{"id":137054,"date":"2020-11-13T19:30:17","date_gmt":"2020-11-13T22:30:17","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=137054"},"modified":"2020-11-13T19:30:17","modified_gmt":"2020-11-13T22:30:17","slug":"entrevista-com-arnaud-montebourg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-com-arnaud-montebourg\/","title":{"rendered":"Entrevista com Arnaud Montebourg"},"content":{"rendered":"<h1>\u201cA globaliza\u00e7\u00e3o deve ser objeto de um debate democr\u00e1tico\u201d.<\/h1>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arnald.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-137055\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arnald.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arnald.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arnald-300x149.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O ex-ministro da\u00a0<strong>Economia e Recupera\u00e7\u00e3o Produtiva<\/strong>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/562237-apos-os-eua-e-a-vez-da-franca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Arnaud Montebourg<\/a>\u00a0acaba de publicar\u00a0<strong>L&#8217;engagement<\/strong>\u00a0(O compromisso, Grasset), um relato, vista de dentro, dos seus anos no minist\u00e9rio. Deixaremos aos comentaristas pol\u00edticos e aos cidad\u00e3os a tarefa de apreciarem suas duras cr\u00edticas a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552167-o-socialismo-de-hollande-se-converte-em-liberal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fran\u00e7ois Hollande<\/a>, indeciso chefe de Estado que se preocupa em n\u00e3o ofender o grande empresariado. Mesmo quando sabemos o fim da hist\u00f3ria (<strong>Florange<\/strong>,\u00a0<strong>Alstom<\/strong>&#8230;), o relato \u00e9 fascinante.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de\u00a0<strong>Christian Chavagneux<\/strong>, publicada por\u00a0<strong>Alternatives \u00c9conomiques<\/strong>, 05-11-2020. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de\u00a0<strong>Andr\u00e9 Langer<\/strong>.<\/p>\n<p>O interesse do livro reside na quest\u00e3o de fundo que ele coloca: um Estado como a\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>\u00a0ainda tem os meios para uma interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica aut\u00f4noma no capitalismo globalizado? V\u00e1rios obst\u00e1culos se colocam no caminho do pol\u00edtico que deseja controlar os efeitos negativos da globaliza\u00e7\u00e3o: a enarquia [da sigla\u00a0<strong>ENA<\/strong>\u00a0\u2013\u00a0<strong>Escola Nacional de Administra\u00e7\u00e3o\u00a0<\/strong>\u2013 e do grego\u00a0<em>arkh\u00ea<\/em>, poder, comando. A enarquia designa, com uma conota\u00e7\u00e3o pejorativa, o poder e a influ\u00eancia dos ex-alunos da\u00a0<strong>ENA<\/strong>\u00a0no alto servi\u00e7o p\u00fablico], a\u00a0<strong>Europa<\/strong>, o poder das empresas e o poder dos\u00a0<strong>Estados Unidos<\/strong>. Mas \u00e9 poss\u00edvel agir, o \u201cmade in France\u201d \u00e9 um caminho, mas h\u00e1 outros. Porque a resposta final \u00e9 positiva: os Estados podem agir para controlar a globaliza\u00e7\u00e3o. Como? At\u00e9 onde? Com que meios? Estas s\u00e3o algumas das perguntas que queremos fazer a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/535378-para-o-economista-gael-giraud-qa-politica-de-austeridade-equivoca-se-no-diagnosticoq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Arnaud Montebourg<\/a>.<\/p>\n<h3>Eis a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente apresentada como uma din\u00e2mica econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica. Mas, na sua opini\u00e3o, as pol\u00edticas p\u00fablicas desempenharam um papel fundamental.<\/strong><\/p>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o dos governos que decidiram colocar suas pr\u00f3prias economias e modelos sociais em concorr\u00eancia. Agora sabemos os resultados: a cria\u00e7\u00e3o e a fortifica\u00e7\u00e3o de imp\u00e9rios, com pot\u00eancias enfurecidas, a americana e a chinesa. Sendo esta \u00faltima baseada em um capitalismo de vigil\u00e2ncia contra o qual devemos defender nossa prefer\u00eancia por uma sociedade democr\u00e1tica, participativa e livre, porque \u00e9 feita de freios e contrapesos. Devemos voltar \u00e0 hiperglobaliza\u00e7\u00e3o que se desenvolveu devido \u00e0s escolhas err\u00f4neas de uma gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes \u00e0 frente de quase todos os Estados do mundo. Err\u00f4neas, porque essas decis\u00f5es fragilizaram as economias e as sociedades dos antigos pa\u00edses industrializados.<\/p>\n<p>Foi necess\u00e1ria a crise dos\u00a0<em>subprime<\/em>\u00a0para observar os sinais de retra\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o: o com\u00e9rcio internacional agora cresce mais lentamente do que a produ\u00e7\u00e3o, o encurtamento das cadeias de valor, uma queda nos fluxos internacionais de capital. Dito isso, o movimento de pessoas \u00e9 cada vez mais controlado hoje, enquanto o de bens e capitais fica sem qualquer controle.<\/p>\n<p><strong>Esse in\u00edcio de decl\u00ednio da globaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 resultado de decis\u00f5es estatais?<\/strong><\/p>\n<p>Este foi, inicialmente, o resultado da grande recess\u00e3o de 2008-2009. Em seguida, a chegada ao poder de l\u00edderes pol\u00edticos, apoiados por classes m\u00e9dias empobrecidas e revoltadas, com um mandato para encolher o mundo. As classes m\u00e9dias, atingidas pela austeridade salarial e pela crescente remunera\u00e7\u00e3o do capital, se rebelaram.<\/p>\n<p>De acordo com um estudo da\u00a0<strong>McKinsey<\/strong>\u00a0(que n\u00e3o \u00e9 propriamente um escrit\u00f3rio bolchevique!), 580 milh\u00f5es de fam\u00edlias da\u00a0<strong>OCDE<\/strong>, 70% do total, viram suas rendas estagnar ou diminuir na \u00faltima d\u00e9cada, em compara\u00e7\u00e3o com 10 milh\u00f5es na d\u00e9cada anterior. E, durante este per\u00edodo, 82% das riquezas criadas foram para o 1% mais rico. Este aumento na desigualdade alimentou os coletes amarelos, assim como o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/557608-o-brexit-e-a-globalizacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brexit<\/a>\u00a0ou a vit\u00f3ria de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/maisnoticias\/noticias?id=562173:entrevista-especial-com-idelber-avelar&amp;catid=159\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Trump<\/a>. Agora, a globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 come\u00e7ando a encolher em consequ\u00eancia de decis\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>Ao mesmo tempo, n\u00f3s nunca tivemos um mundo de liberalismo econ\u00f4mico pleno. A globaliza\u00e7\u00e3o, o senhor escreve, \u201ctodos procuraram imp\u00f4-la aos outros ao mesmo tempo que se protegem dela\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma const\u00e2ncia na hist\u00f3ria. As grandes pot\u00eancias imp\u00f5em a outros pa\u00edses a abertura das fronteiras aos seus produtos quando pa\u00edses m\u00e9dios como o nosso t\u00eam que aceitar as regras dos outros. \u00c9 por isso que hoje a\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>\u00a0\u00e9 o pa\u00eds mais aberto da\u00a0<strong>Uni\u00e3o Europeia<\/strong>, ela pr\u00f3pria a zona mais aberta do mundo, tudo em nosso detrimento.<\/p>\n<p><strong>Aqueles que desejam dominar o grau de globaliza\u00e7\u00e3o veem v\u00e1rios obst\u00e1culos em seu caminho. Um deles, o senhor diz, \u00e9 a casta dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos do alto escal\u00e3o. No entanto, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1970, eles eram reguladores estatais e depois se tornaram liberais. Eles n\u00e3o s\u00e3o apenas um sintoma das ideias dominantes, eles mudar\u00e3o novamente se a\u00a0<em>doxa<\/em>\u00a0mudar?<\/strong><\/p>\n<p>Eles s\u00e3o o sintoma e o problema. Eles refletem as ideias da classe dominante e sua separa\u00e7\u00e3o do resto da sociedade. Os \u201coliguenarcas\u201d [uma mistura de oligarca com enarca] expressam um sentimento de superioridade, acreditam que est\u00e3o investidos do interesse geral, mas na realidade imp\u00f5em uma ideologia cuja ideia central \u00e9 que o Estado deve ceder \u00e0 economia e \u00e0s finan\u00e7as. Eles o fazem em nome da\u00a0<strong>Uni\u00e3o Europeia<\/strong>, que imp\u00f4s uma camisa de for\u00e7a jur\u00eddico-pol\u00edtica que constrange a a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos Estados.<\/p>\n<p><strong>As coisas est\u00e3o mudando entre a Covid e a nova Comiss\u00e3o Europeia?<\/strong><\/p>\n<p>A revolta est\u00e1 se formando. 60% das francesas e dos franceses consideram que a globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema, um ponto de vista cada vez mais frequente na\u00a0<strong>Europa<\/strong>. Os partidos extremistas de direita est\u00e3o surfando nessa situa\u00e7\u00e3o e se aproximando perigosamente do poder. A\u00a0<strong>Uni\u00e3o Europeia<\/strong>\u00a0est\u00e1 \u00e0 procura de solu\u00e7\u00f5es. O primeiro a se mexer foi o\u00a0<strong>Banco Central Europeu<\/strong>, que soube n\u00e3o se manter fiel \u00e0\u00a0<em>doxa<\/em>\u00a0monetarista da direita alem\u00e3. Mas a pol\u00edtica fiscal n\u00e3o foi seguida. Consequ\u00eancias: as massas de dinheiro despejadas pelo\u00a0<strong>Banco Central<\/strong>\u00a0serviram menos \u00e0 economia do que aos mercados financeiros e ao aumento da riqueza dos mais ricos.<\/p>\n<p>Claro, a\u00a0<strong>Covid<\/strong>\u00a0implodiu as restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias. Mas como ser\u00e1 gerada amanh\u00e3 uma d\u00edvida, p\u00fablica e privada, que deve ser reconhecida como n\u00e3o reembols\u00e1vel, uma vez que \u00e9 abismal? Na\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>, os empr\u00e9stimos garantidos pelo Estado salvaram as empresas, mas ao custo de 130 bilh\u00f5es de euros em endividamento adicional. Um quarto das empresas de m\u00e9dio porte afirma que ter\u00e1 dificuldades para pagar o empr\u00e9stimo garantido pelo Estado.<\/p>\n<p>Teremos de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para este problema, e isso em toda a\u00a0<strong>Europa<\/strong>. Ningu\u00e9m ainda colocou esta quest\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica e privada no centro dos debates europeus. S\u00f3 quando atingirmos o muro da verdade da d\u00edvida \u00e9 que saberemos se a vis\u00e3o alem\u00e3 do retorno \u00e0 austeridade continua a prevalecer ou n\u00e3o, e se a Europa realmente mudou.<\/p>\n<p><strong>Controlar a globaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m significa ser capaz de enfrentar o poder das multinacionais. A Fran\u00e7a disp\u00f5e dos meios para isso?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que sim. A\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>\u00a0tem multinacionais e o Estado deve fazer mais para interagir com elas. Podemos constatar que, em todo o mundo, as alian\u00e7as entre poderes pol\u00edticos e os grandes atores privados representam um fator de poder estrat\u00e9gico para ganhar mercados externos e consolidar o seu mercado interno.<\/p>\n<p>Podemos nos proteger dos ataques de empresas estrangeiras que querem comprar empresas nacionais? Aqui, novamente, a resposta \u00e9 sim. Muitos Estados o fazem e a\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>\u00a0tem os instrumentos jur\u00eddicos para isso. Ela n\u00e3o tem l\u00edderes pol\u00edticos com a coragem necess\u00e1rio para tanto.<\/p>\n<p>Vamos mais longe: poderia a\u00a0<strong>Europa<\/strong>, por exemplo, conseguir limitar o poder dos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/554868-a-europa-contra-os-gigantes-tecnologicos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gafa<\/a>? Sim, isso vir\u00e1 e em pouco tempo. Porque os pr\u00f3prios americanos querem desmantel\u00e1-los, porque a\u00a0<strong>Comiss\u00e3o Europeia<\/strong>\u00a0age na mesma dire\u00e7\u00e3o ao querer atacar as posi\u00e7\u00f5es dominantes. Por exemplo, \u00e9 inaceit\u00e1vel que as empresas dependam da pol\u00edtica de indexa\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/589782-o-google-ocupa-muito-espaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Google<\/a>\u00a0para seu faturamento na web. Ou que o\u00a0<strong>Facebook<\/strong>\u00a0se beneficia dos dados pessoais dos usu\u00e1rios sem pagar por eles. A pr\u00f3xima fronteira da Europa consiste em questionar os abusos de posi\u00e7\u00e3o dominante dos\u00a0<strong>Gafa<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Mas a Europa n\u00e3o tem alternativa tecnol\u00f3gica para oferecer?<\/strong><\/p>\n<p>Na opini\u00e3o dos especialistas do setor que consultei, temos tudo no local: financiamento, recursos humanos, cient\u00edficos, matem\u00e1ticos e algor\u00edtmicos. \u00c9 preciso decidir faz\u00ea-lo, grandes industriais e Estados devem decidir se unir para financiar uma opera\u00e7\u00e3o de substitui\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Em seu livro, o senhor abre v\u00e1rias vias de resist\u00eancia aos efeitos negativos da globaliza\u00e7\u00e3o. O senhor se tornou o arauto da primeira, o \u201cmade in France\u201d. Uma de suas dimens\u00f5es \u00e9 o resgate de empresas em dificuldades. At\u00e9 onde isso \u00e9 poss\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>Em tempos de recess\u00e3o econ\u00f4mica, o papel do Estado \u00e9 organizar o recuo em boa ordem com um objetivo: a preserva\u00e7\u00e3o a todo custo dos instrumentos de trabalho e do saber-fazer. Todos precisam assumir uma parte das perdas, incluindo os dirigentes, os acionistas, os trabalhadores \u2013 n\u00e3o podemos salvar todos os empregos em todos os lugares. Mas \u00e9 preciso preservar os instrumentos industriais de produ\u00e7\u00e3o, o que os alem\u00e3es conseguiram depois da crise de 2008. Foi o que fizemos com o empr\u00e9stimo garantido pelo Estado, mas que ter\u00e1 que se transformar em fundos pr\u00f3prios para as empresas consideradas estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p><strong>O \u201cmade in France\u201d tamb\u00e9m significa construir as ind\u00fastrias do futuro. A este respeito, o senhor mostra bem como o dinheiro p\u00fablico \u00e9 necess\u00e1rio para a inova\u00e7\u00e3o privada.<\/strong><\/p>\n<p>O dinheiro p\u00fablico tem duas vantagens: interessa-se menos pelo risco e \u00e9 paciente, pode ver longe, duas virtudes essenciais. A coopera\u00e7\u00e3o entre o setor p\u00fablico e privado \u00e9 fundamental para a constru\u00e7\u00e3o do futuro.<\/p>\n<p>Deixe-me dar um exemplo: independente dos debates que suscitou, o\u00a0<strong>5G<\/strong>\u00a0est\u00e1 chegando. Como voc\u00ea reconstr\u00f3i a\u00a0<strong>Alcatel<\/strong>, que desapareceu, para n\u00e3o ter que gastar dezenas de bilh\u00f5es para comprar equipamentos chineses? Precisamos de um Estado operacional, que coloque os industriais interessados em torno da mesa e organize a ordem p\u00fablica para os materiais necess\u00e1rios. E que supere todos os processos burocr\u00e1ticos dos mercados p\u00fablicos. Nessas \u00e1reas, o Estado n\u00e3o sabe agir com rapidez, \u00e9 incompetente e nos arru\u00edna.<\/p>\n<p><strong>Mas como fazer as escolhas certas? Quando ministro, o senhor lan\u00e7ou planos industriais, especialmente na ind\u00fastria automobil\u00edstica, uma ind\u00fastria do s\u00e9culo XX, ou na avia\u00e7\u00e3o, cujo futuro parece menos certo. No entanto, s\u00e3o bilh\u00f5es gastos.<\/strong><\/p>\n<p>Temos que criar tudo o que n\u00e3o temos se precisarmos e garantir a nossa independ\u00eancia, este \u00e9 o princ\u00edpio. N\u00e3o estou seguro se o autom\u00f3vel est\u00e1 ultrapassado, pois \u00e9 um instrumento de liberdade individual. Iremos ser menos propriet\u00e1rios de carros, vamos compartilh\u00e1-los, ele ser\u00e1 intermodal (rodovi\u00e1rio e ferrovi\u00e1rio), etc., mas permanecer\u00e1. O avi\u00e3o el\u00e9trico, h\u00edbrido ou n\u00e3o, ser\u00e1 menos poluente e mais silencioso, ser\u00e1 \u00fatil. O que \u00e9 preciso fazer em termos tecnol\u00f3gicos \u00e9 ter cuidado para n\u00e3o fazer escolhas muito precoces. Devemos antecipar os desejos e necessidades da sociedade para investir com sabedoria.<\/p>\n<p><strong>Precisamos de um pouco de protecionismo? Na Fran\u00e7a? Na Europa?<\/strong><\/p>\n<p>Ambos. Na\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>, n\u00e3o temos mais uma pol\u00edtica comercial. Ela foi abandonada na\u00a0<strong>Europa<\/strong>. Devemos ser capazes de recuperar as margens de manobra, n\u00e3o contra a\u00a0<strong>Europa<\/strong>, mas sem ela, se n\u00e3o pudermos avan\u00e7ar juntos. H\u00e1 anos que falamos sobre a introdu\u00e7\u00e3o de um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/600792-o-planejamento-ecologico-e-social-deve-substituir-o-neoliberalismo-entrevista-com-henri-sterdyniak\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">imposto sobre o carbono nas fronteiras<\/a>, mas n\u00e3o estamos avan\u00e7ando. Por que n\u00e3o coloc\u00e1-lo em pr\u00e1tica nas fronteiras francesas para produtos n\u00e3o europeus, como imaginamos a partir da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591214-brotando-uma-guerra-digital-entre-donald-trump-e-emmanuel-macron\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">taxa Gafa<\/a>?<\/p>\n<p>Temos de encontrar respostas nacionais quando a\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0n\u00e3o est\u00e1 avan\u00e7ando. Dizem que a\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>\u00a0recuperar\u00e1 40 bilh\u00f5es de euros do plano de retomada do crescimento europeu. Mas, em troca, teremos que contribuir mais em termos de reembolso: 67 bilh\u00f5es. Por solidariedade, mas tamb\u00e9m porque pa\u00edses que nos roubam em quest\u00f5es fiscais, como os\u00a0<strong>Pa\u00edses Baixos<\/strong>, quiseram contribuir menos.<\/p>\n<p><strong>A luta contra os para\u00edsos fiscais, que o senhor liderou desde o final dos anos 1990, continua importante?<\/strong><\/p>\n<p>Obviamente! Especialmente quando est\u00e3o na\u00a0<strong>Uni\u00e3o Europeia<\/strong>. Devem ser tomadas medidas de repres\u00e1lia: enquanto os\u00a0<strong>Pa\u00edses Baixos<\/strong>\u00a0me roubarem em quest\u00f5es fiscais, considero poss\u00edvel bloquear a importa\u00e7\u00e3o de produtos holandeses.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 meio b\u00e9lico!<\/strong><\/p>\n<p>Os dirigentes holandeses assumiram a lideran\u00e7a em uma coaliz\u00e3o de pa\u00edses que rejeitam a solidariedade or\u00e7ament\u00e1ria europeia e estabelecem condi\u00e7\u00f5es e exig\u00eancias para contribuir com ela. A\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>\u00a0pode fazer o mesmo. Ou o projeto europeu \u00e9 um projeto para todos, ou \u00e9 um projeto\u00a0<em>\u00e0 la carte<\/em>. Se for\u00a0<em>\u00e0 la carte<\/em>, teremos muito a exigir!<\/p>\n<p><strong>O FMI, Paul Krugman, Lawrence Summers, Dani Rodrik, etc., muitos economistas est\u00e3o agora destacando os problemas associados \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o excessiva. Estamos assistindo a uma mudan\u00e7a ideol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, uma mudan\u00e7a ideol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m pol\u00edtica, e vamos observar as consequ\u00eancias com as decis\u00f5es tomadas pelos governos que agora chegar\u00e3o ao poder. \u00c9 aqui que teremos de ser razo\u00e1veis, aceitar que esta mudan\u00e7a se complete, ao mesmo tempo que nos certificamos de que n\u00e3o vai ao extremo oposto, ou seja, cair no fechamento das fronteiras. Teremos que encontrar uma posi\u00e7\u00e3o equilibrada.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597276-coronavirus-o-fim-da-globalizacao-como-a-conhecemos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">globaliza\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0deve ser objeto de um debate democr\u00e1tico, o que d\u00e1 lugar para espa\u00e7os de decis\u00e3o pol\u00edtica nacionais. A globaliza\u00e7\u00e3o precisa ser repolitizada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA globaliza\u00e7\u00e3o deve ser objeto de um debate democr\u00e1tico\u201d. 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