{"id":140679,"date":"2021-01-30T12:01:30","date_gmt":"2021-01-30T15:01:30","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=140679"},"modified":"2021-01-30T12:01:52","modified_gmt":"2021-01-30T15:01:52","slug":"na-america-macacos-daltonicos-sairam-na-vantagem-na-selecao-natural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/na-america-macacos-daltonicos-sairam-na-vantagem-na-selecao-natural\/","title":{"rendered":"Na Am\u00e9rica, macacos dalt\u00f4nicos sa\u00edram na vantagem na sele\u00e7\u00e3o natural"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-140680\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco-300x192.gif\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" \/><\/a>Nossas retinas t\u00eam c\u00e9lulas receptoras chamadas\u00a0<em>cones<\/em>, e cada um deles se especializa em uma cor: vermelho, verde e azul. Essas cores correspondem a ondas eletromagn\u00e9ticas de comprimento longo, m\u00e9dio e curto dentro do espectro vis\u00edvel.\u00a0A maioria das pessoas possui os tr\u00eas tipos de cones. Por causa disso, elas s\u00e3o chamadas de\u00a0<em>tricromatas<\/em>. Mas h\u00e1 quem tenha apenas dois tipos de receptores, o que gera dificuldade em distinguir cores. Essas pessoas s\u00e3o denominadas\u00a0<em>dicromatas<\/em>, mas o mais comum \u00e9 se referir a elas como\u00a0<em>dalt\u00f4nicas<\/em>.<\/p>\n<p>O daltonismo n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade dos seres humanos. Outros animais tricomatas, como os primatas n\u00e3o humanos, tamb\u00e9m podem manifestar um cone a menos. No Velho Mundo \u2013 termo que se refere \u00e0 Europa, \u00c1sia e \u00c1frica \u2013, todos os macacos, independentemente de esp\u00e9cie ou do sexo, s\u00e3o tricromatas. Por outro lado, no Novo Mundo (termo que se refere \u00e0s Am\u00e9ricas), existem esp\u00e9cies em que as f\u00eameas possuem vis\u00e3o normal, mas quase todos os machos s\u00e3o dalt\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Para um ser humano, a vis\u00e3o tricromata evidentemente \u00e9 uma vantagem adaptativa \u2013 \u00e9 s\u00f3 pensar nas cores do sem\u00e1foro, que os motoristas dalt\u00f4nicos s\u00f3 conseguem identificar porque s\u00e3o empilhadas em uma ordem fixa. Na pr\u00e9-hist\u00f3ria, diferenciar cores poderia ser uma quest\u00e3o de vida ou morte.<\/p>\n<p>Mas e no caso dos macacos? O que teria levado os primatas americanos machos a serem predominantemente dicromatas? Ser\u00e1 que eles obt\u00e9m alguma\u00a0<em>vantagem\u00a0<\/em>adaptativa com o daltonismo, em vez de desvantagem \u2013 e \u00e9 por isso que essa caracter\u00edstica se espalhou entre eles? Ou ser\u00e1 que o daltonismo n\u00e3o afeta tanto as chances de sobreviv\u00eancia porque existem alguma diferen\u00e7a na maneira como ocorre a preda\u00e7\u00e3o nas Am\u00e9ricas?<\/p>\n<p>Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) decidiu investigar esse mist\u00e9rio. O primeiro passo foi partir da hip\u00f3tese de que a baixa incid\u00eancia do daltonismo em n\u00f3s est\u00e1 relacionada \u00e0 susceptibilidade dos indiv\u00edduos \u00e0 preda\u00e7\u00e3o. Macacos e humanos com a percep\u00e7\u00e3o das cores prejudicada teriam dificuldade em identificar predadores na natureza, o que os tornaria um jantar mais vulner\u00e1vel para grandes mam\u00edferos carn\u00edvoros.<\/p>\n<p>Para comprovar essa hip\u00f3tese, os pesquisadores resolveram testaram o tempo que seres humanos levam para identificar predadores na natureza \u2013 e a precis\u00e3o deles na tarefa. Calma, nenhum volunt\u00e1rio virou comida durante o teste. Os pesquisadores tiraram fotos de animais fake na Mata Atl\u00e2ntica e no Cerrado e depois apresentaram as imagens a pessoas dalt\u00f4nicas e n\u00e3o dalt\u00f4nicas. O estudo foi publicado no peri\u00f3dico\u00a0<em><a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1002\/ajp.23230\">American Journal of Primatology<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Cada volunt\u00e1rio foi apresentado a quatro fotografias, que apareciam simultaneamente na tela do computador. Uma das imagens continha um animal camuflado; as outras tr\u00eas contavam apenas com vegeta\u00e7\u00e3o. Como esperado pelos cientistas, os humanos tricromatas conseguiam ver o predador mais r\u00e1pido e acertavam a foto com mais frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Daniel Pessoa, co-autor do estudo, explicou a import\u00e2ncia destes fatores: \u201cse um macaco est\u00e1 no meio do mato comendo e enxerga o predador, ele pode dar o grito de alarme para deixar todo o resto atento e j\u00e1 se proteger. Alguns segundos j\u00e1 s\u00e3o vantajosos neste tipo de situa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Permanece, ent\u00e3o, aquela d\u00favida: se a preda\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo uma raz\u00e3o importante para a manuten\u00e7\u00e3o do tricromatismo, por que h\u00e1 tantos animais dicromatas no Novo Mundo?<\/p>\n<p>Podemos come\u00e7ar com uma sugest\u00e3o.\u00a0Nos prim\u00f3rdios da humanidade, o daltonismo evidentemente era uma caracter\u00edstica que gerava dificuldades. Mas, conforme os humanos passaram a viver em grupos organizados, a amea\u00e7a dos predadores diminuiu e houve um afrouxamento da sele\u00e7\u00e3o natural contra essa caracter\u00edstica. N\u00e3o fazia mais tanta diferen\u00e7a assim ter ou n\u00e3o todos os receptores. Algo parecido pode ter ocorrido com os macacos.<\/p>\n<p>No Velho Mundo, os primatas precisavam dividir espa\u00e7o com felinos, crocodilos e outros predadores de grande porte. Para lidar com isso, os animais n\u00e3o apenas foram ficando maiores como houve uma forte press\u00e3o seletiva para que predominassem tricromatas na popula\u00e7\u00e3o \u2013 os dalt\u00f4nicos morriam com mais frequ\u00eancia. A vis\u00e3o das cores ajudava n\u00e3o s\u00f3 a fugir dos predadores, como tamb\u00e9m a identificar frutas e folhas adequadas para a alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Novo Mundo, h\u00e1 macacos que n\u00e3o precisam fugir t\u00e3o ativamente da preda\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, alguns encontraram vantagens no dicromatismo.\u00a0Apesar da condi\u00e7\u00e3o dificultar a identifica\u00e7\u00e3o de predadores como gato-do-mato, fur\u00e3o e puma \u2013 que foram usados nos testes com fotos mencionados anteriormente \u2013, ela facilita na hora de enxergar insetos na natureza.<\/p>\n<p>Macacos menores, de at\u00e9 cinco quilos, se alimentam desses bichinhos, o que torna o problema uma vantagem para algumas esp\u00e9cies. At\u00e9 existem macacos maiores que apresentam o daltonismo, mas eles vivem na copa das \u00e1rvores e geralmente s\u00e3o grandes demais para serem predados at\u00e9 mesmo pelas maiores aves de rapina. O tricromatismo, embora sempre \u00fatil, n\u00e3o apresentaria grandes vantagens na sele\u00e7\u00e3o natural, j\u00e1 que eles n\u00e3o correm tanto risco assim.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve estar se perguntando: \u201cPor que os macacos enxergam bem os insetos e n\u00e3o os predadores?\u201d<\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 na camuflagem. Os animais considerados na pesquisa pelos cientistas eram todos carn\u00edvoros, e sua pelagem evoluiu para enganar os mam\u00edferos de pequeno porte que eles ca\u00e7am. E embora o tricromatismo seja comum em primatas, o dicromatismo \u00e9 bem mais comum nos mam\u00edferos em geral. Isso torna uma on\u00e7a, por exemplo, bem menos chamativa para uma cotia do que \u00e9 para um ser humano tricromata.<\/p>\n<p>Os insetos, por sua vez, s\u00e3o presas f\u00e1ceis de aves \u2013 que possuem uma vis\u00e3o excepcional para cores. Ent\u00e3o, a camuflagem deles foca mais em padr\u00f5es que enganem os tricromatas \u2013 mas que podem ser, paradoxalmente, mais suscet\u00edveis aos dicromatas. A desvantagem se converte em vantagem.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos passos da pesquisa, os cientistas querem analisar dados de serpentes, que geralmente s\u00e3o predadas por aves de rapina. As cobras s\u00e3o como os insetos: n\u00e3o evolu\u00edram para enganar mam\u00edferos. Isso significa que os dalt\u00f4nicos talvez tenham vantagem na hora de identific\u00e1-las. \u201cSe voc\u00ea enxerga cores muito bem, voc\u00ea n\u00e3o enxerga padr\u00f5es e bordas com facilidade. Agora, se voc\u00ea n\u00e3o enxerga cores muito bem, voc\u00ea consegue utilizar seu processamento para enxergar as bordas melhor\u201d, diz Daniel Pessoa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossas retinas t\u00eam c\u00e9lulas receptoras chamadas\u00a0cones, e cada um deles se especializa em uma cor:<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":140680,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco-150x150.gif",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco-300x192.gif",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/macaco.gif",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Nossas retinas t\u00eam c\u00e9lulas receptoras chamadas\u00a0cones, e cada um deles se especializa em uma cor:","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140679"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=140679"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140679\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":140681,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140679\/revisions\/140681"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/140680"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=140679"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=140679"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=140679"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}