{"id":144740,"date":"2021-04-15T12:30:05","date_gmt":"2021-04-15T15:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=144740"},"modified":"2021-04-14T20:21:13","modified_gmt":"2021-04-14T23:21:13","slug":"teriam-os-primatas-primitivos-convivido-com-o-t-rex-evidencias-apontam-para-a-hipotese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/teriam-os-primatas-primitivos-convivido-com-o-t-rex-evidencias-apontam-para-a-hipotese\/","title":{"rendered":"Teriam os primatas primitivos convivido com o T. rex? Evid\u00eancias apontam para a hip\u00f3tese"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"css-ju6on1\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-144742\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Data\u00e7\u00e3o de carbono indicou que os mais antigos f\u00f3sseis conhecidos de primatas s\u00e3o do per\u00edodo logo ap\u00f3s o evento de extin\u00e7\u00e3o, h\u00e1 66 milh\u00f5es de anos \u2014 sugerindo que alguns ancestrais dos primatas viveram em uma \u00e9poca ainda mais remota.<\/h2>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p>Pouco depois de a queda de um asteroide ter desencadeado um evento de extin\u00e7\u00e3o catacl\u00edsmico h\u00e1 66 milh\u00f5es de anos, um grupo de mam\u00edferos propenso a subir em \u00e1rvores e comer frutas come\u00e7ou a prosperar. Esses animais \u2014 os primeiros antepassados dos primatas \u2014 deram origem \u00e0 linhagem que evoluiu para os primeiros macacos, incluindo os grandes primatas, como gorilas, chimpanz\u00e9s e, por fim, humanos.<\/p>\n<p>Agora, cientistas identificaram f\u00f3sseis do primata mais antigo conhecido em um acervo de dentes incomuns esquecidos na gaveta de um museu por d\u00e9cadas. Alguns desses dentes, descritos recentemente\u00a0<a href=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/10.1098\/rsos.210050#d1e1665\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">no peri\u00f3dico\u00a0<em>Royal Society Open Science<\/em><\/a><em>,\u00a0<\/em>pertenciam \u00e0 esp\u00e9cie\u00a0<em>Purgatorius mckeeveri<\/em>, at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida, precursora reduzida dos primatas modernos que viveram h\u00e1 65,9 milh\u00f5es de anos, apenas 100 mil anos ap\u00f3s o evento de extin\u00e7\u00e3o do fim do per\u00edodo Cret\u00e1ceo.<\/p>\n<p>\u201cIsso redefine nossa vis\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Gregory Wilson Mantilla, autor principal do estudo e professor de biologia da Universidade de Washington, especializado em mam\u00edferos primitivos.<\/p>\n<p>A descoberta tamb\u00e9m refor\u00e7a a teoria de que os ancestrais dos primatas conviveram com dinossauros \u2014 e de alguma forma sobreviveram \u00e0 extin\u00e7\u00e3o que dizimou cerca de tr\u00eas quartos da vida na Terra. Dois dos dentes do novo estudo pertenciam a uma segunda esp\u00e9cie j\u00e1 conhecida, a\u00a0<em>Purgatorius janisae<\/em>, que tamb\u00e9m viveu h\u00e1 65,9 milh\u00f5es de anos. E se duas esp\u00e9cies de primatas primitivos de fato existiram nessa \u00e9poca, antes delas, algum animal desconhecido que as originou deve ter existido.<\/p>\n<p>\u201cA exist\u00eancia das duas esp\u00e9cies implica que a origem do grupo seja ainda mais remota\u201d, explica\u00a0<a href=\"https:\/\/www.utsc.utoronto.ca\/labs\/msilcox\/dr-mary-t-silcox-phd\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mary Silcox<\/a>, paleont\u00f3loga da Universidade de Toronto, que n\u00e3o participou do estudo. \u201cAs esp\u00e9cies tiveram algum ancestral.\u201d<\/p>\n<h3>Ind\u00edcios antigos nas gavetas do museu<\/h3>\n<p>Em 2003, Wilson Mantilla vasculhava os acervos do Museu de Paleontologia da Universidade da Calif\u00f3rnia, em Berkeley, quando retirou um conjunto de dentes antigos de seus frascos e os examinou em um microsc\u00f3pio. Esses dentes, curtos e com pontas levemente arredondadas, n\u00e3o pertenciam a nenhum dos mam\u00edferos pesquisados pelo ent\u00e3o aluno de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o para sua disserta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele se recorda de ter pensado: \u201cuau, deve ser algo ainda n\u00e3o catalogado, algo in\u00e9dito\u201d.<\/p>\n<p>Levaria mais do que uma vida inteira para estudar todos os f\u00f3sseis no museu, onde os acervos de f\u00f3sseis est\u00e3o guardados em fileiras de arm\u00e1rios com gavetas repletas de dezenas ou at\u00e9 mesmo centenas de f\u00f3sseis e fragmentos. Ao todo, s\u00e3o centenas de milhares.<\/p>\n<p>William Clemens, finado paleont\u00f3logo e coautor do novo estudo,\u00a0<a href=\"https:\/\/news.berkeley.edu\/2020\/12\/01\/william-clemens-expert-on-fossil-mammals-dies-at-88\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">recebeu cr\u00e9ditos no estudo<\/a>\u00a0por escavar 50 mil desses esp\u00e9cimes \u2014 incluindo os dentes de\u00a0<em>Purgatorius<\/em>\u00a0descritos recentemente. Clemens foi um prol\u00edfico ca\u00e7ador de f\u00f3sseis, especializado na evolu\u00e7\u00e3o de pequenos mam\u00edferos, e come\u00e7ou a escavar a Forma\u00e7\u00e3o Hell Creek, no nordeste de Montana, na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>\u201cOs outros paleont\u00f3logos passam um, dois ou at\u00e9 cinco anos em uma determinada \u00e1rea, examinam a camada superficial do solo e prosseguem a um novo local\u201d, conta Wilson Mantilla, o \u00faltimo aluno a estudar com Clemens antes de sua aposentadoria em 2002. \u201cClemens adotava uma abordagem diferente.\u201d<\/p>\n<p>O carinho de Clemens pela comunidade em Hell Creek pode ter sido um dos motivos para que ele retornasse ao local durante d\u00e9cadas. Ele come\u00e7ava cada visita de campo tomando um gole de ch\u00e1 gelado nas casas dos produtores rurais donos das terras onde havia f\u00f3sseis. Mas os f\u00f3sseis nessa regi\u00e3o do mundo tamb\u00e9m eram um fator de atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel \u2014 \u201cmist\u00e9rios incr\u00edveis foram decifrados na \u00e1rea de Hell Creek\u201d, conta Wilson Mantilla.<\/p>\n<p>A Forma\u00e7\u00e3o Hell Creek foi fundamental para compreender o que exterminou os dinossauros n\u00e3o-avi\u00e1rios e como se deu a evolu\u00e7\u00e3o da vida posteriormente. Suas rochas preservam uma linha do tempo da vida na Terra entre dois milh\u00f5es de anos antes da extin\u00e7\u00e3o em massa e cerca de um milh\u00e3o de anos depois \u2014 um dos poucos lugares no mundo onde \u00e9 poss\u00edvel encontrar f\u00f3sseis em ambos os lados dessa fronteira.<\/p>\n<p>Em 1980, quando surgiu a teoria de que o impacto de um asteroide foi o respons\u00e1vel pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/article\/dinosaur-extinction\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">extin\u00e7\u00e3o dos dinossauros<\/a>, Clemens se manteve c\u00e9tico. Por acreditar que os dinossauros j\u00e1 estavam em decl\u00ednio, ele argumentou que valia a pena cogitar se outros fatores, como o aumento da atividade vulc\u00e2nica e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, poderiam ter desempenhado um papel, o que ajudou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/article\/what-actually-killed-dinosaurs-volcanoes-heat-up-debate\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a iniciar um debate que persiste at\u00e9 hoje<\/a>.<\/p>\n<p>Clemens esperava descobrir o que aconteceu h\u00e1 66 milh\u00f5es de anos ao estudar como o impacto do asteroide afetou outros animais que conviveram com os dinossauros. \u201cAssim, ele acumulou um enorme acervo de f\u00f3sseis para analisar esse ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria dos vertebrados e seres vivos em geral\u201d, prossegue Wilson Mantilla. Com esse acervo de f\u00f3sseis, ele obteve ind\u00edcios fundamentais para desvendar as origens evolutivas de nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<h3>Reconstituindo a linhagem dos primatas<\/h3>\n<p>Os cientistas t\u00eam duas vertentes de pensamento quando se trata da origem dos primatas. Alguns acreditam que a linhagem tenha come\u00e7ado por volta de 56 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, quando registros f\u00f3sseis indicam o surgimento de animais que compartilham caracter\u00edsticas b\u00e1sicas com os primatas modernos. Outros argumentam que \u00e9 preciso retroceder ainda mais ao passado.<\/p>\n<p>Esses \u00faltimos atribuem a linhagem dos primatas aos plesiadapiformes, grupo de mam\u00edferos que compreende mais de 140 esp\u00e9cies primitivas conhecidas por seus\u00a0<a href=\"https:\/\/open.lib.umn.edu\/humanbiology\/chapter\/1-7-the-evolution-of-primates\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">dentes e esqueletos<\/a>\u00a0semelhantes aos dos atuais primatas, ideais para triturar frutas e se deslocar entre galhos de \u00e1rvores. No entanto esses animais antigos n\u00e3o tinham os olhos voltados para a frente e os grandes c\u00e9rebros dos primatas vivos, o que suscitou um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/scitable\/knowledge\/library\/primate-origins-and-the-plesiadapiforms-106236783\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">debate questionando se os plesiadapiformes seriam de fato primatas ou n\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cMeu objetivo \u00e9 entender a origem dos primatas\u201d, afirma Stephen Chester, antrop\u00f3logo biol\u00f3gico da Faculdade do Brooklyn da Universidade da Cidade de Nova York e coautor do novo artigo. \u201cMeu enfoque maior de estudos \u00e9 algo que n\u00e3o seja nitidamente um primata.\u201d<\/p>\n<p>Em 1965, uma equipe de cientistas encontrou os dentes fossilizados do que viria a ser o g\u00eanero mais antigo conhecido dos plesiadapiformes: o\u00a0<em>Purgatorius<\/em>. Esses dentes foram datados de 63 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, e descobertas posteriores de f\u00f3sseis remontam o g\u00eanero a 65 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Contudo, os cientistas suspeitavam h\u00e1 muito tempo que o\u00a0<em>Purgatorius<\/em>\u00a0fosse ainda mais antigo.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/animals\/article\/news-primates-dinosaurs-study-coexist\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Modelos evolutivos<\/a>\u00a0e estudos gen\u00e9ticos de primatas modernos sugerem que os primeiros parentes dos primatas se originaram h\u00e1 cerca de 81,5 milh\u00f5es de anos, durante o per\u00edodo Cret\u00e1ceo \u2014 mas a escassez de evid\u00eancias f\u00f3sseis dessa \u00e9poca tornou imposs\u00edvel a confirma\u00e7\u00e3o da teoria pelos paleont\u00f3logos.<\/p>\n<p>Quando Chester conheceu Clemens em uma confer\u00eancia da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados em 2009, fragmentos de mand\u00edbula e dentes eram as \u00fanicas evid\u00eancias encontradas do\u00a0<em>Purgatorius<\/em>\u00a0pelos cientistas. Ao saber do interesse de Chester por esse g\u00eanero, Clemens o convidou para pesquisar os esp\u00e9cimes do acervo do museu.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes, os especialistas nesse campo guardam seus f\u00f3sseis para si mesmos e n\u00e3o permitem que outros os estudem\u201d, revela Chester. \u201cMas Clemens n\u00e3o era assim e disponibilizou seu acervo a um jovem pesquisador, que ficou muito animado em colaborar com ele.\u201d<\/p>\n<p>Em 2012, Chester se deparou com pequenos fragmentos f\u00f3sseis que identificou ao microsc\u00f3pio como sendo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/article\/121024-purgatorius-earliest-primate-evolution-science-squirrel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ossos do tornozelo pertencentes ao\u00a0<em>Purgatorius<\/em><\/a>. Seu\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/content\/112\/5\/1487\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo, conduzido em 2015<\/a>\u00a0com Clemens e dois outros colegas, analisou a mobilidade da articula\u00e7\u00e3o e revelou que o animal provavelmente poderia se deslocar com bastante efici\u00eancia pelas \u00e1rvores. Um retrato dos primeiros antepassados dos primatas come\u00e7ava a ser desenhado.<\/p>\n<p>\u201cFoi um dos meus primeiros grandes momentos decisivos com rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0<em>Purgatorius<\/em>\u201d, recorda Chester.<\/p>\n<h3>Desenvolvimento no mundo ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Em 2018, Wilson Mantilla se culpava por sua estagna\u00e7\u00e3o no que ele sabia que seria outra importante descoberta sobre o\u00a0<em>Purgatorius<\/em>. Apesar de seu pedido de ajuda a Clemens para pesquisar os dentes fossilizados ap\u00f3s encontr\u00e1-los em 2003, n\u00e3o encontrava tempo para prosseguir com esse estudo, pois precisava terminar sua disserta\u00e7\u00e3o, concluir um p\u00f3s-doutorado e encontrar um emprego.<\/p>\n<p>\u201cTemia que fic\u00e1ssemos para tr\u00e1s, que algu\u00e9m descreveria algo mais antigo do que o que t\u00ednhamos, ou que encontrariam dentes da mesma esp\u00e9cie e a descreveriam\u201d, confessa.<\/p>\n<p>Mas Wilson Mantilla estava finalmente pronto para tirar o p\u00f3 do manuscrito que havia come\u00e7ado. Ele pediu a Chester para colaborar na an\u00e1lise dos novos f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Utilizando uma t\u00e9cnica denominada data\u00e7\u00e3o radiom\u00e9trica para medir a presen\u00e7a de compostos com uma taxa de decaimento conhecida, os pesquisadores conseguiram estimar a idade dos esp\u00e9cimes nos primeiros 100 mil anos ap\u00f3s o fim do Cret\u00e1ceo, h\u00e1 66 milh\u00f5es de anos. A estimativa os consagrou como os mais antigos f\u00f3sseis conhecidos de primatas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s examinar dezenas de fragmentos de mand\u00edbulas de\u00a0<em>Purgatorius<\/em>\u00a0provenientes da Forma\u00e7\u00e3o Hell Creek, a equipe confirmou que havia identificado uma nova esp\u00e9cie, al\u00e9m dos resqu\u00edcios da esp\u00e9cie j\u00e1 conhecida\u00a0<em>Purgatorius janisae<\/em>. Batizaram a nova esp\u00e9cie de\u00a0<em>Purgatorius mckeeveri<\/em>, em homenagem a uma fam\u00edlia de pecuaristas de Montana que permitiu que Clemens e seus colegas escavassem suas terras.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de duas esp\u00e9cies nessa \u00e9poca sugere que a linhagem dos plesiadapiformes remonta ao per\u00edodo Cret\u00e1ceo. A confirma\u00e7\u00e3o dessa hip\u00f3tese levantaria d\u00favidas sobre como nossos ancestrais sobreviveram ao evento de extin\u00e7\u00e3o em massa. Os pesquisadores come\u00e7aram a estudar a intera\u00e7\u00e3o desses primatas ancestrais com superpredadores como o\u00a0<em>Tyrannosaurus rex<\/em>, herb\u00edvoros gigantescos como o\u00a0<em>Triceratops<\/em>\u00a0e plantas flor\u00edferas que se propagavam e diversificavam de forma r\u00e1pida e significativa.<\/p>\n<p>Os cientistas h\u00e1 muito levantaram a hip\u00f3tese de que uma das caracter\u00edsticas que distinguem os primeiros primatas dos demais mam\u00edferos \u00e9 sua prefer\u00eancia alimentar por frutas. No novo estudo, os pesquisadores compararam a dieta dos primeiros primatas com a dos demais animais com os quais conviviam.<\/p>\n<p>\u201cPara determinar o papel exato desempenhado por primatas em seu ambiente, \u00e9 preciso considerar o contexto dos outros animais com os quais convivem\u201d, observa Silcox. \u201cEsse \u00e9 um dos aspectos que torna esse artigo \u00fanico.\u201d<\/p>\n<p>Em vez de dentes longos e pontiagudos para esmagar exoesqueletos de insetos, como era a denti\u00e7\u00e3o de muitos pequenos mam\u00edferos na \u00e9poca, o\u00a0<em>Purgatorius<\/em>\u00a0dispunha de dentes relativamente curtos com pontas mais arredondadas, ideais para triturar frutas e outras partes vegetais. O estudo realizado por Chester em 2015 tamb\u00e9m sugeriu que esses primeiros primatas talvez obtivessem seu alimento predileto nas \u00e1rvores, evitando assim predadores no solo.<\/p>\n<p>Segundo Wilson Mantilla, as frutas eram relativamente pequenas nessa \u00e9poca, mais ou menos do tamanho de frutas vermelhas e agrupadas na extremidade dos galhos das \u00e1rvores. Nos anos seguintes ao evento de extin\u00e7\u00e3o, as frutas aumentaram de tamanho, o que coincidiu com uma prolifera\u00e7\u00e3o de parentes do\u00a0<em>Purgatorius<\/em>. Entre cerca de 328 mil e 847 mil anos ap\u00f3s o fim do per\u00edodo Cret\u00e1ceo, os plesiadapiformes se multiplicaram e se diversificaram na regi\u00e3o atual da Am\u00e9rica do Norte, representando cerca de 25% de toda a fauna na \u00e1rea de Hell Creek.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma hist\u00f3ria de evolu\u00e7\u00e3o conjunta, em que a vegeta\u00e7\u00e3o come\u00e7a a produzir frutas suculentas com sementes maiores em seu interior para os primatas, proporcionando-lhes uma boa refei\u00e7\u00e3o\u201d, explica Chester. \u201cOs primatas, por sua vez, passam a dispersar essas sementes (ao defecar) \u00e0 medida que se movimentam pelas \u00e1rvores\u201d.<\/p>\n<p>A vida sobre as \u00e1rvores tamb\u00e9m pode ter estimulado a evolu\u00e7\u00e3o dos primatas com caracter\u00edsticas intimamente ligadas aos macacos modernos, como a capacidade de pular e os olhos voltados para a frente, que teriam ajudado a calcular a dist\u00e2ncia entre os galhos. \u201cMas essa parece ser uma etapa posterior\u201d, revela Chester. \u201cAntes disso, foi preciso subir nas \u00e1rvores e consumir frutas localizadas nas pontas dos galhos.\u201d<\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 um elo perdido entre os plesiadapiformes e os primatas que evolu\u00edram posteriormente \u2014 animais desconhecidos que poderiam conectar esses dois grupos. \u201cCom sorte, ainda encontraremos um enquanto eu estiver vivo\u201d, torce Chester. \u201cOu encontraremos um f\u00f3ssil que refute completamente nossa teoria.\u201d<\/p>\n<h3>O primata original<\/h3>\n<p>Restam muitos mist\u00e9rios sobre a evolu\u00e7\u00e3o dos primatas a serem desvendados \u2014 incluindo o local de origem da linhagem e como esses arbor\u00edcolas semelhantes a esquilos evolu\u00edram aos grandes primatas atuais.<\/p>\n<p>Algumas dessas respostas podem estar acess\u00edveis. Apenas cerca de 100 f\u00f3sseis de\u00a0<em>Purgatorius<\/em>\u00a0foram documentados, mas as escava\u00e7\u00f5es de Clemens em Hell Creek renderam 1,5 mil dentes e fragmentos de mand\u00edbula adicionais ainda n\u00e3o estudados.<\/p>\n<p>Financiados por uma bolsa da Funda\u00e7\u00e3o Leakey, Chester e Wilson Mantilla planejam estudar esses f\u00f3sseis \u2014 e depois vasculhar o acervo em Berkeley em busca de outros segmentos do esqueleto do\u00a0<em>Purgatorius<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cAos poucos, obteremos mais informa\u00e7\u00f5es\u201d, afirma Chester. \u201cH\u00e1 apenas algumas outras pe\u00e7as dispon\u00edveis, praticamente migalhas, mas s\u00e3o o que nos permite come\u00e7ar a desenhar um retrato mais amplo para compreender melhor nossa hist\u00f3ria evolutiva primitiva enquanto primatas.\u201d<\/p>\n<p>Infelizmente, eles perderam um colaborador importante no processo. Em 17 de novembro de 2020, meses antes da publica\u00e7\u00e3o de seu estudo conjunto, Clemens faleceu de c\u00e2ncer, aos 88 anos.<\/p>\n<p>Mas Wilson Mantilla \u2014 que agora leva seus pr\u00f3prios alunos a Hell Creek \u2014 revela que as pesquisas perpetuam o legado de seu mentor. \u201cSem seus estudos e conhecimentos, nada disso teria sido poss\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEle foi um grande her\u00f3i\u201d, acrescenta Chester. \u201cN\u00e3o era apenas incrivelmente culto, mas tamb\u00e9m muito sol\u00edcito e acess\u00edvel aos alunos. Clemens influenciou o campo de estudos com suas pr\u00f3prias contribui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, mas tamb\u00e9m com o treinamento de in\u00fameros paleont\u00f3logos incr\u00edveis que seguem atuando hoje.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Data\u00e7\u00e3o de carbono indicou que os mais antigos f\u00f3sseis conhecidos de primatas s\u00e3o do per\u00edodo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":144742,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/primatas.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Data\u00e7\u00e3o de carbono indicou que os mais antigos f\u00f3sseis conhecidos de primatas s\u00e3o do per\u00edodo","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144740"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=144740"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144740\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":144744,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144740\/revisions\/144744"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/144742"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=144740"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=144740"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=144740"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}