{"id":137621,"date":"2020-11-25T15:00:55","date_gmt":"2020-11-25T18:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=137621"},"modified":"2020-11-24T18:43:32","modified_gmt":"2020-11-24T21:43:32","slug":"populacao-brasileira-e-ameacada-pela-inseguranca-alimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/populacao-brasileira-e-ameacada-pela-inseguranca-alimentar\/","title":{"rendered":"Popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 amea\u00e7ada pela inseguran\u00e7a alimentar"},"content":{"rendered":"<h4><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-137622\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Pesquisadores buscam caminhos para combater a inseguran\u00e7a alimentar no Brasil, um dos principais produtores agropecu\u00e1rios do mundo<\/h4>\n<p>Reconhecido com o Nobel da Paz em 2020,\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/programa-de-alimentos-da-onu-ganha-nobel-da-paz\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">o Programa Mundial de Alimentos da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/a>\u00a0(PMA-ONU) estima que, neste ano, a fome atingir\u00e1 270 milh\u00f5es de pessoas nos 88 pa\u00edses em que o organismo internacional opera, um aumento de 82% em compara\u00e7\u00e3o com 2019. No Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, em 2017 e 2018 quatro em cada 10 fam\u00edlias n\u00e3o tiveram acesso di\u00e1rio regular e permanente a quantidade suficiente de comida. No mesmo per\u00edodo, mais de 10 milh\u00f5es de pessoas relataram ter passado fome \u2013 maior n\u00famero dos \u00faltimos 15 anos, conforme a Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares (POF), divulgada em setembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). A\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ecycle.com.br\/8777-inseguranca-alimentar.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">inseguran\u00e7a alimentar<\/a>\u00a0\u00e9 um problema que requer solu\u00e7\u00f5es multidisciplinares. Para reduzi-la, os caminhos apontados por pesquisadores ouvidos por\u00a0<i>Pesquisa FAPESP<\/i> envolvem pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda e investimentos em educa\u00e7\u00e3o, assim como incentivos \u00e0 agricultura familiar que permitam ampliar a disponibilidade de alimentos para consumo dom\u00e9stico e diminuir a fome no campo, onde a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave.<\/p>\n<p>Segundo o levantamento Produ\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola Municipal (PAM), elaborado pelo IBGE, em 2019 o valor da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola do pa\u00eds cresceu 5,1%, atingindo R$ 361 bilh\u00f5es, alta puxada pelos gr\u00e3os, que somaram R$ 212,2 bilh\u00f5es. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que o Brasil \u00e9 o maior produtor mundial de soja, tendo exportado 74 milh\u00f5es de toneladas em gr\u00e3os, no ano passado, quase o dobro dos 43 milh\u00f5es de toneladas consumidos localmente. O pa\u00eds tamb\u00e9m figura entre os principais exportadores de algod\u00e3o, milho, carne de frango e bovina. \u201cApesar de ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo, cerca de 40% da \u00e1rea plantada \u00e9 utilizada para o cultivo de soja e gado, gerando\u00a0<i>commodities<\/i>\u00a0que n\u00e3o reduzem a inseguran\u00e7a alimentar no pa\u00eds\u201d, observa a sanitarista Denise Oliveira, pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Bras\u00edlia e coordenadora do Observat\u00f3rio Brasileiro de H\u00e1bitos Alimentares.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar envolve o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente. Em 2004, a preval\u00eancia nacional de seguran\u00e7a alimentar inclu\u00eda 65,1% dos domic\u00edlios do pa\u00eds, crescendo para 77,4%, em 2013. Conforme dados da an\u00e1lise mais recente do IBGE, esse n\u00famero caiu para 63,3% das resid\u00eancias. Al\u00e9m disso, o levantamento mostrou que, em 2017 e 2018, 36,7% dos 68,9 milh\u00f5es de domic\u00edlios brasileiros apresentaram algum grau de inseguran\u00e7a alimentar. A inseguran\u00e7a alimentar grave, situa\u00e7\u00e3o em que fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam o que comer e, portanto, passam fome, aumentou 43,7% entre 2013 e 2018, subindo de 7,2 milh\u00f5es para 10,3 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Mulheres e pessoas pretas e pardas est\u00e3o entre os grupos mais vulner\u00e1veis. Das resid\u00eancias em condi\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar, 61,4% s\u00e3o chefiadas por homens. Tal preval\u00eancia se inverte na medida em que o n\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar sobe. Em 51,9% das casas com inseguran\u00e7a alimentar grave as mulheres s\u00e3o as principais provedoras. J\u00e1 em 15,8% do total de domic\u00edlios com inseguran\u00e7a alimentar grave, a pessoa de refer\u00eancia se autodeclarou preta, enquanto nas casas com seguran\u00e7a alimentar o percentual equivalente \u00e9 de 10%. Uma das colaboradoras t\u00e9cnicas do relat\u00f3rio sobre Seguran\u00e7a Alimentar da POF, a nutricionista Rosana Salles-Costa, do Instituto de Nutri\u00e7\u00e3o Josu\u00e9 de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a inseguran\u00e7a em domic\u00edlios chefiados por mulheres ou por pessoas pretas e pardas est\u00e1 relacionada \u00e0 desigualdade de renda e \u00e0 dificuldade de acesso a condi\u00e7\u00f5es est\u00e1veis de trabalho.<\/p>\n<p>No Brasil, a inseguran\u00e7a alimentar diz respeito principalmente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o. \u201cO n\u00famero de pessoas na extrema pobreza, ou seja, de fam\u00edlias que vivem com menos de R$ 145 mensais, \u00e9 muito pr\u00f3ximo daquele que abarca a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar grave\u201d, avalia o economista Francisco Menezes, coordenador de projetos do Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase) e pesquisador da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental (ONG) ActionAid. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad), do IBGE, indicou que em 2017 e 2018 eram 12 milh\u00f5es os brasileiros na extrema pobreza, enquanto a POF relativa ao mesmo per\u00edodo mostrou que a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar grave envolvia 10 milh\u00f5es de indiv\u00edduos. \u201cA inseguran\u00e7a alimentar grave atinge fam\u00edlias sem dinheiro para comprar comida. Por isso, pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda, como o Bolsa Fam\u00edlia, s\u00e3o fundamentais no combate \u00e0 fome\u201d, sustenta Salles-Costa, da UFRJ e que h\u00e1 10 anos coordena o grupo que investiga os efeitos de pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda no combate \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do engenheiro-agr\u00f4nomo Jos\u00e9 Graziano da Silva, diretor-geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO) entre 2012 e 2019, o agravamento da inseguran\u00e7a alimentar no pa\u00eds decorre, em primeiro lugar, do baixo crescimento econ\u00f4mico observado desde meados de 2008, com o consequente aumento no desemprego e piora nos n\u00edveis de renda. Outro fator, na perspectiva de Menezes, do Ibase, envolve o enfraquecimento de pol\u00edticas p\u00fablicas de seguran\u00e7a alimentar, que vem tendo seu or\u00e7amento reduzido sucessivamente, desde 2014. Um exemplo \u00e9 o Programa para Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), do governo federal, que adquire mantimentos da agricultura familiar e os destina a pessoas em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar e nutricional, \u00e0 rede socioassistencial, aos equipamentos p\u00fablicos de seguran\u00e7a alimentar e nutricional e \u00e0 rede p\u00fablica e filantr\u00f3pica de ensino. O programa, que chegou a contar com R$ 2 bilh\u00f5es do or\u00e7amento da Uni\u00e3o, hoje tem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o R$ 200 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em texto publicado no site da ONG Federa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os para Assist\u00eancia Social e Educacional (Fase), a antrop\u00f3loga Maria Em\u00edlia Pacheco, que foi presidente do Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea) durante quatro anos, calcula que entre 2011 e 2016 as compras p\u00fablicas por interm\u00e9dio do programa beneficiaram cerca de 730 mil fam\u00edlias de agricultores, com a aquisi\u00e7\u00e3o de 2,1 milh\u00f5es de toneladas de alimentos, que permitiram atender a 104 mil entidades socioassistenciais em todo o pa\u00eds. \u201cEm 2019, foram desestruturadas institui\u00e7\u00f5es fundamentais para o desenvolvimento e a execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de seguran\u00e7a alimentar, entre elas o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social, que foi incorporado ao Minist\u00e9rio da Cidadania, e o pr\u00f3prio Consea\u201d, observa Menezes.<\/p>\n<p>Em um fen\u00f4meno aparentemente paradoxal, a fome tem afetado de forma mais severa as popula\u00e7\u00f5es rurais do que as urbanas, conforme identificado pelo levantamento do IBGE. Entre 2017 e 2018, a inseguran\u00e7a alimentar grave atingiu 7,1% dos domic\u00edlios da \u00e1rea rural e 4,1% das fam\u00edlias que viviam nas cidades. A situa\u00e7\u00e3o deriva principalmente do enfraquecimento das pol\u00edticas de incentivo \u00e0 agricultura familiar, na avalia\u00e7\u00e3o do cientista pol\u00edtico Thiago Lima, do Departamento de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB). Ele observa que desde meados dos anos 1990 o pa\u00eds optou por se tornar um grande exportador de\u00a0<i>commodities<\/i>\u00a0como soja, milho, arroz, carne, a\u00e7\u00facar, em uma estrat\u00e9gia de revers\u00e3o da baixa reserva cambial. Ao mesmo tempo, o per\u00edodo foi marcado por um forte crescimento do leste asi\u00e1tico, que tamb\u00e9m passou a adotar uma dieta mais ocidentalizada, rica em carnes, latic\u00ednios e a\u00e7\u00facares, aquecendo a demanda do agroneg\u00f3cio brasileiro, que desde ent\u00e3o vem aumentando suas exporta\u00e7\u00f5es. \u201cEssa din\u00e2mica afetou o mercado dom\u00e9stico, na medida em que cada vez mais produtores se adaptaram para atender ao mercado externo, investindo em monoculturas e reduzindo a \u00e1rea plantada de arroz e feij\u00e3o, por exemplo, voltada ao consumo local\u201d, diz.<\/p>\n<p>De acordo com Lima, durante a primeira d\u00e9cada dos anos 2000, o pa\u00eds apoiou simultaneamente o agroneg\u00f3cio e a produ\u00e7\u00e3o de alimentos para o mercado nacional. \u201cNesse per\u00edodo, o bom desempenho econ\u00f4mico e a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de alimenta\u00e7\u00e3o escolar, de aquisi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de agricultores familiares e da constru\u00e7\u00e3o de cisternas para o semi\u00e1rido, al\u00e9m da amplia\u00e7\u00e3o de assentamentos rurais, permitiram reduzir a quantidade de famintos no pa\u00eds\u201d, detalha o cientista pol\u00edtico. Segundo ele, depois de 2016 o pa\u00eds passou a priorizar a exporta\u00e7\u00e3o de alimentos, em detrimento do abastecimento local.<\/p>\n<p>Em contraponto, o economista Felippe Serigati, da Escola de Economia de S\u00e3o Paulo da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV-Eesp), enfatiza a import\u00e2ncia do agroneg\u00f3cio no sentido de garantir o aumento da disponibilidade de alimentos nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. \u201cEntre 1960 e 1980, a inseguran\u00e7a alimentar no Brasil resultava da oferta restrita de mantimentos. Havia falta de produtos e o pa\u00eds tinha de importar itens b\u00e1sicos\u201d, destaca Serigati, que coordena o mestrado profissional em agroneg\u00f3cio da FGV-Eesp. De acordo com o economista, a partir da d\u00e9cada de 1980, o desenvolvimento de tecnologias permitiu ampliar a produ\u00e7\u00e3o local, o que colaborou tanto para a redu\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a alimentar quanto para o fortalecimento das exporta\u00e7\u00f5es. Em rela\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio recente, de agravamento da inseguran\u00e7a alimentar, ele aponta a redu\u00e7\u00e3o nos or\u00e7amentos dom\u00e9sticos como um dos principais fatores explicativos.<\/p>\n<p>Serigati tamb\u00e9m argumenta que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma linha divis\u00f3ria precisa entre o papel da agricultura familiar e do agroneg\u00f3cio na seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o, na medida em que ambos est\u00e3o relacionados. \u201cPequenos propriet\u00e1rios de Santa Catarina, por exemplo, t\u00eam uma produ\u00e7\u00e3o diversificada de gr\u00e3os e atuam com a cria\u00e7\u00e3o de frangos e su\u00ednos, mas compram milho cultivado por grandes produtores para alimentar seus animais\u201d, observa. Al\u00e9m disso, ele pondera que h\u00e1 pequenos agricultores que abastecem tanto o agroneg\u00f3cio como o mercado dom\u00e9stico. Um exemplo s\u00e3o os produtores de frutas do interior de S\u00e3o Paulo e do vale do Rio S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>Agricultores familiares s\u00e3o aqueles que possuem at\u00e9 quatro m\u00f3dulos fiscais \u2013 unidade de medida agr\u00e1ria expressa em hectares que varia conforme cada munic\u00edpio \u2013, trabalham com m\u00e3o de obra da fam\u00edlia e t\u00eam sua renda familiar vinculada ao pr\u00f3prio estabelecimento. Segundo dados do \u00faltimo Censo Agropecu\u00e1rio, divulgados em 2017, 77% dos mais de 5 milh\u00f5es de estabelecimentos de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola do pa\u00eds pertencem a agricultores familiares, que respondem por 23% das \u00e1reas cultivadas. De acordo com o soci\u00f3logo F\u00e1bio Alves, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), tal grupo responde por 70% da produ\u00e7\u00e3o de mandioca, 48% da produ\u00e7\u00e3o de banana, 60% da produ\u00e7\u00e3o de hortali\u00e7as, 64% da produ\u00e7\u00e3o de leite e 51% da cria\u00e7\u00e3o de su\u00ednos, considerados produtos fundamentais na cultura alimentar do brasileiro. Alves comenta ainda que a agricultura familiar emprega dois ter\u00e7os da m\u00e3o de obra no campo, gerando 10 milh\u00f5es de ocupa\u00e7\u00f5es. \u201cAl\u00e9m de produzir o alimento que abastece a mesa dos brasileiros, os pequenos agricultores tamb\u00e9m criam empregos e produzem para o pr\u00f3prio consumo\u201d, explica o pesquisador, que integra uma equipe de trabalho dedicada a an\u00e1lises de desenvolvimento rural.<\/p>\n<h2>Li\u00e7\u00f5es da pandemia<\/h2>\n<p>\u201cEstamos observando aumentos na preval\u00eancia de desnutri\u00e7\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o que atendemos\u201d, alerta a pediatra Maria Paula de Albuquerque, gerente-geral do Centro de Recupera\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Nutricional da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Cren-Unifesp). O Cren atende a fam\u00edlias que vivem com menos de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos mensais e moram nos distritos da cidade de S\u00e3o Paulo com \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) muito baixo: S\u00e3o Matheus, S\u00e3o Miguel Paulista, Cidade Tiradentes, Lajeado, Jardim \u00c2ngela e Brasil\u00e2ndia. Albuquerque observa que, entre a popula\u00e7\u00e3o desses lugares, a tend\u00eancia \u00e9 de piora em todas as formas de m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o. \u201cEm 2019, 80% das crian\u00e7as que atend\u00edamos tinham problemas de obesidade. Agora, elas tamb\u00e9m est\u00e3o chegando com outras formas de m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o, incluindo baixa estatura e magreza\u201d, conta. Segundo ela, os dist\u00farbios podem estar relacionados ao consumo de determinados produtos industrializados ou ultraprocessados, \u00e0s vezes mais baratos se comparados com a comida fresca e saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>A farmac\u00eautica-bioqu\u00edmica Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco, do Departamento de Alimentos e Nutri\u00e7\u00e3o da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da Universidade de S\u00e3o Paulo (FCF-USP) e coordenadora do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (Cepid) apoiados pela FAPESP, destaca que certos alimentos industrializados podem agravar o problema da nutri\u00e7\u00e3o errada ou da desnutri\u00e7\u00e3o e, por isso, devem ser evitados. \u201cPor outro lado, os alimentos industrializados s\u00e3o importantes para erradicar a fome e a inseguran\u00e7a alimentar, desde que o processamento garanta sua saudabilidade, funcionalidade e seguran\u00e7a\u201d, observa.<\/p>\n<p>De acordo com dados da FAO, lembrados por Graziano, no Brasil uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel chega a custar quatro vezes mais do que uma alimenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, ou seja, algo em torno de R$ 12 por refei\u00e7\u00e3o, valor inacess\u00edvel para grande parte da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 considerada uma dieta saud\u00e1vel aquela que prioriza o consumo de gorduras insaturadas e dispensa gorduras trans industrialmente produzidas; inclui menos de 10% das calorias di\u00e1rias provenientes de a\u00e7\u00facares adicionados; garante o consumo di\u00e1rio de pelo menos 400 gramas de frutas e vegetais e menos do que 5 gramas de sal, al\u00e9m de uma pequena quantidade de alimentos de origem animal.<\/p>\n<p>\u201cPode parecer um paradoxo que pessoas com falta de comida apresentem n\u00edveis de obesidade, mas isso est\u00e1 relacionado com a baixa qualidade do produto ingerido\u201d, destaca a nutricionista Sem\u00edramis Martins \u00c1lvares Domene, do Instituto Sa\u00fade e Sociedade da Unifesp,\u00a0<i>campus<\/i>\u00a0Baixada Santista. Ela menciona estudo realizado entre 2015 e 2017 por pesquisadores da Unifesp, que analisou o consumo de alimentos ultraprocessados e sua associa\u00e7\u00e3o com a depend\u00eancia alimentar em crian\u00e7as de baixa renda que apresentam excesso de peso. Foram estudados 139 indiv\u00edduos entre 8 e 10 anos, matriculados em dois Centros Educacionais Unificados (CEU) da cidade de S\u00e3o Paulo. Conforme artigo publicado em 2019 na revista\u00a0<i>Appetite<\/i>\u00a0e que apresenta parte dos resultados da pesquisa, o principal achado entre crian\u00e7as com excesso de peso foi que o consumo frequente de biscoitos, refrigerantes e salsichas est\u00e1 associado \u00e0 ocorr\u00eancia de v\u00edcio alimentar, presente em 29% das crian\u00e7as com excesso de peso. \u201cO estudo constatou que essas crian\u00e7as apresentam um comportamento de consumo excessivo em rela\u00e7\u00e3o a esses alimentos que se assemelha ao observado entre dependentes qu\u00edmicos de drogas\u201d, afirma a pesquisadora. De acordo com Domene, a identifica\u00e7\u00e3o dos alimentos que podem estar associados ao v\u00edcio alimentar \u00e9 importante para o correto tratamento e preven\u00e7\u00e3o da obesidade infantil, um dos maiores problemas de sa\u00fade p\u00fablica do mundo.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s iniciativas governamentais para melhorar a seguran\u00e7a alimentar e nutricional das crian\u00e7as brasileiras, Albuquerque menciona como uma das mais importantes o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (Pnae), que prev\u00ea o repasse de recursos suplementares a estados e munic\u00edpios, destinados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o escolar e a\u00e7\u00f5es educativas. \u201cCom a iniciativa, muitas crian\u00e7as passaram a receber 70% de suas necessidades nutricionais na pr\u00f3pria escola\u201d, detalha. Albuquerque comenta que os primeiros cinco anos de vida de uma crian\u00e7a s\u00e3o decisivos para condicionar seus h\u00e1bitos alimentares. Experimentar epis\u00f3dios frequentes de escassez de alimentos durante a inf\u00e2ncia pode causar danos irrevers\u00edveis ao desenvolvimento f\u00edsico e cognitivo da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Atento a esse fato, o Cren realiza visitas peri\u00f3dicas a fam\u00edlias nos distritos em que atua. \u201cDurante a pandemia, fizemos essas visitas para entender como elas estavam usando os recursos do aux\u00edlio emergencial\u201d, conta. A pediatra relata que as fam\u00edlias que aderiram \u00e0 proposta de alimenta\u00e7\u00e3o baseada em produtos frescos e saud\u00e1veis est\u00e3o registrando impactos positivos no peso e na altura de suas crian\u00e7as e reduzindo seus n\u00edveis de inseguran\u00e7a alimentar. O consenso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia do consumo de produtos frescos n\u00e3o reduz o papel da ind\u00fastria aliment\u00edcia. Deve-se ao desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, incorporado pelo setor, a possibilidade de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o em grande escala de produtos consumidos em abund\u00e2ncia no mundo todo como caf\u00e9, cacau, cevada, soja e trigo.<\/p>\n<h2>Novo curr\u00edculo<\/h2>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com quest\u00f5es relacionadas \u00e0 seguran\u00e7a alimentar tem gerado mudan\u00e7as nos curr\u00edculos das faculdades de engenharia de alimentos. \u00c9 o caso, por exemplo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que reformulou a grade curricular da gradua\u00e7\u00e3o para incluir discuss\u00f5es sobre sustentabilidade e implica\u00e7\u00f5es sociais no processo de produ\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de comida. Depois de dois anos de prepara\u00e7\u00e3o, o novo curr\u00edculo come\u00e7ou a vigorar em 2020. \u201cUma preocupa\u00e7\u00e3o crescente tanto nos cursos de engenharia de alimentos como na pr\u00f3pria ind\u00fastria aliment\u00edcia tem sido investigar tecnologias que permitam reduzir o desperd\u00edcio de comida, ampliando sua durabilidade sem causar danos ao meio ambiente ou adicionar conservantes qu\u00edmicos nos produtos\u201d, detalha o cientista de alimentos Anderson de Souza Sant\u2019Ana, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. Segundo ele, em pa\u00edses em desenvolvimento como o Brasil, o desperd\u00edcio de comida pode chegar a 30% de tudo o que \u00e9 produzido, incluindo tanto a colheita quanto as sobras desperdi\u00e7adas em feiras, supermercados, restaurantes e nos pr\u00f3prios lares.<\/p>\n<p>Projetos: 1. FoRC \u2013 Centro de Pesquisa em Alimentos (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/58574\/forc-centro-de-pesquisa-em-alimentos\/?q=2013\/07914-8\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">n\u00b0 2013\/07914-8<\/a>); Modalidade Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o \u2013 CEPIDs; Pesquisador respons\u00e1vel Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco (USP); Investimento R$ 39.436.780,80. 2. Estudo da efetividade de interven\u00e7\u00e3o multidisciplinar em adolescentes com excesso de peso no Centro de Recupera\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Nutricional \u2013 CREN: projeto eu aprendi, eu ensinei. (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/89223\/estudo-da-efetividade-de-intervencao-multidisciplinar-em-adolescentes-com-excesso-de-peso-no-centro\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">n\u00b0 14\/22351\u20132<\/a>); Modalidade Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Regular; Pesquisador respons\u00e1vel Ana Lydia Sawaya (Unifesp); Investimento R$ 205.171,66.<\/p>\n<p>Artigo cient\u00edfico: FILGUEIRAS, A.R.\u00a0<i>et al<\/i>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0195666318310985\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">Exploring the consumption of ultra-processed foods and its association with food addiction in overweight children<\/a>. Appetite. n. 135, p. 137-145. abr. 2019.<\/p>\n<p>Livro: LIMA, T. (org).\u00a0<i>Seguran\u00e7a Alimentar e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/i>. Editora da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB): Jo\u00e3o Pessoa, 2019.<\/p>\n<p>Documentos:\u00a0<a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/index.php\/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=2101749\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares (POF) 2017-2018 \u2013 An\u00e1lise da Seguran\u00e7a Alimentar no Brasil<\/a>. Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, Rio de Janeiro: 2020. Produ\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola Municipal (PAM), Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, Rio de Janeiro: 2020. Pesquisa Nacional de Sa\u00fade, Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, Rio de Janeiro: 2020.\u00a0<a href=\"https:\/\/censos.ibge.gov.br\/agro\/2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Censo Agropecu\u00e1rio<\/a>, Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, Rio de Janeiro: 2017. PACHECO, M. E. L.\u00a0<a href=\"https:\/\/fase.org.br\/pt\/informe-se\/artigos\/vetos-ao-pl-735-negam-cidadania-e-o-direito-a-alimentacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">Vetos ao PL 735 negam cidadania e o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o<\/a>. Federa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os para Assist\u00eancia Social e Educacional. On-line. Ago, 2020.<\/p>\n<div><i>Este artigo foi escrito originalmente para a\u00a0<a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">Ag\u00eancia FAPESP<\/a>\u00a0est\u00e1 licenciado sob\u00a0<a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">CC-BY-NC-ND 4.0 license<\/a>. Leia o\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/paradoxo-a-mesa\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener noreferrer\">original<\/a><\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores buscam caminhos para combater a inseguran\u00e7a alimentar no Brasil, um dos principais produtores agropecu\u00e1rios<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":137622,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fogao.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Pesquisadores buscam caminhos para combater a inseguran\u00e7a alimentar no Brasil, um dos principais produtores agropecu\u00e1rios","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137621"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=137621"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137621\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/137622"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=137621"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=137621"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=137621"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}