u00e3o dos eventos da coletividade. \u00c9 verdade, ao menos de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/555427-maquiavel-e-suas-sombras-deformadas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Maquiavel<\/a>\u00a0a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/563106-toda-a-esquerda-brasileira-envergonha-lenin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lenin<\/a>, que a vontade humana soube agir, mal ou bem, de modo potente.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Mas a hist\u00f3ria moderna acabou, porque ela se baseava em uma rela\u00e7\u00e3o entre o humano e a natureza, o humano e a complexidade do mundo e da informa\u00e7\u00e3o, que podia ser ao menos coordenada. Como disse o fil\u00f3sofo grego [<strong>Prot\u00e1goras<\/strong>] \u201c<em>O homem \u00e9 a medida de todas as coisas<\/em>\u201d, mas hoje isso n\u00e3o \u00e9 mais verdade, porque sa\u00edmos da esfera do humanismo e migramos para uma esfera em que os eventos determinantes, como a radia\u00e7\u00e3o nuclear de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/587359-8-anos-depois-licoes-de-fukushima-que-nao-queremos-aprender\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fukushima<\/a>\u00a0ou a\u00a0<strong>prolifera\u00e7\u00e3o global do coronav\u00edrus<\/strong>, bem como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, s\u00e3o todos eventos irrevers\u00edveis no ambiente planet\u00e1rio. N\u00e3o t\u00eam volta atr\u00e1s. \u00c9 exatamente o m\u00e9todo da a\u00e7\u00e3o que tem que mudar. Na modernidade o m\u00e9todo da a\u00e7\u00e3o era guiado pela for\u00e7a da vontade, de modo que se fazia aquilo que a maioria da sociedade desejasse. Hoje n\u00e3o. Se a maioria da sociedade quer se livrar das radia\u00e7\u00f5es nucleares produzidas por\u00a0<strong>Fukushima<\/strong>, essa vontade n\u00e3o serve para nada.<\/p>\n<p><strong>Lula<\/strong>\u00a0soube transformar o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0de forma important\u00edssima nos primeiros anos de seu governo, realizou um programa enorme e triunfal. Teve gente que p\u00f4de sair da mis\u00e9ria e da ignor\u00e2ncia gra\u00e7as ao\u00a0<strong>Lula<\/strong>, mas depois&#8230; Mesmo com\u00a0<strong>Dilma<\/strong>, parecia que n\u00e3o funcionava mais, porque ela se colocou frente \u00e0 onipot\u00eancia do poder financeiro e, ent\u00e3o, trata-se de tentar encontrar outras estradas. Me refiro ao que diz a fil\u00f3sofa californiana\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596501-tornei-me-feminista-gracas-a-ficcao-cientifica-entrevista-com-donna-haraway\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Donna Haraway<\/a>, de inspira\u00e7\u00e3o feminista, \u201cbasta de pensar como se o homem fosse o dominador da terra. N\u00f3s n\u00e3o somos mais. Tentemos pensar n\u00f3s mesmos como creators\u201d, palavra em ingl\u00eas que quer dizer algo como \u201ccriaturinhas\u201d. Criaturas que se encontram em um processo de constante transforma\u00e7\u00e3o em que o importante \u00e9 a afetividade, n\u00e3o a vontade, mas a percep\u00e7\u00e3o do ambiente, a capacidade de estar no ambiente. Por\u00e9m, parece-me, as experi\u00eancias mais interessantes que est\u00e3o se preparando para o pr\u00f3ximo futuro s\u00e3o aquelas ligadas \u00e0 cismogen\u00e9tica, pequenas comunidades de pessoas, de jovens, de artistas, de intelectuais, de cientistas, de trabalhadores etc. Um lugar no qual deveria come\u00e7ar uma pr\u00e1tica de produ\u00e7\u00e3o local garantida pela\u00a0<strong>comunidade igualit\u00e1ria e frugal<\/strong>.<\/p>\n<p>A palavra\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/572769-frugalidade-opcao-anticapitalista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">frugalidade<\/a>\u00a0se torna central na \u00e9poca que vivemos.\u00a0<strong>Frugalidade<\/strong>\u00a0n\u00e3o significa pobreza, ren\u00fancia, mas adequa\u00e7\u00e3o da nossa necessidade \u00e0s possibilidades produtivas da comunidade. Significa a possibilidade de autodefinir nossas necessidades e de sair do\u00a0<strong>ciclo destrutivo das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de publicidade e consumo<\/strong>, que provocam explora\u00e7\u00e3o, sofrimento mental e produ\u00e7\u00e3o constante de mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Quando\u00a0<strong>Karl Marx<\/strong>\u00a0raciocina sobre o car\u00e1ter essencial do\u00a0<strong>capitalismo<\/strong>, esse sistema que teve uma fun\u00e7\u00e3o progressiva na hist\u00f3ria humana at\u00e9 se mostrar genocida, criminoso, destrutivo, ele percebe que o capitalismo transforma a atividade humana concreta, \u00fatil, em trabalho abstrato. Isso quer dizer que o nosso trabalho dentro das condi\u00e7\u00f5es do capitalismo n\u00e3o serve para produzir aquilo que nos serve, mas para se tornar um valor abstrato que permite a\u00a0<strong>acumula\u00e7\u00e3o do capital<\/strong>. \u00c9 exatamente nesta passagem da atividade ao\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/507815-trabalhoimaterialeapropriacaodasubjetividade-humana-entrevistaespeicalcomsilviocamargo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">trabalho abstrato<\/a>\u00a0que est\u00e1 a origem da condi\u00e7\u00e3o sempre menos racional, menos feliz e menos humana.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Trata-se, ent\u00e3o, de recolocar a\u00a0<strong>utilidade concreta do trabalho<\/strong>\u00a0no centro de nossa atividade social. \u00c9 o princ\u00edpio da utilidade que nos permite raciocinar nos termos de uma frugalidade feliz. Isso quer dizer, certamente, o abandono do\u00a0<strong>modelo do crescimento<\/strong>, do\u00a0<strong>modelo da expans\u00e3o capitalista<\/strong>\u00a0que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel sem devasta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode continuar com um modelo que consome, extrai e destr\u00f3i recursos f\u00edsicos e mentais. Em certo sentido, a pandemia nos mostrou que chegamos a limites extremos e seguir assim significa reproduzir, em uma escala sempre maior, o genoc\u00eddio de car\u00e1ter essencialmente econ\u00f4mico, mas que tem formas essencialmente desumanas.<\/p>\n<p>Me dou conta de que o que estou falando s\u00e3o discursos dif\u00edceis de serem traduzidos na pr\u00e1tica, na a\u00e7\u00e3o cotidiana, por\u00e9m, espontaneamente, muitos est\u00e3o indo nesta dire\u00e7\u00e3o. O\u00a0<strong>FMI<\/strong>, outra organiza\u00e7\u00e3o internacional criminosa, algum tempo atr\u00e1s\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/sobre-o-ihu\/78-noticias\/606987-um-estudo-do-fmi-preve-uma-onda-de-conflitos-sociais-apos-a-pandemia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">publicou um relat\u00f3rio<\/a>\u00a0prevendo que na\u00a0<strong>primavera<\/strong>\u00a0(do hemisf\u00e9rio Norte)\u00a0<strong>de 2022<\/strong>\u00a0teremos revoltas, guerras civis, o que fez com muitos dados e relat\u00f3rios anal\u00edticos e estat\u00edsticos. Mas\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/607097-agitacoes-e-levantes-artigo-de-raul-zibechi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ra\u00fal Zibechi<\/a>\u00a0escreveu um artigo sobre esse relat\u00f3rio, dizendo que o\u00a0<strong>FMI<\/strong>\u00a0n\u00e3o deveria se preocupar com esta poss\u00edvel revolu\u00e7\u00e3o, afinal at\u00e9 l\u00e1 muitos morrer\u00e3o, a pol\u00edcia vai matar como faz diariamente, mas nada de muito grave deve acontecer. No caso de haver revoltas, cada um de n\u00f3s decidir\u00e1 como participar\u00e1, mas essas revoltas n\u00e3o nos tirar\u00e3o da cat\u00e1strofe da hist\u00f3ria capitalista de hoje. A\u00a0<strong>insurrei\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 uma ocasi\u00e3o para construir liga\u00e7\u00f5es fortes, liberar energia, mas n\u00e3o nos basta a energia, temos que criar uma nova forma de social. E acredito que ela ser\u00e1\u00a0<strong>frugal<\/strong>,\u00a0<strong>igualit\u00e1ria<\/strong>,\u00a0<strong>asc\u00e9tica<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>orgi\u00e1stica<\/strong>.<\/p>\n<p>Assista \u00e0 \u00edntegra da confer\u00eancia:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/V0rAj8qFnVA\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ruptura antropol\u00f3gica e o colapso econ\u00f4mico global. Oportunidades para recodificar as vidas. 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