{"id":137754,"date":"2020-11-29T07:26:12","date_gmt":"2020-11-29T10:26:12","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=137754"},"modified":"2020-11-29T07:26:12","modified_gmt":"2020-11-29T10:26:12","slug":"antropoceno-crise-da-biodiversidade-e-extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/antropoceno-crise-da-biodiversidade-e-extincao\/","title":{"rendered":"Antropoceno, crise da biodiversidade e extin\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Pela sexta vez, desde que surgiu vida na Terra, estamos \u00e0 beira de extin\u00e7\u00e3o em massa de esp\u00e9cies. Seria a primeira desde o fim dos dinossauros, h\u00e1 65,5 milh\u00f5es de anos. Que \u00e9 o fen\u00f4meno. Qual o papel do ser humano. Como interromp\u00ea-lo?<\/p>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3039388\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/201126-Extin%C3%A7%C3%A3oB-1024x661.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/201126-Extin\u00e7\u00e3oB-1024x661.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/201126-Extin\u00e7\u00e3oB-300x194.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/201126-Extin\u00e7\u00e3oB-768x496.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"413\" \/><\/figure>\n<p><strong>Heraldo Ramos Neto<\/strong>, em entrevista a\u00a0<strong>Ricardo Machado<\/strong>, no\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/\">IHU Online<\/a><\/em><\/p>\n<p>Muitas pessoas t\u00eam negado a degrada\u00e7\u00e3o ambiental de nossos tempos sob o argumento de que isso faz parte de ciclos naturais da Terra e que, como houve perda de biodiversidade em outras eras geol\u00f3gicas, isso poderia estar ocorrendo novamente. No entanto, a an\u00e1lise do professor Heraldo Ramos Neto revela que \u00e9 preciso calma e cuidado com an\u00e1lises reducionistas. Ele diz que \u00e9 verdade que outros eventos causaram transforma\u00e7\u00e3o no planeta. Por\u00e9m, desde a exist\u00eancia do ser humano sobre a terra, as r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o vis\u00edveis. \u201cA esp\u00e9cie humana \u00e9 um organismo causador de perturba\u00e7\u00e3o e que precisa reavaliar suas a\u00e7\u00f5es, sob o risco de n\u00e3o conseguir persistir. Em uma biosfera cada vez mais modificada, aumenta-se o risco de colapso dos processos ecol\u00f3gicos e evolutivos que sustentam a vida, incluindo a humana\u201d, adverte na entrevista concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p>Ou seja, se o mundo se transforma, o ser humano tem causado perturba\u00e7\u00f5es alheias a esses movimentos geol\u00f3gicos mais naturais. \u201cApesar de os n\u00edveis de diversidade biol\u00f3gica serem os mais elevados na hist\u00f3ria do planeta, estamos caminhando a passos largos rumo ao decl\u00ednio das esp\u00e9cies e dos ecossistemas, devido \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es ambientais causadas pelos humanos\u201d, observa o professor. Ele ainda explica que \u201cas principais causas de redu\u00e7\u00e3o da biodiversidade s\u00e3o a perda e fragmenta\u00e7\u00e3o de habitat, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, superexplora\u00e7\u00e3o de recursos naturais, polui\u00e7\u00e3o e introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies invasoras. Todas elas est\u00e3o ligadas \u00e0s atividades humanas, incluindo a expans\u00e3o rural e urbana\u201d.<\/p>\n<p>Heraldo ainda alerta que a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos\u00a0e rela\u00e7\u00f5es com o planeta \u00e9 mais do que emergente, n\u00e3o podemos \u2018pagar para ver\u2019 quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias e apostar numa evolu\u00e7\u00e3o adaptativa das esp\u00e9cies, entre elas a humana. \u201cN\u00e3o temos tecnologia e conhecimento suficientes para prever as consequ\u00eancias evolutivas a longo prazo\u201d, adverte. Segundo aponta, \u00e9 preciso grande engajamento das pessoas para mudan\u00e7as em larga escala. \u201cPara isso, \u00e9 preciso desenvolver pol\u00edticas p\u00fablicas e ferramentas que proporcionem a participa\u00e7\u00e3o efetiva da sociedade na resolu\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es ambientais importantes\u201d, sugere, reiterando que \u201c\u00e9 preciso insistir na mudan\u00e7a de h\u00e1bitos\u201d.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3039316\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/25_11_heraldo_foto_arquivo_pessoal.png\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/25_11_heraldo_foto_arquivo_pessoal.png 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/25_11_heraldo_foto_arquivo_pessoal-300x296.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/25_11_heraldo_foto_arquivo_pessoal-768x757.png 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"631\" \/><\/figure>\n<p>Heraldo Ramos Neto \u00e9 bi\u00f3logo e mestre em Ecologia pela Universidade de Bras\u00edlia \u2013 UnB, autor da disserta\u00e7\u00e3o \u201cBiodiversidade em crise: extin\u00e7\u00f5es, invas\u00f5es e homogeneiza\u00e7\u00e3o bi\u00f3tica no Antropoceno\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Confira a entrevista<\/strong><\/h4>\n<p><strong>Muito se fala em biodiversidade, o termo inclusive \u00e9 parte do vocabul\u00e1rio comum. No entanto, o que significa o conceito e como o percebemos na vida cotidiana?<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com a Conven\u00e7\u00e3o Sobre Diversidade Biol\u00f3gica \u2013 CDB, principal f\u00f3rum mundial de discuss\u00e3o sobre o assunto, a biodiversidade envolve toda a variabilidade taxon\u00f4mica, gen\u00e9tica e funcional dos organismos, compreendendo genes, esp\u00e9cies e ecossistemas. Essa varia\u00e7\u00e3o pode ser percebida em diversas escalas de observa\u00e7\u00e3o, desde uma simples muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica em uma popula\u00e7\u00e3o da mesma esp\u00e9cie, at\u00e9 o conjunto de ecossistemas terrestres e aqu\u00e1ticos de toda a biosfera.<\/p>\n<p>No cotidiano, a diversidade biol\u00f3gica \u00e9 percebida nas diferen\u00e7as de forma, colora\u00e7\u00e3o, funcionalidades e at\u00e9 comportamentos dos organismos que vemos no mundo. Ademais, ela est\u00e1 ligada direta ou indiretamente a quase tudo que fazemos, incluindo nossa alimenta\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, bem-estar e seguran\u00e7a. Tudo est\u00e1 interligado por meio de processos ecol\u00f3gicos e evolutivos que ocorrem h\u00e1 bilh\u00f5es de anos, os quais resultaram na atual biodiversidade.<\/p>\n<p><strong>Quais as consequ\u00eancias da perda da biodiversidade? Mais do que isso, o que ela indica?<\/strong><\/p>\n<p>A biodiversidade oscilou diversas vezes na hist\u00f3ria do planeta, em eventos menos ou mais dram\u00e1ticos. A extin\u00e7\u00e3o do Permiano, por exemplo, ocorrida h\u00e1 cerca de 250 milh\u00f5es de anos \u00e9 considerada por muitos cientistas a maior delas, onde estima-se ter ocorrido a redu\u00e7\u00e3o de mais de 95% das esp\u00e9cies marinhas em cerca de 3 milh\u00f5es de anos, um per\u00edodo curto na escala geol\u00f3gica. De acordo com os estudos, m\u00faltiplas erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas na regi\u00e3o da Sib\u00e9ria teriam causado mudan\u00e7as profundas na atmosfera e nos oceanos, reduzindo a biodiversidade drasticamente.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FHJzcChdCF4?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/figure>\n<p>Eventos como esse s\u00e3o conhecidos como extin\u00e7\u00f5es em massa. Tais situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o raras e est\u00e3o geralmente relacionadas a grandes mudan\u00e7as ambientais, decorrentes de fen\u00f4menos naturais de grandes propor\u00e7\u00f5es, como erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas e queda de corpos celestes. A maioria dos autores indica cinco eventos principais de extin\u00e7\u00e3o em massa. O mais famoso ocorreu h\u00e1 cerca de 65 milh\u00f5es de anos, no final do Cret\u00e1ceo, com a extin\u00e7\u00e3o dos dinossauros. Atualmente, h\u00e1 um consenso crescente de que estamos vivenciando um sexto epis\u00f3dio de grande extin\u00e7\u00e3o, desta vez em decorr\u00eancia das transforma\u00e7\u00f5es ambientais causadas ou potencializadas pelos humanos.<\/p>\n<h4><strong>Perda de biodiversidade<\/strong><\/h4>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias da perda de biodiversidade, podemos destacar pelo menos dois seguimentos. As consequ\u00eancias ecol\u00f3gicas s\u00e3o aquelas relacionadas a mudan\u00e7as no funcionamento dos ecossistemas, em decorr\u00eancia de altera\u00e7\u00e3o dos processos de fluxo de mat\u00e9ria e energia, ligados \u00e0 atividade biol\u00f3gica. Esp\u00e9cies, popula\u00e7\u00f5es, comunidades e ecossistemas s\u00e3o interligados por meio de processos materiais e energ\u00e9ticos dinamicamente equilibrados, os quais tornam poss\u00edvel a coexist\u00eancia de diferentes formas de vida, incluindo a humana.<\/p>\n<p>Uma vez que as partes desse sistema s\u00e3o retiradas ou reorganizadas, o equil\u00edbrio din\u00e2mico do conjunto pode ser alterado, comprometendo o seu funcionamento. Isso pode levar a mais extin\u00e7\u00f5es, redu\u00e7\u00e3o na quantidade de recursos naturais essenciais como \u00e1gua pot\u00e1vel e alimentos, altera\u00e7\u00e3o na fertilidade dos solos, entre outros.<\/p>\n<h4><strong>Consequ\u00eancias evolutivas<\/strong><\/h4>\n<p>As consequ\u00eancias evolutivas s\u00e3o ainda mais complexas, pois envolvem as quest\u00f5es ecol\u00f3gicas em um amplo espectro temporal e espacial, desde mudan\u00e7as moleculares em popula\u00e7\u00f5es locais, at\u00e9 transforma\u00e7\u00f5es em toda a biosfera, como as ocorridas nos per\u00edodos das grandes extin\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um ponto importante \u00e9 que ainda n\u00e3o temos tecnologia e conhecimento suficientes para prever as consequ\u00eancias evolutivas a longo prazo. O que sabemos, com base nas extin\u00e7\u00f5es anteriores \u00e9 que a biodiversidade normalmente se recupera, atingindo inclusive n\u00edveis maiores ap\u00f3s grandes extin\u00e7\u00f5es, por\u00e9m as esp\u00e9cies perdidas jamais retornam.<\/p>\n<p><strong>O impacto da esp\u00e9cie humana \u2013 homo sapiens \u2013 nas \u00e1reas urbanizadas \u00e9 significativo, para n\u00e3o dizer destrutivo. Como se caracteriza, em geral, a biodiversidade em \u00e1reas urbanas?<\/strong><\/p>\n<p>Cidades normalmente dependem de uma elevada quantidade de recursos externos materiais e energ\u00e9ticos para funcionarem, constituindo locais de intensa e frequente altera\u00e7\u00e3o ambiental, tanto a n\u00edvel local quanto nos locais de origem desses recursos. Al\u00e9m disso, o ambiente urbano n\u00e3o reproduz as condi\u00e7\u00f5es naturais dos ecossistemas, portanto um n\u00famero menor de esp\u00e9cies est\u00e1 apto a persistir nesses locais.<\/p>\n<p>Por outro lado, algumas esp\u00e9cies acabam tirando proveito das \u00e1reas urbanas, para obten\u00e7\u00e3o de recursos como alimento e abrigo. Assim, \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma biodiversidade expressiva nas cidades. Na realidade, essa \u00e9 uma das agendas mais promissoras do ponto de vista do engajamento das pessoas na prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Apesar de ser um ambiente de intensa degrada\u00e7\u00e3o ambiental, cidades concentram recursos financeiros e humanos importantes para o aumento do nosso conhecimento sobre a natureza, assim como prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade.<\/p>\n<h4><strong>Intrusos e amea\u00e7adores<\/strong><\/h4>\n<p>No entanto, cidades geralmente s\u00e3o locais com presen\u00e7a elevada de esp\u00e9cies n\u00e3o end\u00eamicas, chamadas tamb\u00e9m de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas, muitas delas invasoras. Uma esp\u00e9cie ex\u00f3tica se torna invasora quando se estabelece e passa a proliferar fora do seu ambiente de ocorr\u00eancia natural, causando muitas vezes impactos ambientais e socioecon\u00f4micos. \u00c1reas urbanas s\u00e3o prop\u00edcias \u00e0 ocorr\u00eancia desses organismos, devido \u00e0 circula\u00e7\u00e3o humana intensa e o grau elevado de perturba\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Em tais condi\u00e7\u00f5es, h\u00e1 uma tend\u00eancia de diminui\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies especialistas com distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica restrita, as quais s\u00e3o mais dependentes de recursos e condi\u00e7\u00f5es ambientais espec\u00edficas para sobreviverem. Ao mesmo tempo, em \u00e1reas urbanas verifica-se quantidade elevada de esp\u00e9cies generalistas amplamente distribu\u00eddas, que toleram uma maior variedade de condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Muitas esp\u00e9cies generalistas s\u00e3o extremamente adaptadas aos ambientes antropizados, sendo chamadas de sinantr\u00f3picas. O termo \u00e9 utilizado para se referir aos organismos que se beneficiam dos assentamentos humanos e suas atividades, como por exemplo moscas, pombos, ratos, baratas, entre outros. Muitos deles s\u00e3o ex\u00f3ticos invasores e causam impactos ambientais e socioecon\u00f4micos diversos. Ademais, atualmente as invas\u00f5es biol\u00f3gicas est\u00e3o entre as maiores causas de extin\u00e7\u00e3o da atualidade.<\/p>\n<p>Esse processo de substitui\u00e7\u00e3o de ecossistemas e esp\u00e9cies locais por ambientes e organismos amplamente distribu\u00eddos \u00e9 o motor de um fen\u00f4meno global conhecido como homogeneiza\u00e7\u00e3o bi\u00f3tica. Tal fen\u00f4meno tem sido crescentemente estudado pelos cientistas nos \u00faltimos 20 anos, tornando-se uma das principais quest\u00f5es ecol\u00f3gicas e evolutivas atualmente.<\/p>\n<p><strong>O que significa dizer que a \u201cbiodiversidade est\u00e1 em crise\u201d? Qual o papel da expans\u00e3o urbana e rural nesse processo de extin\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies?<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o dicion\u00e1rio, a palavra crise pode significar uma \u201cconjuntura ou momento perigoso, dif\u00edcil ou decisivo\u201d. Essa defini\u00e7\u00e3o caracteriza bem o que estamos vivendo atualmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 biodiversidade. Apesar de os n\u00edveis de diversidade biol\u00f3gica serem os mais elevados na hist\u00f3ria do planeta, estamos caminhando a passos largos rumo ao decl\u00ednio das esp\u00e9cies e dos ecossistemas, devido \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es ambientais causadas pelos humanos. As principais causas de redu\u00e7\u00e3o da biodiversidade s\u00e3o a perda e fragmenta\u00e7\u00e3o de habitat, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, superexplora\u00e7\u00e3o de recursos naturais, polui\u00e7\u00e3o e introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies invasoras. Todas elas est\u00e3o ligadas \u00e0s atividades humanas, incluindo a expans\u00e3o rural e urbana.<\/p>\n<p>Adicionalmente, crise pode significar \u201cdesacordo ou perturba\u00e7\u00e3o que obriga institui\u00e7\u00e3o ou organismo a recompor-se ou a demitir-se\u201d. Essa defini\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m cabe muito bem, se pensarmos que a esp\u00e9cie humana \u00e9 um organismo causador de perturba\u00e7\u00e3o e que precisa reavaliar suas a\u00e7\u00f5es, sob o risco de n\u00e3o conseguir persistir. Em uma biosfera cada vez mais modificada, aumenta-se o risco de colapso dos processos ecol\u00f3gicos e evolutivos que sustentam a vida, incluindo a humana.<\/p>\n<p>Nesse contexto, \u00e1reas rurais e urbanas desempenham um papel chave, pois s\u00e3o as principais fontes das causas de perda de biodiversidade no planeta, e ao mesmo tempo as \u00e1reas de maior oportunidade para mudan\u00e7a de h\u00e1bitos em larga escala populacional e territorial, em prol da prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Cabe a n\u00f3s escolhermos o rumo que seguiremos e suas respectivas consequ\u00eancias. Isso inclui reformular nossa rela\u00e7\u00e3o com as \u00e1reas rurais e urbanas.<\/p>\n<p><strong>O que s\u00e3o, por outro lado, as bioinvas\u00f5es e quais suas consequ\u00eancias nos ecossistemas?<\/strong><\/p>\n<p>As bioinvas\u00f5es ou invas\u00f5es biol\u00f3gicas s\u00e3o processos que envolvem o transporte, estabelecimento e a expans\u00e3o territorial ou populacional de esp\u00e9cies fora de sua \u00e1rea ou ambiente de distribui\u00e7\u00e3o natural. Podem ocorrer por fatores naturais, mas na maioria das vezes est\u00e3o relacionadas a atividades humanas, tais como com\u00e9rcio de animais e plantas, gerenciamento inadequado de res\u00edduos, degrada\u00e7\u00e3o ambiental, arboriza\u00e7\u00e3o urbana, pesca recreativa.<\/p>\n<p>Assim como as altera\u00e7\u00f5es do meio f\u00edsico causam desequil\u00edbrio ambiental, mudan\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica tamb\u00e9m afetam a din\u00e2mica dos ecossistemas, modificando fatores como competi\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies, fluxo de nutrientes e energia, resili\u00eancia ambiental, entre outros, resultando em extin\u00e7\u00f5es e redu\u00e7\u00e3o de recursos naturais essenciais.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os impactos ambientais das invas\u00f5es biol\u00f3gicas?<\/strong><\/p>\n<p>Podemos dividir os impactos das bioinvas\u00f5es em ambientais e socioecon\u00f4micos. No primeiro caso, citamos como exemplo a redu\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es de esp\u00e9cies nativas, altera\u00e7\u00e3o de ciclos biogeoqu\u00edmicos, aumento de inc\u00eandios florestais, redu\u00e7\u00e3o na oferta de recursos naturais essenciais, entre outros.<\/p>\n<p>Complementarmente, impactos socioecon\u00f4micos s\u00e3o aqueles com efeitos sobre a seguran\u00e7a, economia, sa\u00fade e outros aspectos relacionados ao bem-estar humano. Podemos citar como exemplo o mosquito da dengue, origin\u00e1rio da \u00c1frica e atualmente vetor de doen\u00e7as importantes em todo o mundo.<\/p>\n<p><strong>Como a monocultura e o agroneg\u00f3cio acabam impactando a biodiversidade e a migra\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies n\u00e3o end\u00eamicas para as \u00e1reas urbanas?<\/strong><\/p>\n<p>As monoculturas, sobretudo as de maior extens\u00e3o como no agroneg\u00f3cio s\u00e3o sistemas desenhados para funcionar com uma pequena variedade de esp\u00e9cies, com alta depend\u00eancia de insumos e energia. \u00c0 medida que esse tipo de manejo e ocupa\u00e7\u00e3o do solo avan\u00e7am, aumentam-se as press\u00f5es sobre os remanescentes de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, os quais abrigam parte importante da biodiversidade. Al\u00e9m disso, a quantidade elevada de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas normalmente utilizadas em monoculturas podem ser levadas pela \u00e1gua e vento e gerar impactos em ecossistemas distantes, afetando a biodiversidade.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 migra\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies n\u00e3o end\u00eamicas para \u00e1reas urbanas, trata-se de uma quest\u00e3o de introdu\u00e7\u00f5es deliberadas e acidentais mediadas por atividades humanas, dentre elas a agricultura. Com a supress\u00e3o de habitats naturais para expans\u00e3o da agricultura, altera-se o funcionamento e a resili\u00eancia dos ecossistemas, favorecendo a prolifera\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas em \u00e1reas rurais e urbanas. Ademais, a agricultura continua sendo uma das principais atividades respons\u00e1veis pela introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas e invasoras ao redor do globo, as quais inevitavelmente acabam atingindo \u00e1reas urbanas.<\/p>\n<p><strong>Qual a rela\u00e7\u00e3o entre a crise da biodiversidade e o antropoceno?<\/strong><\/p>\n<p>O termo Antropoceno tem sido utilizado para se referir de forma gen\u00e9rica ao per\u00edodo em que a esp\u00e9cie humana se tornou um agente de transforma\u00e7\u00f5es em larga escala, incluindo a global. N\u00e3o h\u00e1 um consenso sobre a data de in\u00edcio desse per\u00edodo, nem mesmo se ele existe, quando considerados alguns crit\u00e9rios geol\u00f3gicos. Ainda h\u00e1 muita discuss\u00e3o em torno dessa defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Independente das controv\u00e9rsias, \u00e9 quase consenso que nas \u00faltimas dezenas de milhares de anos os humanos t\u00eam afetado significativamente a biodiversidade, desempenhando pap\u00e9is relevantes em momentos de decl\u00ednio, como por exemplo na extin\u00e7\u00e3o da mega fauna (ca\u00e7a e uso do fogo), no desflorestamento e convers\u00e3o de habitats em larga escala (assentamentos e desenvolvimento da agricultura) e no aquecimento global (revolu\u00e7\u00e3o industrial). Tais altera\u00e7\u00f5es ambientais causaram e continuam causando ou acelerando a extin\u00e7\u00e3o de dezenas de centenas de esp\u00e9cies, muitas das quais ainda n\u00e3o se tem qualquer conhecimento, gerando um futuro de incertezas para a sobreviv\u00eancia e bem-estar da pr\u00f3pria esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>De acordo com a International Union for Conservation of Nature \u2013 IUCN, atualmente h\u00e1 mais de 32.000 esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o, o que representa cerca de 27% das esp\u00e9cies avaliadas at\u00e9 o momento, ou seja, pode haver muito mais em perigo do que imaginamos. Para muitos cientistas, dados como estes sugerem que estamos vivenciando um novo per\u00edodo de extin\u00e7\u00e3o em massa, com consequ\u00eancias ecol\u00f3gicas e evolutivas pouco conhecidas e nada animadoras.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3039306\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/25_11_especies_extincao_fonte_iucnredlistorg.jpg\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/25_11_especies_extincao_fonte_iucnredlistorg.jpg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/25_11_especies_extincao_fonte_iucnredlistorg-300x137.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/25_11_especies_extincao_fonte_iucnredlistorg-768x351.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"293\" \/><figcaption><em>Dados de esp\u00e9cies em extin\u00e7\u00e3o no mundo, segundo dados da International Union for Conservation of Nature \u2013 IUCN (Foto: IUCN Red List)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>De que ordem s\u00e3o os desafios para superar a crise ambiental, em escala mais ampla, que vivemos e qual o papel da preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Precisamos construir um futuro diferente para o meio ambiente, com base em pelo menos tr\u00eas pilares: engajamento (social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico); mudan\u00e7a de h\u00e1bitos; e desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Primeiro, n\u00e3o h\u00e1 como transformar a realidade em escala ampla sem pessoas engajadas e recursos. Para isso, \u00e9 preciso desenvolver pol\u00edticas p\u00fablicas e ferramentas que proporcionem a participa\u00e7\u00e3o efetiva da sociedade na resolu\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es ambientais importantes, tais como gerenciamento de res\u00edduos, gera\u00e7\u00e3o de energia, produ\u00e7\u00e3o de alimentos, moradia, entre outros. Somente de uma forma transversal e com a coopera\u00e7\u00e3o massiva da popula\u00e7\u00e3o teremos uma chance de reverter o processo de degrada\u00e7\u00e3o ambiental em curso.<\/p>\n<p>Adicionalmente, \u00e9 preciso insistir na mudan\u00e7a de h\u00e1bitos. Atualmente existem in\u00fameras iniciativas que visam o desenvolvimento de um estilo de vida sustent\u00e1vel, baseado em ci\u00eancia e nos desafios sociais, ambientais e econ\u00f4micos contempor\u00e2neos. Entender a realidade ambiental ao nosso redor e agir para melhor\u00e1-la \u00e9 cada vez mais necess\u00e1rio e urgente.<\/p>\n<p>Por fim, a ci\u00eancia e a tecnologia devem buscar melhorar a nossa compreens\u00e3o sobre a natureza e a nossa intera\u00e7\u00e3o com os ecossistemas, de forma a minimizar os impactos humanos na biosfera. Isso implica tamb\u00e9m em a\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, tendo em vista sua import\u00e2ncia estrutural no funcionamento dos ecossistemas e na provis\u00e3o de recursos e servi\u00e7os ambientais essenciais.<\/p>\n<p>Aparentemente, ainda n\u00e3o estamos no \u00e1pice da atual crise ambiental mas, se nada for feito para aliviar as press\u00f5es sobre os ecossistemas, bastar\u00e3o poucos s\u00e9culos para alcan\u00e7armos um patamar irrevers\u00edvel. Estamos diante de um dos maiores desafios da hist\u00f3ria humana, cabe a n\u00f3s encar\u00e1-lo antes que seja tarde demais para evitarmos um final tr\u00e1gico.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela sexta vez, desde que surgiu vida na Terra, estamos \u00e0 beira de extin\u00e7\u00e3o em<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Pela sexta vez, desde que surgiu vida na Terra, estamos \u00e0 beira de extin\u00e7\u00e3o em","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137754"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=137754"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137754\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=137754"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=137754"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=137754"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}