{"id":138874,"date":"2020-12-26T15:10:48","date_gmt":"2020-12-26T18:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=138874"},"modified":"2020-12-26T15:12:57","modified_gmt":"2020-12-26T18:12:57","slug":"no-fim-de-um-ano-turbulento-cientistas-refletem-sobre-aprendizados-e-perspectivas-para-2021","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/no-fim-de-um-ano-turbulento-cientistas-refletem-sobre-aprendizados-e-perspectivas-para-2021\/","title":{"rendered":"No fim de um ano turbulento, cientistas refletem sobre aprendizados e perspectivas para 2021"},"content":{"rendered":"<h4>Import\u00e2ncia da ci\u00eancia ficou mais vis\u00edvel em 2020 com a pandemia, que tamb\u00e9m tem sido um curso intensivo de duras li\u00e7\u00f5es. Mas cientistas n\u00e3o esperam uma caminhada f\u00e1cil em 2021<\/h4>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/cdn4.ecycle.com.br\/cache\/images\/2020-12\/50-650-2021-ano.jpg\" alt=\"ano novo\" width=\"639\" height=\"392\" \/>Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@mokngr?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Moritz Kn\u00f6ringer<\/a>\u00a0no\u00a0<a href=\"https:\/\/unsplash.com\/s\/photos\/2021?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a><\/p>\n<p>Chegamos ao fim de um ano com tantos acontecimentos e crises que nossa sensa\u00e7\u00e3o temporal ficou ainda mais confusa. \u201c\u00c9 s\u00e9rio que acabou?\u201d \u2013 talvez nos perguntemos no primeiro dia de 2021. \u00c9 certo que uma conven\u00e7\u00e3o como data n\u00e3o promover\u00e1, por si, grandes mudan\u00e7as. Mas \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica importante numa sociedade como a nossa \u2013 mais ainda no contexto das trag\u00e9dias que vivemos em 2020.<\/p>\n<p>Cientistas, como todos, vivenciaram os momentos sofridos da pandemia. Como as mortes que doeram mais pela certeza de que muitas poderiam ter sido evitadas, com uma melhor condu\u00e7\u00e3o pelos l\u00edderes brasileiros, que n\u00e3o existiu. Pelo contr\u00e1rio, muitas vezes o ambiente foi tumultuado por quem foi colocado no poder pelo voto. E para quem o caos parece ser vantajoso, ainda que com o pre\u00e7o de vidas.<\/p>\n<p>Outros atores, por\u00e9m, ocuparam com louvor o protagonismo na diminui\u00e7\u00e3o do impacto \u2013 biol\u00f3gico e social \u2013 da doen\u00e7a. Para nosso orgulho, muitos deles est\u00e3o nas universidades p\u00fablicas. Na ci\u00eancia e tecnologia de primeira qualidade nelas produzidas, nos campos mais diversos. Mesmo diante de ataques a esta mesma ci\u00eancia, que representam, eles sabiam que o des\u00e2nimo n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o. Este texto re\u00fane os depoimentos de alguns deles, vozes que sempre merecem ser ouvidas, mostrando um pouco do que 2020 nos ensinou (ou que deveria ter ensinado) e as expectativas para a ci\u00eancia, em sentido amplo, para 2021. Junto a eles e a todos os cientistas que n\u00e3o est\u00e3o neste texto, mas sempre buscaram estar ao lado da boa ci\u00eancia \u2013 e no lado correto da hist\u00f3ria que constru\u00edmos \u2013 nos despedimos dos nossos leitores neste ano.<\/p>\n<p>O reitor da USP, Vahan Agopyan, sabe que 2020 foi muito dif\u00edcil para a sociedade e o sistema universit\u00e1rio, mas n\u00e3o considera que tenha sido um ano perdido, pois \u201caprendemos muito enfrentando e superando desafios imprevistos\u201d.<\/p>\n<p>A comunidade de pesquisa respondeu de uma forma efetiva. \u201cNo caso da USP, mais de 250 grupos iniciaram ou adequaram os seus estudos para o conhecimento e combate do novo coronav\u00edrus. Desde o sequenciamento do seu genoma at\u00e9 o desenvolvimento de ventiladores e m\u00e1scaras, passando pelos estudos de novos testes, medicamentos e vacinas\u201d, relembra o reitor.<\/p>\n<p>Para Agopyan, outro ponto fundamental foi a rapidez dos resultados, \u201cfruto de um grande esfor\u00e7o multidisciplinar e da press\u00e3o de salvar vidas\u201d. Ele ressalta ainda que a postura dos docentes e pesquisadores se modificou e a atitude de competi\u00e7\u00e3o se transformou em colabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pr\u00f3-reitor de Pesquisa, Sylvio Canuto, tamb\u00e9m destaca o trabalho em colabora\u00e7\u00e3o e o aumento de intera\u00e7\u00e3o com a sociedade. \u201cAt\u00e9 novembro, a USP era a 16\u00aa institui\u00e7\u00e3o de pesquisa do mundo que mais havia publicado artigos cient\u00edficos nesse tema. \u201cEu j\u00e1 disse antes e reitero: a ci\u00eancia brasileira est\u00e1 madura e pronta para um grande salto. Mas falta uma pol\u00edtica cient\u00edfica nacional e estabilidade de condi\u00e7\u00f5es, especialmente, recursos financeiros continuados, sem percal\u00e7os. O que n\u00f3s vimos nesse ano foi um desafio bem definido colocado pelo coronav\u00edrus e a ci\u00eancia brasileira respondendo com uma grande e criativa performance.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o pr\u00f3-reitor, era de se esperar que o reconhecimento da import\u00e2ncia da ci\u00eancia levasse tamb\u00e9m a um consequente aumento de investimentos. Mas isso n\u00e3o parece ser o caso no Pa\u00eds e o horizonte n\u00e3o parece muito promissor. \u201cPensar em novas formas de obter recursos para a pesquisa, tanto b\u00e1sica como aplicada, tanto tecnol\u00f3gica como social, \u00e9 um dos desafios para o pr\u00f3ximo ano\u201d, diz.<\/p>\n<p>Como um \u201cbelo exemplo de intera\u00e7\u00e3o universidade-sociedade\u201d, Canuto cita o\u00a0<a href=\"https:\/\/www5.usp.br\/uspvida\/\">projeto USP VIDA<\/a>\u00a0para doa\u00e7\u00f5es de recursos, que alcan\u00e7ou quase 3.200 pessoas f\u00edsicas, que se sensibilizaram e doaram para pesquisas.<\/p>\n<p>Ele diz ainda que estamos aprendendo que projetos amplos e institucionais s\u00e3o capazes de causar impactos de maior alcance. \u201cE desafios multidisciplinares s\u00e3o tamb\u00e9m vistos em tem\u00e1ticas como aquecimento global, desigualdades sociais, viol\u00eancia urbana, sa\u00fade planet\u00e1ria, sa\u00fade alimentar, energias limpas, economia azul, entre outras.\u201d<\/p>\n<h2>Humanidades em pauta<\/h2>\n<p>A professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP Maria Luiza Tucci Carneiro tamb\u00e9m classifica a pandemia como um fen\u00f4meno coletivo que exige m\u00faltiplos saberes, pois a doen\u00e7a n\u00e3o tem prefer\u00eancia por classes sociais e nem por ideologias. Mas diz que \u00e9 preciso reconhecer que, como outras pestes, \u201catinge as minorias \u00e9tnicas que, h\u00e1 s\u00e9culos, est\u00e3o vulner\u00e1veis, fragilizadas\u201d.<\/p>\n<p>Para ela, \u201caprendemos, mais uma vez, que o SUS\u00a0<span class=\"Apple-style-span\">[Sistema \u00danico de Sa\u00fade]<\/span>\u00a0\u00e9 um bem p\u00fablico e que ajudou a salvar milhares de brasileiros, principalmente neste pa\u00eds com desigualdades econ\u00f4micas e sociais t\u00e3o profundas\u201d.<\/p>\n<p>Tucci lembra tamb\u00e9m que os cientistas podem buscar solu\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria das epidemias, que se repetem por s\u00e9culos, com v\u00e1rias semelhan\u00e7as. \u201cQue a hist\u00f3ria das pandemias passe a fazer parte do conte\u00fado obrigat\u00f3rio nos programas escolares, pois as experi\u00eancias cient\u00edficas do passado indicam caminhos para a ci\u00eancia do futuro. E que cursos educativos de preven\u00e7\u00e3o e combate ao racismo estrutural ajudem a salvar vidas, independente das crises pol\u00edticas e de sa\u00fade p\u00fablica\u201d, defende.<\/p>\n<p>Para o pr\u00f3ximo ano, a historiadora espera que a politiza\u00e7\u00e3o da vacina contra a covid-19 n\u00e3o obstrua o real objetivo da vacina\u00e7\u00e3o em massa: salvar vidas. \u201cEsperamos tamb\u00e9m que o Estado brasileiro d\u00ea credibilidade aos cientistas, disponibilizando recursos para pesquisas em todos os campos; al\u00e9m de aprimorar o SUS e os hospitais universit\u00e1rios, que devem estar dispon\u00edveis a todos.\u201d<\/p>\n<p>A tamb\u00e9m professora da FFLCH, Lorena Barberia, acredita que \u00e9 importante refor\u00e7ar ao p\u00fablico em geral que se est\u00e1 tentando produzir ci\u00eancia na velocidade da pandemia, entender o presente, que \u00e9 muito din\u00e2mico e complexo. \u201cTemos que lembrar a sociedade sobre a import\u00e2ncia do processo cient\u00edfico e o que realmente significa fazer ci\u00eancia. Esse processo \u00e9 circular, cont\u00ednuo e n\u00f3s precisamos de muito tempo e rigorosa valida\u00e7\u00e3o para entender o que est\u00e1 acontecendo.\u201d<\/p>\n<p>O que n\u00e3o precisamos, diz ela, \u00e9 de \u201cdiscursos baratos que dizem \u2018n\u00f3s vamos seguir a ci\u00eancia\u2019, como se ela s\u00f3 tivesse um caminho. A ci\u00eancia \u00e9 um processo de descobertas em que existem hip\u00f3teses e contrafactuais. Atrav\u00e9s desse processo de questionamento \u00e9 que n\u00f3s aprendemos. Ent\u00e3o seguir a ci\u00eancia \u00e9 importante, mas \u00e9 preciso entender que esse caminho \u00e9 complexo, inclui novos achados. Podemos questionar os dados e mostr\u00e1-los como n\u00e3o constatados\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Renato Janine Ribeiro, professor da FFLCH, traz as discuss\u00f5es da filosofia para apontar como ideias relacionadas \u00e0 vida e \u00e0 morte se atualizaram este ano. Segundo ele, ao longo dos anos, o avan\u00e7o na longevidade e na pesquisa cient\u00edfica trouxe a quest\u00e3o do transumanismo, com o ser humano podendo vir a ser entendido como \u201camortal\u201d. \u201cSeria poss\u00edvel n\u00e3o s\u00f3 se adiar indefinidamente a morte como at\u00e9 trocar \u2018pe\u00e7as\u2019 do corpo e tornar a pessoa quase imune \u00e0 morte. Isso muda completamente a compreens\u00e3o que se tem do ser humano como um ser voltado para a morte. E a\u00ed uma grande quest\u00e3o filos\u00f3fica passa a ser n\u00e3o apenas ter uma maior quantidade de anos de vida, mas uma maior qualidade de vida\u201d, descreve.<\/p>\n<p>A pandemia, por\u00e9m, chega trazendo a morte como um enorme risco. \u201cEla, de certa forma, \u2018re-existencializou\u2019 nossa percep\u00e7\u00e3o do mundo. \u00c9 um golpe duro nessa expectativa de uma vida mais longa. Ent\u00e3o o avan\u00e7o aconteceu, por\u00e9m, a surpresa \u00e9 uma doen\u00e7a invis\u00edvel. E o que vamos fazer em rela\u00e7\u00e3o a ela?\u201d<\/p>\n<p>Assim, diz ele, \u201ctemos como se fosse um grande embate, n\u00e3o apenas no plano da ci\u00eancia, tentando resolver a pandemia, mas tamb\u00e9m na discuss\u00e3o do sentido da vida. Mais longa, trazendo uma tranquilidade maior, mas tamb\u00e9m outras preocupa\u00e7\u00f5es, porque precisamos preencher de sentido essa vida, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. E temos, de repente, a surpresa de uma doen\u00e7a invis\u00edvel contra a qual praticamente n\u00e3o temos defesa. Volta a quest\u00e3o antiga da morte iminente, que a qualquer momento pode acontecer. Essa \u00e9 uma das grandes quest\u00f5es que a filosofia, como uma reflex\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana, tem a enfrentar.\u201d<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nas humanidades, mas pensando na ci\u00eancia social aplicada, a professora da Faculdade de Direito (FD) da USP, Eunice Prudente, afirma que o direito deve expressar o sentido do justo, do melhor para a sociedade \u2013 todas as classes sociais.<\/p>\n<p>Para a professora, \u00e9 not\u00f3rio \u201cque esta Rep\u00fablica n\u00e3o \u00e9 pobre, mas injusta, face aos n\u00edveis de concentra\u00e7\u00e3o de rendas e terras\u201d. Resgatando a hist\u00f3ria que nos trouxe at\u00e9 2020, Eunice lembra que a forma\u00e7\u00e3o da propriedade privada a partir de escraviza\u00e7\u00e3o deixou \u00e0 deriva do desenvolvimento os negros descendentes dos escravizados e \u201cmoldou as formas de discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica violentas que s\u00e3o observadas no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Sobre as mudan\u00e7as trazidas pela crise sanit\u00e1ria, ela resgata do pensamento grego a vis\u00e3o da crise como momento decisivo para um novo tempo, mas precedido de muita matura\u00e7\u00e3o. \u201cNo Brasil desconhece-se o pensamento plat\u00f4nico, que refletiu: n\u00e3o se espera por uma crise para descobrir o que \u00e9 importante em sua vida.\u201d<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o nos preparamos, fazendo das crises oportunidades. Pelo contr\u00e1rio, \u201ca covid-19 aflorou as desditas aqui narradas, da desigualdade socioecon\u00f4mica ao racismo estrutural\u201d, denuncia.<\/p>\n<p>Para os pr\u00f3ximos anos, Eunice convoca: \u201c\u2019Bora\u2019 reconstruir o Brasil com real investimento na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica; enfrentamento da desigualdade socioecon\u00f4mica; e enfrentamento do racismo\u201d.<\/p>\n<h2>Projetos tentam sobreviver<\/h2>\n<p>Incans\u00e1vel na luta por mais recursos para a ci\u00eancia, a professora do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da USP, Mayana Zatz, v\u00ea 2020 como um ano muito triste para a ci\u00eancia brasileira neste aspecto. Primeiro, porque os cortes de verbas federais para pesquisas, que j\u00e1 vinham acontecendo, foram aumentando. Os mais prejudicados foram os estudantes, com uma redu\u00e7\u00e3o das bolsas. \u201cCada vez mais eles v\u00e3o para o exterior em busca de condi\u00e7\u00f5es melhores e n\u00e3o voltam mais\u201d, lamenta a geneticista.<\/p>\n<p>Mas o pior de tudo, na opini\u00e3o dela, foi o corte de verbas para a Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp). \u201cPrimeiro, houve uma tentativa de retirar um suposto super\u00e1vit que n\u00e3o existe. Felizmente, n\u00e3o houve este corte, mas, no final do ano, soubemos que seria aplicada a DREM, que \u00e9 a desvincula\u00e7\u00e3o da receita tribut\u00e1ria, 1% do que \u00e9 repassado \u00e0 Fapesp\u201d, diz ela, ao explicar que, com isso, a ag\u00eancia de fomento teve um corte de 30%, ou seja, de R$ 454 milh\u00f5es em 2021. \u201cO governador prometeu que iria repor esses recursos por meio de decreto, mas, se vai repor, por que retirar? Isso causou uma enorme inseguran\u00e7a na comunidade cient\u00edfica.\u201d<\/p>\n<p>Para Zatz, boa not\u00edcia \u00e9 ver, no mundo desenvolvido, o reconhecimento da import\u00e2ncia da ci\u00eancia, e que pa\u00edses como Inglaterra e Estados Unidos j\u00e1 est\u00e3o vacinando a sua popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por sorte, nem por acaso, mas como resultado de anos de investimentos em pesquisas. \u201cCom esfor\u00e7o, dedica\u00e7\u00e3o e recursos, tudo \u00e9 poss\u00edvel. Infelizmente, n\u00f3s s\u00f3 podemos admir\u00e1-los e bater palmas de longe\u201d, diz.<\/p>\n<p>Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica (FSP) da USP, reconhece que o ano at\u00edpico imp\u00f4s dificuldades \u00e0 ci\u00eancia, mas que seu grupo, o Nupens, procurou manter o car\u00e1ter coletivo e social do trabalho. Prova disso, diz ele, foi a resposta dada aos ataques direcionados ao\u00a0<span class=\"Apple-style-span\">Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira<\/span>, cuja elabora\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica foi coordenada pelo Nupens. \u201cAtaques esses repelidos prontamente por um manifesto em que salientamos o robusto conjunto de evid\u00eancias que sustenta as recomenda\u00e7\u00f5es do\u00a0<span class=\"Apple-style-span\">Guia<\/span>.\u201d<\/p>\n<p>Para ele, o trabalho cient\u00edfico coletivo tamb\u00e9m mostrou sua for\u00e7a quando o Nupens recebeu a not\u00edcia de que cinco de seus cientistas est\u00e3o entre os mais citados do mundo. \u201c\u00c9 importante mostrar que seguimos trabalhando em uma produ\u00e7\u00e3o de alt\u00edssima qualidade e de impacto internacional. N\u00e3o h\u00e1 sinais de que em 2021 o desmonte de \u00e1reas estrat\u00e9gicas, inclusive da ci\u00eancia, seja revertido: mais um motivo para estarmos juntos\u201d, convida.<\/p>\n<p>Alexandre Chiavegatto Filho, tamb\u00e9m professor da FSP, conta que, do ponto de vista das pesquisas do seu grupo, a covid-19 foi um grande problema. \u201cAtrasou muito nossos projetos e prejudicou bastante a evolu\u00e7\u00e3o do nosso laborat\u00f3rio.\u201d Mas, ao mesmo tempo, a doen\u00e7a trouxe oportunidade de desenvolvimento para a Intelig\u00eancia Artificial, campo a que se dedica, sendo interessante para testar algoritmos. \u201cToda a base adquirida pode ser uma abertura para conseguirmos ampliar as pesquisas para outras doen\u00e7as\u201d, espera.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 sua perspectiva para o pr\u00f3ximo ano. \u201cApesar de toda crise de financiamento da ci\u00eancia, temos a felicidade de que a Intelig\u00eancia Artificial ainda seja uma \u00e1rea com interesse cient\u00edfico\u201d, diz.<\/p>\n<h2>Ci\u00eancia que aprende<\/h2>\n<p>O professor do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB) da USP, Edison Durigon, inclui entre os aprendizados de 2020 se preparar com anteced\u00eancia. \u201cSe, desde os primeiros casos na China, tiv\u00e9ssemos come\u00e7ado a nos preparar, talvez a pandemia tivesse sido mais leve aqui. Todo mundo parecia ter aprendido essa li\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que n\u00f3s come\u00e7amos a ter uma diminui\u00e7\u00e3o de casos. E, agora, vimos esse novo aumento de casos acontecer um m\u00eas antes na It\u00e1lia, na Fran\u00e7a, na Inglaterra e n\u00e3o fizemos nada, esperamos aumentar aqui.\u201d<\/p>\n<p>Durigon alerta que, para 2021, o Pa\u00eds precisa ser autossuficiente em insumos. \u201cAt\u00e9 a metade de 2020, n\u00f3s paramos o diagn\u00f3stico pois n\u00e3o conseguimos compr\u00e1-los, devido \u00e0 competi\u00e7\u00e3o internacional\u201d, recorda. E evoluir na testagem, que foi baixa por falta n\u00e3o s\u00f3 de kits, mas de pessoal treinado.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos aprender a fazer vacinas emergenciais mais rapidamente. E depois, com calma e com tempo, desenvolver as que ficar\u00e3o para o resto da vida. Os cientistas t\u00eam que aprender a ser mais \u00e1geis e, \u00e0s vezes, ouvir mais o cora\u00e7\u00e3o\u201d, completa.<\/p>\n<p>Patr\u00edcia Beltr\u00e3o-Braga, professora do ICB, conta que se viu, pela segunda vez, mudando os planos da pesquisa que vinha fazendo em fun\u00e7\u00e3o de epidemias.\u00a0Mas ela ressalta que a capacidade de se reinventar demora a ser constru\u00edda, precisa de anos de estudo, maturidade e muito incentivo, moral e financeiro: \u201cInvestimento!\u201d.<\/p>\n<p>Para ela, \u201co ano de 2020 obrigou os cientistas a serem resilientes e nos mostrou nossa verdadeira voca\u00e7\u00e3o: estamos aqui para servir \u00e0 sociedade. As epidemias e pandemias n\u00e3o v\u00e3o parar, e aprendemos que as a\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas s\u00f3 acontecem se estivermos preparados\u201d.<\/p>\n<p>Para Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), vivemos \u201cuma tempestade em que se depositou na ci\u00eancia \u2013 que tem seu tempo e suas limita\u00e7\u00f5es \u2013 as esperan\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia em si respondeu muito bem. \u201cAs vacinas foram produzidas em tempo in\u00e9dito, \u00e0 custa do progresso da ci\u00eancia e dos investimentos maci\u00e7os.\u201d A pr\u00f3pria USP respondeu, com pesquisa em diversas frentes. Mesmo assim, como nunca, a ci\u00eancia esteve sob ataque, conceitual e financeiro.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico lembra ainda que, no in\u00edcio, na falta de alternativas, os cientistas procuraram nos rem\u00e9dios que j\u00e1 existiam um caminho para tratar a covid-19. \u201cE o que no come\u00e7o era uma esperan\u00e7a, foi usado por pol\u00edticos para minimizar o risco e chamar de ci\u00eancia um fetiche cient\u00edfico\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Para ele, no entanto, \u201co grande aprendizado foi que n\u00e3o sabemos quase nada desse v\u00edrus e tivemos que ter humildade para aprender. Que a ci\u00eancia continue nos iluminando e possa trazer um pouco das solu\u00e7\u00f5es que, como sociedade, ainda n\u00e3o conseguimos estabelecer como um todo\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Para Liedi Bernucci, diretora da Escola Polit\u00e9cnica (Poli) da USP, o maior aprendizado este ano foi cultivar a solidariedade. \u201cDocentes, funcion\u00e1rios e alunos estenderam as m\u00e3os para ajudar. As aulas logo se reiniciaram com a mobiliza\u00e7\u00e3o de nossos funcion\u00e1rios, a AEP (Associa\u00e7\u00e3o dos Engenheiros Polit\u00e9cnicos) promovendo a\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00e3o de computadores e notebooks para os alunos que, com a ajuda do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico e centrinhos dos alunos, foram reformatados e limpos. Al\u00e9m do treinamento do Pece para docentes no uso de ferramentas on-line e nas t\u00e9cnicas de aprendizado invertido\u201d, relata.<\/p>\n<p>Na pesquisa e atendimento \u00e0 sociedade, ela destaca, entre outras, a iniciativa do ventilador mec\u00e2nico de baixo custo, que contou com a doa\u00e7\u00e3o de empresas e pessoas f\u00edsicas, muitas delas pelo programa USP Vida. Outros exemplos s\u00e3o o rob\u00f4 para entregas de medicamentos em hospitais para evitar o contato de muitas pessoas com a doen\u00e7a, e o grupo formado por Poli e IPT para conserto gratuito de ventiladores respirat\u00f3rios dos diversos hospitais p\u00fablicos. \u201cTodo o trabalho foi volunt\u00e1rio. A solidariedade foi a for\u00e7a motriz em todas as iniciativas unindo compet\u00eancias\u201d, celebra.<\/p>\n<p>Para o professor da Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades (EACH) da USP Alberto Tufaile, os principais aprendizados est\u00e3o associados com a comunica\u00e7\u00e3o e o posicionamento ideol\u00f3gico. Ele relata que viu mais intensamente posicionamento pol\u00edtico declarado de colegas ao redor do mundo, escolhendo a posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel de questionar abertamente a autoridade estabelecida em favor de uma posi\u00e7\u00e3o baseada no m\u00e9todo cient\u00edfico. \u201cComo numa can\u00e7\u00e3o de \u2018sofr\u00eancia\u2019, os cientistas perceberam que \u00e9 loucura negar as evid\u00eancias e mentir para ficar numa posi\u00e7\u00e3o socialmente neutra.\u201d<\/p>\n<p>Alicia Kowaltowski, professora do Instituto de Qu\u00edmica (IQ) da USP, diz que cientistas s\u00e3o formados para ser resilientes, mas que \u201cnunca antes nossa resili\u00eancia e capacidade de se reinventar foram testadas como em 2020\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ressaltando a comunica\u00e7\u00e3o, a pesquisadora observou com a pandemia um enorme aumento de interesse da popula\u00e7\u00e3o em geral por ci\u00eancia. \u201cIsso \u00e9 maravilhoso! Comunicadores cient\u00edficos viraram celebridades, o\u00a0<span class=\"Apple-style-span\">Jornal da USP<\/span>\u00a0ganhou muito mais visibilidade, e nunca antes a profiss\u00e3o foi t\u00e3o vis\u00edvel e valorizada\u201d, celebra.<\/p>\n<p>O professor do Instituto de F\u00edsica (IF) da USP Paulo Artaxo acredita que ci\u00eancia ter\u00e1 um papel ainda maior na orienta\u00e7\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o do bem-estar social e tecnol\u00f3gico nos n\u00edveis local e global, e se envolver\u00e1 em conflitos ainda maiores durante a apresenta\u00e7\u00e3o das suas propostas. \u201cE tudo isso vai funcionar? Bem, isso n\u00e3o \u00e9 simples de prever, pois depender\u00e1 da rea\u00e7\u00e3o das outras entidades sociais envolvidas, pois as ideias cient\u00edficas n\u00e3o devem ser impostas, mas precisam ser implantadas de forma consensual.\u201d<\/p>\n<p>Para ele, o principal aprendizado de 2020 \u00e9 que, para enfrentar as tr\u00eas grandes crises que a humanidade est\u00e1 passando \u2014 crise da covid-19, perda de biodiversidade e emerg\u00eancia clim\u00e1tica \u2014 a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 a ci\u00eancia. \u201cNem for\u00e7as de mercado, nem pol\u00edticos ou qualquer outro movimento distante da ci\u00eancia podem auxiliar a humanidade a caminhar por lugares mais seguros\u201d, garante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Import\u00e2ncia da ci\u00eancia ficou mais vis\u00edvel em 2020 com a pandemia, que tamb\u00e9m tem sido<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Import\u00e2ncia da ci\u00eancia ficou mais vis\u00edvel em 2020 com a pandemia, que tamb\u00e9m tem sido","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138874"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138874"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138874\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":138875,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138874\/revisions\/138875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}