{"id":140985,"date":"2021-02-05T14:00:16","date_gmt":"2021-02-05T17:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=140985"},"modified":"2021-02-05T10:17:12","modified_gmt":"2021-02-05T13:17:12","slug":"grupo-de-pesquisa-reune-esforcos-para-salvar-o-cerrado-bioma-amecado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/grupo-de-pesquisa-reune-esforcos-para-salvar-o-cerrado-bioma-amecado\/","title":{"rendered":"Grupo de pesquisa re\u00fane esfor\u00e7os para salvar o Cerrado, bioma ame\u00e7ado"},"content":{"rendered":"<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-140986\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O grupo de pesquisa Restaura Cerrado est\u00e1 unindo cientistas, coletores de sementes e volunt\u00e1rios para empreender um grande esfor\u00e7o de recupera\u00e7\u00e3o da savana mais biodiversa do mundo.<\/li>\n<li>Segundo seus idealizadores, se a ideia \u00e9 restaurar uma savana, \u00e9 preciso come\u00e7ar pelo capim. Com isso, eles contestam a l\u00f3gica dos modelos habituais de reflorestamento, baseado no plantio de \u00e1rvores.<\/li>\n<li>O Cerrado \u00e9 de import\u00e2ncia vital para as bacias hidrogr\u00e1ficas do pa\u00eds e armazena um grande estoque de carbono no subsolo. No entanto, a perda de vegeta\u00e7\u00e3o nativa anual \u00e9 cerca de duas vezes mais alta do que na Amaz\u00f4nia.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Quando um cliente pediu \u00e0 paisagista Mariana Siqueira um \u201cjardim do Cerrado\u201d, composto de plantas nativas, ela ficou chocada ao descobrir que n\u00e3o havia em Bras\u00edlia, onde mora, nenhum viveiro com as esp\u00e9cies da savana mais biodiversa do planeta. Ironicamente, os viveiros se concentravam quase que exclusivamente em plantas ex\u00f3ticas.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 um problema n\u00e3o apenas para os paisagistas, mas tamb\u00e9m para os ambientalistas que tentam restaurar o segundo maior bioma brasileiro, cuja extens\u00e3o originalmente abarcava cerca de 2 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados. Mesmo depois de perder 50% de sua vegeta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria para o agroneg\u00f3cio, ele ainda abriga um ter\u00e7o da biodiversidade brasileira.<\/p>\n<p>\u201cAlguns autores argumentam que o Cerrado \u00e9 o bioma mais antigo do mundo\u201d, observa Siqueira. \u201cE est\u00e1 sendo amea\u00e7ado n\u00e3o s\u00f3 pela agricultura, a minera\u00e7\u00e3o e a pecu\u00e1ria, mas pelas pessoas que querem plantar \u00e1rvores em qualquer lugar, como se apenas as \u00e1rvores e as florestas fossem a verdadeira express\u00e3o da natureza.\u201d<\/p>\n<p>Mas o grupo de pesquisa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/project\/Grupo-Restaura-Cerrado-Cerrado-Restoration-Group\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Restaura Cerrado<\/a>\u00a0est\u00e1 virando essa narrativa de cabe\u00e7a para baixo, demonstrando que a restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do Cerrado n\u00e3o precisa necessariamente do plantio de \u00e1rvores.<\/p>\n<p>O Restaura Cerrado \u00e9 uma colabora\u00e7\u00e3o entre o Instituto Chico Mendes para a Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), a Universidade de Bras\u00edlia, a Rede de Sementes do Cerrado e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa). Formado por cientistas, coletores de sementes tradicionais, estudantes e ambientalistas, o grupo \u00e9 liderado por Alexandre Sampaio e Isabel Schmidt, do ICMBio.<\/p>\n<p>A rede est\u00e1 empenhada em combater as no\u00e7\u00f5es de restaura\u00e7\u00e3o de ecossistemas que enfatizam o reflorestamento e, em vez disso, mostrar que o restabelecimento das plantas nativas da savana utilizando gram\u00edneas \u00e9 desej\u00e1vel e poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A iniciativa pioneira tamb\u00e9m faz parte de um passo decisivo em dire\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento de um setor sustent\u00e1vel e lucrativo que pode ser essencial para a sobreviv\u00eancia do bioma, a manuten\u00e7\u00e3o das bacias hidrogr\u00e1ficas do Cerrado e a mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas regionais e globais.<\/p>\n<h2>Tesouro subterr\u00e2neo<\/h2>\n<p>O Cerrado conecta quatro dos cinco biomas do pa\u00eds. Abriga cerca de 5% da biodiversidade do planeta e alimenta dois ter\u00e7os das maiores bacias hidrogr\u00e1ficas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 imediatamente vis\u00edvel para os visitantes: o Cerrado n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o impressionante como os dois biomas florestais adjacentes: a Amaz\u00f4nia, a oeste, e a Mata Atl\u00e2ntica, ao leste. Para apreciar a Amaz\u00f4nia, basta ir para a floresta, olhar para cima e se admirar com as \u00e1rvores, diz Alexandre Sampaio, especialista em restaura\u00e7\u00e3o de savanas. \u201cMas, para apreciar o Cerrado, voc\u00ea precisa se ajoelhar na terra e olhar para um pedacinho de ch\u00e3o que pode conter dezenas de esp\u00e9cies \u00fanicas que de outra forma voc\u00ea n\u00e3o perceberia.\u201d<\/p>\n<p>O Cerrado esconde seu valor de outra forma. O dossel verdejante da Amaz\u00f4nia se mostra um dep\u00f3sito de carbono fundamental e evidente, mas as gram\u00edneas, as \u00e1rvores secas e os arbustos lenhosos do Cerrado ocultam seu recurso mais valioso no subsolo, na forma de um sistema de ra\u00edzes profundas que \u00e9 habitualmente chamado de \u201cfloresta subterr\u00e2nea\u201d. Alguns cientistas sugerem que at\u00e9 70% do carbono da regi\u00e3o seja armazenado embaixo do solo.<\/p>\n<p>Mas, enquanto Sampaio e outros correm para salvar o Cerrado, a vegeta\u00e7\u00e3o nativa est\u00e1 desaparecendo. Em toda parte, a flora local est\u00e1 sendo cortada, derrubada e incendiada \u2013 e os sistemas de ra\u00edzes subterr\u00e2neas s\u00e3o arrancados e queimados para abrir caminho para o gado, a soja e o algod\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante suas pesquisas de gradua\u00e7\u00e3o e mestrado, Sampaio lembra do conflito que sentia por estudar a conserva\u00e7\u00e3o do ec\u00f3tono do Cerrado, a \u00e1rea onde o Cerrado se encontra com a Amaz\u00f4nia: ali, tudo o que havia para ser protegido estava rapidamente sendo transformado em pasto e planta\u00e7\u00e3o. \u201cEu trabalhava ao lado de escavadeiras\u201d, lembra ele, estudando esp\u00e9cies que desapareciam diante de seus olhos.<\/p>\n<p>De 1985 a 2017,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2072-4292\/12\/6\/924\/pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">24,7 milh\u00f5es de hectares<\/a>\u00a0da vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado foram desmatados \u2013 uma \u00e1rea pouco menor do que o estado de S\u00e3o Paulo. Hoje, a perda de vegeta\u00e7\u00e3o nativa anual do Cerrado \u00e9 cerca de duas vezes mais alta do que na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o generalizada das terras para a agricultura degradou e enfraqueceu ecossistemas que antes eram resistentes, facilitou o alastramento de capins africanos invasores introduzidos para alimentar o gado, reduziu o potencial de sequestro de carbono do bioma e diminuiu a disponibilidade e a qualidade da \u00e1gua n\u00e3o s\u00f3 na savana, mas tamb\u00e9m nas grandes cidades brasileiras que dependem dos aqu\u00edferos do Cerrado.<\/p>\n<p>Contudo, essas amea\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o igualmente distribu\u00eddas. \u201cNo norte e no centro do Cerrado, [o agroneg\u00f3cio] ainda desmata ativamente as terras\u201d, diz Daniel Vieira, engenheiro florestal da Embrapa envolvido com a rede Restaura Cerrado h\u00e1 v\u00e1rios anos. \u201cMas no sul, a maior parte do desmatamento j\u00e1 aconteceu. Temos muitas terras degradadas.\u201d E \u00e9 l\u00e1 que a Restaura Cerrado est\u00e1 trabalhando \u2013 n\u00e3o tentando conservar a vegeta\u00e7\u00e3o nativa existente, mas procurando restaurar as terras agr\u00edcolas exauridas na esperan\u00e7a de fazer florescer o ecossistema de savana.<\/p>\n<h2>Crescendo a partir do zero<\/h2>\n<p>Quando Sampaio e Schmidt come\u00e7aram a trabalhar na restaura\u00e7\u00e3o do Cerrado no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goi\u00e1s, em 2010, eles se depararam com uma lacuna na ci\u00eancia. Embora muitos trabalhos tenham sido feitos no mundo todo para criar modelos fact\u00edveis de restaura\u00e7\u00e3o florestal, pouco se sabia sobre a restaura\u00e7\u00e3o de savanas.<\/p>\n<p>\u201cA cren\u00e7a era de que, ao trazer de volta as \u00e1rvores, outras plantas nativas voltariam\u201d, diz Sampaio. Numa paisagem dominada pela floresta, como a Amaz\u00f4nia, onde as \u00e1rvores impedem que plantas como capins invasores cres\u00e7am perto do solo, esse modelo se aplica. \u201cMas n\u00e3o \u00e9 assim que a savana funciona\u201d, observa Sampaio. N\u00e3o h\u00e1 \u00e1rvores suficientes nela, e elas n\u00e3o s\u00e3o densas ou altas o bastante para afastar esp\u00e9cies invasoras, como os capins africanos.<\/p>\n<p>Historicamente, no Brasil, a restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e os projetos de paisagismo s\u00f3 costumavam plantar as esp\u00e9cies arb\u00f3reas de um bioma, deixando de fora as gram\u00edneas e os arbustos que representam mais de 60% da diversidade de sua flora (cerca de 7 mil esp\u00e9cies), al\u00e9m de exercer fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas fundamentais.<\/p>\n<p>Este padr\u00e3o se repete em todo o mundo, e as paisagens n\u00e3o florestais n\u00e3o s\u00f3 recebem menos aten\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e apoio de governos como est\u00e3o cada vez mais amea\u00e7adas por campanhas massivas de plantio de \u00e1rvores que podem suplantar os ecossistemas nativos. No Brasil e no Cerrado, isso \u00e0s vezes se traduziu no plantio de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.mongabay.com\/2018\/11\/demanda-mundial-por-papel-higienico-amplia-desmatamento-no-cerrado-brasileiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">eucaliptos ex\u00f3ticos<\/a>\u00a0para fornecer papel higi\u00eanico ao mundo, mas que t\u00eam pouco valor ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Sampaio e Schmidt pensam diferente. Eles decidiram que, se a ideia \u00e9 restaurar uma savana, \u00e9 preciso come\u00e7ar pelo capim. E foi exatamente isso que fizeram.<\/p>\n<p>A partir de 2010, eles passaram a cultivar gram\u00edneas nativas do Cerrado em terrenos de 1 hectare. Naqueles primeiros anos, eles observaram como a camada de vegeta\u00e7\u00e3o herb\u00e1cea \u2013 capins e outras plantas rasteiras \u2013 se estabelecia, e como era dif\u00edcil controlar e evitar capins invasores.<\/p>\n<p>Eles descobriram que, para combater essas plantas ex\u00f3ticas indesejadas, precisavam limpar os campos mecanicamente e semear muitas gram\u00edneas nativas de crescimento r\u00e1pido \u2013 uma t\u00e9cnica que tinha uma boa germina\u00e7\u00e3o e taxa de crescimento. Sua rede de pesquisa logo se expandiu, integrando estudantes da Universidade de Bras\u00edlia, a Embrapa e a Rede de Sementes do Cerrado.<\/p>\n<p>\u201cFoi definitivamente uma experi\u00eancia de aprender fazendo\u201d, diz Vieira, da Embrapa. \u201cTrabalhar no terreno de 300 hectares da Chapada dos Veadeiros permitiu que aprend\u00eassemos muito sobre a ecologia da restaura\u00e7\u00e3o, e sobre a ecologia b\u00e1sica do Cerrado em geral.\u201d<\/p>\n<h2>Replicando os experimentos de campo<\/h2>\n<p>Em 2015, o Restaura Cerrado teve a oportunidade de colocar sua pesquisa na pr\u00e1tica. Uma companhia de transmiss\u00e3o de energia el\u00e9trica, a Norte Brasil Transmissora de Energia, estava construindo redes el\u00e9tricas na regi\u00e3o Centro-Oeste. Para compensar o desmatamento, a empresa fez uma parceria com o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros \u2013 s\u00edtio reconhecido como\u00a0<a href=\"http:\/\/whc.unesco.org\/en\/list\/1035\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Patrim\u00f4nio Natural da Humanidade<\/a>\u00a0pela ONU \u2013 para restaurar uma \u00e1rea degradada de 100 hectares do parque.<\/p>\n<p>Os administradores do parque concordaram, com uma ressalva: a restaura\u00e7\u00e3o teria de ser feita com vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado, usando as novas t\u00e9cnicas criadas pelo Restaura Cerrado. Essa condi\u00e7\u00e3o criou um obst\u00e1culo inicial: o contrato da companhia de energia exigia que o grupo plantasse \u00e1rvores. \u201cOs t\u00e9cnicos n\u00e3o entendiam por que precis\u00e1vamos plantar gram\u00edneas em vez de \u00e1rvores\u201d, diz Sampaio.<\/p>\n<p>Uma vez que negociada essa condi\u00e7\u00e3o, outra quest\u00e3o surgiu: onde encontrar sementes nativas suficientes para restaurar uma \u00e1rea de 100 hectares? A resposta surgiu a partir das 40 fam\u00edlias da regi\u00e3o que o Restaura Cerrado vinha treinando para coletar e preparar sementes. Essas fam\u00edlias foram recrutadas para fornecer as sementes para o projeto de compensa\u00e7\u00e3o ambiental da companhia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Um desses coletores era Claudomiro de Almeida Cortes. Nascido e criado na Chapada dos Veadeiros, ele trabalhou no parque primeiro como bombeiro e depois como t\u00e9cnico de campo, desenvolvendo um profundo respeito pela natureza. \u201cTenho uma grande responsabilidade, que \u00e9 tomar conta do patrim\u00f4nio que \u00e9 o Cerrado\u201d, diz ele. \u201cSem o Cerrado n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua, ar limpo, nada\u2026 N\u00e3o h\u00e1 vida.\u201d<\/p>\n<p>Durante o projeto de restaura\u00e7\u00e3o, a demanda por sementes nativas foi t\u00e3o grande que Almeida Cortes acabou criando uma associa\u00e7\u00e3o de coletores, que batizou de\u00a0<a href=\"https:\/\/web.facebook.com\/cerradodepe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cerrado de P\u00e9<\/a>. A associa\u00e7\u00e3o agora inclui 80 fam\u00edlias, 30 das quais pertencem \u00e0 comunidade Kalunga, a maior comunidade quilombola do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cEstamos na linha de frente do desenvolvimento de t\u00e9cnicas inovadoras apropriadas para restaurar o bioma do Cerrado\u201d, diz Almeida Cortes, que continua colaborando com o Restaura Cerrado. Hoje, sua associa\u00e7\u00e3o fornece insumos para um n\u00famero crescente de projetos de restaura\u00e7\u00e3o, oferecendo 70 variedades de esp\u00e9cies nativas diferentes. Mas isso \u00e9 apenas o come\u00e7o: Almeida Cortes diz que sua associa\u00e7\u00e3o ter\u00e1 mais de 200 esp\u00e9cies nativas do Cerrado prontas para comercializar nos pr\u00f3ximos dois anos.<\/p>\n<h2>Restaura\u00e7\u00e3o como desenvolvimento sustent\u00e1vel<\/h2>\n<p>Os conservacionistas n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos que apreciam o potencial da restaura\u00e7\u00e3o. Um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/1999-4907\/11\/3\/259\">estudo de 2020<\/a>\u00a0revelou que uma economia de restaura\u00e7\u00e3o baseada nas sementes nativas no Brasil poderia gerar at\u00e9 US$ 146 milh\u00f5es por ano e empregar at\u00e9 57 mil pessoas.<\/p>\n<p>Novas empresas de sementes j\u00e1 est\u00e3o surgindo. Uma das s\u00f3cias da Cerrado de P\u00e9 \u00e9 B\u00e1rbara Pacheco, diretora da VerdeNovo, uma pequena empresa de sementes. Bi\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o, Pacheco trabalhou por anos na Embrapa fazendo restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica antes de fundar sua pr\u00f3pria empresa socioambiental, que emprega 17 coletores de sementes nos tr\u00eas estados do Cerrado.<\/p>\n<p>Para ela, a restaura\u00e7\u00e3o se tornou um argumento fundamental para tentar mudar a vis\u00e3o das pessoas que vivem na regi\u00e3o. \u201cTemos um coletor que costumava extrair madeira do Cerrado\u201d, diz ela. \u201cHoje, ele trabalha com sementes nativas, que suplementam sua renda. Ele diz que mudou de vis\u00e3o. N\u00e3o pensa mais em derrubar \u00e1rvores; em vez disso, v\u00ea potencial no ch\u00e3o ao seu redor.\u201d<\/p>\n<p>Apesar disso, Pacheco continua preocupada com a degrada\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o em curso: ela e outros temem que, se n\u00e3o houver vegeta\u00e7\u00e3o nativa suficiente, os reservat\u00f3rios de sementes v\u00e3o diminuir, e algumas plantas raras podem ficar ainda mais escassas, dificultando a coleta de variedades nativas geneticamente diversas.<\/p>\n<div><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cPgHNTuL9C4\" width=\"750\" height=\"341\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<h2>Semeando o futuro<\/h2>\n<p>De acordo com cientistas, a restaura\u00e7\u00e3o est\u00e1 entre os meios mais efetivos e baratos para mitigar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, especialmente ao plantar em terras degradadas ou abandonadas. Al\u00e9m disso,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.iis-rio.org\/en\/publications\/landscape-and-ecosystem-restoration-summary-for-decision-makers-3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudos mostram<\/a>\u00a0que a restaura\u00e7\u00e3o pode promover o desenvolvimento sustent\u00e1vel, a seguran\u00e7a alimentar, e potencialmente empregar milhares de pessoas \u2013 gerando cerca de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.iis-rio.org\/en\/publications\/landscape-and-ecosystem-restoration-summary-for-decision-makers-3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">200 novos empregos<\/a>\u00a0para cada mil hectares restaurados.<\/p>\n<p>Como parte do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bonnchallenge.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Desafio de Bonn<\/a>\u00a0\u2013 com sua meta global de restaurar 350 milh\u00f5es de hectares at\u00e9 2030 \u2013, o Brasil se comprometeu a recuperar 12 milh\u00f5es de hectares de vegeta\u00e7\u00e3o nativa. O Cerrado, que tem um quarto das terras transformadas em pastagens, com\u00a0<a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2072-4292\/10\/11\/1761\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">40%<\/a>\u00a0delas degradadas, oferece uma enorme oportunidade para essa restaura\u00e7\u00e3o em grande escala e para o setor sustent\u00e1vel de sementes nativas.<\/p>\n<p>Apesar disso, companhias, governos e organiza\u00e7\u00f5es internacionais, inclusive a ONU, d\u00e3o maior aten\u00e7\u00e3o ao reflorestamento, e a restaura\u00e7\u00e3o do Cerrado ainda fica muito atr\u00e1s em financiamento, pesquisa e consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil mudar a mentalidade das pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o\u201d, explica Sampaio. \u201c\u00c9 dif\u00edcil fazer com que elas se interessem por plantinhas que mal podem ver, quando o s\u00edmbolo de plantar uma muda de \u00e1rvore \u00e9 t\u00e3o forte.\u201d<\/p>\n<p>Ainda assim, ele acredita que organiza\u00e7\u00f5es como a Restaura Cerrado mostrar\u00e3o o caminho para a recupera\u00e7\u00e3o da savana. Pouco a pouco, o mundo est\u00e1 aprendendo a valorizar este tipo de bioma. Uma parceria entre a Restaura Cerrado e a Unicamp, em S\u00e3o Paulo, por exemplo, planeja estudar o papel que as esp\u00e9cies do Cerrado desempenham na restaura\u00e7\u00e3o do ecossistema, algo sobre o que os pesquisadores sabem pouco, diz Sampaio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aconteceram pequenas vit\u00f3rias legislativas, diz Vieira, da Embrapa. O Distrito Federal, por exemplo, implementou regula\u00e7\u00f5es-piloto exigindo que \u00e1reas antes cobertas por gram\u00edneas sejam replantadas com capins nativos, em vez de \u00e1rvores ou plantas ex\u00f3ticas.<\/p>\n<p>Talvez o maior sinal de mudan\u00e7a esteja nos consumidores da cidade. Nos \u00faltimos seis anos, depois de constatar a falta de viveiros de esp\u00e9cies nativas em Bras\u00edlia, Mariana Siqueira lan\u00e7ou um modelo de neg\u00f3cio de paisagismo urbano com base nos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.jardinsdecerrado.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">jardins do Cerrado<\/a>. Trabalhando em colabora\u00e7\u00e3o com a Associa\u00e7\u00e3o Cerrado de P\u00e9 e o Restaura Cerrado, ela seleciona e fornece uma variedade de esp\u00e9cies de plantas do Cerrado para seus clientes. No processo, ela, que n\u00e3o sabia quase nada do bioma, tornou-se uma das maiores defensoras de sua restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cUma vez que voc\u00ea entende como o Cerrado \u00e9 \u00fanico, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o admirar e se inspirar\u201d, diz ela. \u201cTamb\u00e9m percebi que o Cerrado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um lugar que precisa de mim, mas que eu tamb\u00e9m preciso dele.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O grupo de pesquisa Restaura Cerrado est\u00e1 unindo cientistas, coletores de sementes e volunt\u00e1rios para<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":140986,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cerrado.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O grupo de pesquisa Restaura Cerrado est\u00e1 unindo cientistas, coletores de sementes e volunt\u00e1rios para","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140985"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=140985"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140985\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":140988,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140985\/revisions\/140988"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/140986"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=140985"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=140985"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=140985"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}