{"id":138853,"date":"2020-12-26T14:15:23","date_gmt":"2020-12-26T17:15:23","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=138853"},"modified":"2020-12-26T14:19:06","modified_gmt":"2020-12-26T17:19:06","slug":"entrevista-especial-com-faustino-teixeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-faustino-teixeira\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Faustino Teixeira"},"content":{"rendered":"<h1>Do Tempo de Ru\u00ednas \u00e0 Ressurg\u00eancia: o desafio de viver o Natal em meio \u00e0 pandemia.<\/h1>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/deserto.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-138856\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/deserto.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"479\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/deserto.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/deserto-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para o professor, este fim de ano nos provoca \u201cn\u00e3o apenas esperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m uma provoca\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, de pensar num \u2018plano para ressuscitar\u2019 os corpos fr\u00e1geis, cansados e desiludidos\u201d<\/p>\n<p>Mesmo que o ano n\u00e3o tenha sido t\u00e3o bom, \u00e0 medida que o calend\u00e1rio avan\u00e7a no m\u00eas de dezembro, normalmente somos tomados de um sentimento que nos faz sorrir mais, sentir mais o que nos cerca, olhar o que passou e pensar num novo tempo. Na verdade, um misto de sensa\u00e7\u00f5es que podemos resumir como o desejo de\u00a0<strong>esperan\u00e7a<\/strong>. No entanto, o ano de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597716-2020-o-ano-zero-de-uma-nova-sociedade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">2020<\/a>\u00a0foi particularmente carregado. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597312-a-pior-pandemia-experimentada-pela-humanidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pandemia<\/a>\u00a0trouxe dor, sofrimento, desilus\u00e3o e ainda fez aflorar todos os dramas, pessoais e coletivos, que v\u00ednhamos vivendo. \u201cA\u00a0<strong>dura epidemia<\/strong>\u00a0veio agravar uma situa\u00e7\u00e3o que, em verdade, j\u00e1 estamos observando h\u00e1 tempos, com os descaminhos do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/582885-o-antropoceno-e-um-alerta-sobre-as-acoes-humanas-no-planeta-entrevista-especial-com-etienne-turpin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antropoceno<\/a>, esse tempo de \u2018perturba\u00e7\u00e3o humana\u2019. N\u00e3o \u00e9 de hoje que vamos experimentando a nossa limita\u00e7\u00e3o e vulnerabilidade, esse sentimento de \u2018<strong>perda de mundo<\/strong>\u2019\u201d, observa o professor e te\u00f3logo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/ideias\/298cadernosihuideias.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Faustino Teixeira<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, o\u00a0<strong>sentimento de esperan\u00e7a<\/strong>\u00a0se torna um grande desafio ao\u00a0<strong>fim de 2020<\/strong>. Como pensar e acreditar que o tempo por vir ser\u00e1 melhor? Como enfrentar os desafios do deserto e n\u00e3o perder de vista o o\u00e1sis?\u00a0<strong>Faustino<\/strong>\u00a0tem algumas pistas. \u201cO\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/595168-natal-e-tempo-de-viver-a-gratuidade-da-vida-e-abrir-se-a-utopia-a-outros-mundos-possiveis-entrevista-especial-com-leonardo-boff-e-frei-betto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Natal<\/a>\u00a0traz para n\u00f3s n\u00e3o apenas esperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m uma provoca\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, de pensar num \u2018plano para ressuscitar\u2019 os corpos fr\u00e1geis, cansados e desiludidos. Com a experi\u00eancia da\u00a0<strong>pandemia<\/strong>\u00a0tomamos consci\u00eancia viva de nossa pequenez e fragilidade\u201d, reflete. E por isso pensa em exerc\u00edcios que coloca a si mesmo. \u201cTemos que buscar do fundo da alma as sementes de resili\u00eancia e esperan\u00e7a para lutar contra os descaminhos de nosso\u00a0<em>tempo da \u2018rapidaci\u00f3n\u2019<\/em>. E os anticorpos, como lembra\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/605168-papa-francisco-o-que-o-evangelho-nos-pede-e-ser-povo-de-deus-nao-elite-de-deus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Francisco<\/a>, n\u00e3o podem ser sen\u00e3o a \u2018<strong>justi\u00e7a<\/strong>, a\u00a0<strong>caridade<\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong>solidariedade<\/strong>\u2019\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>Faustino<\/strong>\u00a0dedicou uma vida de estudos \u00e0\u00a0<strong>m\u00edstica<\/strong>, desenvolvendo uma sensibilidade para apreender muitos caminhos que levam ao\u00a0<strong>Sagrado<\/strong>, o que \u00e9 muito \u00fatil em\u00a0<strong>tempos sombrios<\/strong>. Um desses caminhos \u00e9 o da\u00a0<strong>literatura e poesia brasileira<\/strong>, com cheiro de sert\u00e3o e gosto de gente. E, talvez, seja por isso que consegue extrair uma teologia muito real, encarnada no humano, a partir de um cl\u00e1ssico como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/538\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/a>, de\u00a0<strong>Guimar\u00e3es Rosa<\/strong>. \u201cAprendi ao ler o\u00a0<strong>GSV<\/strong>\u00a0que o\u00a0<strong>maligno<\/strong>\u00a0est\u00e1 sempre a\u00ed, nos rodeando por todo canto, com seu poder de cont\u00e1gio, e que o importante \u00e9 cavar for\u00e7as para reconduzir as coisas \u2018a si pr\u00f3prias\u2019, desvendando a \u2018vozinha\u2019 que habita tamb\u00e9m o mais fundo de nossa alma, e que nos ajuda a n\u00e3o prevaricar\u201d, observa.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que nesta entrevista, concedida por e-mail \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>,\u00a0<strong>Faustino<\/strong>\u00a0mergulha nesses tra\u00e7ados vicinais que podem nos levar para al\u00e9m do deserto de nossos tempos. \u201cO caminho resvaloso se vence com muito amor, e com a ajuda de todas as nossas senhoras sertanejas, e em especial a\u00a0<strong>Nossa Senhora da Abadia<\/strong>. E d\u00e1 um al\u00edvio imaginar que, apesar do poder do demo, que age por todo canto, estamos envolvidos pela for\u00e7a protetora do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/42-noticias\/comentario-do-evangelho\/599602-abrir-nos-ao-misterio-de-deus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mist\u00e9rio Maior<\/a>\u201d, aponta, ao relacionar com a obra de\u00a0<strong>Guimar\u00e3es Rosa<\/strong>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o professor tamb\u00e9m fala de poesia, de autores e autoras, como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/43-noticias\/oracoes-inter-religiosas-ilustradas\/599670-rosa-do-deserto-cecilia-meireles-na-oracao-inter-religiosa-desta-semana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cec\u00edlia Meireles<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/43-noticias\/oracoes-inter-religiosas-ilustradas\/603790-oracoes-inter-religiosas-declamadas-estado-da-graca-clarice-lispector\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Clarice Lispector<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/523045-a-poesia-me-salvara-a-mistica-de-adelia-prado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ad\u00e9lia Prado<\/a>, que v\u00e3o conectar-se com o\u00a0<strong>belo<\/strong>\u00a0e por ele\u00a0<strong>alimentar a esperan\u00e7a<\/strong>\u00a0de outros tempos. Tamb\u00e9m vai revelar como \u00e9 preciso nos desconstruirmos e conhecer outros mundos revelados por\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/605172-ailton-krenak-a-terra-pode-nos-deixar-para-tras-e-seguir-o-seu-caminho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ailton Krenak<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596104-os-brancos-estao-destruindo-a-amazonia-porque-nao-sabem-sonhar-entrevista-com-davi-kopenawa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Davi Kopenawa<\/a>. \u201c<strong>Krenak<\/strong>\u00a0sublinha que em diferentes partes do mundo os\u00a0<strong>povos origin\u00e1rios<\/strong>\u00a0est\u00e3o manifestando sua resist\u00eancia contra os caminhos do desenvolvimento, e o fazem porque guardam \u2018viv\u00eancias preciosas\u2019 que podem ser partilhadas nesses tempos de ru\u00ednas\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Por fim, ainda olha para a\u00a0<strong>m\u00fasica<\/strong>, como a de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/476\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gilberto Gil<\/a>\u00a0que, entre outros, nos ensina a entender e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/604328-se-eu-quiser-falar-com-deus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">falar com Deus<\/a>. Para\u00a0<strong>Faustino<\/strong>, s\u00e3o caminhos que nos alimentam de outras for\u00e7as para seguir n\u00e3o somente com\u00a0<strong>esperan\u00e7a<\/strong>, mas renascendo de corpos doentes e cansados. \u201cO\u00a0<strong>falar com Deus hoje<\/strong>\u00a0exige, de fato, aventurar-se por um nada criativo, que rompe com a cadeia dos deuses representados, nomeados pelas criaturas, e avan\u00e7ar para al\u00e9m, no sentido de um Deus que ultrapassa deus, de uma Deidade que se faz presente no tempo, e tamb\u00e9m no \u00edntimo de cada um\u201d, convida. Afinal, \u201c\u00e9 poss\u00edvel, sim, ressurgir a cada momento, de forma novidadeira, mesmo em tempos de ru\u00edna, aprendendo a dan\u00e7ar sobre escombros, como diz a poeta portuguesa\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/43-noticias\/oracoes-inter-religiosas-ilustradas\/595134-chapeu-de-palha-matilde-campilho-na-oracao-inter-religiosa-desta-semana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Matilde Campilho<\/a>\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/faustino.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-138855\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/faustino.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/faustino.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/faustino-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><br \/>\nFaustino Teixeira\u00a0(Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/603521-fratelli-tutti-conjuga-coragem-cuidado-e-ternura-entrevista-especial-com-faustino-teixeira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Faustino Teixeira<\/a>\u00a0possui gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia das Religi\u00f5es pela Universidade Federal de Juiz de Fora &#8211; UFJF, gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia pela mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 mestre em Teologia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro e doutor em Teologia pela Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana, de Roma, na It\u00e1lia. Atualmente \u00e9 professor convidado da UFJF, no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia da Religi\u00e3o, depois de sua aposentadoria como professor titular na mesma Universidade. Dos \u00faltimos livros publicados, destacamos\u00a0<strong>Malhas da M\u00edstica Crist\u00e3<\/strong>\u00a0(Curitiba: Appris, 2019). Antigo colaborador do\u00a0<strong>IHU<\/strong>, \u00e9 idealizador das publica\u00e7\u00f5es semanais da se\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/espiritualidade\/oracoes-interreligiosas-ilustradas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ora\u00e7\u00e3o Inter-religiosa<\/a>\u00a0e, mais recentemente, das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/espiritualidade\/oracoes-interreligiosas-ilustradas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ora\u00e7\u00f5es Inter-religiosas Declamadas<\/a>.<\/p>\n<h3>Confira a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O Natal \u00e9 sempre um tempo de esperan\u00e7a e celebra\u00e7\u00e3o pelo que h\u00e1 de vir. Mas o ano de 2020 tem severamente revelado muitas dores e desafios. Como, a partir de nossa realidade concreta, animar a n\u00f3s e aos outros para que renovemos as esperan\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0Tenho um carinho muito especial pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/605718-a-noite-deus-vem-artigo-de-francesco-cosentino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Natal<\/a>, quando celebramos a festa desse menino, nascido de mulher, que veio encantar o nosso tempo. Os mestres de folia cantam aqui no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0com vigor e emo\u00e7\u00e3o o dia especial em que esse menino veio ao mundo. Na preciosa voz de\u00a0<strong>Ely Camargo<\/strong>, um dos cantos fala da \u201chora solene\u201d e da \u201cnoite t\u00e3o bonita\u201d em que o\u00a0<strong>menino foi nascido<\/strong>, \u201cpara dar exemplo ao mundo\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mI1FI_sPAvc\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Cada vez que ou\u00e7o essa can\u00e7\u00e3o, a emo\u00e7\u00e3o repercute no mundo interior e sinto uma vibra\u00e7\u00e3o singular, que reverbera. Assim como quando leio\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/43-noticias\/oracoes-inter-religiosas-ilustradas\/559866-fernando-pessoa-na-oracao-inter-religiosa-desta-semana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alberto Caeiro<\/a>, no\u00a0<strong>Guardador de Rebanhos<\/strong>, falando dessa\u00a0<strong>crian\u00e7a<\/strong>\u00a0que de t\u00e3o humana \u00e9 divina; da \u201c<strong>Crian\u00e7a Nova<\/strong>\u201d que habita no cora\u00e7\u00e3o de nosso mundo, e nos ensina a cada dia a \u201colhar para as coisas\u201d, e olhar devagar, com devo\u00e7\u00e3o, ternura e carinho. N\u00e3o \u00e9 uma crian\u00e7a como outra, mas a \u201c<strong>Eterna Crian\u00e7a<\/strong>\u201d que mora junto a cada um de n\u00f3s, o \u201cdivino que sorri e brinca\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YaWEFaUeu_E\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">\u00c9 esse menino que brilha para n\u00f3s, mesmo neste ano sombrio de 2020, um dos mais estranhos que vivemos no novo mil\u00eanio \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 esse menino que brilha para n\u00f3s, mesmo nesse\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597985-a-curva-da-angustia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ano sombrio de 2020<\/a>, um dos mais estranhos que vivemos no novo mil\u00eanio. O sentimento que temos n\u00e3o \u00e9 dos mais alvissareiros, mas de muita dor e desorienta\u00e7\u00e3o, quando vemos a morte chegar assim t\u00e3o perto, atingindo a amigos ou parentes queridos. Aquela imagem televisiva dos caminh\u00f5es do ex\u00e9rcito, na It\u00e1lia, levando os caix\u00f5es para o sepultamento, \u00e9 uma imagem que guardamos com dor, e n\u00e3o esquecemos. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597572-francisco-protagoniza-uma-impactante-oracao-pelo-fim-da-pandemia-em-uma-vazia-e-chuvosa-praca-sao-pedro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">papa Francisco, naquele fim de tarde de 27 de mar\u00e7o, sozinho na Pra\u00e7a S\u00e3o Pedro<\/a>, \u00e9 outra imagem que fica para n\u00f3s, fort\u00edssima, a nos recordar a dor de uma peste que mostra suas violentas garras. Diante de milh\u00f5es de assistentes, na TV, Francisco de branco, sem o sorriso que conhecemos, fala ao vazio:<\/p>\n<p>\u201c<em>Desde h\u00e1 semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriam as nossas pra\u00e7as, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum sil\u00eancio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo \u00e0 sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos<\/em>\u201d [1].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JepStYxBV2o\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>A dura\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597167-o-egoismo-o-virus-social-que-alimenta-a-epidemia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">epidemia<\/a>\u00a0veio agravar uma situa\u00e7\u00e3o que, em verdade, j\u00e1 estamos observando h\u00e1 tempos, com os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/605678-o-antropoceno-sustentavel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">descaminhos do Antropoceno<\/a>, esse tempo de \u201cperturba\u00e7\u00e3o humana\u201d. N\u00e3o \u00e9 de hoje que vamos experimentando a nossa limita\u00e7\u00e3o e vulnerabilidade, esse sentimento de \u201c<strong>perda de mundo<\/strong>\u201d. E isto \u00e9 muito dif\u00edcil para qualquer um, pois \u201co direito mais elementar \u00e9 o de sentir-se seguro e protegido, sobretudo num momento em que as antigas prote\u00e7\u00f5es est\u00e3o desaparecendo\u201d [2].<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Natal<\/strong>\u00a0traz para n\u00f3s n\u00e3o apenas esperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m uma provoca\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, de pensar num \u201cplano para ressuscitar\u201d os corpos fr\u00e1geis, cansados e desiludidos. Com a experi\u00eancia da\u00a0<strong>pandemia<\/strong>\u00a0tomamos consci\u00eancia viva de nossa pequenez e fragilidade. A partir dela temos que buscar do fundo da alma as sementes de\u00a0<strong>resili\u00eancia e esperan\u00e7a<\/strong>\u00a0para lutar contra os descaminhos de nosso tempo da \u201c<em>rapidaci\u00f3n<\/em>\u201d. E os anticorpos, como lembra\u00a0<strong>Francisco<\/strong>, n\u00e3o podem ser sen\u00e3o a \u201c<strong>justi\u00e7a<\/strong>, a\u00a0<strong>caridade<\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong>solidariedade<\/strong>\u201d.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597499-a-crise-sanitaria-incita-a-nos-preparar-para-as-mudancas-climaticas-artigo-de-bruno-latour\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Latour<\/a>\u00a0nos convida a prolongar o gesto prof\u00e9tico de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/595798-como-voces-explicarao-aos-seus-filhos-que-desistiram-discurso-de-greta-thunberg-em-davos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Greta Thunberg<\/a>\u00a0de impor \u201cgestos barreira\u201d que sejam capazes de barrar a loucura dessa\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/598719-o-papa-francisco-e-o-combate-a-globalizacao-da-indiferenca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a<\/a>.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">A dura epidemia veio agravar uma situa\u00e7\u00e3o que, em verdade, j\u00e1 estamos observando h\u00e1 tempos, com os descaminhos do Antropoceno, esse tempo de \u201cperturba\u00e7\u00e3o humana\u201d \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em outras entrevistas que o senhor nos concedeu, destacou uma leitura m\u00edstica de Grande Sert\u00e3o: Veredas, de Guimar\u00e3es Rosa. Hoje, diante de todos os desafios e tens\u00f5es vividas, que chaves de leitura indica para pensarmos sobre o bem e o mal, o desespero e a esperan\u00e7a a partir dessa obra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0Tenho mesmo um \u201ccaso\u201d com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7604-grande-sertao-veredas-uma-epopeia-metafisica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/a>\u00a0(GSV) [3]. \u00c9 um livro que me ajudou de forma exemplar a compreender o mist\u00e9rio do \u201c<strong>homem-humano<\/strong>\u201d, a desvendar sua dimens\u00e3o de ambiguidade. N\u00e3o somos apenas esse \u201cdom\u201d precioso de Deus, mas nos vemos surpreendidos tamb\u00e9m com uma dimens\u00e3o \u201ctorva da alma\u201d, o \u201cavesso\u201d nosso, que faz explodir muitas vezes tra\u00e7os estranhos de um\u00a0<strong>\u00f3dio<\/strong>\u00a0que n\u00e3o tem raz\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o (GSV 284). Ele apenas surge e desencaminha nossa rota.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oOdGvuzQjbA\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Aprendi ao ler o\u00a0<strong>GSV<\/strong>\u00a0que o\u00a0<strong>maligno<\/strong>\u00a0est\u00e1 sempre a\u00ed, nos rodeando por todo canto, com seu poder de cont\u00e1gio, e que o importante \u00e9 cavar for\u00e7as para reconduzir as coisas \u201ca si pr\u00f3prias\u201d, desvendando a \u201cvozinha\u201d que habita tamb\u00e9m o mais fundo de nossa alma, e que nos ajuda a n\u00e3o prevaricar. \u00c9 essa vozinha que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/585334-estar-simplesmente-presente-merton-e-a-vida-contemplativa-entrevista-especial-com-faustino-teixeira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Thomas Merton<\/a>\u00a0chamou de \u201cponto virgem\u201d [4], esse ponto intocado, de beleza singular, esse recanto \u201cde mi\u00fados remansos aonde o dem\u00f4nio n\u00e3o consegue espa\u00e7o de entrar\u201d (GSV 338), esse pontinho de nada que \u00e9 a raz\u00e3o mais profunda do nosso ser.<\/p>\n<p>H\u00e1 que seguir a intui\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Riobaldo<\/em>\u00a0e manter sempre acesa a coragem, mas tamb\u00e9m, o que \u00e9 fundamental, acertar no caminho de vida escolhido: \u201co esp\u00edrito da gente \u00e9 cavalo que escolhe estrada: quando ruma para a tristeza e morte vai n\u00e3o vendo o que \u00e9 bonito e bom\u201d (GSV 138). Comentando o lindo poema de\u00a0<strong>Murilo Mendes<\/strong>, \u201c<strong>Jogo<\/strong>\u201d,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/173-noticias\/noticias-2011\/42480-morte-e-vida-do-autor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Silviano Santiago<\/a>\u00a0reconhece que a vida \u00e9 \u201ccara ou coroa\u201d: \u201ca cara (da moeda) da vida \u00e9 excludente, mas a coroa (da moeda) da vida \u00e9 amor\u00e1vel. Se se guarda a moeda na m\u00e3o fechada, ela d\u00e1 sempre cara. \u00c9 bom abrir a m\u00e3o generosamente para que d\u00ea coroa. Deus e o dem\u00f4nio, o amor e o abandono, atividade e solid\u00e3o\u201d [5].<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594635-guimaraes-rosa-foi-um-visionario-na-defesa-da-inteireza-do-ambiente\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guimar\u00e3es Rosa<\/a>\u00a0tinha um apre\u00e7o especial pela alegria, e esse toque de luz perpassa tamb\u00e9m o\u00a0<strong>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/strong>, bem como outros romances do escritor. Diante de tanta maldade no mundo,\u00a0<em>Rosa<\/em>\u00a0chora, e chora \u201cporque ao mundo faltava aquela santa alegria, que tanto desejava\u201d [6].<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Aprendi ao ler o GSV que o maligno est\u00e1 sempre a\u00ed, nos rodeando por todo canto, com seu poder de cont\u00e1gio, e que o importante \u00e9 cavar for\u00e7as para reconduzir as coisas \u201ca si pr\u00f3prias\u201d \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que mais o seduz e encanta na obra de Guimar\u00e3es Rosa? Como ler esse autor?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0Muitas coisas me seduzem em\u00a0<strong>Guimar\u00e3es Rosa<\/strong>, talvez um dos maiores escritores do s\u00e9culo XX. Fixo-me aqui no romance\u00a0<strong>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/strong>. Sou tocado pela forma como aborda a ambiguidade no ser humano, a\u00a0<strong>presen\u00e7a da religiosidade<\/strong>\u00a0como eixo organizador do nomos fundamental, a forma magn\u00edfica como trata o amor e suas neblinas, e tamb\u00e9m a beleza como descreve a natureza, suscitando um amor profundo pelos pequenos sinais do cotidiano. \u00c9 espl\u00eandida a capacidade documental de\u00a0<strong>Guimar\u00e3es Rosa<\/strong>, seu potencial de expressar \u201cos grandes lugares comuns\u201d: os grandes rios de\u00a0<strong>Minas<\/strong>, o vento, os buritis, e o Mar, esse \u201cgrande desconhecido, mist\u00e9rio que se associa \u00e0 morte, \u00e0 eternidade, ao fim de tudo, quando a vida des\u00e1gua no infinito\u201d [7].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ndsNFE6SP68\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Na ocular de\u00a0<strong>Paulo Dantas<\/strong>, escritor que foi seu grande amigo,\u00a0<strong>Rosa<\/strong>\u00a0\u201cn\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o nosso maior escritor de todos os tempos. \u00c9 o pr\u00f3prio tempo \u2013 vida mineira presente, passada, vida mais do que narrativa, vida vivida posta em letra e forma\u201d [8]. O seu grande romance \u00e9 pe\u00e7a preciosa, que a cada leitura desvenda novas e surpreendentes visadas. Ele trata de uma\u00a0<strong>travessia<\/strong>\u00a0perigosa, que na verdade \u00e9 nossa vida mesma. Da\u00ed o tra\u00e7o metaf\u00edsico da obra. Ele foi publicado em 1956, e no ano seguinte apareceu num suplemento da\u00a0<strong>Tribuna da Imprensa<\/strong>\u00a0um artigo de\u00a0<strong>Afonso Arinos de Melo Franco<\/strong>, que expressa muito bem o significado do livro:<\/p>\n<p><em>\u201cGrande Sert\u00e3o \u00e9 como certos casar\u00f5es velhos, certas igrejas cheias de sombra. No princ\u00edpio, a gente entra e n\u00e3o v\u00ea nada. S\u00f3 contornos confusos, movimentos indecisos, planos atormentados. Mas, aos poucos, n\u00e3o \u00e9 luz nova que chega: \u00e9 a vis\u00e3o que se habitua. E, com ela, a compreens\u00e3o admirativa. O imprudente ou sai logo, e perde o que n\u00e3o viu, ou resmunga contra a escurid\u00e3o, pragueja, d\u00e1 rabanadas e pontap\u00e9s. Ent\u00e3o arrisca se chocar inadvertidamente contra coisas que, depois, identificar\u00e1 como muito belas.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Nessa obra de\u00a0<strong>Guimar\u00e3es Rosa<\/strong>, como sublinha\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/567843-antonio-candido-e-sua-lufada-de-ar-na-forma-de-ver-o-brasil-entrevista-especial-com-lilia-moritz-schwarcz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antonio Candido<\/a>, \u201ch\u00e1 de tudo para quem souber ler, e nela tudo \u00e9 forte, belo, impecavelmente realizado\u201d [9]. Ao olhar superficial, a obra revela um romance de cavalaria, ou, nas palavras de\u00a0<strong>Ferreira Gullar<\/strong>, que reagiu \u00e0 obra: \u201cuma hist\u00f3ria de canga\u00e7o contada para linguistas\u201d [10]. N\u00e3o, a obra \u00e9 muito mais, tem uma\u00a0<strong>dimens\u00e3o metaf\u00edsica<\/strong>\u00a0que toca todo ser humano, uma vez que o sert\u00e3o \u00e9 o mundo e o jagun\u00e7o\u00a0<em>Riobaldo<\/em>\u00a0somos n\u00f3s. A metaf\u00edsica de\u00a0<em>Riobaldo<\/em>, assinala\u00a0<strong>Paulo Mendes Campos<\/strong>, \u201cpercorre os tempos do mundo de ponta a ponta\u201d[11]. Estamos diante de um potencial novidadeiro impactante, num \u201cjorro de imagina\u00e7\u00e3o criativa\u201d que n\u00e3o se esgota.<\/p>\n<p><strong>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/strong>\u00a0tem um poder de sedu\u00e7\u00e3o que encanta, e tamb\u00e9m a capacidade de nos ajudar a entender o enigma do homem-humano, suas mazelas, tenta\u00e7\u00f5es, viol\u00eancias, \u00f3dios; mas tamb\u00e9m o lado sedutor do amor fa\u00edsca que vence a morte. Como apontou\u00a0<strong>Fernando Sabino<\/strong>, em carta para\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/1134-dados-biograficos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Clarice Lispector<\/a>, em julho de 1956, o livro \u00e9 dif\u00edcil de engatar logo no in\u00edcio, mas depois toma o leitor com seu ritmo encantat\u00f3rio que n\u00e3o o larga jamais. \u00c9 um livro espl\u00eandido, como tamb\u00e9m sublinhou\u00a0<strong>Clarice<\/strong>, em resposta a\u00a0<strong>Sabino<\/strong>: \u201cNunca vi coisa assim! \u00c9 a coisa mais linda dos \u00faltimos tempos (&#8230;). O livro est\u00e1 me dando uma reconcilia\u00e7\u00e3o com tudo, me explicando coisas adivinhadas, enriquecendo tudo\u201d [12].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2gyjgIy0VFY\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Gosto tamb\u00e9m no livro da forma genial com que\u00a0<strong>Rosa<\/strong>\u00a0delineia a din\u00e2mica de transforma\u00e7\u00e3o permanente do ser humano. Ele est\u00e1 sempre em processo de mudan\u00e7a: \u201cO mais importante e bonito, do mundo, \u00e9 isto: que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o sempre iguais, ainda n\u00e3o foram terminadas \u2013 mas que elas v\u00e3o sempre mudando\u201d (GSV 24). E igualmente o\u00a0<strong>poder de resili\u00eancia do humano<\/strong>, que nunca se deixa vencer pelo des\u00e2nimo ou cansa\u00e7o: \u201cTodo caminho da gente \u00e9 resvaloso. Mas, tamb\u00e9m cair n\u00e3o prejudica demais \u2013 a gente levanta, a gente sobe, a gente volta\u201d (GSV 226). O\u00a0<strong>caminho resvaloso<\/strong>\u00a0se vence com muito amor, e com a ajuda de todas as nossas senhoras sertanejas, e em especial a\u00a0<strong>Nossa Senhora da Abadia<\/strong>. E d\u00e1 um al\u00edvio imaginar que, apesar do poder do demo, que age por todo canto, estamos envolvidos pela for\u00e7a protetora do<strong>\u00a0Mist\u00e9rio Maior<\/strong>, do Deus que \u00e9 \u201cuma beleza de trai\u00e7oeiro\u201d, que age \u00e9 \u201cna lei do mansinho\u201d, que \u201cataca bonito, se divertindo, se economiza\u201d (GSV 24).<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">O caminho resvaloso se vence com muito amor, e com a ajuda de todas as nossas senhoras sertanejas, e em especial a Nossa Senhora da Abadia \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em alguma medida, a distopia do nosso tempo pode ser associada \u00e0 nossa perda de sensibilidade de apreender o mundo que nos cerca, como fazia Guimar\u00e3es Rosa? Por qu\u00ea? E o que nos levaria \u00e0 perda de sensibilidade, da habilidade de auscultar os sinais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013 Atrav\u00e9s<\/strong>\u00a0do olhar de\u00a0<em>Riobaldo<\/em>, mas tamb\u00e9m de\u00a0<em>Diadorim<\/em>, somos convidados a captar sinais que nos passam desapercebidos ao nosso redor. E em particular os elementos da natureza. Ao ler o GSV, nos deparamos com passagens bel\u00edssimas que nos abrem uma chave singular para uma\u00a0<strong>nova leitura do mundo e da natureza<\/strong>. Como\u00a0<em>Riobaldo<\/em>, somos desafiados a sentir os contornos do real, a \u201cmat\u00e9ria vertente\u201d que d\u00e1 raz\u00e3o ao tra\u00e7o integral de nosso ser, apequenado por nossa trajet\u00f3ria usual.<\/p>\n<p>Linda a passagem em que, advertido por\u00a0<em>Diadorim<\/em>,\u00a0<em>Riobaldo<\/em>\u00a0come\u00e7a a se dar conta da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/528292-a-grande-beleza-e-o-desejo-e-a-resposta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">beleza de seu mundo ao redor<\/a>. Passou a admirar o manuelzinho-da-cr\u00f4a e outros p\u00e1ssaros, que antes eram apenas objeto de sua divers\u00e3o com a espingarda (GSV 108). Aprendeu a olhar \u201ccom todo carinho\u201d para as quisquilhas ou miudezas da natureza. Um outro exemplo bonito est\u00e1 no conto \u201c<strong>Campo Geral<\/strong>\u201d, na figura maravilhosa de\u00a0<em>Miguilim<\/em>, com sua sensibilidade imarcesc\u00edvel. Vivendo distante de tudo, o menino desperta para algo novo quando um homem que chega na sua casa desconfia de algo errado em sua vis\u00e3o. Empresta, ent\u00e3o, os seus \u00f3culos ao garoto e o espet\u00e1culo se realiza:<\/p>\n<p><em>\u201cNem n\u00e3o podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as \u00e1rvores, as caras das pessoas. Via os gr\u00e3ozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no ch\u00e3o de uma dist\u00e2ncia. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo&#8230;\u201d [13].<\/em><\/p>\n<p>E\u00a0<em>Miguilim<\/em>, um pouco adiante, levanta uma interroga\u00e7\u00e3o central para a m\u00e3e: \u201cM\u00e3e, mas por que \u00e9, ent\u00e3o, para que \u00e9, que acontece tudo?!\u201d Uma pergunta sem resposta, que s\u00f3 pode encontrar guarida no regato da delicadeza e do carinho expresso pela m\u00e3e: \u201cMiguilim, me abra\u00e7a, meu filhinho, que eu tenho tanto amor&#8230;\u201d [14].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nmd7Nw9KqaE\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<h3>Perda da capacidade de admira\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Como parte da distopia de nosso tempo, que \u00e9 tempo de perturba\u00e7\u00e3o e ru\u00edna, est\u00e1 a perda da capacidade de admira\u00e7\u00e3o. O m\u00edstico e pensador judaico\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/5330-maria-cristina-guarnieri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Abraham Heschel<\/a>\u00a0fala na\u00a0<strong>perda de capacidade de maravilhar-se<\/strong>. Para ele, a maravilha \u00e9 \u201ca \u00fanica b\u00fassola capaz de dirigir-nos para o polo do significado\u201d [15]. H\u00e1, por\u00e9m, que ter igualmente muita ira e f\u00faria, sagradas, para denunciar os tra\u00e7os necr\u00f3filos produzidos e continuados pela<strong>\u00a0a\u00e7\u00e3o do homem-humano<\/strong>, como fez lindamente a atriz\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/43-noticias\/oracoes-inter-religiosas-ilustradas\/602542-oracao-pela-furia-denise-fraga-na-oracao-inter-religiosa-desta-semana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Denise Fraga<\/a>:<\/p>\n<p><em>Santo Deus,<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o aplaque a minha f\u00faria.<\/em><br \/>\n<em>Proteja a minha indigna\u00e7\u00e3o dos dias iguais,<\/em><br \/>\n<em>dos dias banais.<\/em><br \/>\n<em>Renove a minha perplexidade diante do absurdo.<\/em><br \/>\n<em>Deus, meu pai<\/em><br \/>\n<em>mantenha aceso o fogo que incendeia a minha alma<\/em><br \/>\n<em>para que eu possa forjar o magma da minha f\u00faria<\/em><br \/>\n<em>em assertividade e paix\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>Canalize o jorro da minha indigna\u00e7\u00e3o furiosa<\/em><br \/>\n<em>em gotas de lucidez implac\u00e1vel<\/em><br \/>\n<em>para a minha luta di\u00e1ria<\/em><br \/>\n<em>a caminho da verdade e da liberdade [16].<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fPJlCl9YrAk\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Como parte da distopia de nosso tempo, que \u00e9 tempo de perturba\u00e7\u00e3o e ru\u00edna, est\u00e1 a perda da capacidade de admira\u00e7\u00e3o \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O sert\u00e3o, cen\u00e1rio de obras de Guimar\u00e3es Rosa e outros como Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, \u00e9 \u00e1rido, o sol castiga a pele e brinca com a vida, permitindo um florescer somente daquilo que \u00e9 mais adaptado. Ainda assim, o sertanejo pode viver 100 anos noutras terras e nunca esquece do seu ch\u00e3o. Como o senhor compreende essa rela\u00e7\u00e3o? E no que ela pode nos inspirar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0O\u00a0<strong>sert\u00e3o de Guimar\u00e3es Rosa<\/strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9 o mesmo sert\u00e3o calcinado de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/274\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Graciliano Ramos<\/a>, como no caso de sua obra\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/587566-filme-raiva-capta-todo-o-desalento-do-romance-vidas-secas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vidas Secas<\/a>, mas vem reconhecido como os campos gerais, \u201ccom suas pastagens boas para o gado, a perder de vista. E \u2013 pasmem \u2013 pela abund\u00e2ncia de \u00e1gua\u201d [18]. H\u00e1, por\u00e9m, um significado simb\u00f3lico quando\u00a0<strong>Rosa<\/strong>\u00a0trata do\u00a0<strong>sert\u00e3o<\/strong>: \u201c<em>o de um espa\u00e7o amplo e perigoso, cheio de percal\u00e7os e armadilhas, verdadeiro labirinto existencial, mas que admite brechas levando a sa\u00eddas, vias de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 talvez vias de salva\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d [19].<\/p>\n<p>No\u00a0<strong>sert\u00e3o de Rosa<\/strong>, n\u00e3o h\u00e1 apenas o lado fasto do sert\u00e3o, que \u00e9 o lado direito do\u00a0<strong>rio S\u00e3o Francisco<\/strong>; h\u00e1 tamb\u00e9m o lado nefasto, com topografia existencial perigosa, que \u00e9 o lado esquerdo do rio [20]. O\u00a0<strong>jagun\u00e7o de Rosa<\/strong>, personificado por\u00a0<em>Riobaldo Tatarana<\/em>, \u00e9 algu\u00e9m corajoso, capaz de lidar com vigor com as situa\u00e7\u00f5es mais adversas, e levantar de novo:<\/p>\n<p><em>\u201cO correr da vida embrulha tudo, a vida \u00e9 assim: esquenta e esfria, aperta e da\u00ed afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente \u00e9 coragem. O que Deus quer \u00e9 ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre no meio da tristeza\u201d (GSV 230).<\/em><\/p>\n<p>Mas o que vale para o sertanejo de\u00a0<strong>Graciliano Ramos<\/strong>, ou o jagun\u00e7o de Rosa, \u00e9 uma impressionante \u201creserva \u00e9tica\u201d acumulada numa condi\u00e7\u00e3o humana degradada, mas honrada. Os jagun\u00e7os como\u00a0<em>Riobaldo<\/em>\u00a0querem \u201cc\u00e9u\u201d, para al\u00e9m do \u201ccansa\u00e7o de esperan\u00e7a\u201d; querem o \u201cperfume da virgem\u201d, que perdura e \u201cd\u00e1 saldos para uma vida inteira\u201d (GSV 338); assim como a cachorra baleia de \u201c<strong>Vidas Secas<\/strong>\u201d, que sonha em acordar feliz \u201cnum mundo cheio de pre\u00e1s\u201d [21].<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">\u00c9 poss\u00edvel, sim, ressurgir a cada momento, de forma novidadeira, mesmo em tempos de ru\u00edna, aprendendo a dan\u00e7ar sobre escombros, como diz a poeta portuguesa Matilde Campilho \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6740-o-nascimento-de-um-jesus-severino-e-a-vitoria-da-esperanca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Morte e Vida Severina<\/a>, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto esbo\u00e7a um \u201cJesus Severino\u201d. O que o senhor destaca como mais tocante nessa obra, que pode ser considerada um auto de Natal? E, novamente, como ela pode nos falar de esperan\u00e7a diante de nossa conjuntura, marcada especialmente pelos efeitos da crise pand\u00eamica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 uma das obras mais bonitas e simb\u00f3licas da\u00a0<strong>literatura brasileira<\/strong>. Tive o privil\u00e9gio de dirigir a pe\u00e7a quando era professor numa escola de<strong>\u00a0Juiz de Fora<\/strong>,\u00a0<strong>a Academia de Com\u00e9rcio<\/strong>, no final da d\u00e9cada de 1970. Foi uma experi\u00eancia \u00fanica para mim e para toda a turma que fez parte da pe\u00e7a, que na ocasi\u00e3o teve uma viva repercuss\u00e3o em Juiz de Fora e nas redondezas.<\/p>\n<p>A obra nos apresenta, de fato, um personagem muito especial,\u00a0<em>Severino<\/em>, o retirante que atravessa muitas dificuldades numa vida \u201cinfeccionada\u201d pela mis\u00e9ria e o sofrimento. Chega mesmo a pensar em suic\u00eddio, mas vem acordado novamente pelo\u00a0<strong>milagre da vida<\/strong>, com sua surpresa e alegria. As ciganas n\u00e3o perdoam, e advertem\u00a0<em>Severino<\/em>\u00a0pelo que ter\u00e1 pela frente: \u201cAprender\u00e1 a engatinhar por a\u00ed, com aratus, aprender\u00e1 a caminhar na lama, com goiamuns, e a correr o ensinar\u00e3o os anf\u00edbios caranguejos, pelo que ser\u00e1 anf\u00edbio como a gente daqui mesmo\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HYn2I9O7E9g\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>A\u00a0<strong>vida<\/strong>\u00a0falou mais forte que qualquer palavra: ela \u201crespondeu com sua presen\u00e7a viva\u201d. \u00c9 a essa explos\u00e3o de vida, que podemos vislumbrar nos interst\u00edcios da caminhada, como\u00a0<strong>brechas salvadoras<\/strong>, suscitando um novo h\u00e1lito para a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/ideias\/298cadernosihuideias.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">travessia<\/a>, que devemos nos apegar com esperan\u00e7a e alegria. \u00c9 poss\u00edvel, sim, ressurgir a cada momento, de forma novidadeira, mesmo em\u00a0<strong>tempos de ru\u00edna<\/strong>, aprendendo a dan\u00e7ar sobre escombros, como diz a poeta portuguesa\u00a0<strong>Matilde Campilho<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor \u00e9 um apreciador da literatura e da poesia brasileira, capaz de apreender nelas uma m\u00edstica que conecta com o sagrado. Quais obras com maior pot\u00eancia nesse sentido o senhor destacaria e por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 tarefa muito dif\u00edcil destacar poetas em particular, num campo liter\u00e1rio t\u00e3o rico como o nosso, com autores maravilhosos como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/232\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carlos Drummond de Andrade<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/2160-joao-roberto-maia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Graciliano Ramos<\/a>, dois ilustres maiores no repert\u00f3rio nacional. Mas citaria tamb\u00e9m\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/228\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Clarice Lispector<\/a>,\u00a0<strong>Manuel Bandeira<\/strong>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/171-noticias\/noticias-2013\/516984-democracia-e-diversidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marco Lucchesi<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/11168-vejo-na-poesia-uma-possibilidade-de-transubstanciacao-entrevista-especial-com-mariana-ianelli\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mariana Ianelli<\/a>, que s\u00e3o autores com os quais tenho uma afinidade surpreendente. A meu ver, a grande obra da<strong>\u00a0literatura nacional<\/strong>\u00a0\u00e9 mesmo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/590438-grande-sertao-veredas-o-retrato-de-uma-sociedade-atual-entrevista-especial-com-willi-bolle\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/a>.<\/p>\n<p>E respondo com o pensamento de\u00a0<strong>Paulo Mendes Campos<\/strong>: \u201c<em>Porque esse livro conta uma hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o ouvir\u00edamos, que precis\u00e1vamos ouvir, uma hist\u00f3ria que agora se torna imposs\u00edvel imaginar n\u00e3o existindo<\/em>\u201d. E o que me impressiona em\u00a0<strong>Rosa<\/strong>, sobretudo em\u00a0<strong>GSV<\/strong>, \u00e9 a capacidade lingu\u00edstica do autor: \u201c<em>\u00c1vido por atribuir \u00e0 l\u00edngua o m\u00e1ximo de fluidez e plasticidade, ele a renova com todos os meios, sem preocupa\u00e7\u00f5es com a estil\u00edstica nem com as regras gramaticais tradicionais<\/em>\u201d [23].<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como o senhor analisa a m\u00edstica feminina em nomes da poesia e da literatura, como Clarice Lispector e Cec\u00edlia Meireles? Que outras mulheres o senhor destaca nesse mundo das letras, com uma m\u00edstica t\u00e3o particular?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/43-noticias\/oracoes-inter-religiosas-ilustradas\/603323-oracoes-inter-religiosas-declamadas-cancaozinha-para-tagore-cecilia-meireles\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cec\u00edlia Meireles<\/a>\u00a0\u00e9 uma paix\u00e3o antiga. Estar em contato com sua poesia \u00e9 tocar o limiar do mist\u00e9rio. Dif\u00edcil encontrar algum poeta que descreve a\u00a0<strong>morte e o luto<\/strong>\u00a0de forma t\u00e3o magn\u00edfica como\u00a0<strong>Cec\u00edlia<\/strong>: \u201cMinha tristeza \u00e9 n\u00e3o poder mostrar-te as nuvens brancas, e as flores novas, como aroma em brasa, com suas coroas crepitantes de abelhas\u201d [24]. Linda tamb\u00e9m a elegia a uma pequena borboleta, onde narra a morte daquela pequena vida, rec\u00e9m sa\u00edda do casulo, \u201cinacabada seda viva\u201d [25].<\/p>\n<p>Sublimes s\u00e3o os\u00a0<strong>poemas<\/strong>\u00a0escritos na\u00a0<strong>\u00cdndia<\/strong>, onde a poeta alcan\u00e7a uma plasticidade e profundidade que comovem. Gosto muito do poema \u201c<strong>Participa\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d, no qual\u00a0<strong>Cec\u00edlia<\/strong>\u00a0descreve as mudan\u00e7as que movem o olhar na medida em que se aproxima de uma mesquita. De longe, o que se avista s\u00e3o os minaretes. Na medida de uma maior aproxima\u00e7\u00e3o, captam-se os p\u00e1ssaros embrenhados nas paredes ou os desenhos perfeitos. Mas mais pr\u00f3ximo ainda, os sentidos captam \u201ca velha voz do amor naquelas salas (&#8230;) e os nomes de Deus, in\u00fameros\u201d [26].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KqTonGAz5wo\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Clarice<\/strong>\u00a0\u00e9 a paix\u00e3o presente, que venho descobrindo a cada ano e me encantando como nunca. Com ela, a paix\u00e3o pelos animais, a consci\u00eancia de nossa proximidade deles, como \u201cesp\u00e9cies companheiras\u201d. Em sintonia com o conto de\u00a0<strong>Rosa<\/strong>\u00a0\u201c<strong>Meu tio o Iauaret\u00ea<\/strong>\u201d,\u00a0<strong>Clarice<\/strong>\u00a0descreve com arte a vontade de uma\u00a0<strong>maior proximidade ao reino da pureza animal<\/strong>:<\/p>\n<p><em>&#8220;Como se uma mulher tranquila tivesse simplesmente sido chamada e tranquilamente largasse o bordado na cadeira, se erguesse, e sem uma palavra \u2013 abandonando sua vida, renegando bordado, amor e alma j\u00e1 feita \u2013 sem uma palavra essa mulher se pusesse calmamente de quatro, come\u00e7asse a engatinhar e a se arrastar com olhos brilhantes e tranquilos: \u00e9 que a vida anterior a reclamara, e ela fora&#8221; [27].<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fs0Rt-_vkMM\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Para os que estudam a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/582642-a-mistica-nos-leva-a-escutar-o-grito-da-terra-e-o-clamor-desolador-de-milhoes-de-pessoas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">m\u00edstica<\/a>, como no meu caso, s\u00e3o inspiradores alguns dos\u00a0<strong>romances de Clarice<\/strong>, como\u00a0<strong>A paix\u00e3o segundo G.H.<\/strong>\u00a0(1964),\u00a0<strong>\u00c1gua viva<\/strong>\u00a0(1973) e\u00a0<strong>Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres<\/strong>\u00a0(1969). As\u00a0<strong>cr\u00f4nicas de Clarice<\/strong>\u00a0s\u00e3o tamb\u00e9m pe\u00e7as preciosas, dotadas de\u00a0<strong>mist\u00e9rio e delicadeza<\/strong>\u00a0que encantam.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de\u00a0<strong>Estado de Gra\u00e7a<\/strong>. Ali ela aborda a leveza que envolve a experi\u00eancia: \u201cNo estado de gra\u00e7a v\u00ea-se \u00e0s vezes a profunda beleza, antes inating\u00edvel, de outra pessoa\u201d [28]. Um tal estado n\u00e3o \u00e9 algo requerido, mas vem de gra\u00e7a, sem raz\u00e3o: \u201cs\u00f3 vem quando quer e espontaneamente\u201d. E nem seria vi\u00e1vel acontecer como rotina na vida de uma pessoa, pontuada pelo \u201cdestino simplesmente humano\u201d. \u00c9 algo que tamb\u00e9m n\u00e3o pode durar muito tempo, pois romperia um \u201c<strong>mist\u00e9rio<\/strong>\u201d\u00a0<strong>da Natureza<\/strong>\u00a0[29].<\/p>\n<p>Poderia destacar ainda a poeta mineira\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/169-noticias\/noticias-2015\/550120-as-letras-da-franciscana-adelia-prado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ad\u00e9lia Prado<\/a>, com sua singular capacidade de captar o ritmo cotidiano da vida e o\u00a0<strong>Mist\u00e9rio<\/strong>\u00a0que se irradia por todo canto. A riqueza e ousadia de seus\u00a0<strong>poemas<\/strong>\u00a0tocam uma\u00a0<strong>dimens\u00e3o er\u00f3tica da religiosidade<\/strong>\u00a0raramente encontrada nos\u00a0<strong>poemas brasileiros<\/strong>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QMsVYzNkUmU\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Muito recentemente, os escritos e pensamentos de ind\u00edgenas como Davi Kopenawa e Ailton Krenak t\u00eam ganhado espa\u00e7o. O que as letras desses integrantes de etnias origin\u00e1rias de nossa terra t\u00eam nos revelado? Que leitura o senhor tem feito dessas obras?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0Fiz a leitura da obra de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/577936-o-catalogo-de-tragedias-aos-yanomami-na-voz-de-davi-kopenawa-entrevista-especial-com-julie-dorrico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Davi Kopenawa e Bruce Albert<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/570809-o-incomparavel-olhar-yanomami-de-davi-kopenawa-entrevista-especial-com-jose-antonio-kelly-luciani\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A queda do c\u00e9u<\/a>, ainda em sua vers\u00e3o francesa, que foi a original, publicada em 2010. A tradu\u00e7\u00e3o brasileira s\u00f3 saiu em 2015, com sugestivo pref\u00e1cio de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596356-eduardo-viveiros-de-castro-o-governo-declarou-guerra-aos-indios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eduardo Viveiros de Castro<\/a>:\u00a0<strong>O recado da mata<\/strong>\u00a0[30]. A leitura do livro provocou em mim uma mudan\u00e7a paradigm\u00e1tica, sendo fundamental para minhas atuais reflex\u00f5es em torno das quest\u00f5es relacionadas \u00e0\u00a0<strong>religi\u00e3o<\/strong>,\u00a0<strong>cultura<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>di\u00e1logo inter-religioso<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zsoMjJnZvfo\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>A obra demorou vinte anos para ser gestada, e foi realizada com muito esmero. Como mostrou\u00a0<strong>Eduardo Viveiros de Castro<\/strong>\u00a0em seu pref\u00e1cio, a obra constitui \u201cum acontecimento cient\u00edfico incontest\u00e1vel\u201d, e mesmo para a\u00a0<strong>comunidade antropol\u00f3gica<\/strong>\u00a0s\u00f3 dever\u00e1 ser assimilada em alguns anos. A obra \u00e9 fundamental porque lan\u00e7a um novo olhar sobre um dos fundamentais povos origin\u00e1rios, os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588556-yanomami-respondem-bolsonaro-nao-somos-pobres-e-nao-queremos-garimpo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Yanomami<\/a>, lan\u00e7ando um forte questionamento \u00e0 tradicional\u00a0<strong>vis\u00e3o antropoc\u00eantrica dos brasileiros<\/strong>\u00a0e os povos de outras nacionalidades do<strong>\u00a0Novo Mundo<\/strong>, \u201cembrutecidos pelos mesmos velhos sonhos de cobi\u00e7a e conquista e imp\u00e9rio vindos nas caravelas, com a cabe\u00e7a mais \u2018cheia de esquecimento\u2019, imersa num tenebroso vazio existencial\u201d [31]. O livro \u00e9 uma express\u00e3o patente de novos tempos na\u00a0<strong>reflex\u00e3o antropol\u00f3gica<\/strong>\u00a0e mesmo nas\u00a0<strong>ci\u00eancias humanas<\/strong>, quando se abre espa\u00e7o para a voz das cosmologias antigas e suas inquieta\u00e7\u00f5es, que como mostrou\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597852-imaginar-os-gestos-barreiras-contra-o-retorno-da-producao-anterior-a-crise-artigo-de-bruno-latour\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Latour<\/a>, n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o infundadas [32].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/a595bNStdmU\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Davi Kopenawa<\/strong>\u00a0sinalizou com extrema sensibilidade que esse dualismo que rege o\u00a0<strong>pensamento tradicional<\/strong>\u00a0entre\u00a0<strong>cultura e natureza<\/strong>\u00a0\u00e9 extremamente pobre. Isto se reflete tamb\u00e9m na vis\u00e3o sobre o\u00a0<strong>meio ambiente<\/strong>: \u201c<em>Na floresta, a ecologia somos n\u00f3s, os humanos. Mas s\u00e3o tamb\u00e9m, tanto quanto n\u00f3s, os xapiri, os animais, as \u00e1rvores, os rios, os peixes, o c\u00e9u, a chuva, o vento e o sol. \u00c9 tudo que veio \u00e0 exist\u00eancia na floresta, longe dos brancos; tudo que ainda n\u00e3o tem cerca<\/em>\u201d [33].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eJDea151_D4\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<h3>Ailton Krenak<\/h3>\n<p>Quanto a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/604294-sonhar-suspender-o-ceu-e-cuidar-da-terra-no-sonho-dos-krenak\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ailton Krenak<\/a>, a familiaridade tamb\u00e9m \u00e9 grande. Ele foi agraciado aqui em nossa Universidade (<strong>UFJF<\/strong>) com o pr\u00eamio de doutor honoris causa, em 2016. Sobre o seu pensamento, temos o livro publicado na\u00a0<strong>Azougue Editorial<\/strong>\u00a0(2015), organizado por\u00a0<strong>Sergio Cohn<\/strong>\u00a0[34]. O livro foi apresentado por\u00a0<strong>Eduardo Viveiros de Castro<\/strong>, que indicou que a obra \u201cmerece um lugar bem ao lado do monumental\u00a0<strong>A queda do c\u00e9u<\/strong>\u201d [35].\u00a0<strong>Krenak e Kopenawa<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;s\u00e3o \u00edndios que se \u2018descobriram\u2019 \u00edndios, que voltaram a ser \u00edndios sem nunca deixar de t\u00ea-lo sido; s\u00e3o sobreviventes de massacres e epidemias, que ficaram longe de seus povos por anos; que tomaram como miss\u00e3o refletir, a partir de seu ex\u00edlio for\u00e7ado e seu trabalho de campo reverso, sobre sua condi\u00e7\u00e3o, sobre sua diferen\u00e7a insistente perante os destruidores de seus mundos, e a partir da\u00ed ser capaz de falar a estes \u00faltimos, de resistir a eles, de indicar por onde passa o corte, a diverg\u00eancia, e quais s\u00e3o as possibilidades de um entendimento poss\u00edvel&#8230;\u201d [36]<\/em>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SqNqsNxOh_E\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Krenak<\/strong>\u00a0voltou a publicar recentemente dois livros fundamentais:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/593062-ailton-krenak-e-as-ideias-para-adiar-o-fim-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ideias para adiar o fim do mundo<\/a>\u00a0(2019) e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/601547-a-vida-nao-e-util-o-novo-livro-de-ailton-krenak\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A vida n\u00e3o \u00e9 \u00fatil<\/a>\u00a0(2020), ambos pela\u00a0<strong>Companhia das Letras<\/strong>. Nos livros ele denuncia sobretudo a \u201cfalta de rever\u00eancia\u201d dos humanos com respeito aos outros seres da natureza, com \u201cas outras companhias que fazem essa\u00a0<strong>viagem c\u00f3smica<\/strong>\u00a0com a gente\u201d [37]. Sua ocular \u00e9 radicalmente cr\u00edtica aos\u00a0<strong>rumos do Antropoceno<\/strong>, esse tempo de \u201c<strong>perturba\u00e7\u00e3o humana<\/strong>\u201d. A seu ver, o que hoje est\u00e1 ocorrendo, de forma mais impressionante, \u00e9 uma queda ininterrupta: \u201cA gente n\u00e3o fez outra coisa nos \u00faltimos tempos sen\u00e3o despencar. Cair, cair, cair\u201d [38].<\/p>\n<p>No livro<strong>\u00a0A vida n\u00e3o \u00e9 \u00fatil<\/strong>,\u00a0<strong>Krenak<\/strong>\u00a0sublinha que em diferentes partes do mundo os povos origin\u00e1rios est\u00e3o manifestando sua resist\u00eancia contra os caminhos do desenvolvimento, e o fazem porque guardam \u201cviv\u00eancias preciosas\u201d que podem ser partilhadas nesses tempos de ru\u00ednas [39]. \u00c9 bem incisivo quando diz que \u201ctemos que parar de nos desenvolver e come\u00e7ar a nos envolver\u201d. Quando escreveu o livro, a\u00a0<strong>pandemia da covid-19<\/strong>\u00a0j\u00e1 estava em curso.\u00a0<strong>Krenak<\/strong>\u00a0relata como ela conseguiu manter parte da popula\u00e7\u00e3o em casa, alterando a vida produtiva. Se a peste conseguiu desacelerar o ritmo da produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel que os seres humanos possam tamb\u00e9m reagir com desacelera\u00e7\u00e3o, ouvindo o chamado ancestral que indica a necessidade de \u201cparar de predar o planeta\u201d. Ele diz: \u201cN\u00f3s somos muito piores do que esse\u00a0<strong>v\u00edrus<\/strong>\u00a0que est\u00e1 sendo demonizado como a praga que veio para comer o mundo. Somos n\u00f3s a praga que veio comer o mundo\u201d [40]. Sinaliza que \u00e9 poss\u00edvel uma\u00a0<strong>exist\u00eancia diversa<\/strong>, que \u201cn\u00e3o se rendeu ao sentido utilit\u00e1rio da vida\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/igLMWnKCrmU\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio criar \u201cum lugar de sil\u00eancio interior\u201d para refletir e agir diversamente.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">\u00c9 necess\u00e1rio criar \u201cum lugar de sil\u00eancio interior\u201d para refletir e agir diversamente \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como a experi\u00eancia da pandemia pode ressignificar a nossa viv\u00eancia do Natal, do contato com os outros e a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o planeta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0Os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/605791-instrucoes-para-um-natal-diferente-artigo-de-massimo-recalcati\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tempos atuais<\/a>\u00a0s\u00e3o prop\u00edcios para uma amplia\u00e7\u00e3o do olhar, e sobretudo romper com a ideia problem\u00e1tica de um antropocentrismo que situa o ser humano como umbigo do mundo ou ponto de converg\u00eancia de todas as energias da Terra. Isso \u00e9 um equ\u00edvoco que traz como fruto viol\u00eancia e exclus\u00e3o. Somos, na verdade, parte do vivente, como esp\u00e9cie companheira e n\u00e3o dominadora. Essa \u00e9 a grande li\u00e7\u00e3o para o s\u00e9culo XXI, que parece dar continuidade ao descalabro que foi o s\u00e9culo XX, o mais violento de todos os tempos, como afirma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/espiritualidade\/172-noticias\/noticias-2012\/514183-o-seculo-de-hobsbawm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eric Hobsbawm<\/a>.<\/p>\n<p>Somos convocados, como diz o\u00a0<strong>papa Francisco<\/strong>, a uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603416-de-lampedusa-a-covid-19-a-ideia-de-solidariedade-do-papa-francisco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">nova solidariedade<\/a>\u00a0em favor de uma outra\u00a0<strong>globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>, a da\u00a0<strong>solidariedade<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>comunh\u00e3o<\/strong>. A palavra-chave \u00e9\u00a0<strong>interconex\u00e3o<\/strong>. Estamos estreitamente ligados a todos os seres e devemos respeitar esse la\u00e7o essencial, que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para a nossa ressurg\u00eancia. Para al\u00e9m da\u00a0<strong>indiferen\u00e7a cotidiana<\/strong>, devemos ouvir o\u00a0<strong>grito da Terra e o grito dos pobres<\/strong>. O horizonte desejado \u00e9 o da \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603734-uma-fresta-de-esperanca-pela-janela-da-vida-fratelli-tutti-uma-ontologia-para-alem-do-nosso-tempo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">comunh\u00e3o universal<\/a>\u201d. Como indicou\u00a0<strong>Francisco<\/strong>\u00a0em sua \u00faltima enc\u00edclica sobre a fraternidade e a amizade social, \u201cningu\u00e9m amadurece nem alcan\u00e7a a plenitude isolando-se. Por sua pr\u00f3pria din\u00e2mica, o amor exige uma progressiva abertura, uma maior capacidade de acolher os outros\u201d [41], expandindo o \u201cnosso repert\u00f3rio de \u2018pessoas\u2019\u201d. Esses outros hoje t\u00eam uma amplitude maior, para al\u00e9m do \u201cn\u00f3s\u201d que encerra a\u00a0<strong>din\u00e2mica antropoc\u00eantrica<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Os tempos atuais s\u00e3o prop\u00edcios para uma amplia\u00e7\u00e3o do olhar, e sobretudo romper com a ideia problem\u00e1tica de um antropocentrismo que situa o ser humano como umbigo do mundo \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/P-53YIZdRCQ\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Ainda nesse sentido, Milton Nascimento e Beto Guedes, em \u201cNada ser\u00e1 como antes\u201d, dizem:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sei que nada ser\u00e1 como antes amanh\u00e3<\/strong><br \/>\n<strong>Que not\u00edcias me d\u00e3o dos amigos?<\/strong><br \/>\n<strong>Que not\u00edcias me d\u00e3o de voc\u00ea?<\/strong><br \/>\n<strong>Sei que nada ser\u00e1 como est\u00e1<\/strong><br \/>\n<strong>Amanh\u00e3 ou depois de amanh\u00e3<\/strong><\/p>\n<p><strong>Levando em considera\u00e7\u00e3o que no p\u00f3s-pandemia \u2018nada ser\u00e1 como antes\u2019, como o senhor v\u00ea o \u2018amanh\u00e3 ou depois de amanh\u00e3\u2019? E como devemos construir esse tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0Estamos ainda no cora\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/601314-pos-pandemia-o-mundo-sofre-por-falta-de-pensamento\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">covid-19<\/a><strong>,<\/strong>\u00a0e o que vemos ao nosso redor ainda \u00e9 muita irresponsabilidade, a come\u00e7ar pelos nossos pr\u00f3prios dirigentes, incapazes de lidar com a gravidade da situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se tudo ser\u00e1 como antes, como indica a can\u00e7\u00e3o. H\u00e1 ind\u00edcios de que as coisas v\u00e3o continuar em ritmo semelhante ao que ocorria antes do v\u00edrus chegar. O mundo ser\u00e1 ainda permeado pelos grandes desvios que marcam o nosso modo de ser no\u00a0<strong>Antropoceno<\/strong>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/v6ZUwtAty8k\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Como disse um fil\u00f3sofo amigo,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/595169-no-cultivo-do-chao-comum-brota-a-humanidade-entrevista-especial-com-carlos-drawin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carlos Drawin<\/a>, numa rede particular, \u201co\u00a0<strong>mundo p\u00f3s pand\u00eamico<\/strong>\u00a0n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo (&#8230;). O mundo vai ser mais duro, o trabalho mais precarizado, a competitividade maior (&#8230;). As contradi\u00e7\u00f5es v\u00e3o ficar mais acirradas e mais nuas sem a m\u00e1scara imagin\u00e1ria dessa onipot\u00eancia narc\u00edsica p\u00f3s-moderna\u201d. Tudo tende a piorar, a n\u00e3o ser que intensifiquemos os \u201cgestos barreira\u201d, de que fala\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597499-a-crise-sanitaria-incita-a-nos-preparar-para-as-mudancas-climaticas-artigo-de-bruno-latour\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Latour<\/a>\u00a0em recente publica\u00e7\u00e3o [42]. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda vi\u00e1vel sem que todos n\u00f3s, juntos, possamos lutar para interromper ou barrar a globaliza\u00e7\u00e3o em curso. Como diz\u00a0<strong>Latour<\/strong>:<\/p>\n<p>\u201c<em>O que o v\u00edrus consegue com a humilde circula\u00e7\u00e3o boca a boca de perdigotos \u2013 a suspens\u00e3o da economia mundial \u2013 n\u00f3s come\u00e7amos a poder imaginar que nossos pequenos e insignificantes gestos, acoplados uns aos outros, conseguir\u00e3o: suspender o sistema produtivo\u201d [43].<\/em><\/p>\n<p>Quem sabe n\u00e3o pode haver tamb\u00e9m brechas para uma \u201c<strong>era de emerg\u00eancias<\/strong>\u201d, em rota de vivo questionamento ao tempo presente de \u201c<strong>perturba\u00e7\u00e3o humana<\/strong>\u201d ou de afirma\u00e7\u00e3o de \u201c<strong>ecologias de prolifera\u00e7\u00e3o da morte<\/strong>\u201d. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio ampliar nossa f\u00faria contra o senso comum e dar in\u00edcio, pacientemente, a caminhos alternativos da habitabilidade mais integrada e hospitaleira. Talvez seja poss\u00edvel, de alguma forma, tra\u00e7os de ressurg\u00eancia positiva em favor de\u00a0<strong>ecologias habit\u00e1veis<\/strong>\u00a0[44].<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Estamos ainda no cora\u00e7\u00e3o da covid-19, e o que vemos ao nosso redor ainda \u00e9 muita irresponsabilidade, a come\u00e7ar pelos nossos pr\u00f3prios dirigentes, incapazes de lidar com a gravidade da situa\u00e7\u00e3o \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Gilberto Gil diz que \u2018se quiser falar com Deus \u00e9 preciso desatar os n\u00f3s\u2019. O que, hoje, \u00e9 preciso para falarmos com Deus? E o que ele nos diria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0Essa \u00e9 uma das mais preciosas can\u00e7\u00f5es de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579491-o-misterio-na-tessitura-da-vida-a-espiritualidade-de-gilberto-gil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gilberto Gil<\/a>, composta em 1980 para\u00a0<strong>Roberto Carlos<\/strong>. Ele tinha pedido a Gil uma can\u00e7\u00e3o e Gil prontamente realizou. Ocorre que o rei n\u00e3o se sentiu \u00e0 vontade para acolher a m\u00fasica, e disse que \u201caquela n\u00e3o era a ideia de Deus\u201d que ele tinha. E\u00a0<strong>Gil<\/strong>\u00a0respeitou, tendo falado mais tarde a respeito: \u201cRespeito a vis\u00e3o que ele tem. Como uma religi\u00e3o deve respeitar a outra. \u00c9 essa exig\u00eancia do respeito que ele teve por ele mesmo, no sentido de n\u00e3o trair o menino crist\u00e3o\u201d [45]. A can\u00e7\u00e3o, na verdade, tinha um perfil mais filos\u00f3fico que propriamente religioso. N\u00e3o era \u201cnecessariamente sobre um Deus, mas sobre a realidade \u00faltima; o vazio de Deus: o vazio-Deus\u201d [46].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3eKnerBU4HY\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Ao falar sobre essa can\u00e7\u00e3o,\u00a0<strong>Gil<\/strong>\u00a0indica que sua composi\u00e7\u00e3o nasceu como uma \u201cinterroga\u00e7\u00e3o\u201d feita pelo compositor a si mesmo, uma forma de responder \u00e0 quest\u00e3o fulcral: \u201cSe eu quiser falar com Deus, o que \u00e9 necess\u00e1rio?\u201d. J\u00e1 estava em curso, na ocasi\u00e3o, a linda ideia de\u00a0<strong>Gil<\/strong>\u00a0que identifica Deus como movimento, potencial e virtualidade, que vai adornar a can\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>Tempo Rei<\/strong>, de 1984.\u00a0<strong>Gil<\/strong>\u00a0identifica tr\u00eas movimentos na m\u00fasica, que podem ser associados ao Pai, ao Cristo e a Buda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZnBcQOvcE-k\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Essa ficha s\u00f3 caiu posteriormente, e n\u00e3o na ocasi\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o. Foi fruto de uma interpreta\u00e7\u00e3o tardia, mas plaus\u00edvel. Na primeira estrofe, o tema que est\u00e1 presente \u00e9 o do Pai, das condi\u00e7\u00f5es que presidem \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com ele. Para tanto \u00e9 necess\u00e1rio muito despojamento: h\u00e1 que \u201cficar a s\u00f3s\u201d, \u201ccalar a voz\u201d, \u201cencontrar a paz\u201d e \u201cfolgar os n\u00f3s\u201d. Tudo t\u00e3o atual&#8230;<\/p>\n<p>Na segunda estrofe entra o\u00a0<strong>tema do Filho<\/strong>: para encontrar a Deus tem que ocorrer seguimento, ou seja, \u201caceitar a dor\u201d e \u201ccomer o p\u00e3o que o diabo amassou\u201d. H\u00e1 que passar por doses de tristeza e ren\u00fancias, sem perder, por\u00e9m, a alegria que deve alegrar o cora\u00e7\u00e3o. Finalmente, a terceira estrofe tem um toque budista, de radical desvencilhamento dos apegos: \u201cSe eu quiser falar com Deus, tenho que me aventurar. Tenho que subir aos c\u00e9us, sem cordas para segurar\u201d. A<strong>\u00a0estrada da vida<\/strong>, sublinha\u00a0<strong>Gil<\/strong>, tem como horizonte derradeiro o nada, o vazio b\u00fadico [47]. Da\u00ed a significativa sequ\u00eancia de 13 nadas presentes na \u00faltima estrofe, que guardam um simbolismo muito especial. S\u00e3o como \u201csucessivas camadas de buraco, criando a expectativa de algo e culminando como uma luz no fim (do t\u00fanel, da estrada, da vida) &#8230;\u201d [48].<\/p>\n<h3>Aventurar-se<\/h3>\n<p>Com base nessa linda letra de\u00a0<strong>Gil<\/strong>, devo dizer que o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596780-como-falar-de-deus-hoje\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">falar com Deus hoje<\/a>\u00a0exige, de fato, aventurar-se por um nada criativo, que rompe com a cadeia dos deuses representados, nomeados pelas criaturas, e avan\u00e7ar para al\u00e9m, no sentido de um Deus que ultrapassa deus, de uma Deidade que se faz presente no tempo, e tamb\u00e9m no \u00edntimo de cada um, mas que escapa \u00e0s representa\u00e7\u00f5es movedi\u00e7as e amb\u00edguas tecidas pelo repert\u00f3rio ambivalente e nebuloso das palavras humanas.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Falar com Deus hoje exige, de fato, aventurar-se por um nada criativo, que rompe com a cadeia dos deuses representados, nomeados pelas criaturas, e avan\u00e7ar para al\u00e9m, no sentido de um Deus que ultrapassa deus \u2013 Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faustino Teixeira \u2013<\/strong>\u00a0Gostaria apenas de indicar aos\u00a0<strong>leitores do IHU<\/strong>\u00a0o bel\u00edssimo\u00a0<strong>discurso de Marco Lucchesi<\/strong>\u00a0na cerim\u00f4nia de posse da diretoria da\u00a0<strong>Academia Brasileira de Letras &#8211; ABL<\/strong>\u00a0para o ano de 2021. Suas palavras foram doses de\u00a0<strong>luz<\/strong>,\u00a0<strong>coragem<\/strong>,\u00a0<strong>ousadia<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>esperan\u00e7a<\/strong>\u00a0em tempos t\u00e3o sombrios. Dedicou seu discurso \u00e0s primas\u00a0<strong>Emilly e Rebecca<\/strong>, de 4 e 7 anos, que foram fuziladas em\u00a0<strong>Duque de Caxias<\/strong>, no dia 06 de dezembro de 2020. Diante de uma assembleia vazia,\u00a0<strong>Lucchesi<\/strong>\u00a0discursou em rede para a comunidade dos amigos da ABL [o discurso est\u00e1 no v\u00eddeo abaixo, com toda cerim\u00f4nia de posse. A fala que Faustino indica est\u00e1 a partir de 19min30s do v\u00eddeo].<\/p>\n<p>Num discurso extremamente duro,\u00a0<strong>Lucchesi<\/strong>\u00a0manifestou a solidariedade da Academia a todas as\u00a0<strong>v\u00edtimas da viol\u00eancia no Brasil<\/strong>. Sublinhou que o ano de\u00a0<strong>2020<\/strong>\u00a0tem sido um ano de \u201ctempestade perfeita\u201d, de \u201cterra em transe\u201d. No\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, em particular, foi um ano de \u201c<strong>democracia hipertensa<\/strong>\u201d, de atos necr\u00f3filos contra os povos e a\u00a0<strong>terra amaz\u00f4nica<\/strong>. De dirigentes da na\u00e7\u00e3o ouviram-se frases que desenham uma verdadeira \u201c<strong>ontologia do horror<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m um tempo fr\u00e1gil de debate e de di\u00e1logo, numa sociedade civil atemorizada pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/605802-ao-entrar-deixe-a-esperanca-cada-ano-tem-sua-inscricao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pandemia do coronav\u00edrus<\/a>. Diante de tudo isso, assinalou a import\u00e2ncia da a\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es culturais, que \u201cn\u00e3o podem calar sua voz e nem tampouco deixar de cumprir seu destino\u201d. Um discurso que fecha o ano com chave de ouro para, quem sabe, um\u00a0<strong>novo despertar<\/strong>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WjuoYjRmMEg\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<h3>Notas:<\/h3>\n<p>[1]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2020\/documents\/papa-francesco_20200327_omelia-epidemia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Momento extraordin\u00e1rio de ora\u00e7\u00e3o em tempo de epidemia presidido pelo papa Francisco<\/a>. Adro da Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, sexta feira, 27 de mar\u00e7o de 2020:<\/p>\n<p>[2] Bruno LATOUR. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020, p. 20.<\/p>\n<p>[3] Jo\u00e3o Guimar\u00e3es ROSA. Grande Sert\u00e3o: Veredas. 22\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019.<\/p>\n<p>[4] Thomas MERTON. Reflex\u00f5es de um espectador culpado. Petr\u00f3polis: Vozes, 1970, p. 151, 175 e 183.<\/p>\n<p>[5] Silviano SANTIAGO. Genealogia da ferocidade. Ensaio sobre Grande Sert\u00e3o: Veredas, de Guimar\u00e3es Rosa. Recife: Cepe, 2017, p. 68-69.<\/p>\n<p>[6] Paulo DANTAS. Sagarana emotiva. Cartas de J. Guimar\u00e3es Rosa. S\u00e3o Paulo: Duas Cidades, 1975, p. 27.<\/p>\n<p>[7] M. Cavalcanti PROEN\u00c7A. Trilhas no Grande Sert\u00e3o. Rio de Janeiro: Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura \u2013 Departamento de Imprensa Nacional, 1958, p. 65.<\/p>\n<p>[8] Paulo DANTAS. Sagarana emotiva, p. 39.<\/p>\n<p>[9] Antonio CANDIDO. Tese e ant\u00edtese. S\u00e3o Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971, p. 121.<\/p>\n<p>[10] Silviano SANTIAGO. Genealogia da ferocidade, 19.<\/p>\n<p>[11]\u00a0<a href=\"https:\/\/cronicabrasileira.org.br\/cronicas\/7214\/grande-sertao-veredas-joao-guimaraes-rosa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Veja aqui<\/a>\u00a0(Paulo Mendes Campos, 13 de outubro de 1956).<\/p>\n<p>[12] Jo\u00e3o Guimar\u00e3es ROSA. Grande Sert\u00e3o: Veredas, p. 439-440.<\/p>\n<p>[13] Jo\u00e3o Guimar\u00e3es ROSA. Campo Geral. S\u00e3o Paulo: Global 2019, p. 128.<\/p>\n<p>[14] Ibidem, p. 129. A quest\u00e3o de Miguilim nos faz recordar o verso de Caetano Veloso em Caju\u00edna \u2013 \u201cExistirmos: a que ser\u00e1 que se destina\u201d.<\/p>\n<p>[15] Abraham Joshua HESCHEL. L\u00b4uomo non \u00e8 solo. Una filosofia della religione. Milano: Mondadori, 2001, p. 29.<\/p>\n<p>[16] Confira tamb\u00e9m nas\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/43-noticias\/oracoes-inter-religiosas-ilustradas\/602542-oracao-pela-furia-denise-fraga-na-oracao-inter-religiosa-desta-semana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ora\u00e7\u00f5es Inter-religosas declamadas<\/a>.<\/p>\n<p>[18] Walnice Nogueira GALV\u00c3O. Guimar\u00e3es Rosa. S\u00e3o Paulo: Publifolha, 2000, p. 29.<\/p>\n<p>[19] Ibidem, p. 29-30.<\/p>\n<p>[20] Antonio CANDIDO. Tese e ant\u00edtese, p. 124-125.<\/p>\n<p>[21] Graciliano RAMOS. Vidas secas. Rio de Janeiro, 2018, p. 181.<\/p>\n<p>[23] Paulo R\u00d3NAI. Rosa &amp; R\u00f3nai. O universo de Guimar\u00e3es Rosa por Paulo R\u00f3nai, seu maior admirador. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020, p. 202.<\/p>\n<p>[24] Cec\u00edlia MEIRELES. Obra po\u00e9tica. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985, p. 303 (Elegia \u2013 1933-1937).<\/p>\n<p>[25] Ibidem, p. 318-319.<\/p>\n<p>[26] Ibidem, p. 636-637.<\/p>\n<p>[27] Roberto Corr\u00eaa dos SANTOS (Curadoria). As palavras de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Rocco, 2013, p. 130 (trecho de A paix\u00e3o segundo G.H.).<\/p>\n<p>[28] Clarice LISPECTOR. Todas as cr\u00f4nicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018, p. 93.<\/p>\n<p>[29] Ibidem, p. 94-95.<\/p>\n<p>[30] Davi KOPENAWA &amp; Bruce ALBERT. A queda do c\u00e9u. Palavras de um xam\u00e3 yanomami. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<\/p>\n<p>[31] Ibidem, p. 15 (pref\u00e1cio).<\/p>\n<p>[32] Ibidem, p. 35.<\/p>\n<p>[33] Ibidem, p. 480.<\/p>\n<p>[34] Ailton KRENAK. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2015.<\/p>\n<p>[35] Ibidem, p. 11 (apresenta\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>[36] Ibidem, p. 13.<\/p>\n<p>[37] Ailton KRENAK. Ideias para adiar o fim do mundo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 31.<\/p>\n<p>[38] Ibidem, p. 30.<\/p>\n<p>[39] Ailton KRENAK. A vida n\u00e3o \u00e9 \u00fatil. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 115.<\/p>\n<p>[40] Ibidem, p. 64.<\/p>\n<p>[41] FRANCISCO. Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2020, n. 95.<\/p>\n<p>[42] Bruno LATOUR. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020, p. 131.<\/p>\n<p>[43] Ibidem, p. 131.<\/p>\n<p>[44] Anna Lowenhaupt TSING. Viver nas ru\u00ednas. Paisagens multiesp\u00e9cies no Antropoceno. Bras\u00edlia: IEB Mil folhas, 2019.<\/p>\n<p>[45] Ben\u00e9 FONTELES. Gil luminoso. Bras\u00edlia\/S\u00e3o Paulo: Editora Universidade de Bras\u00edlia\/Sesc, 1999, p. 215.<\/p>\n<p>[46] Carlos RENN\u00d3 (Org). Gilberto Gil, todas as letras. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 292.<\/p>\n<p>[47] Ben\u00e9 FONTELES. Gil luminoso, p. 213.<\/p>\n<p>[48] Carlos RENN\u00d3 (Org). Gilberto Gil, todas as letras, p. 292.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do Tempo de Ru\u00ednas \u00e0 Ressurg\u00eancia: o desafio de viver o Natal em meio \u00e0<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Do Tempo de Ru\u00ednas \u00e0 Ressurg\u00eancia: o desafio de viver o Natal em meio \u00e0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138853"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138853"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138853\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":138859,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138853\/revisions\/138859"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}