{"id":139266,"date":"2021-01-03T20:17:59","date_gmt":"2021-01-03T23:17:59","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=139266"},"modified":"2021-01-03T20:17:59","modified_gmt":"2021-01-03T23:17:59","slug":"raizes-do-ambientalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/raizes-do-ambientalismo\/","title":{"rendered":"Ra\u00edzes do ambientalismo"},"content":{"rendered":"<section class=\"Externo__contentTop___1c8NE\">\n<p class=\"Externo__lead___3Ao6V\">Explora\u00e7\u00e3o no per\u00edodo colonial e contracultura marcaram a trajet\u00f3ria dos estudos e a defesa do meio ambiente no Brasil<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"Externo__content___37xhE\">\n<div class=\"Externo__aside___YbUcc\">\n<div>\n<div class=\"Externo__original___2MvyK\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/incoming\/imagens\/tijuca.jpg\/alternates\/LANDSCAPE_560\/tijuca.jpg\" alt=\"Homem de camiseta amarela agachado plantando uma muda de \u00e1rvore no no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro\" width=\"640\" height=\"400\" \/><\/div>\n<div>\n<p>Se vivesse hoje, o naturalista e pol\u00edtico Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva (1763-1838) provavelmente ficaria abalado com as enormes e constantes queimadas na Amaz\u00f4nia e no Pantanal. Dois s\u00e9culos antes das imagens da vegeta\u00e7\u00e3o em chamas e animais carbonizados que correm o mundo, o Patriarca da Independ\u00eancia j\u00e1 manifestava indigna\u00e7\u00e3o contra a degrada\u00e7\u00e3o ambiental inaugurada no Brasil Col\u00f4nia, baseada no extrativismo predat\u00f3rio. \u201cDestruir matos virgens, como at\u00e9 agora se tem praticado no Brasil, \u00e9 extravag\u00e2ncia insofr\u00edvel, crime horrendo e grande insulto feito \u00e0 natureza\u201d, escreveu em 1821, um ano antes de participar do movimento da Independ\u00eancia ao lado de dom Pedro I.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o possa ser considerado um ambientalista no sentido moderno, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio contribuiu para a introdu\u00e7\u00e3o de temas ecol\u00f3gicos no pa\u00eds, embalados por uma preocupa\u00e7\u00e3o ambiental que permanece atual. \u201cEle fazia parte de um grupo de intelectuais que, na virada do s\u00e9culo 18 para o 19, passou a criticar a explora\u00e7\u00e3o descuidada dos recursos naturais\u201d, explica o historiador Jos\u00e9 Augusto P\u00e1dua, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), pesquisador do tema. Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio estudou leis e filosofia natural na Universidade de Coimbra.<\/p>\n<p>\u201cEle teve contato direto com o processo de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento ilustrado sobre o que chamavam de \u2018sistema da natureza\u2019&#8221;. De volta ao Brasil, Bonif\u00e1cio amadureceu a ideia de que o progresso econ\u00f4mico n\u00e3o poderia depender da destrui\u00e7\u00e3o das florestas\u201d, conta P\u00e1dua. \u201cNa \u00e9poca, come\u00e7ou-se a teorizar que a perda das florestas acabaria por prejudicar a produ\u00e7\u00e3o rural, porque diminuiria as chuvas, degradaria os solos e, no limite, provocaria desertifica\u00e7\u00e3o\u201d, ressalva o pesquisador. As preocupa\u00e7\u00f5es que atravessavam Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, portanto, referiam-se ao uso mais eficaz e racional da natureza para garantir o melhoramento da economia \u2013 uma ideia hoje associada ao conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os movimentos ativistas de preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente surgiram na segunda metade do s\u00e9culo 20. Mesmo assim, Bonif\u00e1cio desempenhou um papel decisivo nos prim\u00f3rdios da consci\u00eancia ambiental no Brasil, argumenta P\u00e1dua. \u201cSeus escritos pautaram debates entre pol\u00edticos, juristas e homens de ci\u00eancia da \u00e9poca\u201d. Outros intelectuais deram continuidade \u00e0 cr\u00edtica ambiental. Abolicionistas como Joaquim Nabuco (1849-1910) e Andr\u00e9 Rebou\u00e7as (1838-1898) defenderam que, enquanto vigorasse a escravid\u00e3o, n\u00e3o seria poss\u00edvel estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel entre indiv\u00edduos e o uso da terra no Brasil.<\/p>\n<p>Algumas poucas tentativas de influenciar governos deram certo, como a restaura\u00e7\u00e3o da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, entre 1861 e 1874. \u201cUm grupo de intelectuais convenceu o governo de que o desflorestamento estava provocando secas na cidade\u201d, diz P\u00e1dua. Boa parte da regi\u00e3o havia sido desmatada para a produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 e carv\u00e3o vegetal. O reflorestamento exigiu o plantio de 100 mil mudas de \u00e1rvores de esp\u00e9cies nativas.<\/p>\n<p>Foi no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 que ganhou for\u00e7a a cren\u00e7a de que somente por meio do Estado se poderia garantir a conserva\u00e7\u00e3o da natureza, como explica a historiadora Ingrid Fonseca Casazza, em artigo publicado em julho na revista Hist\u00f3ria, Ci\u00eancia, Sa\u00fade \u2013 Manguinhos. As mudan\u00e7as mais significativas ocorreram na d\u00e9cada de 1930, no in\u00edcio do primeiro governo de Get\u00falio Vargas (1882-1954), quando cientistas envolvidos com quest\u00f5es ambientais assumiram cargos na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u201cEles atuaram na implementa\u00e7\u00e3o de instrumentos legais para o manejo racional dos recursos naturais\u201d, escreve Casazza.<\/p>\n<p>Ela destaca a atua\u00e7\u00e3o do bot\u00e2nico Paulo Campos Porto (1889-1968) como diretor do Instituto de Biologia Vegetal do Minist\u00e9rio da Agricultura, extinto em 1938. Para Casazza, Porto ajudou a consolidar uma pol\u00edtica de gest\u00e3o da natureza naquele per\u00edodo. Como secret\u00e1rio de Agricultura da Bahia, nos anos 1940, o bot\u00e2nico criou o Parque Monumento Nacional de Monte Pascoal, na regi\u00e3o de Porto Seguro, com a miss\u00e3o de preservar fauna e flora locais.<\/p>\n<p>A agenda ambiental saiu do nicho dos especialistas e ganhou mais visibilidade na sociedade na d\u00e9cada de 1960. \u201cFoi o momento em que o debate intelectual sobre conserva\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se aproximar do movimento da contracultura\u201d, observa a historiadora e ambientalista Samyra Crespo, pesquisadora s\u00eanior do MCTI (Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es). \u201cA discuss\u00e3o deixou de ser focada na promo\u00e7\u00e3o do uso racional de recursos naturais, abrindo espa\u00e7o para reflex\u00f5es sobre como salvar a humanidade e o planeta\u201d, explica.<\/p>\n<p>Um ponto de virada do ambientalismo daquele per\u00edodo foi o livro &#8220;Primavera silenciosa&#8221;, publicado em 1962 pela bi\u00f3loga norte-americana Rachel Carson (1907-1964). \u201cTrata-se de um cl\u00e1ssico da literatura ambiental. Carson investigou e denunciou o uso de pesticidas e seu efeito sobre o ambiente e as pessoas\u201d, comenta Crespo. Jornais republicaram trechos do livro; houve repercuss\u00e3o no Congresso e o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy (1917-1963), chegou a instituir uma comiss\u00e3o para estudar o assunto (ver Pesquisa FAPESP n\u00ba 202).<\/p>\n<p>No Brasil, a obra alcan\u00e7ou o ambiente acad\u00eamico. Paulo Nogueira-Neto (1922-2019), professor em\u00e9rito da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo), pertenceu ao grupo de ambientalistas influenciados por Carson, lembra o soci\u00f3logo Pedro Roberto Jacobi, do Instituto de Energia e Ambiente da USP. \u201cNogueira-Neto foi secret\u00e1rio especial do Meio Ambiente entre 1973 e 1985, destacando-se como um dos principais formuladores da legisla\u00e7\u00e3o ambiental no pa\u00eds.\u201d A partir da\u00ed, diz Jacobi, a regula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do descarte de produtos qu\u00edmicos ficou mais rigorosa, com o objetivo de evitar contamina\u00e7\u00f5es e prevenir desastres.<\/p>\n<p>Assim como em outros pa\u00edses, o ambientalismo no Brasil ganhou novo cap\u00edtulo com a Confer\u00eancia de Estocolmo, organizada em 1972 pela ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas). Foi a primeira grande reuni\u00e3o de chefes de Estado para discutir a quest\u00e3o ambiental. Ao mesmo tempo, grande parte do campo pol\u00edtico n\u00e3o levava muito a s\u00e9rio o ativismo ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Prevalecia no Brasil a l\u00f3gica desenvolvimentista da ditadura militar (1964-1985), que envolvia a constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas e estradas em territ\u00f3rios ind\u00edgenas. \u201cA utopia era tornar o pa\u00eds altamente industrializado\u201d, afirma Jacobi. A entrada dos ambientalistas nesse campo de disputa pol\u00edtica se deu pelo chamado ecodesenvolvimento, que buscava conciliar desenvolvimento econ\u00f4mico com preserva\u00e7\u00e3o. O conceito foi desenvolvido pelo economista Ignacy Sachs, da Escola de Altos Estudos em Ci\u00eancias Sociais, em Paris.<\/p>\n<p>Polon\u00eas, Sachs veio para o Brasil aos 14 anos de idade. Formou-se em economia na Universidade C\u00e2ndido Mendes, no Rio de Janeiro, e manteve rela\u00e7\u00e3o estreita com o pa\u00eds, onde lecionou em universidades nos anos 1980. \u201cO ambientalismo passou a considerar a possibilidade de modelos de desenvolvimento que levassem em considera\u00e7\u00e3o a voca\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de biomas brasileiros, como a Amaz\u00f4nia e o Cerrado, e as diferen\u00e7as culturais entre povos\u201d, diz Crespo.<\/p>\n<p>Paralelamente, distante dos centros urbanos e das universidades, ganhava for\u00e7a um ambientalismo mais popular, que mobilizava pescadores e seringueiros. \u201cEram trabalhadores que lutavam pela conserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente para defender melhores condi\u00e7\u00f5es de vida\u201d, explica P\u00e1dua. Um dos principais representantes desse movimento foi o sindicalista acreano Chico Mendes (1944-1988), que uniu seringueiros que dependiam da preserva\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica para sobreviver. Mendes foi assassinado em raz\u00e3o de seu ativismo.<\/p>\n<p>Em 1975, o termo \u201caquecimento global\u201d apareceu pela primeira vez em artigo publicado na revista Science pelo ocean\u00f3grafo norte-americano Wallace Broecker (1931-2019). Poucos anos depois, em 1979, a Nasa (Ag\u00eancia Espacial norte-americana) introduziu o conceito de \u201cmudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d em estudo sobre os efeitos do di\u00f3xido de carbono (CO2) no clima do planeta. O debate ambiental ganhou dimens\u00e3o global e novos atores: ONGs como o Greenpeace e a Wild Foundation s\u00e3o criadas nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p>No Brasil, os ambientalistas come\u00e7aram primeiramente a se organizar em grupos locais para ampliar o di\u00e1logo com setores empresariais e pol\u00edticos. Um exemplo \u00e9 a Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Prote\u00e7\u00e3o ao Ambiente Natural, uma das primeiras comunidades ecol\u00f3gicas do pa\u00eds, criada em 1971. Um de seus fundadores foi o agr\u00f4nomo Jos\u00e9 Lutzenberger (1926-2002), que contribuiu na formula\u00e7\u00e3o de leis para o controle do uso de agroqu\u00edmicos no Rio Grande do Sul \u2013 o que teve reflexos na Lei Brasileira de Agrot\u00f3xicos, de 1989. Ainda na d\u00e9cada de 1970, a preocupa\u00e7\u00e3o com quest\u00f5es de seguran\u00e7a e o impacto ambiental da energia nuclear resultaram na mobiliza\u00e7\u00e3o de ambientalistas e cientistas. ONGs nacionais, como a SOS Mata Atl\u00e2ntica, come\u00e7am a surgir nos anos 1980.<\/p>\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o do interesse internacional pelos problemas socioambientais ligados \u00e0s altera\u00e7\u00f5es do clima s\u00f3 ocorreu no in\u00edcio dos anos 1990. O marco desse processo foi a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Rio-92. Na ocasi\u00e3o, foi criada a Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a Mudan\u00e7a do Clima. O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas) havia sido concebido pela ONU quatro anos antes para sistematizar estudos cient\u00edficos sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201cIsso impulsionou a profissionaliza\u00e7\u00e3o do ambientalismo. ONGs passaram a realizar pesquisas, produzir relat\u00f3rios t\u00e9cnicos e colaborar com universidades e \u00f3rg\u00e3os governamentais em a\u00e7\u00f5es de monitoramento\u201d, relata Jacobi.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o entre ambientalistas e o poder p\u00fablico tamb\u00e9m foi fortalecida ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, ressalta Crespo, do MCTI. A descentraliza\u00e7\u00e3o dos poderes pol\u00edtico e administrativo gerou uma demanda por quadros t\u00e9cnicos para assumir secretarias estaduais e municipais de Meio Ambiente, o que contribuiu para que muitos ambientalistas se tornassem gestores p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Hoje, o ambientalismo brasileiro enfrenta desafios \u201cfora do comum\u201d, avalia P\u00e1dua, referindo-se a um \u201cdescontrole regulat\u00f3rio in\u00e9dito\u201d. Ao mesmo tempo, ele v\u00ea uma oportunidade para o fortalecimento do movimento. \u201cEm resposta aos ataques que o meio ambiente sofre, destaca-se a defesa de institui\u00e7\u00f5es como o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], que faz o monitoramento do desmatamento na Amaz\u00f4nia, e a mobiliza\u00e7\u00e3o mais atuante de organiza\u00e7\u00f5es ambientais para refor\u00e7ar a consci\u00eancia ambiental no pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.<\/p>\n<p>Link para mat\u00e9ria: https:\/\/www.nexojornal.com.br\/externo\/2021\/01\/03\/Ra%C3%ADzes-do-ambientalismo<br \/>\n\u00a9 2021 | Todos os direitos deste material s\u00e3o reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei n\u00ba 9.610\/98. 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