{"id":141142,"date":"2021-02-07T13:49:59","date_gmt":"2021-02-07T16:49:59","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=141142"},"modified":"2021-02-07T13:49:59","modified_gmt":"2021-02-07T16:49:59","slug":"conversao-de-floresta-em-pasto-reduz-o-movimento-das-aves-entre-as-diferentes-paisagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/conversao-de-floresta-em-pasto-reduz-o-movimento-das-aves-entre-as-diferentes-paisagens\/","title":{"rendered":"Convers\u00e3o de floresta em pasto reduz o movimento das aves entre as diferentes paisagens"},"content":{"rendered":"<h4>Estudo mostrou que os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos oferecidos pelas aves ao meio ambiente s\u00e3o prejudicados, tais como poliniza\u00e7\u00e3o, controle de pragas e remo\u00e7\u00e3o de carni\u00e7a<\/h4>\n<div><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/cdn4.ecycle.com.br\/cache\/images\/2021-02\/50-650-conversao-de-floresta-em-pasto.jpg\" alt=\"conversao de floresta em pasto\" width=\"640\" height=\"393\" \/><br \/>\n<small><i>Foto de\u00a0<a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@anniespratt\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">Annie Spratt<\/a>\u00a0no\u00a0<a href=\"https:\/\/unsplash.com\/s\/photos\/pasture-and-forest\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">Unsplash<\/a><\/i><\/small><\/div>\n<p>Florestas convertidas em pastagem reduzem drasticamente o movimento das aves entre esses habitats. Esse \u00e9 um dos resultados de um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0006320720309563?via%3Dihub\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">artigo<\/a>\u00a0publicado em dezembro de 2020 na revista cient\u00edfica\u00a0<i>Biological Conservation<\/i>. O trabalho \u00e9 fruto do doutorado da ornit\u00f3loga Andrea Larissa Boesing, realizado no Departamento de Ecologia do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da USP.<\/p>\n<p>A pesquisa mostra ainda que a maioria das aves (63%) que se deslocam das florestas para os pastos s\u00e3o generalistas de habitat (aquelas que buscam alimento em ambas as paisagens, tais como beija-flor, tico-tico, sabi\u00e1-laranjeira e bem-te-vi ) e que as \u00e1reas agr\u00edcolas funcionam como uma barreira para o movimento de esp\u00e9cies associadas \u00e0 floresta (tangar\u00e1-dan\u00e7ador e fruxu). Al\u00e9m disso, paisagens dominadas por pastos s\u00e3o muito desfavor\u00e1veis \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies da floresta, mas podem manter os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos do transbordamento para esp\u00e9cies generalistas. \u201cUsamos aves como ferramenta de estudo, mas \u00e9 bem poss\u00edvel que isso se repita para outros grupos\u201d, sugere Larissa. \u201cPor oferecerem pouco recurso alimentar, as pastagens atuam como uma barreira para esses bichos, n\u00e3o como um conector.\u201d<\/p>\n<p>Grande parte do desmatamento nos tr\u00f3picos deve-se \u00e0 convers\u00e3o de floresta para \u00e1reas dedicadas \u00e0 pecu\u00e1ria. Estudos mostram que as pastagens de gado cobrem 17% de todo o territ\u00f3rio brasileiro, sendo 7% delas altamente degradadas.<\/p>\n<p>O deslocamento dessas aves \u00e9 conhecido como\u00a0<i>spillover<\/i>\u00a0(transbordamento, em portugu\u00eas), termo que tem ganho bastante destaque desde 2019, quando surgiram os primeiros casos de covid-19 no mundo. Especificamente para o SARS-CoV-2, a principal teoria \u00e9 que o v\u00edrus tenha saltado de morcegos para humanos devido ao maior contato da popula\u00e7\u00e3o com animais silvestres.<\/p>\n<p>J\u00e1 o transbordamento estudado por Andr\u00e9a Boesing, do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da USP, teria um efeito positivo ao meio ambiente. \u201cAs aves podem ser provedoras de servi\u00e7os ecossist\u00eamicos, tais como o controle de pragas, a poliniza\u00e7\u00e3o e a remo\u00e7\u00e3o de carni\u00e7a\u201d, explica. \u201cQuis avaliar como diferentes paisagens influenciam essas fun\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Foram selecionados 51 pontos de amostragem (com dois quil\u00f4metros de raio cada uma) na regi\u00e3o da Serra da Cantareira, pr\u00f3ximo \u00e0 divisa com Minas Gerais. As \u00e1reas eram compostas por fragmentos de florestas e pastagens. \u201cA ideia era estudar, principalmente, se esses animais teriam algum potencial de atuar como predadores de inimigos naturais e, ainda, avaliar qual estrat\u00e9gia eles utilizam para conseguir alimento\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>Para coletar dados mais precisos sobre as comunidades de aves, os cientistas instalaram redes de neblina (ver fotos abaixo) em cada local de pesquisa e monitoraram as \u00e1reas por dois dias consecutivos. Quando capturadas, os animais eram identificados e uma pequena parte da pena da cauda, retirada. O material seguia, ent\u00e3o, para o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba, para realizar a an\u00e1lise isot\u00f3pica de carbono est\u00e1vel. \u201cNo caso desse estudo, a metodologia permitiu identificar com muita precis\u00e3o em qual matriz as aves obtinham sua dieta\u201d, relata Thiago Simon Marques, bi\u00f3logo e respons\u00e1vel pelas an\u00e1lises isot\u00f3picas.<\/p>\n<h2>Integrando metodologias<\/h2>\n<p>Para realizar a pesquisa, Larissa optou por aplicar duas abordagens diferentes, o que n\u00e3o \u00e9 muito comum em estudos desse tipo. A primeira foi a coloca\u00e7\u00e3o de uma linha composta de sete redes de neblina (2 metros (m) de comprimento, 3 m de altura e 29 mil\u00edmetros (mm) de malha) na borda da mata, uma 150 metros depois (no meio da pastagem) e uma terceira, a, no m\u00e1ximo, 500 metros da segunda.<\/p>\n<p>No passado, a regi\u00e3o escolhida, situada no nordeste do Estado de S\u00e3o Paulo, era coberta pela Mata Atl\u00e2ntica. Depois de cinco s\u00e9culos de ocupa\u00e7\u00e3o humana, grande parte da floresta nativa n\u00e3o existe mais. A matriz agr\u00edcola predominante no local atualmente \u00e9 composta de pastagens ativas (pecu\u00e1ria) e n\u00e3o manejadas (sem aporte de nutrientes). O per\u00edodo escolhido foi a esta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-reprodutiva (entre fevereiro e junho) e na esta\u00e7\u00e3o seca, para permitir que todas as matrizes tivessem condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas similares.<\/p>\n<p>Paulo Ricardo Siqueira, ornit\u00f3logo da Universidade Federal de Minas Gerais e participante da coleta no campo, conta que a instala\u00e7\u00e3o dessas redes de n\u00e1ilon era trabalhosa. \u201cA regi\u00e3o \u00e9 cheia de morros. Acord\u00e1vamos \u00e0s 4 horas da manh\u00e3 para coloc\u00e1-las antes do amanhecer e, depois, confer\u00edamos os pontos a cada 20 minutos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Todas as aves capturadas foram identificadas de acordo com sua associa\u00e7\u00e3o de habitat (florestas, de \u00e1rea aberta, generalistas) e delas eram retiradas amostras de fezes e do regurgito. Siqueira relata ainda que o grupo media a largura das asas, o tamanho corporal e o peso de cada uma. \u201cEssas redes n\u00e3o machucavam os animais porque, ao serem interceptados, elas os envolvem com um bols\u00e3o\u201d, explica. \u201cPor isso, a import\u00e2ncia de visitarmos os locais de coleta a cada 20 minutos, para n\u00e3o causarmos nenhum dano \u00e0s aves.\u201d<\/p>\n<h2>Integrando metodologias<\/h2>\n<p>Para finalizar, os cientistas recolheram uma amostra da pena da cauda dos p\u00e1ssaros e enviaram o material para o Laborat\u00f3rio de Is\u00f3topos Est\u00e1veis do Cena, em Piracicaba.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises isot\u00f3picas s\u00e3o aplicadas em muitas \u00e1reas, desde antropologia forense at\u00e9 meio ambiente, e medem a quantidade de carbono gerado pelo ciclo fotossint\u00e9tico \u2013 processo qu\u00edmico realizado para converter a luz solar em energia \u2013 das plantas. Como explica Thiago Marques, as \u00e1rvores das florestas e as gram\u00edneas da pastagem possuem valores de carbono diferentes, o que possibilita uma an\u00e1lise muito mais precisa.<\/p>\n<p>No caso do estudo conduzido por Larissa, esse processo teve como objetivo n\u00e3o s\u00f3 o de caracterizar a origem da dieta, mas revelar a propor\u00e7\u00e3o de cada alimento consumido. \u201cConseguimos saber com muito mais exatid\u00e3o se o bicho estava comendo dentro da floresta, no pasto, ou ainda se consumiam em ambas as paisagens \u201c, explica Larissa.<\/p>\n<h2>Resultados<\/h2>\n<p>No total, foram capturados 266 indiv\u00edduos de 81 esp\u00e9cies de p\u00e1ssaros, a maioria deles generalistas de habitat (65%), seguido por esp\u00e9cies que vivem em \u00e1reas abertas (20%) e associadas \u00e0 floresta (17%). As esp\u00e9cies de floresta raramente foram capturadas em matrizes de pastagem, refor\u00e7ando a ideia de que esses animais dificilmente cruzam lacunas maiores de pastagens. J\u00e1 as esp\u00e9cies de \u00e1reas abertas tendem a evitar as bordas e ser mais comuns em pastagens.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 as esp\u00e9cies generalistas, que n\u00f3s consideramos as mais pl\u00e1sticas, tamb\u00e9m n\u00e3o comem em pastagens\u201d, alerta a ornit\u00f3loga. \u201cO\u00a0<i>spillover<\/i>\u00a0positivo, portanto, \u00e9 muito baixo, e s\u00f3 acontece onde os fragmentos de floresta e pasto est\u00e3o muito pr\u00f3ximos.\u201d<\/p>\n<p>Larissa refor\u00e7a ainda que as generalistas de habitat podem ser as principais promotoras de servi\u00e7os ecossist\u00eamicos em ambientes dr\u00e1sticos como as pastagens. \u201cElas conseguem se movimentar, atravessar essas barreiras, e s\u00e3o candidatas a controlar pragas e polinizar outros ambientes. Por isso a import\u00e2ncia de conservarmos essas esp\u00e9cies.\u201d<\/p>\n<p>Algumas dessas esp\u00e9cies, como os arabacus, ocorrem menos em \u00e1reas com fragmentos menores e isolados de floresta, segundo Siqueira. \u201cEles necessitam das \u00e1rvores para alimenta\u00e7\u00e3o e forrageiam em espiral, de baixo para cima no tronco\u201d, diz o ornit\u00f3logo. \u201cJ\u00e1 os de grande porte, como o jacu, sofrem bastante com a degrada\u00e7\u00e3o e perda de habitat.\u201d<\/p>\n<p>Para Marques, o trabalho pode ajudar a pensar em estrat\u00e9gias de manejo da cultura agr\u00edcola, por exemplo. \u201cAlgumas vezes encontrei tamandu\u00e1-bandeira atravessando planta\u00e7\u00f5es de eucalipto e sempre me perguntei se ele estava ali atr\u00e1s de formiga ou, simplesmente, para acessar o pr\u00f3ximo fragmento de mata. Se eles colocarem isca de formiga, de sa\u00fava, o tamandu\u00e1 pode ingerir e morrer\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Atualmente Larissa est\u00e1 na Alemanha e continua trabalhando na mesma linha de pesquisa. \u201cQuando h\u00e1 investimento, temos a possibilidades de integrar diferentes m\u00e9todos para tentar ir mais a fundo nos processos e contribuir com a ci\u00eancia brasileira\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es: e-mail\u00a0<a href=\"mailto:lari.boesing@gmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">lari.boesing@gmail.com<\/a>, com Andr\u00e9a Larissa Boesing<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo mostrou que os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos oferecidos pelas aves ao meio ambiente s\u00e3o prejudicados, tais<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Estudo mostrou que os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos oferecidos pelas aves ao meio ambiente s\u00e3o prejudicados, tais","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141142"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=141142"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141142\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":141143,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141142\/revisions\/141143"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=141142"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=141142"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=141142"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}