{"id":138447,"date":"2020-12-18T11:55:14","date_gmt":"2020-12-18T14:55:14","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=138447"},"modified":"2020-12-18T11:55:14","modified_gmt":"2020-12-18T14:55:14","slug":"em-2020-o-que-o-homem-fabricou-superou-toda-a-vida-vegetal-e-animal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/em-2020-o-que-o-homem-fabricou-superou-toda-a-vida-vegetal-e-animal\/","title":{"rendered":"Em 2020, o que o homem fabricou superou toda a vida vegetal e animal"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/humanos.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-138448\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/humanos-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/humanos-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/humanos.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Imagine uma faca simples, apenas com l\u00e2mina e cabo de madeira. A l\u00e2mina quebra e voc\u00ea a troca por uma nova. Algum tempo depois, o cabo estraga e \u00e9 substitu\u00eddo tamb\u00e9m, mas por um de pl\u00e1stico. No fim das contas, voc\u00ea ainda ter\u00e1 a faca, mas ela ser\u00e1 outra. Neste exato momento, a Terra est\u00e1 passando por um processo semelhante: a matriz vem sendo substitu\u00edda por outra sem que possamos parar para raciocinar e quantificar. H\u00e1 hoje mais produtos fabricados e constru\u00eddos do que vida org\u00e2nica no mundo \u2014 um preocupante ponto de inflex\u00e3o cujas proje\u00e7\u00f5es s\u00f3 pioram.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil pesar um planeta. Gra\u00e7as \u00e0 tecnologia de imagem de sat\u00e9lites, \u00e9 poss\u00edvel mensurar grandes extens\u00f5es e fazer mapas com precis\u00e3o de mil\u00edmetros, mas os c\u00e1lculos ficam mais complicados quando a ideia \u00e9 saber a massa de tudo que existe. Entretanto, o professor Ron Milo e sua equipe de pesquisadores do Instituto Weizmann de Ci\u00eancia, em Israel, conseguiram chegar ao preocupante n\u00famero: a humanidade j\u00e1 est\u00e1 vivendo em um mundo mais artificial do que natural. O estudo, publicado no peri\u00f3dico cient\u00edfico\u00a0<em>Nature<\/em>, retrocede 120 anos e ainda extrapola duas d\u00e9cadas \u00e0 frente. Para efeito de an\u00e1lise acad\u00eamica, os pesquisadores desconsideram a \u00e1gua salgada e doce no comparativo \u2014 a chamada biomassa l\u00edquida de rios e oceanos, anotada em um conjunto \u00e0 parte.<\/p>\n<p>Em 1900, a biomassa era predominante na superf\u00edcie s\u00f3lida da Terra: 97% de tudo que existia era composto de vida org\u00e2nica: vegetal e animal. Entram no c\u00e1lculo do micr\u00f3bio \u00e0 baleia, do rato ao elefante, plantas, florestas e todos os povos nos seis continentes. Do outro lado, est\u00e1 o que os cientistas chamam de massa antropog\u00eanica, que \u00e9 resultado da atividade humana: pr\u00e9dios, asfalto, autom\u00f3veis, fios, pl\u00e1stico, ferro, a\u00e7o, papel processado e muito mais. Seu celular e o computador entram na conta. At\u00e9 o s\u00e9culo XIX, essa massa compunha apenas 3% do sistema.<\/p>\n<p>Contudo, em pouco mais de um s\u00e9culo (um piscar de olhos em termos astron\u00f4micos, uma vez que a Terra tem mais de 4 bilh\u00f5es de anos), a situa\u00e7\u00e3o mudou drasticamente. Segundo os c\u00e1lculos de Milo e equipe, a massa antropog\u00eanica chegou neste ano a 1,1 trilh\u00e3o de toneladas, superando a biomassa por uma diferen\u00e7a de 100 bilh\u00f5es de toneladas. Pior: o\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0fez mais do que adicionar material artificial. Em seu progresso irrefre\u00e1vel, ele devastou 1 trilh\u00e3o dos 2 trilh\u00f5es de toneladas de \u00e1rvores e plantas que existiam no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, levando \u00e0 extin\u00e7\u00e3o milhares de esp\u00e9cies animais no processo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3740459 \" title=\"arte-biomassa-iphone\" src=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/arte-biomassa-iphone.jpg?quality=70&amp;strip=info\" alt=\"Arte biomassa\" width=\"639\" height=\"1292\" border=\"0\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\".\" data-image-caption=\"\" data-image-title=\"\" data-image-source=\".\" \/><\/p>\n<p>O crescimento da massa fabricada aumentou em propor\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica, ganhando ainda mais velocidade depois da II Guerra Mundial. Se prosseguir nesse ritmo, em vinte anos pode chegar a 3 trilh\u00f5es de toneladas, um n\u00famero tr\u00eas vezes maior do que a massa biol\u00f3gica atual. A face da Terra est\u00e1 mudando de forma t\u00e3o radical que deixa espantados at\u00e9 os mais c\u00e9ticos. Em 2019, antes da pandemia, 30 bilh\u00f5es de toneladas de material foram produzidas em apenas um ano. Existe hoje o dobro de pl\u00e1stico no mundo do que animais selvagens e dom\u00e9sticos, sendo que boa parte est\u00e1 espalhada no oceano, em lix\u00f5es e aterros sanit\u00e1rios, sem chance de se diluir em menos de 100 anos: uma heran\u00e7a verdadeiramente criminosa para futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar, contudo, que o pl\u00e1stico \u2014 apesar de todo o dano ambiental que \u00e9 capaz de causar \u2014 representa apenas uma fra\u00e7\u00e3o da massa antropog\u00eanica vis\u00edvel, bem menor que as constru\u00e7\u00f5es e infraestrutura que podem ser identificadas a quil\u00f4metros de altitude. Da mesma forma, a vida humana e animal \u00e9 pouco representativa na biomassa. O desequil\u00edbrio, portanto, teve in\u00edcio quando o homem come\u00e7ou a expandir suas metr\u00f3poles, desmatando e abrindo cada vez mais \u00e1reas agricultur\u00e1veis para suprir a popula\u00e7\u00e3o crescente. De fato, se os matem\u00e1ticos levarem em conta todo o conte\u00fado removido do subsolo em minera\u00e7\u00e3o e dragagem, o ponto de virada j\u00e1 foi atingido na d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 recomend\u00e1vel fazer uma an\u00e1lise mais aprofundada dos n\u00fameros divulgados. O estudo, ressalve-se, \u00e9 apenas uma contagem ampla, que n\u00e3o leva em conta o fosso de desigualdade entre na\u00e7\u00f5es \u2014 e as diferen\u00e7as s\u00e3o decisivas. \u201c\u00c9 poss\u00edvel continuar progredindo com responsabilidade e governan\u00e7a, planejamento adaptado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es socioambientais e integra\u00e7\u00e3o entre concreto e infraestrutura natural\u201d, disse a VEJA Eduardo Brondizio, reconhecida autoridade em estudos do meio ambiente pela Universidade Estadual de Campinas, em S\u00e3o Paulo, e de Indiana, nos Estados Unidos. \u201c\u00c9 fundamental reconhecer e priorizar as regi\u00f5es deficit\u00e1rias.\u201d<\/p>\n<p>Por mais de um s\u00e9culo, pa\u00edses desenvolvidos se beneficiaram da tecnologia e da infraestrutura, enquanto os mais pobres nem mesmo conseguiram garantir saneamento b\u00e1sico a seus habitantes. No Brasil, estima-se que ainda falte esgoto para 100 milh\u00f5es de pessoas, e ser\u00e1 preciso constru\u00ed-lo. A chave, portanto, \u00e9 como quase tudo na vida: o equil\u00edbrio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine uma faca simples, apenas com l\u00e2mina e cabo de madeira. 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