{"id":138523,"date":"2020-12-19T15:05:09","date_gmt":"2020-12-19T18:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=138523"},"modified":"2020-12-19T15:05:30","modified_gmt":"2020-12-19T18:05:30","slug":"baixa-mobilidade-social-no-brasil-e-freio-ao-crescimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/baixa-mobilidade-social-no-brasil-e-freio-ao-crescimento\/","title":{"rendered":"\u201cBaixa mobilidade social no Brasil \u00e9 freio ao crescimento\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/16271056_303.jpg\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 DW Brasil, economista Paulo Tafner aponta que elite do pa\u00eds valoriza pouco a competi\u00e7\u00e3o. \u201cPara as elites que extraem a sua riqueza de nacos do estado, produtividade e mobilidade social s\u00e3o irrelevantes.\u201d<\/p>\n<p>Os descendentes de um brasileiro nascido entre os 10% mais pobres do pa\u00eds levam, em m\u00e9dia, nove gera\u00e7\u00f5es para alcan\u00e7ar a renda mediana da sociedade. O dado, elaborado pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), d\u00e1 uma amostra de como \u00e9 dif\u00edcil para pessoas pobres ascenderem socialmente no Brasil.<\/p>\n<p>Entre os pa\u00edses do levantamento, o Brasil perde apenas para a Col\u00f4mbia. Na Argentina, leva-se seis gera\u00e7\u00f5es para percorrer o mesmo caminho, no Canad\u00e1, quatro, e na Dinamarca, duas.<\/p>\n<p>A baixa mobilidade prejudica n\u00e3o apenas para os indiv\u00edduos que nascem pobres, mas freia o potencial de crescimento e desenvolvimento da sociedade como um todo, afirma o economista Paulo Tafner, diretor-presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, lan\u00e7ado em novembro para estudar o fen\u00f4meno e sistematizar e propor pol\u00edticas p\u00fablicas que se mostraram eficazes para reverter esse quadro.<\/p>\n<p>O fator mais relevante na mobilidade social, diz, \u00e9 a qualidade da educa\u00e7\u00e3o. E, com educa\u00e7\u00e3o insuficiente, faltar\u00e3o no pa\u00eds pesquisadores para desenvolver tecnologias e m\u00e3o de obra capaz de sustentar ganhos de produtividade e efici\u00eancia no longo prazo.<\/p>\n<p>\u201cEntre os filhos de pais analfabetos ou sem o fundamental completo, dois de cada tr\u00eas filhos ser\u00e3o tamb\u00e9m analfabetos ou n\u00e3o concluir\u00e3o o ensino fundamental. (\u2026) A nova gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 amarrada \u00e0 hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia\u201d, afirma Tafner \u00e0 DW Brasil.<\/p>\n<p>Ele diz que parte da elite brasileira \u00e9 respons\u00e1vel pela manuten\u00e7\u00e3o da baixa mobilidade social no pa\u00eds, ao valorizar pouco a competi\u00e7\u00e3o e se especializar em extrair riqueza do estado fazendo uso de seu poder pol\u00edtico. \u201cPara eles, produtividade e mobilidade social s\u00e3o irrelevantes\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>DW Brasil: Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre desigualdade e mobilidade social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Tafner:<\/strong>\u00a0A mobilidade social \u00e9 a possibilidade de uma gera\u00e7\u00e3o que nasce com desigualdades naturais, como entre os que nascem em um fam\u00edlia rica ou em uma fam\u00edlia pobre, reduzir essa desigualdade. Para os que nascem em fam\u00edlias de baixa escolaridade e baixa renda, \u00e9 aumentar a chance para que alcancem os degraus m\u00e9dios de renda e de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds com todos os problemas do nosso, h\u00e1 um entendimento de que toda a desigualdade seria ruim. Mas nem toda desigualdade \u00e9 ruim. Quando ela deriva exclusivamente da capacidade individual, quando as pessoas competem ao longo da vida e as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o semelhantes, ela pode ser boa.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 quando a pista \u00e9 diferente. Quando voc\u00ea tem uma gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as disputando uma corrida, mas umas em uma pista muito curta, que leva a um patamar muito baixo, e outras em uma pista longa, na qual se pode atingir patamares muito elevados. De antem\u00e3o, eu limito a capacidade de produ\u00e7\u00e3o de resultados diferentes na sociedade, porque os mecanismos de mobilidade n\u00e3o est\u00e3o funcionando. Voc\u00ea perpetua a situa\u00e7\u00e3o de desigualdade.<\/p>\n<p><strong>O senhor tem exemplos de como a baixa mobilidade social se manifesta no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Um dos resultados que temos \u00e9 de uma pesquisa feita pelo IBGE, em 1996 e em 2014, que perguntou aos indiv\u00edduos as informa\u00e7\u00f5es de seus pais. Entre os filhos de pais analfabetos ou sem o fundamental completo, dois de cada tr\u00eas filhos ser\u00e3o tamb\u00e9m analfabetos ou n\u00e3o concluir\u00e3o o ensino fundamental. Por outro lado, quando olho os filhos cujos pais t\u00eam n\u00edvel superior, ocorre o inverso, 70% t\u00eam n\u00edvel superior. A nova gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 amarrada \u00e0 hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia, para o bem ou para o mal. E os mecanismos que poderiam romper com isso n\u00e3o est\u00e3o funcionando.<\/p>\n<p>Outro fator \u00e9 a persist\u00eancia de categoriza\u00e7\u00f5es profissionais entre uma gera\u00e7\u00e3o e a gera\u00e7\u00e3o sucessora. A chance de um filho de trabalhador bra\u00e7al ser tamb\u00e9m um trabalhador bra\u00e7al \u00e9 muito alta. A escola n\u00e3o \u00e9 capaz de reduzir a desigualdade natural. A sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 capaz de reduzir essa desigualdade natural. E o mercado de trabalho, por si s\u00f3, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 capaz de reduzir essa desigualdade original. Esses mecanismos n\u00e3o est\u00e3o funcionando e precisam ser corrigidos.<\/p>\n<p><strong>Isso impacta no dinamismo da economia?<\/strong><\/p>\n<p>Certamente, a baixa mobilidade social \u00e9 um freio ao potencial de crescimento. O crescimento, para se efetivar, precisa de dois fatores, o capital e a m\u00e3o de obra. A qualifica\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra \u00e9 fundamental para determinar o potencial de produ\u00e7\u00e3o. Suponha que voc\u00ea tenha um pa\u00eds com baix\u00edssima escolaridade e uma oferta enorme de alta tecnologia de produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o adianta colocar trabalhadores analfabetos, n\u00e3o vai funcionar, n\u00e3o sabem nem ler o painel. O estoque de capital f\u00edsico sempre \u00e9 poss\u00edvel financiar, se n\u00e3o tem, importa. Mas capital humano \u00e9 muito dif\u00edcil importar. N\u00e3o d\u00e1 para imagina um pa\u00eds que vai crescer com a importa\u00e7\u00e3o permanente de m\u00e3o de obra qualificada, at\u00e9 porque se criaria uma s\u00e9rie de problemas sociais e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Quanto tivemos o mini boom econ\u00f4mico do final de 2009 at\u00e9 2014, era frequente ouvir gerentes de recursos humanos dizendo que n\u00e3o tinha m\u00e3o de obra. Mas como, se tem milh\u00f5es e milh\u00f5es de trabalhadores no Brasil? Falta m\u00e3o de obra qualificada, e se as empresas est\u00e3o dizendo, isso est\u00e1 limitando a sua capacidade de produzir.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que \u00e9 muito dif\u00edcil requalificar, incorporar muito conhecimento, a partir de uma certa idade. Por isso, quando a gente fala em mobilidade, estamos falando de foco em crian\u00e7as e jovens, \u00e9 ali que a gente tem que trabalhar. Temos que ter uma mobilidade intergeracional, ou seja, a gera\u00e7\u00e3o de filhos mais produtiva e mais qualificada que a gera\u00e7\u00e3o dos pais.<\/p>\n<p><strong>Neste ano, o Congresso aprovou uma emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o que torna o Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Fundeb)\u00a0 uma pol\u00edtica permanente e ampliou os repasses da Uni\u00e3o aos Estados at\u00e9 2026. \u00c9 verba suficiente para termos uma educa\u00e7\u00e3o que aumente a mobilidade social?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil gasta com educa\u00e7\u00e3o, em propor\u00e7\u00e3o do PIB, algo muito semelhante ao que o Chile gasta. Entretanto, o gasto na ponta por aluno \u00e9 menor, uma parcela grande desse gasto se perde no caminho. Voc\u00ea tem uma m\u00e1quina burocr\u00e1tica que consome esses recursos. E o resultado da educa\u00e7\u00e3o brasileira, vis \u00e0 vis \u00e0 chilena, \u00e9 p\u00edfio.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata propriamente do gasto em si, h\u00e1 outros aspectos relevantes. Por exemplo, no Brasil perde-se um n\u00famero de aulas dentro do calend\u00e1rio letivo, que chega em algumas escolas a quase 30% das aulas porque ocorre falta do professor. H\u00e1 muitos trabalhos evidenciando tamb\u00e9m que os resultados dos alunos s\u00e3o melhores quando voc\u00ea tem um diretor e os professores engajados no processo, trazendo os pais para o processo, com acompanhamento regular dos alunos e aulas de refor\u00e7o espec\u00edfico, cujo custo \u00e9 microsc\u00f3pico.<\/p>\n<p>Pegamos o caso de alguns munic\u00edpios do Cear\u00e1 no Padin (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Infantil). Definiu-se qual \u00e9 o conte\u00fado a ser ensinado e isso \u00e9 verificado semanalmente, acompanhando os professores. \u00c9 necess\u00e1rio que o professor d\u00ea os elementos da mat\u00e9ria, e ele pode ser observado. Os pais s\u00e3o envolvidos e o resultado \u00e9 que essas escolas t\u00eam obtidos sistematicamente os melhores resultados nos exames nacionais. Mas \u00e9 dif\u00edcil fazer isso quando os sindicatos de professores acham que algu\u00e9m observar a aula \u00e9 ferir a autonomia do professor, ou quando professores s\u00e3o avaliados isso fere o direito do trabalhador. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o aluno, todo o resto deve gerar em torno desta figura fundamental, que \u00e9 o aluno e a capacidade de aprendizado.<\/p>\n<p><strong>Existe responsabilidade da elite brasileira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 baixa mobilidade social no pa\u00eds hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Claro, parte da nossa elite valoriza pouco o processo de competi\u00e7\u00e3o. Parte da elite \u00e9\u00a0<em>rent seeking<\/em>, extrai a sua riqueza na express\u00e3o do seu poder pol\u00edtico em abocanhar partes do dinheiro p\u00fablico. E n\u00e3o s\u00e3o poucas essas elites, s\u00e3o grandes. N\u00e3o s\u00e3o todos, voc\u00ea tem [na elite] pessoas excepcionais, preocupadas com isso. Mas voc\u00ea tem uma parte da elite que aprendeu a extrair renda do Estado e vive disso.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que nossas elites n\u00e3o estejam atentas para o fato de que um jovem \u00e0s vezes sai do segundo grau sem saber concretamente fazer regra de tr\u00eas nem interpretar texto adequadamente. Isso seria fundamental para a elite que quer continuar sendo elite ganhando produtividade e efici\u00eancia. Esses querem alta mobilidade social, pois ter\u00e3o uma massa de trabalhadores muito mais bem preparada e capaz de gerar ganhos de produtividade. Agora, para as elites que extraem a sua riqueza de nacos no estado, produtividade e mobilidade social s\u00e3o irrelevantes.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 espa\u00e7o no Brasil para pol\u00edticas p\u00fablicas baseadas em evid\u00eancia, num momento em que o pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica nega a ci\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 experi\u00eancias no Brasil. Como mencionei, no Cear\u00e1, voc\u00ea tem experi\u00eancias no Piau\u00ed. Lan\u00e7amos em 11 de novembro, em parceria com a Escola Nacional de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica (ENAP) e com a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV), o Pr\u00eamio Nacional de Pol\u00edtica P\u00fablica Baseada em Evid\u00eancias, incentivando administradores do Brasil afora. E h\u00e1 muitos administradores competentes, procurando definir pol\u00edticas baseadas em evid\u00eancias l\u00e1 no seu munic\u00edpio, na sua secretaria. Se voc\u00ea me perguntar se \u00e9 a grande maioria, certamente que n\u00e3o. O nosso desafio \u00e9 ampliar a divulga\u00e7\u00e3o da necessidade de estabelecermos pol\u00edticas baseadas em evid\u00eancias para todos os cantos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>H\u00e1 boas experi\u00eancias na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o infantil e pr\u00e9-infantil, no per\u00edodo gestacional da mulher e na \u00e1rea de preven\u00e7\u00e3o de risco juvenil. Agora precisamos verificar se essas experi\u00eancias s\u00e3o replic\u00e1veis e incorporar essas pr\u00e1ticas na legisla\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica de educa\u00e7\u00e3o, de sa\u00fade, de assist\u00eancia social, para que as boas pr\u00e1ticas j\u00e1 comprovadas sejam uma obriga\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Temos que deixar de ser paternalistas e estar mais preocupados em atingir a mobilidade social para aumentar o acesso das crian\u00e7as e jovens. Se n\u00e3o, vamos continuar perpetuando pobreza e ignor\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 DW Brasil, economista Paulo Tafner aponta que elite do pa\u00eds valoriza pouco<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Em entrevista \u00e0 DW Brasil, economista Paulo Tafner aponta que elite do pa\u00eds valoriza pouco","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138523"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138523"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138523\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":138525,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138523\/revisions\/138525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}