{"id":144074,"date":"2021-04-03T12:30:42","date_gmt":"2021-04-03T15:30:42","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=144074"},"modified":"2021-04-03T10:55:09","modified_gmt":"2021-04-03T13:55:09","slug":"necrochorume-como-o-alto-numero-de-enterros-pode-impactar-o-meio-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/necrochorume-como-o-alto-numero-de-enterros-pode-impactar-o-meio-ambiente\/","title":{"rendered":"Necrochorume: como o alto n\u00famero de enterros pode impactar o meio ambiente"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-144075\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Ignorados por causa de supersti\u00e7\u00f5es e tabus religiosos, os cemit\u00e9rios brasileiros s\u00e3o agora palco principal para entender a dimens\u00e3o da pandemia da covid-19 no pa\u00eds. Al\u00e9m de indicativos evidentes como os mais de 320 mil \u00f3bitos e as milhares de fam\u00edlias de luto, as necr\u00f3poles mostram problemas de superlota\u00e7\u00e3o, sobrecarga f\u00edsica e emocional de trabalhadores funer\u00e1rios \u2014 expostos \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o e a longas horas de trabalho \u2014 e, ainda, um outro problema: o alto n\u00famero de sepultamentos pode agravar os danos para o meio ambiente e para a sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es mais pobres que vivem perto desses locais.<\/p>\n<p>No Ocidente, a preocupa\u00e7\u00e3o com enterros come\u00e7ou no s\u00e9culo 18, quando foram extintos os sepultamentos de pessoas em igrejas e outros locais sagrados dentro de \u00e1reas com alta densidade de pessoas e passou-se a enterrar os mortos longe da cidade, dando origem ao que conhecemos hoje por cemit\u00e9rios. No entanto, estudos sobre os impactos ambientais das necr\u00f3poles aconteceram s\u00f3 no s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Em um relat\u00f3rio publicado em 1998, a OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade) avaliou que cemit\u00e9rios tamb\u00e9m devem ser tratados como um potencial risco para o meio ambiente e a sa\u00fade p\u00fablica. No estudo, diversos pesquisadores avaliaram cemit\u00e9rios em pa\u00edses europeus, onde foi comprovada a presen\u00e7a de focos de bact\u00e9rias e poluentes origin\u00e1rios dos t\u00famulos que impactavam a popula\u00e7\u00e3o vizinha \u00e0s necr\u00f3poles.<\/p>\n<p>No Brasil, os danos causados pelos cemit\u00e9rios s\u00e3o objeto de estudo desde os anos 1970. In\u00fameras an\u00e1lises j\u00e1 trouxeram evid\u00eancias de que pessoas que moram e trabalham pr\u00f3ximas desses locais podem ser v\u00edtimas de doen\u00e7as decorrentes de bact\u00e9rias e v\u00edrus presentes em \u00e1gua contaminada por necrochorume \u2014 l\u00edquido decorrente do processo de decomposi\u00e7\u00e3o humana que penetra o solo.<\/p>\n<p>Por falta de interesse do Poder P\u00fablico e at\u00e9 por conta de dogmas religiosos que dificultam mudan\u00e7as estruturais nesses locais, s\u00e3o poucas as atitudes tomadas para minimizar os danos que necr\u00f3poles podem produzir. Com o agravamento da pandemia e milhares de mortos por dia, os especialistas entrevistados pelo TAB alertam para um problema que j\u00e1 pode estar em curso nos cemit\u00e9rios municipais.<\/p>\n<p><strong>Por que cemit\u00e9rios s\u00e3o focos de contamina\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Os riscos est\u00e3o diretamente ligados \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o do corpo humano. Depois da morte, nosso organismo produz um l\u00edquido viscoso, castanho-acinzentado e mal cheiroso, chamado necrochorume. Ele cont\u00e9m v\u00e1rias subst\u00e2ncias que s\u00e3o expelidas do cad\u00e1ver, como \u00e1gua, sais minerais, pat\u00f3genos (organismos que podem causar doen\u00e7as em um hospedeiro \u2014 bact\u00e9rias, v\u00edrus ou protozo\u00e1rios) e at\u00e9 mesmo restos de medica\u00e7\u00e3o que a pessoa tomou em vida. Estima-se que cada cad\u00e1ver pode produzir cerca de 30 a 40 litros de necrochorume em um per\u00edodo de seis meses a tr\u00eas anos, dependendo das condi\u00e7\u00f5es em que foi enterrado. Considerando que grande parte dos cemit\u00e9rios foram constru\u00eddos sem uma avalia\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do terreno, o descarte indevido do necrochroume faz com ele penetre o solo, contaminando len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos, nascentes de rios e po\u00e7os rasos. Isso pode causar diversas doen\u00e7as na popula\u00e7\u00e3o que consome essa \u00e1gua: febre tifoide, problemas gastrointestinais (v\u00f4mito, dores e diarreia) e t\u00e9tano, entre outros. Sem contar que o pr\u00f3prio v\u00edrus da covid-19, de que ainda n\u00e3o se sabe exatamente o tempo de perman\u00eancia em cad\u00e1veres, pode gerar problemas futuramente, na exuma\u00e7\u00e3o dos corpos.<\/p>\n<p>Por que a covid-19 piora essa situa\u00e7\u00e3o? S\u00e3o mais mortes e, consequentemente, mais enterros \u2014 tudo isso com menos aten\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. Se a contamina\u00e7\u00e3o no solo j\u00e1 preocupava especialistas brasileiros antes da pandemia, agora, com o aumento expressivo de sepultamentos di\u00e1rios, o problema \u00e9 ainda maior. &#8220;A concentra\u00e7\u00e3o de enterros em cemit\u00e9rios municipais \u00e9 muito alta. O aumento de tumula\u00e7\u00f5es significa que o volume esperado de necrochorume ao longo de um ano \u00e9 atingido quase que diariamente, com mais de mil pessoas morrendo por dia em S\u00e3o Paulo&#8221;, explica Fernando Augusto Saraiva, Mestre e Doutor em Geologia e Geof\u00edsica aplicadas e pesquisador no Instituto de Geoci\u00eancias da USP. Em Manaus, onde valas coletivas foram abertas com um trator no Cemit\u00e9rio Municipal Nossa Senhora Aparecida, foi pedido aten\u00e7\u00e3o ao IPAAM (Instituto de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental do Amazonas) em rela\u00e7\u00e3o aos sepultamentos. Na cidade, existem cerca de 10 mil po\u00e7os que abastecem a popula\u00e7\u00e3o e o n\u00edvel de profundidade dos len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos \u00e9 mais superficial.<\/p>\n<p><strong>Todo mundo corre risco de tomar \u00e1gua contaminada?<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s n\u00e3o somos muito desenvolvidos em termos de saneamento b\u00e1sico, por isso existe muita gente que recorre aos po\u00e7os rasos&#8221;, explica Francisco Carlos da Silva, qu\u00edmico e professor das Secretarias Estadual e Municipal da Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, mestre em An\u00e1lise Geoambiental pela Universidade de Guarulhos e doutor em Ci\u00eancias Ambientais pela Unesp-Sorocaba. Os maiores afetados pela contamina\u00e7\u00e3o s\u00e3o popula\u00e7\u00f5es mais pobres, sem acesso \u00e0 \u00e1gua tratada e saneamento b\u00e1sico, que dependem dos po\u00e7os para conseguirem \u00e1gua. Em um levantamento feito em 2011 pelo ge\u00f3logo Lez\u00edro Marques Silva, 75% dos cemit\u00e9rios brasileiros analisados apresentaram problemas sanit\u00e1rios e ambientais \u2014 como solo inadequado, vazamento de necrochorume no len\u00e7ol fre\u00e1tico ou proximidade de \u00e1reas residenciais.<\/p>\n<p><strong>Mas n\u00e3o existem regras para construir um cemit\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 em 2003 foi publicada pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) a Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 335, que obriga que cemit\u00e9rios horizontais e verticais tenham licenciamento ambiental para serem constru\u00eddos. A fiscaliza\u00e7\u00e3o foi incumbida aos \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores de cada estado ou munic\u00edpio. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de S\u00e3o Paulo) \u00e9 respons\u00e1vel pelo monitoramento das \u00e1guas subterr\u00e2neas e de poss\u00edveis contamina\u00e7\u00f5es das necr\u00f3poles. No entanto, grande parte dos cemit\u00e9rios foram constru\u00eddos muito antes da resolu\u00e7\u00e3o do Conama \u2014 e s\u00e3o raros os que realmente possuem licenciamento ambiental. Isso significa que grande parte foi constru\u00edda sem qualquer estudo geot\u00e9cnico pr\u00e9vio. Esse estudo analisa o tipo de solo, as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas da regi\u00e3o e, principalmente, mapeia os n\u00edveis de profundidade dos len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos para evitar contamina\u00e7\u00f5es. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 a menor preocupa\u00e7\u00e3o sobre cemit\u00e9rios p\u00fablicos, eles s\u00e3o simplesmente tratados como um dep\u00f3sito de corpos&#8221;, resume Silva. &#8220;No geral, foram constru\u00eddos em lugares que n\u00e3o serviam para investimentos imobili\u00e1rios e loteamento. Grande parte est\u00e1 em terrenos acidentados, e nunca houve um cuidado com a quest\u00e3o do meio ambiente. Muitos, como o Cemit\u00e9rio Municipal de Itaquera em S\u00e3o Paulo, est\u00e3o pr\u00f3ximos de nascentes&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O que deve ser feito?<\/strong><\/p>\n<p>Com o n\u00famero alto de mortes por dia, os especialistas ouvidos pelo TAB frisam que \u00e9 urgente que os \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis fa\u00e7am monitoramento constante nos po\u00e7os para avaliar a situa\u00e7\u00e3o da \u00e1gua em regi\u00f5es vizinhas a necr\u00f3poles. &#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil tratar desse problema, porque o cemit\u00e9rio j\u00e1 est\u00e1 ali&#8221;, explica Saraiva. &#8220;Voc\u00ea tem que estabelecer um raio, uma zona de seguran\u00e7a, e dentro dessa zona, os \u00f3rg\u00e3os competentes precisam impedir o consumo dessa \u00e1gua na superf\u00edcie.&#8221; Em maio de 2020, a comiss\u00e3o do Meio Ambiente do Conselho Nacional do Minist\u00e9rio P\u00fablico publicou uma nota t\u00e9cnica pedindo aten\u00e7\u00e3o redobrada nos cemit\u00e9rios devido \u00e0 pandemia. At\u00e9 o momento, por\u00e9m, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente n\u00e3o divulgou nenhuma medida sobre o que fazer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necr\u00f3poles. &#8220;Essa pandemia n\u00e3o vai acabar t\u00e3o cedo, e n\u00e3o adianta se preocupar s\u00f3 com os que est\u00e3o vivos agora. Temos que nos preocupar com os que continuar\u00e3o vivos amanh\u00e3. Estamos perto de passar por um problema de sa\u00fade p\u00fablica, que vai acontecer em fun\u00e7\u00e3o de cemit\u00e9rios&#8221;, afirma Silva.<\/p>\n<p><strong>Cremar \u00e9 a melhor solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores concordam que a crema\u00e7\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o ecologicamente mais vi\u00e1vel. Ainda assim, grande parte dos mortos s\u00e3o sepultados na terra, por ser uma op\u00e7\u00e3o mais tradicional no Brasil e, normalmente, a mais barata oferecida pelos munic\u00edpios \u2014 at\u00e9 pela escassez de cremat\u00f3rios. No entanto, frisa Silva, os cremat\u00f3rios devem estar aptos para funcionar. &#8220;Um cemit\u00e9rio representa um problema local naquela microbacia em que est\u00e1 situado. No caso de cremat\u00f3rio, se voc\u00ea n\u00e3o tem um sistema de filtra\u00e7\u00e3o correto, deixar\u00e1 de ter um problema local e passar\u00e1 a ter um problema mundial, porque est\u00e1 jogando tudo isso no ar&#8221;, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ignorados por causa de supersti\u00e7\u00f5es e tabus religiosos, os cemit\u00e9rios brasileiros s\u00e3o agora palco principal<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":144075,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/cemiterios.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Ignorados por causa de supersti\u00e7\u00f5es e tabus religiosos, os cemit\u00e9rios brasileiros s\u00e3o agora palco principal","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144074"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=144074"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":144076,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144074\/revisions\/144076"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/144075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=144074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=144074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=144074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}