{"id":143367,"date":"2021-03-20T15:35:51","date_gmt":"2021-03-20T18:35:51","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=143367"},"modified":"2021-03-20T15:35:51","modified_gmt":"2021-03-20T18:35:51","slug":"historias-de-luta-e-perseveranca-para-manter-o-cerrado-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/historias-de-luta-e-perseveranca-para-manter-o-cerrado-vivo\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias de luta e perseveran\u00e7a para manter o Cerrado vivo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/cerrado-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-143368\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/cerrado-3.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"213\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/cerrado-3.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/cerrado-3-300x100.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570414-brasil-e-lider-em-mortes-por-conflitos-fundiarios-destaca-relatorio-da-global-witness\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Conflitos fundi\u00e1rios<\/a>, desmatamento e invas\u00f5es. Este \u00e9 o retrato que se esconde atr\u00e1s das paisagens da savana brasileira, o segundo maior bioma da Am\u00e9rica do Sul e do Brasil.<\/p>\n<p>Para retratar a cultura e as hist\u00f3rias dos povos e das comunidades tradicionais do Cerrado, a\u00a0<strong>Rede Cerrado<\/strong>\u00a0\u2013 organiza\u00e7\u00e3o composta por mais de 50 entidades da sociedade civil associadas, que conta com o apoio do\u00a0<strong>WWF-Brasil<\/strong>\u00a0\u2013 lan\u00e7a um \u00e1lbum online[1] com o retrato do segundo maior bioma tanto da Am\u00e9rica do Sul como do Brasil. Trata-se de uma regi\u00e3o com belas paisagens, mas que esconde um passado \u2013 n\u00e3o muito distante \u2013 repleto de tradi\u00e7\u00f5es e um presente marcado por conflitos fundi\u00e1rios, invas\u00f5es, desapropria\u00e7\u00f5es ilegais e vidas perdidas.<\/p>\n<p>Apesar de sua grandeza, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/599911-destruicao-do-cerrado-em-2019-foi-mais-rapida-que-na-amazonia-e-avancou-sobre-areas-protegidas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cerrado<\/a>\u00a0sofre com a perda da riqueza natural, com suas paisagens sendo transformadas em pastos ou lavouras, e com o avan\u00e7o do desmatamento \u2013 que s\u00f3 no \u00faltimo ano foi de cerca de 13%. E o desmatamento cont\u00ednuo impacta na quantidade de \u00e1gua produzida, armazenada e distribu\u00edda pelo bioma, levando ao desabastecimento de cidades e ind\u00fastrias e ao desaparecimento de esp\u00e9cies nativas de \u00e1rvores e animais.<\/p>\n<p>Para retratar o dia a dia deste bioma t\u00e3o amea\u00e7ado, a\u00a0<strong>Rede Cerrado<\/strong>\u00a0est\u00e1 lan\u00e7ando um \u00e1lbum de hist\u00f3rias de luta e resist\u00eancia sob o olhar de mulheres que vivem e amam o bioma. \u201cA plataforma \u00e9 como um retrato da riqueza natural e social do bioma. Buscamos evidenciar a diversidade dos povos e das comunidades tradicionais que lutam pela sobreviv\u00eancia do Cerrado e de seus modos de vida\u201d, declara\u00a0<strong>K\u00e1tia Favilla<\/strong>, secret\u00e1ria-executiva da Rede Cerrado. O\u00a0<strong>Hist\u00f3rias do Cerrado<\/strong>\u00a0\u00e9 um desdobramento do podcast\u00a0<strong>Cerrados<\/strong>, lan\u00e7ado pelas duas organiza\u00e7\u00f5es em junho do ano passado.<\/p>\n<h3>Minas Gerais \u2013 A primeira fronteira agr\u00edcola<\/h3>\n<p>\u00c9 no Norte de Minas Gerais, nas bordas do Cerrado mineiro \u2013 uma regi\u00e3o plana, com \u00e1rvores retorcidas, onde a paisagem come\u00e7a a ressecar e virar caatinga \u2013 que encontramos\u00a0<strong>C\u00e9lia Xacriab\u00e1<\/strong>, que com orgulho retrata as \u00e1rvores floridas e coloridas, como o seu Ip\u00ea rosa com a legenda: \u201cao amanhecer, o Cerrado\u201d. Antigamente, sua etnia habitava as margens do Rio S\u00e3o Francisco, mas acabou tendo que ir para \u00e1reas mais secas, sendo que em 1960 foi dada como extinta. Mas a luta de seu povo, amea\u00e7ado de perder suas terras, fez o\u00a0<strong>Governo Federal<\/strong>\u00a0reconhecer e retornar o nome dos Xacriab\u00e1s \u00e0 lista dos povos ind\u00edgenas. Hoje, eles s\u00e3o considerados a etnia mais populosa de Minas Gerais. Assim como outras comunidades tradicionais do Cerrado, os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/569883-ainda-timidamente-academia-se-abre-aos-saberes-tradicionais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Xacriab\u00e1s<\/a>\u00a0t\u00eam sua hist\u00f3ria marcada por expuls\u00f5es, desapropria\u00e7\u00f5es ilegais e os investimentos das empresas agr\u00edcolas.<\/p>\n<h3>Goi\u00e1s \u2013 A medicina das plantas<\/h3>\n<p>Muita gente desconhece, mas o Cerrado possui uma riqueza imensur\u00e1vel que vem das plantas e do seu povo. Ele n\u00e3o s\u00f3 alimenta os rios que correm em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es, mantendo seis das oito grandes\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/563898-as-veias-do-brasil-arco-iris-das-bacias-hidrograficas-do-territorio-nacional\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">bacias hidrogr\u00e1ficas brasileiras<\/a>\u00a0\u2013 mas tamb\u00e9m oferece recursos fitoter\u00e1picos com sua rica biodiversidade de folhas, ra\u00edzes e cascas. A medicina popular \u00e9 resultado da riqueza natural e de conhecimentos seculares, que foram passados de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 em Goi\u00e1s, na comunidade do Cedro, que encontramos as farm\u00e1cias comunit\u00e1rias ou caseiras e a\u00a0<strong>D. Lucely Pio<\/strong>, quinta gera\u00e7\u00e3o de descendentes de escravos que resiste e mant\u00e9m viva as tradi\u00e7\u00f5es de seu povo. Gra\u00e7as \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o de algumas partes do bioma, D.\u00a0<strong>Lucely<\/strong>\u00a0ainda trabalha com ervas do tempo de seu tatarav\u00f4. Para ela, a conserva\u00e7\u00e3o do bioma \u00e9 fundamental para a continuidade do modo de vida. Apesar de sua luta em preservar o meio ambiente, estima-se que o Cerrado goiano esteja com 90% de sua vegeta\u00e7\u00e3o nativa alterada, resultado do desmatamento e do avan\u00e7o do cultivo de monoculturas agr\u00edcolas e cria\u00e7\u00e3o de gado.<\/p>\n<h3>Piau\u00ed \u2013 Terra sem Lei<\/h3>\n<p>Conhecida como a \u201c\u00faltima fronteira agr\u00edcola do Cerrado\u201d, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/582788-a-quem-pertence-o-matopiba\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Matopiba<\/a>\u00a0\u2013 formado por \u00e1reas majoritariamente de Cerrado nos estados do Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia \u2013 \u00e9 uma das regi\u00f5es mais cobi\u00e7adas pelos plantadores de soja e tradings internacionais. Localizada no Sul do Piau\u00ed, entre os munic\u00edpios de Bom Jesus e Currais, vive\u00a0<strong>Claudia Regina dos Santos<\/strong>\u00a0\u2013 uma ativista que h\u00e1 mais de 20 anos atua na defesa dos direitos das comunidades rurais e que tem a vida marcada pelos conflitos agr\u00e1rios, contabilizando na sua trajet\u00f3ria cinco amea\u00e7as de morte. Trata-se de uma regi\u00e3o fortemente atingida pela dissemina\u00e7\u00e3o do cultivo da soja, desde a d\u00e9cada de 70. E que entre 2000 a 2014 saltou de 1 milh\u00e3o para 3,4 milh\u00f5es de hectares, um crescimento de 253%. Ou seja, degrada\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado e a transforma\u00e7\u00e3o da paisagem em lavouras. Paralelo ao potencial de produ\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o est\u00e3o tamb\u00e9m as disputas por terra, falta de documenta\u00e7\u00e3o e os conflitos socioambientais.<\/p>\n<h3>Mato Grosso \u2013 O rolo compressor<\/h3>\n<p>\u00c9 no leste de Mato Grosso, na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/601252-indigenas-xavante-sao-os-mais-atingidos-pela-covid-19-no-mato-grosso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aldeia Namunkur\u00e1<\/a>\u00a0\u2013 na terra ind\u00edgena S\u00e3o Marcos \u2013 que vive\u00a0<strong>Tsitsina Xavante<\/strong>\u00a0e parte do povo\u00a0<strong>Xavante<\/strong>\u00a0\u2013 autodenomidado\u00a0<strong>A\u2019uwe Uptabi<\/strong>, o mais populoso do estado. Uma \u00e1rea de 188 hectares cercada por \u00e1rvores altas e escuras, e pelas nascentes das bacias Amaz\u00f4nica e Tocantins-Araguaia, consideradas duas das tr\u00eas maiores bacias hidrogr\u00e1ficas da Am\u00e9rica do Sul. Apesar das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/600059-projeto-do-governo-de-mt-amplia-vulnerabilidade-das-terras-indigenas-em-meio-a-pandemia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">terras ind\u00edgenas<\/a>\u00a0serem demarcadas, isso n\u00e3o garante qualidade de vida e equil\u00edbrio ambiental. Muito pelo contr\u00e1rio. Estamos falando da regi\u00e3o que mais produz soja e que tem o maior rebanho de gado de corte no Brasil e, consequentemente, com altas taxas de desmatamento. As \u00e1reas do entorno come\u00e7aram a ter suas \u00e1guas e animais, que s\u00e3o a base alimentar das aldeias, contaminados pela utiliza\u00e7\u00e3o de fertilizantes e herbicidas das fazendas, al\u00e9m dos sistemas de pulveriza\u00e7\u00e3o que atingem, diretamente, as comunidades ind\u00edgenas e as popula\u00e7\u00f5es rurais. O \u00edndice de exposi\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos \u00e9 sete vezes maior no Mato Grosso em compara\u00e7\u00e3o com o resto do pa\u00eds, de acordo com dados do\u00a0<strong>Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho<\/strong>, de 2015. A falta de recursos, a aus\u00eancia de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e do interesse pol\u00edtico s\u00e3o refletidas na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o como nos casos de m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita em beb\u00eas nas cidades mais expostas aos defensivos agr\u00edcolas.<\/p>\n<h3>Maranh\u00e3o \u2013 As florestas de palmeiras<\/h3>\n<p>\u00c9 na regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o do Cerrado para a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596280-a-floresta-amazonica-e-como-o-coracao-biologico-da-terra-o-planeta-pelo-menos-o-planeta-que-conhecemos-nao-pode-viver-sem-a-amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">floresta Amaz\u00f4nica<\/a>\u00a0que est\u00e3o as palmeiras de baba\u00e7u, tamb\u00e9m chamadas de \u201cm\u00e3e de leite\u201d, que h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es garantem o sustento das comunidades rurais. \u00c9 l\u00e1 que encontramos as quebradeiras de coco: mulheres que carregam a centen\u00e1ria tradi\u00e7\u00e3o do extrativismo sustent\u00e1vel do nordeste brasileiro, como\u00a0<strong>Rosalva Silva<\/strong>\u00a0\u2013 moradora da comunidade rural Palmeir\u00e2ndia, no interior do Cerrado maranhense. H\u00e1 90 anos, camponesas que vivem no interior do Par\u00e1, Maranh\u00e3o, Piau\u00ed e Tocantins sustentam suas fam\u00edlias a partir do coco baba\u00e7u. Estima-se que 300 mil mulheres estejam neste of\u00edcio, sendo a maioria do Maranh\u00e3o. Mas os conflitos por terras, desde a d\u00e9cada de 60, com o leil\u00e3o de \u00e1reas p\u00fablicas e depois com a chegada do agroneg\u00f3cio mecanizado, restringiu o espa\u00e7o das fam\u00edlias locais para terrenos menores e longe das florestas de baba\u00e7u, mudando a produ\u00e7\u00e3o das comunidades tradicionais e transformando as paisagens. Mas a luta desse povo e a presen\u00e7a em conselhos nacionais relacionados ao\u00a0<strong>meio ambiente<\/strong>\u00a0consolidou cooperativas e ajudou a estruturar pol\u00edticas p\u00fablicas e a garantir leis de defesa das palmeiras. \u00c9 delas que se extrai o alimento (bolo, pudim, biscoito, mingau), adubo, artesanato (casca do coco), moradia (palha para cobrir as casas e fazer paredes) e rem\u00e9dio (a\u00e7\u00e3o cicatrizante). \u201cPor isso que a gente traz essa nova proposta de ser humano, de produ\u00e7\u00e3o, de gerar renda e alimento saud\u00e1vel sob a luz da agroecologia. Tudo isso para ajudar nessa oposi\u00e7\u00e3o que a gente faz ao\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/587216-estudo-mostra-que-ha-mais-pobreza-do-que-riqueza-nos-municipios-do-matopiba\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Matopiba<\/a>. Para continuar tendo o coco e a vida de quebradeira\u201d, resume\u00a0<strong>Rosalva<\/strong>.<\/p>\n<h3>Bahia \u2013 A grilagem e a luta pelo territ\u00f3rio<\/h3>\n<p><strong>Lusineide dos Santos<\/strong>, moradora de Cacimbinha, cidade baiana a 130 KM do n\u00facleo urbano de Formosa do Rio Preto, reconhecida como uma das maiores receitas agr\u00edcolas do Brasil, relata como a vida nos vales foi transformada com a chegada das grandes fazendas e os conflitos vividos antes da Justi\u00e7a decidir a posse da terra da comunidade. \u00c1gua escassa, eros\u00f5es nas chapadas e o medo de desenvolver doen\u00e7as causadas pelos agrot\u00f3xicos das lavouras vizinhas s\u00e3o problemas di\u00e1rios da comunidade. H\u00e1 40 anos empresas de commodities se instalaram na regi\u00e3o e hoje contam com uma \u00e1rea forrada de lavouras, conquistadas com investimentos em maquin\u00e1rios e tecnologia para produ\u00e7\u00e3o mecanizada. Por\u00e9m, o crescimento do setor e das fazendas de soja tem sido uma experi\u00eancia traum\u00e1tica para a comunidade. Irregularidades como compra de t\u00edtulos forjados, invas\u00f5es, viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos, expuls\u00e3o de moradores est\u00e3o entre os principais conflitos na regi\u00e3o, deixando os moradores encurralados por lavouras de monocultura. Al\u00e9m destes problemas, a comunidade n\u00e3o conta com energia el\u00e9trica e dependem de placas solares que sempre apresentam problemas. Sem falar das estradas esburacadas \u2013 rodeadas de planta\u00e7\u00f5es de soja. Ou seja, uma regi\u00e3o rica do setor agr\u00edcola e uma\u00a0<strong>popula\u00e7\u00e3o extremamente pobre<\/strong>, vivendo no isolamento e \u00e0 luz de velas.<\/p>\n<h3>Distrito Federal \u2013 Um polo de articula\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>\u00c9 no Distrito Federal, regi\u00e3o predominante dentro do Cerrado, que Ip\u00eas e outras \u00e1rvores nativas resistem florindo. Estamos falando da capital do Brasil onde\u00a0<strong>pesquisadores<\/strong>,\u00a0<strong>ind\u00edgenas<\/strong>,\u00a0<strong>quilombolas<\/strong>,\u00a0<strong>agricultores<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>raizeiras<\/strong>\u00a0se re\u00fanem h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas para promover a tradi\u00e7\u00e3o, fazer reflex\u00f5es sobre pol\u00edticas p\u00fablicas e debater em defesa da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570551-a-conservacao-do-cerrado-e-urgente\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">conserva\u00e7\u00e3o do Cerrado<\/a>. Este \u00e9 o foco do Encontro dos Povos. \u00c9 importante lembrar que o bioma concentra oito das 12 regi\u00f5es hidrogr\u00e1ficas brasileiras que abastecem seis das oito grandes bacias hidrogr\u00e1ficas do Brasil. Por\u00e9m, o avan\u00e7o da monocultura tem afetado os recursos h\u00eddricos em v\u00e1rias regi\u00f5es, onde dezenas de comunidades presenciaram suas nascentes secarem depois da chegada de planta\u00e7\u00f5es de eucalipto, por exemplo. Para conter a devasta\u00e7\u00e3o ambiental, em 2019, comunidades tradicionais apresentaram uma peti\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados para transformar o Cerrado e a Caatinga em patrim\u00f4nio nacional.<\/p>\n<h3>Mato Grosso do Sul \u2013 A expans\u00e3o da monocultura<\/h3>\n<p>\u00c9 na simplicidade e no olhar cuidadoso que\u00a0<strong>Rosane Sampaio<\/strong>, moradora do assentamento de reforma agr\u00e1ria\u00a0<strong>Andalucia<\/strong>, reconhece \u201cque tirar todas as plantas para fazer pasto n\u00e3o \u00e9 o melhor\u201d. Conhecida como Preta, ela \u00e9 uma refer\u00eancia no conhecimento de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis para comunidades rurais de Mato Grosso do Sul e l\u00edder do\u00a0<strong>Centro de Produ\u00e7\u00e3o, Pesquisa e Capacita\u00e7\u00e3o do Cerrado<\/strong>. A popula\u00e7\u00e3o que antes enxergava o mato como algo feio e que o retirava para abertura de pastos, hoje atua com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579927-agricultura-familiar-do-brasil-e-8-maior-produtora-de-alimentos-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">agricultura familiar<\/a>\u00a0e conta com t\u00e9cnicas de extrativismo, agroind\u00fastria de beneficiamento de frutos nativos (baru, bocai\u00fava, laranjinha-de-pacu, jaracati\u00e1) e castanhas, por meio de um trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o. O resultado pode ser apreciado nas geleias, polpas, mel de cumbaru, artesanatos, entre outros. Um bom exemplo que prova que n\u00e3o \u00e9 preciso desmatar para produzir e gerar renda para a popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<h3>Tocantins \u2013 Experi\u00eancia e coexist\u00eancia<\/h3>\n<p>Conviver coletivamente h\u00e1 mais de 200 anos: \u00e9 assim a hist\u00f3ria da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/602361-se-morrer-um-e-uma-historia-uma-vida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">comunidade quilombola Mumbuca<\/a>. Localizada no Cerrado de Tocantins, fora do eixo das grandes metr\u00f3poles, no meio do Jalap\u00e3o, que a popula\u00e7\u00e3o habita a regi\u00e3o de maneira harm\u00f4nica com o meio ambientes e suas riquezas naturais, como o o\u00e1sis de \u00e1guas cristalinas, em pleno clima semi\u00e1rido. A dist\u00e2ncia dos centros urbanos fez com que muitas gera\u00e7\u00f5es ficassem sem certid\u00e3o de nascimento, mas para os mumbucas o registro estava na fala. \u201cTemos outra l\u00f3gica do tempo, temos a l\u00f3gica dos acontecimentos e n\u00e3o de calend\u00e1rios ocidentais\u201d, declara\u00a0<strong>Ana Mumbuca<\/strong>. Para ela, a matriz que orienta seu pensamento vem de l\u00f3gicas africanas e ind\u00edgenas, mais conectada a fatos e passagens. Os anos s\u00e3o identificados como \u201co tempo da grande chuva de granizo\u201d ou \u201ca \u00e9poca em que a lagoa Bilau secou\u201d. E com a sabedoria ancestral, a comunidade desenvolveu sistemas agr\u00edcolas e aprendeu a manejar o solo arenoso, as chamadas Ro\u00e7as de Esgoto ou de Rego, de maneira integrada e equilibrada com o bioma, seja na colheita de frutos ou na cria\u00e7\u00e3o de animais.<\/p>\n<h3>S\u00e3o Paulo \u2013 A menor por\u00e7\u00e3o que h\u00e1<\/h3>\n<p>A regi\u00e3o que habita a menor \u00e1rea da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/586574-cerrado-e-o-bioma-brasileiro-com-maior-taxa-de-desmatamento-diz-estudo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">savana brasileira<\/a>\u00a0j\u00e1 viveu tempos bem diferentes. A capital paulista um dia foi Cerrado. Ela era um ponto de encontro de matas e campos, com v\u00e1rzeas dos rios Tiet\u00ea e Tamanduate\u00ed, ainda na \u00e9poca que as terras eram dos Tupiniquins. Registros apontam que no in\u00edcio do s\u00e9culo XX a regi\u00e3o tinha 18,2% do territ\u00f3rio coberto pelo bioma e 100 anos depois menos de 1%. O Cerrado paulista era considerado como um \u2018mato qualquer\u2019 e demorou para entrar na agenda de conserva\u00e7\u00e3o ambiental. Hoje temos apenas mini \u00e1reas fragmentadas, ilhas de vegeta\u00e7\u00e3o fr\u00e1geis \u2013 que n\u00e3o conseguem garantir a perpetua\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies end\u00eamicas. E que, sozinhas, n\u00e3o permitem a continua\u00e7\u00e3o do ciclo de abastecimento de \u00e1gua. Resistentes ao tempo alguns s\u00edmbolos como a Cidade da\u00a0<strong>Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/strong>\u00a0\u2013 com uma parte alta do terreno com esp\u00e9cies raras do Cerrado \u2013 e a \u00e1rea de reserva no bairro do Jaragu\u00e1 \u2013 fechado para a popula\u00e7\u00e3o. Sem falar dos imponentes p\u00e9s de Ip\u00ea, Murici e Ara\u00e7\u00e1.<\/p>\n<h3>Paran\u00e1 \u2013 A Savana mais ao Sul<\/h3>\n<p>Uma regi\u00e3o bastante devastada. O\u00a0<strong>Cerrado no Paran\u00e1<\/strong>\u00a0ocupava cerca de 1% do territ\u00f3rio do estado, mas hoje estima-se que restem apenas 0,24% da \u00e1rea, sendo que quase a metade est\u00e1 dentro de unidades de conserva\u00e7\u00e3o. A degrada\u00e7\u00e3o do bioma \u00e9 resultado do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/585248-desmatamento-nao-e-solucao-para-producao-de-alimentos-diz-relatorio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desmatamento para a agricultura<\/a>, pecu\u00e1ria e a silvicultura, al\u00e9m da aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas de prote\u00e7\u00e3o ambiental. As principais \u00e1reas remanescentes s\u00e3o o Parque Estadual do Cerrado, no norte do Estado, que ainda abriga lobos guar\u00e1s, tamandu\u00e1s bandeiras e \u00e1rvores caracter\u00edsticas do bioma, e a\u00a0<strong>\u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) Escarpa Devoniana<\/strong>\u00a0com uma paisagem marcante, que une os pinheiros dos campos gerais e os arbustos retorcidos do Cerrado. Outro conflito na regi\u00e3o envolve ruralistas e ambientalistas sobre o mapeamento e a utiliza\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>APA<\/strong>, al\u00e9m de uma mineradora que alega que a \u00e1rea n\u00e3o deve ser vista como unidade de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Sobre o WWF-Brasil<\/h3>\n<p>O\u00a0<strong>WWF-Brasil<\/strong>\u00a0\u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental brasileira e sem fins lucrativos que trabalha para mudar a atual trajet\u00f3ria de degrada\u00e7\u00e3o ambiental e promover um futuro em que sociedade e natureza vivam em harmonia. Criada em 1996, atua em todo Brasil e integra a\u00a0<strong>Rede WWF<\/strong>. Apoie nosso trabalho[2].<\/p>\n<h3>Sobre a Rede Cerrado<\/h3>\n<p>Composta por mais de 50 entidades da sociedade civil associadas, a\u00a0<strong>Rede Cerrado<\/strong>\u00a0trabalha para a promo\u00e7\u00e3o da sustentabilidade, em defesa da conserva\u00e7\u00e3o do Cerrado e dos seus povos. Indiretamente, a Rede Cerrado congrega mais de 300 organiza\u00e7\u00f5es que se identificam com a causa socioambiental do bioma.<\/p>\n<h3>Notas:<\/h3>\n<p>[1] Hist\u00f3rias do Cerrado. Dispon\u00edvel\u00a0<a href=\"http:\/\/redecerrado.org.br\/historiasdocerrado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>[2]\u00a0Seja um apoiador do WWF-Brasil.\u00a0Acesse\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/wwf.org.br\/doe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conflitos fundi\u00e1rios, desmatamento e invas\u00f5es. 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