{"id":144557,"date":"2021-04-11T19:28:24","date_gmt":"2021-04-11T22:28:24","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=144557"},"modified":"2021-04-11T19:28:24","modified_gmt":"2021-04-11T22:28:24","slug":"plumagem-do-vento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/plumagem-do-vento\/","title":{"rendered":"&#8216;Plumagem do Vento&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-vTfJEOnefDo\/YHJyRN3-3SI\/AAAAAAACyV4\/DL7AVAItalceFk79jjfD6ugd-f2cJ4sSgCLcBGAsYHQ\/s0\/vento%2B1.jpg\" width=\"640\" height=\"437\" \/><\/p>\n<div class=\"letra\">Foi na \u00e9poca em que trabalhei no N\u00facleo de Arte Contempor\u00e2neo (NAC), \u00f3rg\u00e3o da Universidade Federal da Para\u00edba, que ouvi, pela primeira vez, a express\u00e3o <i>fazer fotografia<\/i>. At\u00e9 ent\u00e3o, s\u00f3 escutara o termo\u00a0<i>tirar fotografia<\/i>. E como estava lendo o monumental \u201cMimesis\u201d, de Eric Auerbach, procurei estabelecer, meio intuitivamente, um cotejo entre as duas express\u00f5es.<\/div>\n<p>No que me diz respeito, sempre utilizei o termo <i>tirar fotografia<\/i>, pois n\u00e3o pretendia acrescentar absolutamente nada ao campo de vis\u00e3o para o qual mirava o visor das toscas m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas de antigamente, denominadas de\u00a0<i>caix\u00e3o<\/i>, monstrengos destitu\u00eddos de qualquer recurso t\u00e9cnico capaz de aprimorar ou de emprestar uma melhor qualidade \u00e0s fotos.<\/p>\n<figure class=\"dir meio\">\n<div class=\"separator\"><a href=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-IBDwip7JWHI\/YHJwzI1o_fI\/AAAAAAACyVs\/VSv2Ln_3Om4uoHIqfMlUZ6UTmFNrMFFDwCLcBGAsYHQ\/s0\/camera%2Bkapsa.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-IBDwip7JWHI\/YHJwzI1o_fI\/AAAAAAACyVs\/VSv2Ln_3Om4uoHIqfMlUZ6UTmFNrMFFDwCLcBGAsYHQ\/s0\/camera%2Bkapsa.jpg\" alt=\"literatura paraibana paulo sergio vieira livro haicai sergio castro pinto\" width=\"640\" height=\"960\" border=\"0\" data-original-height=\"1500\" data-original-width=\"1000\" \/><\/a><\/div>\n<\/figure>\n<p>Satisfazia-me t\u00e3o s\u00f3 em extrair um naco da realidade, uma fatia da realidade, tal e qual ela se deslindava \u00e0 minha frente: o sorriso da namorada, o c\u00e3ozinho de estima\u00e7\u00e3o, as ondas do mar, enfim, tudo o que tocava a minha sensibilidade. Quero dizer, n\u00e3o interferia no mundo exterior, pois ele j\u00e1 me vinha pronto e feito, de bandeja, diferente dos que utilizavam a express\u00e3o\u00a0<i>fazer fotografia<\/i>, que transfiguravam a realidade acrescentando a ela um certo modo de ver, de enxergar a vida, muitas vezes distorcendo a imagem, tornando-a irreconhec\u00edvel, por deixar falar as \u201cesquizofr\u00eanicas\u201d vozes interiores, as vozes do eu profundo, a exemplo do que fizeram os surrealistas no campo das artes pl\u00e1sticas. Pois bem. Estes que assim procediam eram os fot\u00f3grafos que expunham as suas fotos no N\u00facleo de Arte Contempor\u00e2nea, fotos art\u00edsticas, cheias de efeitos especiais, ao passo em que eu, rude amador, continuei vida afora a utilizar a express\u00e3o\u00a0<i>tirar fotografia<\/i>.<\/p>\n<p>No haicai, de um modo geral, o eu-l\u00edrico mais retira da natureza do que acrescenta. H\u00e1, evidentemente, aqueles que n\u00e3o se comprazem com a passividade, com a servid\u00e3o de apenas olhar e acatar a paisagem sem nela interferirem, sem darem o ar de sua gra\u00e7a. Mas, quase sempre, o eu-l\u00edrico do haicai lan\u00e7a um olhar contemplativo sobre a natureza, sobre as esta\u00e7\u00f5es do ano, sobre o reflexo da lua amassada nas \u00e1guas do lago etc. Embora os exemplos dessa \u201csubservi\u00eancia\u201d \u00e0 natureza sejam muitos, citemos apenas dois para n\u00e3o entediar o leitor:<\/p>\n<div class=\"esq poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">De pernas compridas<\/div>\n<div class=\"esq poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">Na parede do meu quarto<\/div>\n<div class=\"esq poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">Uma aranha preta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sebasti\u00e3o Vasconcelos<\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"dir poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">Velho cajueiro<\/div>\n<div class=\"dir poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">Com galhos secos, grisalhos,<\/div>\n<div class=\"dir poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">Caem no meu terreiro.<\/div>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<div>Ronnaldo Andrade<\/div>\n<p>\u00c9 verdade que o sujeito emissor do haicai, at\u00e9 mesmo por ser quase sempre um contemplativo, n\u00e3o deve se converter num ninja ou num samurai, mas nada o impede de existir \u00e0 semelhan\u00e7a de um demiurgo insatisfeito com um mundo criado \u00e0 sua revelia.<\/p>\n<figure class=\"dir meio\">\n<div class=\"separator\">\n<div class=\"separator\"><a href=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-Zwx0Xc01s5A\/YHJgR5dQyRI\/AAAAAAACyVg\/Rz7_aVAyZMUZ3lqSCkUROHhnDKjbsuM3wCLcBGAsYHQ\/s0\/paulo%2Bsergio%2Bvieira.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-Zwx0Xc01s5A\/YHJgR5dQyRI\/AAAAAAACyVg\/Rz7_aVAyZMUZ3lqSCkUROHhnDKjbsuM3wCLcBGAsYHQ\/s0\/paulo%2Bsergio%2Bvieira.jpg\" alt=\"literatura paraibana paulo sergio vieira livro haicai sergio castro pinto\" width=\"640\" height=\"960\" border=\"0\" data-original-height=\"1500\" data-original-width=\"1000\" \/><\/a><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"credito\">Paulo S\u00e9rgio Vieira<span class=\"credir\"><i class=\"fa fa-camera\"><\/i>facebook<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Da\u00ed a necessidade de criar mundos paralelos, de se transformar numa esp\u00e9cie de reformador da natureza, a exemplo de Leminski ou, no \u00e2mbito da poesia feita na Para\u00edba, de\u00a0<b>Paulo S\u00e9rgio Vieira<\/b>, conforme corrobora o lan\u00e7amento recente de \u201cPlumagem do vento\u201d, livro de haicais* com um l\u00facido pref\u00e1cio do tamb\u00e9m poeta Fransued do Valle. E tanto isso \u00e9 verdade que, utilizado num dos haicais desse livro, o termo\u00a0<i>boca de lobo<\/i>\u00a0n\u00e3o significa a boca do canis l\u00fapus, do animal lobo propriamente dito, mas a vala, o bueiro, a sarjeta, enfim, a boca de lobo, cuja tarefa consiste em fazer escoar as \u00e1guas uivantes das chuvas para as galerias fluviais, quebrando assim o sil\u00eancio da noite, como tamb\u00e9m o clima de quietude, de serenidade, que bem caracteriza o haicai de um modo geral:<\/p>\n<div class=\"poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">lua empo\u00e7ada.<\/div>\n<div class=\"poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">bocas de lobo uivando<\/div>\n<div class=\"poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">alta madrugada<\/div>\n<p>Aqui, ent\u00e3o, j\u00e1 se conclui da interfer\u00eancia do eu-l\u00edrico na ordem l\u00f3gica das coisas, esp\u00e9cie de rebeldia quando ele passa a afirmar incisiva e peremptoriamente que uma coisa \u00e9 outra, que isso \u00e9 aquilo, aproximando o pr\u00f3ximo do aparentemente distante, celebrando uma esp\u00e9cie de n\u00fapcias dos contr\u00e1rios, a exemplo do que ocorre nos seguintes versos:<\/p>\n<div class=\"poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">frutos de inverno.<\/div>\n<div class=\"poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">de asas maduras<\/div>\n<div class=\"poesia centraliza\" style=\"text-align: center;\">caem tanajuras<\/div>\n<p>J\u00e1 que o haicai \u00e9 um instant\u00e2neo, um flagrante, e ambos t\u00eam tudo a ver com fotografia, diria que a cada clique que comp\u00f5e esse livro Paulo S\u00e9rgio Vieira\u00a0<i>mais faz<\/i>\u00a0do que\u00a0<i>tira fotografias<\/i>, ao tempo em que o sujeito emissor dos versos assume a postura zen preconizada por Buda. Ou seja, deixa-se ficar \u201centre atento, sereno e desperto para viver cada instante com aten\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio\u201d, ingredientes que asseguram a qualidade de todo e qualquer poema que se preze, pois nunca \u00e9 demais repetir que \u201ca pressa aniquila o verso\u201d, segundo preceitua o poeta pernambucano Edson R\u00e9gis.<\/p>\n<div class=\"gradiente margem\">\n<div class=\"pontofinal\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"nota\">*\u00a0<b>NOTA DO AUTOR:<\/b>\u00a0Na Para\u00edba, lembro de outros poetas que cultivam o haicai: Eduardo Martins, Saulo Mendon\u00e7a Marques e Rejane Sobreira.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi na \u00e9poca em que trabalhei no N\u00facleo de Arte Contempor\u00e2neo (NAC), \u00f3rg\u00e3o da Universidade<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Foi na \u00e9poca em que trabalhei no N\u00facleo de Arte Contempor\u00e2neo (NAC), \u00f3rg\u00e3o da Universidade","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144557"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=144557"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144557\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":144558,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144557\/revisions\/144558"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=144557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=144557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=144557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}