{"id":138126,"date":"2020-12-09T15:00:07","date_gmt":"2020-12-09T18:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=138126"},"modified":"2020-12-09T17:47:11","modified_gmt":"2020-12-09T20:47:11","slug":"area-de-preservacao-pode-ser-insuficiente-em-contexto-de-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/area-de-preservacao-pode-ser-insuficiente-em-contexto-de-mudancas-climaticas\/","title":{"rendered":"\u00c1rea de preserva\u00e7\u00e3o pode ser insuficiente em contexto de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<h4><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-138127\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Desaparecimento de p\u00e1ssaros mostra que cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o pode ser insuficiente em contexto de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/h4>\n<div>\n<h2>Resumo<\/h2>\n<ul>\n<li>Pesquisadores analisaram grupos de aves de uma \u00e1rea de floresta virgem ao norte de Manaus ao longo de 35 anos. Mesmo sem sofrer impactos diretos, a popula\u00e7\u00e3o de certas esp\u00e9cies diminuiu.<\/li>\n<li>Na \u00e1rea analisada, constatou-se o desaparecimento de p\u00e1ssaros que se alimentam de insetos pr\u00f3ximos ao solo, como o uirapuru-verdadeiro. Outros, que consomem frutas, sofreram efeito contr\u00e1rio: viram sua popula\u00e7\u00e3o aumentar.<\/li>\n<li>A pesquisa atribui o fen\u00f4meno \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que estaria provocando estiagens mais quentes e secas, causando estresse f\u00edsico nas aves. Com isso, p\u00f5e-se em xeque a ideia de que basta uma \u00e1rea estar protegida da a\u00e7\u00e3o humana para garantir a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade.<\/li>\n<li>Fen\u00f4meno semelhante foi observado na Caatinga: aumentos de temperatura, secas severas e chuvas irregulares podem levar \u00e0 extin\u00e7\u00e3o de aves e mam\u00edferos nos pr\u00f3ximos 60 anos, inclusive dentro de parques nacionais.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p>No interior da floresta, em \u00e1reas inacess\u00edveis aos homens, a vida selvagem segue seu ciclo natural. Grandes dist\u00e2ncias que garantem um certo isolamento e separam a natureza da civiliza\u00e7\u00e3o humana sempre foram consideradas aliadas na conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade. \u00c1reas protegidas como os parques nacionais, as reservas biol\u00f3gicas e as esta\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, categorias do Sistema Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o (SNUC), carregam um pouco dessa ideia. Mas as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas promovidas pelo homem est\u00e3o desconstruindo esse conceito. Pelo menos essa \u00e9 a hip\u00f3tese do pesquisador e professor da Escola de Recursos Naturais Renov\u00e1veis da Universidade do Estado da Louisiana (LSU, na sigla em ingl\u00eas), Philip Stouffer. Em\u00a0<a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/ele.13628\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">artigo<\/a> publicado em outubro na revista Ecology Letters, ele, os doutorandos da LSU Vitek Jirinec e Cameron Rutt e um grupo de pesquisadores relatam uma redu\u00e7\u00e3o nas popula\u00e7\u00f5es de algumas esp\u00e9cies de aves no interior de um fragmento bem conservado da Floresta Amaz\u00f4nica ao norte de Manaus (AM) nos \u00faltimos 35 anos. Eles acreditam que as altera\u00e7\u00f5es no clima devam ser as maiores respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>A pesquisa faz parte do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.inpa.gov.br\/pdbff\/instituto1p.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Projeto Din\u00e2mica Biol\u00f3gica de Fragmentos Florestais (PDBFF)<\/a>, iniciado em 1979 e que contou com atua\u00e7\u00e3o direta do conhecido bi\u00f3logo e ambientalista Thomas Lovejoy. A inten\u00e7\u00e3o era avaliar a import\u00e2ncia da manuten\u00e7\u00e3o de uma grande reserva florestal protegida ou de v\u00e1rias pequenas de igual tamanho. Os trabalhos come\u00e7aram no ent\u00e3o rec\u00e9m-criado Distrito Agropecu\u00e1rio da Superintend\u00eancia da Zona Franca de Manaus (Suframa), \u00e1rea ao norte da capital do Amazonas que continha grande extens\u00e3o de floresta ainda conservada. Na \u00e9poca, imaginava-se que se fragmentaria com o passar dos anos.<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio dos anos 1980, Rob Bierregaard, ent\u00e3o diretor de campo do projeto, estava fazendo amostragem em dezenas de locais na floresta cont\u00ednua. Naquele ponto, esperava-se que grande parte da \u00e1rea seria desmatada e essas primeiras amostras representariam o ponto de partida para examinar a degrada\u00e7\u00e3o do ecossistema ap\u00f3s o isolamento dos locais\u201d, relata Stouffer. Foi com essa base de dados e de levantamentos realizados na d\u00e9cada de 1990 que os pesquisadores trabalharam para comparar com a situa\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>Stouffer, que desde 1991 desenvolve pesquisas na Amaz\u00f4nia, relata que a ideia de verificar se havia ocorrido alguma mudan\u00e7a nas popula\u00e7\u00f5es de aves de \u00e1reas com floresta ainda intacta do Distrito Agropecu\u00e1rio da Suframa surgiu em 2008. Ele conta que, no ano anterior, houve intenso trabalho de levantamento de esp\u00e9cies nos mesmos fragmentos florestais amostrados desde a d\u00e9cada de 1980. \u201cCom base nos padr\u00f5es que vimos se desenvolvendo, n\u00e3o ficamos surpresos com o fato de o conjunto de aves inset\u00edvoras terrestres e que vivem pr\u00f3ximas ao solo estar muito raro nessas amostras. S\u00e3o esp\u00e9cies que j\u00e1 sab\u00edamos que n\u00e3o se sa\u00edam bem em fragmentos ou em floresta secund\u00e1ria\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Mas a surpresa deu-se quando o mesmo trabalho foi realizado em pontos de floresta intocada. \u201cDepois de trabalharmos por algumas semanas com sucesso m\u00ednimo em encontrar essas aves, come\u00e7amos a nos perguntar se essas esp\u00e9cies eram realmente menos comuns do que quando trabalhei pela primeira vez nos mesmos locais no in\u00edcio dos anos 1990\u201d, explicou Stouffer. Esse questionamento foi o motivador para a realiza\u00e7\u00e3o das compara\u00e7\u00f5es utilizando dados de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de pesquisas.<\/p>\n<h2>Metodologia<\/h2>\n<p>Ap\u00f3s selecionarem as \u00e1reas de estudo, Stouffer e equipe esticaram extensas redes de neblina (redes feitas com linhas muito finas, quase impercept\u00edveis \u00e0s aves, que acabam colidindo com elas e ficando presas). O objetivo era capturar as aves do chamado sub-bosque, que se deslocam nos dois metros mais baixos da floresta, excluindo-se as maiores, como mutuns, macucos e inhambus. \u201cDos dados da d\u00e9cada de 1980, trabalhamos com os de 34 locais de toda a \u00e1rea do PDBFF, estendendo-se por 35 quil\u00f4metros de uma extremidade a outra. Para os dados modernos, trabalhamos em 21 locais na mesma \u00e1rea, estendendo-se por 40 quil\u00f4metros. Acabamos com 79 esp\u00e9cies que pudemos analisar\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o de dados indicou que as aves com maior decl\u00ednio populacional desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 s\u00e3o as inset\u00edvoras terrestres e que vivem pr\u00f3ximas ao solo, como a choquinha-de-barriga-ruiva (<i>Isleria guttata<\/i>), a vira-folha-pardo (<i>Sclerurus caudacutus<\/i>), o uirapuru-verdadeiro (<i>Cyphorhinus arada<\/i>), o uirapuru-de-asa-branca (<i>Microcerculus bambla<\/i>), o formigueiro-de-asa-pintada (<i>Myrmelastes leucostigma<\/i>) e o pinto-do-mato-carij\u00f3 (<i>Myrmornis torquata<\/i>). Entretanto, enquanto algumas esp\u00e9cies sofrem impacto negativo, outras d\u00e3o indicativos de estarem se adaptando melhor \u00e0 nova realidade.<\/p>\n<p>\u201cDevo ressaltar tamb\u00e9m que algumas aves aumentaram em abund\u00e2ncia desde a d\u00e9cada de 1980. Foram principalmente as que comem algumas frutas, mas tamb\u00e9m o papa-formiga-de-topete (<i>Pithys albifrons<\/i>), que usa alguns dos mesmos recursos alimentares dos inset\u00edvoros terrestres, por\u00e9m tem a vantagem de seguir as formigas-de-correi\u00e7\u00e3o\u201d, destaca Stouffer. Essas formigas formam ex\u00e9rcitos de milhares de indiv\u00edduos que se deslocam pelo solo da floresta predando tudo o que encontram pela frente. O papa-formiga-de-topete aproveita para capturar os insetos que tentam fugir das vorazes predadoras. Esse comportamento faz com que ela n\u00e3o tenha territ\u00f3rio fixo, e portanto tenha escapado do decl\u00ednio decorrente da fragmenta\u00e7\u00e3o da floresta.<\/p>\n<p>Das 79 esp\u00e9cies de aves capturadas, o estudo indicou que 52 tiveram decl\u00ednio de suas popula\u00e7\u00f5es, enquanto 24 aumentaram. Tr\u00eas se mantiveram est\u00e1veis.<\/p>\n<p>Identificadas as diferen\u00e7as populacionais nas esp\u00e9cies de aves, o passo seguinte foi tentar explicar o motivo desse fen\u00f4meno. Os pesquisadores descartaram a possibilidade de a causa ser a altera\u00e7\u00e3o da paisagem, pois a \u00e1rea geral do Distrito Agropecu\u00e1rio da Suframa manteve quase que a mesma cobertura florestal do in\u00edcio dos anos 1980 (mais de 90% do seu territ\u00f3rio). Tamb\u00e9m n\u00e3o foram encontradas evid\u00eancias de efeitos de borda (supress\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o ou atividades humanas na regi\u00e3o mais externa do per\u00edmetro onde se desenvolveu o estudo), at\u00e9 porque as coletas de amostras aconteceram longe das bordas. Outras possibilidades descartadas foram a invas\u00e3o por esp\u00e9cies generalistas e a ocorr\u00eancia de novos pat\u00f3genos ou predadores. \u201cIsso nos leva a pensar que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 envolvida, mas n\u00e3o sabemos como\u201d, afirma Stouffer.<\/p>\n<h2>O que mudou na floresta<\/h2>\n<p>Os pesquisadores destacam que as estiagens est\u00e3o mais quentes e secas naquela parte da Amaz\u00f4nia do que na d\u00e9cada de 1980. Essa altera\u00e7\u00e3o poderia estar causando estresse f\u00edsico nas aves das esp\u00e9cies afetadas negativamente ou reduzindo os locais com o microclima favorito delas. Ainda \u00e9 considerada a hip\u00f3tese de a mudan\u00e7a no clima influenciar na abund\u00e2ncia de recursos alimentares desses animais.<\/p>\n<p>Stouffer tamb\u00e9m lembra que a estrutura da floresta tem se alterado em fun\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Na \u00e1rea onde foi realizado o estudo com as aves, h\u00e1 evid\u00eancias de aumento da mortalidade de \u00e1rvores e de maior ocorr\u00eancia de outras, favorecendo a composi\u00e7\u00e3o da floresta com esp\u00e9cies de crescimento mais r\u00e1pido. \u201cIsso tamb\u00e9m pode estar relacionado\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Para Stouffer, constatar que as mudan\u00e7as no clima podem estar afetando a fauna em \u00e1reas consideradas intocadas sugere que devemos questionar a suposi\u00e7\u00e3o de que vastas \u00e1reas de floresta ret\u00eam a biodiversidade se puderem ser protegidas \u2014 sobretudo de perturba\u00e7\u00f5es como o desmatamento provocado pela urbaniza\u00e7\u00e3o e pela expans\u00e3o das fronteiras agropecu\u00e1rias. O pesquisador, que afirmou ter se aposentado das pesquisas de campo na Amaz\u00f4nia, destaca que, infelizmente, esse tipo de dados de longo prazo, necess\u00e1rios para examinar o problema, s\u00e3o raros. H\u00e1 tamb\u00e9m a dificuldade de encontrar lugares pouco perturbados pelo homem em que esse tipo de pesquisa seja desenvolvida, de modo que seja poss\u00edvel descartar, ou confirmar, efeitos da altera\u00e7\u00e3o da paisagem.<\/p>\n<p>Apesar da constata\u00e7\u00e3o preocupante, Stouffer afirma ser importante ressaltar que todas as esp\u00e9cies em decl\u00ednio populacional indicadas no estudo ocorrem em grandes extens\u00f5es em toda a Amaz\u00f4nia. \u201cElas n\u00e3o correm perigo de extin\u00e7\u00e3o enquanto houver muitas florestas intactas. Mas nossos dados sugerem que suas popula\u00e7\u00f5es est\u00e3o diminuindo, o que torna cada vez mais importante proteger o m\u00e1ximo poss\u00edvel de \u00e1rea florestal\u201d, salienta. Ainda mais pelo fato de que essas aves n\u00e3o toleram pequenos fragmentos de floresta e que a regenera\u00e7\u00e3o da \u00e1reas degradadas leva mais do que 30 anos para novamente fornecer um habitat adequado a elas.<\/p>\n<h2>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na Amaz\u00f4nia<\/h2>\n<p>O fen\u00f4meno detectado por Stouffer e sua equipe n\u00e3o \u00e9 exclusividade da Amaz\u00f4nia. Quem j\u00e1 n\u00e3o viu as terr\u00edveis imagens de ursos-polares famintos em virtude do degelo de seu habitat, que altera todo o processo migrat\u00f3rio da esp\u00e9cie? No Brasil, j\u00e1 h\u00e1 estudos com proje\u00e7\u00f5es futuras sobre o problema, como os desenvolvidos pela bi\u00f3loga Daiany Caroline Joner, que trabalhou em seu mestrado e doutorado na Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) com proje\u00e7\u00f5es dos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na fauna de unidades de conserva\u00e7\u00e3o (UCs) de prote\u00e7\u00e3o integral da Caatinga.<\/p>\n<p>Parte das pesquisas de Daiany \u00e9 composta por dados de animais silvestres que habitam 12 UCs em que n\u00e3o \u00e9 permitido o desenvolvimento da explora\u00e7\u00e3o direta dos recursos naturais e que possuem \u00e1reas em que s\u00f3 podem ser realizadas pesquisas cient\u00edficas. Ela trabalhou com a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Raso da Catarina, a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica do Serid\u00f3, a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica de Aiuaba, a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica do Castanh\u00e3o, o Parque Nacional da Serra da Capivara, o Parque Nacional da Chapada Diamantina, o Parque Nacional da Serra das Confus\u00f5es, o Parque Nacional das Sete Cidades, o Parque Nacional de Ubajara, o Parque Nacional do Catimbau, o Monumento Nacional do Rio S\u00e3o Francisco e a Reserva Biol\u00f3gica da Serra Negra.<\/p>\n<p>A partir de modelos globais para 2080 apresentados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), Daiany projetou que haver\u00e1 intensifica\u00e7\u00e3o da aridez no Nordeste do Brasil, principalmente na Caatinga, com aumento na temperatura m\u00e9dia anual, chuvas mais irregulares ao longo do ano e uma maior ocorr\u00eancia de eventos extremos, como secas mais severas e alagamentos. \u201cA vegeta\u00e7\u00e3o desse ecossistema ser\u00e1 afetada. Al\u00e9m disso, \u00e9 apontado que essas \u00e1reas se tornar\u00e3o mais suscet\u00edveis \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o, ainda que sejam consideradas apenas as vari\u00e1veis clim\u00e1ticas\u201d, explicou a bi\u00f3loga.<\/p>\n<p>No caso de haver dificuldades para o deslocamento dos animas e ocorrendo as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas modeladas para 2080, Daiany inferiu que muitas aves e mam\u00edferos do Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) e do Parque Nacional do Catimbau (PE) n\u00e3o sobreviver\u00e3o. \u201cQuando pensamos em unidade de conserva\u00e7\u00e3o, acreditamos que as esp\u00e9cies estar\u00e3o mais protegidas dentro desse limite geogr\u00e1fico. Entretanto, quando pensamos no longo prazo, uma outra abordagem de conserva\u00e7\u00e3o precisa ser levada em considera\u00e7\u00e3o\u201d, disse a bi\u00f3loga em racioc\u00ednio similar ao de Stouffer.<\/p>\n<p>Perante esse contexto, Daiany verificou com modelos matem\u00e1ticos os impactos para aves e mam\u00edferos da Caatinga considerando dois cen\u00e1rios: com a possibilidade de os animais migrarem e com a possibilidade de eles n\u00e3o conseguirem se dispersar. \u201cParece at\u00e9 surreal pensarmos que as esp\u00e9cies n\u00e3o podem se dispersar, at\u00e9 mesmo as aves. Por\u00e9m, os ambientes favor\u00e1veis \u00e0 sobreviv\u00eancia est\u00e3o cada vez mais fragmentados e menores\u201d, explica. Outro problema \u00e9 o caminho entre os ambientes, que podem ter in\u00fameras barreiras, como estradas, inviabilizando o sucesso desse deslocamento.<\/p>\n<p>Com a mudan\u00e7a no clima, muitos animais perder\u00e3o \u00e1reas favor\u00e1veis para viverem. No caso dos que habitam mais de um bioma, como os vizinhos Caatinga e Cerrado, havendo possibilidade de dispers\u00e3o, o impacto pode ser menor. Por\u00e9m, se forem consideradas as esp\u00e9cies que s\u00f3 possuem ocorr\u00eancia na Caatinga, os resultados s\u00e3o mais graves.<\/p>\n<p>\u201cFoi o caso do jacu-do-nordeste (<i>Penelope jacucaca<\/i>), uma ave com status de conserva\u00e7\u00e3o j\u00e1 considerado \u201cvulner\u00e1vel\u201d na classifica\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza, e o macaco guig\u00f3 (<i>Callicebus barbarabrownae<\/i>), classificado \u201cem perigo cr\u00edtico\u201d de extin\u00e7\u00e3o pela mesma institui\u00e7\u00e3o. As duas esp\u00e9cies podem perder todas as \u00e1reas clim\u00e1ticas favor\u00e1veis at\u00e9 2080\u201d, explica Daiany. Nessa mesma situa\u00e7\u00e3o encontra-se a conhecida e amea\u00e7ada arara-azul-de-lear (<i>Anodorhynchus leari<\/i>), ave ainda muito cobi\u00e7ada por traficantes de fauna.<\/p>\n<p>Daiany afirma que a nossa realidade vai depender tanto da habilidade das esp\u00e9cies em migrar como tamb\u00e9m da qualidade dos ambientes de entorno, com a presen\u00e7a de corredores ecol\u00f3gicos que permitam o deslocamento da fauna. Como certeza, ela, Stouffer e outros pesquisadores j\u00e1 trabalham com a premissa de que os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas colocaram em xeque a ideia de que o isolamento dos animais silvestres em ambientes distantes da a\u00e7\u00e3o direta dos humanos seja uma garantia de sobreviv\u00eancia deles. \u00c9 mais um elemento a ser pensado na elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e projetos de conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desaparecimento de p\u00e1ssaros mostra que cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o pode ser insuficiente em contexto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":138127,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/passaro.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Desaparecimento de p\u00e1ssaros mostra que cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o pode ser insuficiente em contexto","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138126"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138126"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138126\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":138128,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138126\/revisions\/138128"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/138127"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138126"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138126"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138126"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}