{"id":143497,"date":"2021-03-23T11:00:58","date_gmt":"2021-03-23T14:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=143497"},"modified":"2021-03-23T10:38:52","modified_gmt":"2021-03-23T13:38:52","slug":"as-flores-do-figo-ficam-la-dentro-e-os-polinizadores-morrem-em-seu-interior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/as-flores-do-figo-ficam-la-dentro-e-os-polinizadores-morrem-em-seu-interior\/","title":{"rendered":"As flores do figo ficam l\u00e1 dentro \u2013 e os polinizadores morrem em seu interior"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"description\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-143498\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Existe apenas uma esp\u00e9cie de vespa capaz de polinizar a planta, e todo seu ciclo de vida gira em torno do figo. Agora, agricultores paulistas planejam trazer esses insetos especialistas para impulsionar a produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/h2>\n<p><i>A convidada desta semana \u00e9 Larissa Galante Elias, bi\u00f3loga e pesquisadora na Decoy Smart Control.<\/i><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o figo e uma pequena esp\u00e9cie de vespa, a\u00a0<i>Blastophaga psenes<\/i>,\u00a0\u00e9 t\u00e3o exclusiva que parece que eles nasceram um para o outro. E \u00e9 quase isso mesmo.<\/p>\n<p>A vespa-do-figo \u00e9 o \u00fanico inseto capaz de polinizar o figo \u2013 ou seja, juntar o gameta masculino com o feminino para a reprodu\u00e7\u00e3o da planta. Essa exclusividade \u00e9 uma dor de cabe\u00e7a para os produtores de figo no Brasil, porque a vespa\u00a0<i>B. psenes\u00a0<\/i>n\u00e3o existe por aqui.<\/p>\n<p>As figueiras\u00a0<em>(F<\/em><em>icus carica<\/em>)\u00a0<em>s\u00e3o<\/em>\u00a0nativas do Mediterr\u00e2neo e Oriente M\u00e9dio e est\u00e3o entre as primeiras plantas domesticadas pelo ser humano, h\u00e1 milhares de anos. O figo \u00e9 bastante usado no Brasil para a produ\u00e7\u00e3o de doces, geleias e enlatados. Mas por aqui n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum produzir ou comer os deliciosos figos secos, como \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o na Turquia.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 cultural \u2013 ela tem a ver com o tipo de figueira que temos no pa\u00eds e na intera\u00e7\u00e3o curiosa que a frut\u00edfera tem com a sua polinizadora, a vespa-do-figo.<\/p>\n<p>Figos n\u00e3o s\u00e3o frutas comuns. Na verdade, nem frutas s\u00e3o, mas flores (ou, mais precisamente, floresc\u00eancias). Como na analogia feita na s\u00e9rie documental inglesa\u00a0<em>The Queen of Trees<\/em>\u00a0(\u2018A Rainha das \u00c1rvores\u201d, n\u00e3o dispon\u00edvel no Brasil), imagine que o figo \u00e9 um jardim secreto, uma \u201ccesta\u201d fechada, repleta de milhares de min\u00fasculas flores no seu interior. Cada jardim tem um portal de entrada, um buraquinho que comunica a cesta de flores com o exterior.<\/p>\n<p>As figueiras, como outras plantas, precisam ser polinizadas para formar sementes. As pequeninas f\u00eameas da vespa\u00a0<i>B. psenes<\/i>\u00a0s\u00e3o as \u00fanicas com o formato adequado para acessar estreita entrada e levar o p\u00f3len (o gameta masculino) at\u00e9 as miniflores femininas, onde as sementes se formar\u00e3o. Esses insetos t\u00eam por volta de 1mm de tamanho, vivem somente um dia e seu \u00fanico objetivo na vida \u00e9 encontrar um local para botar seus ovos: o figo.<\/p>\n<p>Dentro da flor, ela p\u00f5e seus ovos \u2013 e morre. Nesse processo, polinizou o figo. Quando a vespas filhotes nascem, o ciclo se repete: machos e f\u00eameas copulam l\u00e1 dentro do figo mesmo, as f\u00eameas saem do figo carregadas de p\u00f3len e entram em um novo figo para colocar os seus ovos. Figueiras e vespas dependem totalmente uma da outra h\u00e1 dezenas de milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>O leitor j\u00e1 deve estar se perguntando se comeu vespas todas as vezes em que comeu figos. Em geral, n\u00e3o. O figo comest\u00edvel tem plantas de sexos separados. As plantas femininas produzem os figos que comemos. nesses figos, as flores s\u00e3o muito compridas e a vespa m\u00e3e, ao entrar no jardim, n\u00e3o consegue encontrar o lugar adequado para p\u00f4r seus ovos.<\/p>\n<p>Nesse caso, n\u00e3o encontramos nenhum filhote, e corpo da solit\u00e1ria vespa m\u00e3e se degrada muito antes do alimento chegar \u00e0 mesa. No entanto, nas flores as masculinas, as floresc\u00eancias s\u00e3o mais curtas e o inseto \u00e9 capaz de p\u00f4r todos os ovos. Esses figos ficam repletos de jovens vespas, e geralmente n\u00e3o s\u00e3o considerados adequados para consumo humano.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o temos essa vespinha no Brasil, como temos figos? \u00c9 que algumas variedades de figueiras, como as produzidas aqui, t\u00eam figos que n\u00e3o precisam ser polinizados. Por\u00e9m, a aus\u00eancia desse processo faz com que o alimento tenha menor teor de a\u00e7\u00facar e sabor menos acentuado. Eles tamb\u00e9m duram menos depois da colheita, tendo menor tempo de prateleira. Essas caracter\u00edsticas impedem que o figo nacional seja utilizado para a fabrica\u00e7\u00e3o de subprodutos, como o figo seco. O que torna o figo nacional menos competitivo no mercado.<\/p>\n<p>Na Calif\u00f3rnia, ficicultores do final do s\u00e9culo 19 enfrentaram o mesmo problema. Para produzir um figo de qualidade superior, eles introduziram na regi\u00e3o a vespa\u00a0<i>B. psenes<\/i>\u00a0e figueiras da variedade Smyrna (que precisa de poliniza\u00e7\u00e3o). Hoje, os EUA est\u00e3o entre os dez maiores produtores mundiais.<\/p>\n<p>Agora, os ficicultores da regi\u00e3o de Valinhos (SP) querem copiar seus colegas californianos e pediram ajuda para pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) do Estado de S\u00e3o Paulo, a Universidade de S\u00e3o Paulo e a Universidade Estadual Paulista \u201cJ\u00falio de Mesquita Filho\u201d. O projeto ainda busca recursos para sua viabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes dos produtores introduzir as novas esp\u00e9cies de planta e vespa no pa\u00eds, os pesquisadores precisam estudar se elas se adaptam ao nosso ambiente e, mais importante, qual \u00e9 o impacto delas no ecossistema. Na \u00e9poca que os californianos levaram as vespas do Mediterr\u00e2neo para a costa do Pac\u00edfico, ningu\u00e9m estava preocupado se a esp\u00e9cie ex\u00f3tica poderia prejudicar outras vespas nativas.<\/p>\n<p>Hoje, esses riscos devem ser avaliados com bastante rigor \u2013 mesmo no caso dessa associa\u00e7\u00e3o t\u00e3o espec\u00edfica e intricada entre figueira e a vespa-do-figo. Como um \u00e9 t\u00e3o dependente do outro, as\u00a0<i>B. psenes<\/i>\u00a0costumam viver apenas nas \u00e1reas de cultivo. Os riscos ecol\u00f3gicos envolvendo outras esp\u00e9cies animais e vegetais s\u00e3o bastante reduzidos.<\/p>\n<p>Em teoria, as vespinhas n\u00e3o concorreriam com outros insetos, j\u00e1 que somente elas podem usufruir do jardim secreto do figo \u2013 e nenhuma outra planta lhe conv\u00e9m. Mas, na pr\u00e1tica, a teoria \u00e9 outra: s\u00f3 experimentos poder\u00e3o dizer se a introdu\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie causaria algum dano ao meio ambiente.<\/p>\n<p><em>Este \u00e9 o s\u00e9timo post do blog Bzzzzz, em que pesquisadores membros do comit\u00ea cient\u00edfico da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Estudos das Abelhas (ABELHA) e outros cientistas colaboradores v\u00e3o comentar a vida, os h\u00e1bitos e a import\u00e2ncia econ\u00f4mica de diversos insetos \u2013 al\u00e9m de nos atualizar sobre as mais recentes descobertas no campo desses pequenos artr\u00f3podes. At\u00e9 a pr\u00f3xima!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe apenas uma esp\u00e9cie de vespa capaz de polinizar a planta, e todo seu ciclo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":143498,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/figo.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Existe apenas uma esp\u00e9cie de vespa capaz de polinizar a planta, e todo seu ciclo","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143497"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=143497"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143497\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":143500,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143497\/revisions\/143500"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/143498"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=143497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=143497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=143497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}