{"id":137046,"date":"2020-11-13T19:15:17","date_gmt":"2020-11-13T22:15:17","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=137046"},"modified":"2020-11-13T19:18:53","modified_gmt":"2020-11-13T22:18:53","slug":"o-crescimento-da-populacao-mundial-nao-e-a-principal-ameaca-ao-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-crescimento-da-populacao-mundial-nao-e-a-principal-ameaca-ao-planeta\/","title":{"rendered":"O crescimento da popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o \u00e9 a principal amea\u00e7a ao planeta"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;A responsabilidade pela<strong>\u00a0preserva\u00e7\u00e3o dos equil\u00edbrios do meio natural<\/strong>\u00a0\u00e9 comum a todos\u00a0<strong>habitantes do planeta<\/strong>. Por\u00e9m, essa responsabilidade \u00e9 diferenciada e n\u00e3o se estende apenas \u00e0s popula\u00e7\u00f5es dos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603055-ricos-emitem-o-dobro-de-co2-que-a-metade-mais-pobre-da-populacao-aponta-estudo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pa\u00edses ricos<\/a>. Ela deve tamb\u00e9m alcan\u00e7ar os grupos sociais ricos dos\u00a0<strong>pa\u00edses<\/strong>\u00a0<strong>pobres<\/strong>&#8220;, escreve\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/586066-numa-sociedade-drogada-pelo-petroleo-so-se-enxergam-os-numeros-do-pib-entrevista-especial-com-tomas-togni-tarquinio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tom\u00e1s Togni Tarquinio<\/a>, antrop\u00f3logo e p\u00f3s graduado em prospectiva, em artigo publicado por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ecodebate.com.br\/2020\/11\/12\/o-crescimento-da-populacao-mundial-nao-e-a-principal-ameaca-ao-planeta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">EcoDebate<\/a>,<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/populacao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-137047\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/populacao.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/populacao.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/populacao-300x147.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/h3>\n<h3>Eis o artigo.<\/h3>\n<p>Correntes da ecologia pol\u00edtica de pa\u00edses ricos voltam a considerar o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594263-ja-ultrapassamos-o-numero-de-habitantes-que-o-planeta-suporta-e-agora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">crescimento exponencial da popula\u00e7\u00e3o mundial<\/a>\u00a0como uma amea\u00e7a \u00e0 habitabilidade do planeta. A ponto de\u00a0<strong>pessoas renunciarem a ter filhos<\/strong>\u00a0como contribui\u00e7\u00e3o para a causa ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/602460-o-que-menos-pessoas-no-planeta-significariam-para-o-meio-ambiente\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">excesso de habitantes<\/a>\u00a0esteve ausente das discuss\u00f5es nos \u00faltimos 50 anos, desde a controv\u00e9rsia entre\u00a0<strong>Barry Commoner<\/strong>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/502407-o-problema-nao-e-a-populacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Paul Ehrlich<\/a>, em 1968, e da edi\u00e7\u00e3o do livro \u201c<strong>Os Limites do Crescimento<\/strong>\u201d, em 1972. Mesmo recentemente, o tema n\u00e3o foi lembrado durante a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/550396-cop-21-de-politicas-publicas-a-planos-de-negocios-entrevista-especial-com-camila-moreno\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">COP-21<\/a>,\u00a0<strong>Conferencia de Paris de 2015<\/strong>, quando 190 pa\u00edses chegaram ao consenso de que a temperatura m\u00e9dia do planeta n\u00e3o deve ultrapassar 2\u00baC at\u00e9 o final do S\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o que a\u00a0<strong>desregula\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica planet\u00e1ria<\/strong>\u00a0est\u00e1 cada vez mais aguda abriu espa\u00e7o para o fortalecimento de hip\u00f3teses acerca do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588966-o-colapso-da-terra-esta-cada-vez-mais-proximo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">colapso<\/a>\u00a0de nossa sociedade termo industrial, do decrescimento econ\u00f4mico e do controle demogr\u00e1fico mundial. Bem como consolidou a convic\u00e7\u00e3o de que as transforma\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e ambientais n\u00e3o s\u00e3o mais amea\u00e7as para as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596873-o-futuro-incerto-das-criancas-e-das-novas-geracoes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">futuras gera\u00e7\u00f5es<\/a>, como a ecologia pol\u00edtica supunha h\u00e1 15 anos, mas s\u00e3o fen\u00f4menos em curso, embora se desconhe\u00e7a a intensidade e progressividade da evolu\u00e7\u00e3o. As\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603864-mudanca-climatica-e-real-entenda-a-emergencia-climatica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>\u00a0avan\u00e7am mais rapidamente do que as previs\u00f5es e os efeitos constatados s\u00e3o mais graves, agudos e extremos. As proje\u00e7\u00f5es iniciais do\u00a0<strong>Painel Intergovenamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas<\/strong>\u00a0(<strong>IPCC<\/strong>) ficaram aqu\u00e9m da realidade (n\u00edvel dos oceanos, degelo da banquisa e do permafrost, retroa\u00e7\u00e3o positiva, etc.).<\/p>\n<p>O emprego do termo\u00a0<strong>desregula\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong>\u00a0\u00e9 mais apropriado do que\u00a0<strong>crise<\/strong>\u00a0<strong>ecol\u00f3gica<\/strong>, uma vez que o planeta caminha irreversivelmente em dire\u00e7\u00e3o a outro equil\u00edbrio, que desconhecemos, enquanto que a palavra crise sup\u00f5e retorno ao \u201cstatus quo ante\u201d.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 consenso sobre a impossibilidade de manter uma expans\u00e3o demogr\u00e1fica exponencial em um mundo finito, pois a terra tem apenas 13 mil quil\u00f4metros de di\u00e2metro, dist\u00e2ncia entre\u00a0<strong>Montevid\u00e9u<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Paris<\/strong>, isso n\u00e3o significa que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/188-noticias\/noticias-2018\/581403-sobrecarga-da-terra-superpopulacao-e-superconsumo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">superpopula\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0seja uma quest\u00e3o ecol\u00f3gica central, priorit\u00e1ria. Ainda que a evolu\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros seja inquietante.<\/p>\n<p>De fato, foram necess\u00e1rios 130 anos para que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/601129-as-projecoes-demograficas-e-o-futuro-da-populacao-mundial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">popula\u00e7\u00e3o mundial<\/a>\u00a0passasse de 1,0 bilh\u00e3o de indiv\u00edduos, em 1800, para 2,0 bilh\u00f5es de habitantes, em 1930. Em seguida, 33 anos para alcan\u00e7ar 3,0 bilh\u00f5es. Ap\u00f3s 1960, houve aumento de 1,0 bilh\u00e3o de habitantes a cada 13 anos, aproximadamente. Hoje, o planeta abriga 7,7 bilh\u00f5es de pessoas, embora a<strong>\u00a0taxa de crescimento da popula\u00e7\u00e3o mundial<\/strong>\u00a0diminua regularmente desde 1970 (Quadro I).<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-137048\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico1.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico1.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a>QUADRO I &#8211;\u00a0Popula\u00e7\u00e3o mundial entre 1750 e 2100 e taxa de crescimento em %. (Fonte:\u00a0Our World in Data)<\/p>\n<\/div>\n<p>Por essa raz\u00e3o, as teses de\u00a0<strong>Thomas Malthus<\/strong>\u00a0voltaram \u00e0 superf\u00edcie com andrajos extra\u00eddos da\u00a0<strong>crise<\/strong>\u00a0<strong>ecol\u00f3gica<\/strong>. De fato, o\u00a0<strong>excesso demogr\u00e1fico<\/strong>\u00a0agrava os problemas ecol\u00f3gicos e ambientais, al\u00e9m de problemas sobejamente conhecidos como a expans\u00e3o de favelas e megal\u00f3poles. No entanto, a<strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/599337-especialistas-alertam-para-a-relacao-entre-acao-humana-no-planeta-e-surgimento-de-pandemias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">interface entre popula\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o ambiental<\/a><\/strong>\u00a0\u00e9 muito mais complexa, pouco conhecida, gera controv\u00e9rsias, envolve v\u00e1rios dom\u00ednios do saber, muito dos quais n\u00e3o dispondo ainda de instrumentos de an\u00e1lise adequados.<\/p>\n<p>Pelo menos dois aspectos geram controv\u00e9rsias no campo da ecologia pol\u00edtica. O primeiro \u00e9 relativo ao<strong>\u00a0n\u00famero de habitantes que o planeta pode comportar<\/strong>. O segundo remete \u00e0s propostas de\u00a0<strong>redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mundial<\/strong>.<\/p>\n<p>An\u00e1lises prospectivas, quanto a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591110-dia-da-sobrecarga-29-07-2019-e-os-limites-da-resiliencia-da-terra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">capacidade de suporte da Terra<\/a>, variam de 1,0 bilh\u00e3o a 15 bilh\u00f5es de habitantes. No primeiro caso, sup\u00f5e-se que o planeta abrigaria uma popula\u00e7\u00e3o com padr\u00e3o de vida material semelhante ao que hoje existe nos pa\u00edses ricos. No segundo caso, a popula\u00e7\u00e3o teria um n\u00edvel de vida material s\u00f3brio, compartilharia os recursos naturais e tecnologias com parcim\u00f4nia e seria menos urbana.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel vislumbrar quais ser\u00e3o as caracter\u00edsticas dessas\u00a0<strong>sociedades futuras demograficamente equilibradas<\/strong>, quais tecnologias utilizar\u00e3o, se a produ\u00e7\u00e3o e o consumo ser\u00e3o destinados apenas ao essencial e necess\u00e1rio, ou se haver\u00e1 abund\u00e2ncia material em proveito de uma popula\u00e7\u00e3o reduzida. Estamos muito longe de formular um esbo\u00e7o tang\u00edvel do que ser\u00e1 uma sociedade futura descarbonizada, movida por\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/599971-descarbonizacao-da-economia-projetos-para-recuperacao-verde-da-economia-sao-bom-sinal-para-renovaveis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">energias renov\u00e1veis<\/a>, que limite a perda de biodiversidade, que seja moderada no uso de recursos renov\u00e1veis e n\u00e3o renov\u00e1veis, capaz de recuperar os meios naturais degradados e com n\u00famero de habitantes compat\u00edvel. S\u00e3o especula\u00e7\u00f5es sobre o porvir sem possibilidades de comprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As correntes da ecologia pol\u00edtica que consideram a\u00a0<strong>superpopula\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0como uma vari\u00e1vel central ignoram in\u00fameros componentes que causam o processo de\u00a0<strong>degrada\u00e7\u00e3o da natureza<\/strong>. A incompreens\u00e3o simplista as conduz a designar grupos humanos como estando em demasia no planeta. Trata-se de uma postura no m\u00ednimo abjeta, quando n\u00e3o racista, segregacionista e excludente. N\u00e3o hesitam em apontar habitantes do continente africano e de pa\u00edses asi\u00e1ticos como s\u00e9ria amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Utilizam o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/566517-o-impressionante-crescimento-da-populacao-humana-atraves-da-historia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aumento num\u00e9rico da popula\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0como \u00fanico crit\u00e9rio. Argumentam que \u00e9 preciso reduzir o n\u00famero de habitantes dos pa\u00edses que apresentam taxas de natalidade elevadas, leia, pobres. Ou seja, os pa\u00edses cujas emiss\u00f5es de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/593431-emergencia-climatica-emissoes-de-gases-de-efeito-estufa-subiram-1-6-ao-ano-entre-2008-e-2017\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">gases de efeito estufa<\/a>\u00a0(<strong>GEE<\/strong>) e o\u00a0<strong>consumo de massa<\/strong>\u00a0s\u00e3o pouco significativos. E as mulheres seriam, evidentemente, o principal alvo da planifica\u00e7\u00e3o familiar. N\u00e3o lhes vem ao esp\u00edrito vasectomizar os var\u00f5es ricos. Abreviando, trata-se de vis\u00e3o estreita que aponta o outro como sendo excedente no planeta. \u201cL\u2019enfer c\u2019est l\u2019autre!\u201d, parafraseando\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581499-os-80-anos-da-nausea-de-sartre-e-o-humanitarismo-desencarnado-artigo-de-massimo-recalcati\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Sartre<\/a>.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 ineg\u00e1vel que existe uma correla\u00e7\u00e3o entre popula\u00e7\u00e3o e as press\u00f5es que ela exerce sobre o meio natural. Mas, as degrada\u00e7\u00f5es s\u00e3o resultantes de diversas vari\u00e1veis interdependentes, de outras grandezas mais relevantes do que a demogr\u00e1fica. Por exemplo, de 1800 at\u00e9 2015, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/568952-populacao-mundial-atingiu-7-6-bilhoes-de-habitantes-e-deve-subir-para-8-6-bilhoes-em-2030\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">popula\u00e7\u00e3o mundial aumentou<\/a>\u00a0por um fator da ordem de 6,5 vezes. Mas, o\u00a0<strong>consumo de energia<\/strong>\u00a0aumentou por um fator 50 vezes, enquanto que o capital por 134 vezes.<\/p>\n<p>Os impactos negativos das\u00a0<strong>atividades<\/strong>\u00a0<strong>humanas<\/strong>\u00a0(ind\u00fastria, agricultura, transporte, energia\u2026) sobre o meio natural vivo e inanimado (\u00e1gua, ar, solos, fauna, flora, ecossistemas\u2026) dependem de vari\u00e1veis como, o n\u00famero de habitantes, as diversas formas de produ\u00e7\u00e3o e consumo de bens e servi\u00e7o (riqueza), a tecnologia, entre outras. Al\u00e9m do mais, as formas de produzir e consumir provocam impactos negativos muito diferenciados. Por exemplo, os danos ao ar, \u00e1gua, solo, etc. causados por um curtume n\u00e3o s\u00e3o os mesmos ocasionados pela siderurgia, pecu\u00e1ria, internet, refrigera\u00e7\u00e3o\u2026 Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio considerar dois importantes fatores: o alcance geogr\u00e1fico do dano e a magnitude, amplitude ou dimens\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No final dos anos 1960, a querela\u00a0<strong>Commoner versus Ehrlich<\/strong>, deu origem a equa\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>I=PAT<\/strong>, na qual I (danos), \u00e9 igual ao produto de P (popula\u00e7\u00e3o), por A (riqueza) e por T (tecnologia). No entanto, essa equa\u00e7\u00e3o \u00e9 insuficiente para avaliar as degrada\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Do ponto de vista geogr\u00e1fico, um\u00a0<strong>dano ecol\u00f3gico<\/strong>\u00a0pode ser local, regional ou global. Uma \u00e1rvore cortada no quintal provoca um impacto local. Mas, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603152-amazonia-proxima-do-ponto-de-inflexao-ecologica-catastrofica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">destrui\u00e7\u00e3o de um bioma florestal como a Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0(ecossistemas de grandes zonas biogeogr\u00e1ficas submetidas a um clima particular) provoca um dano global. Um ve\u00edculo movido a motor t\u00e9rmico, ao percorrer 100 metros, ocasiona tanto uma degrada\u00e7\u00e3o local e\/ou regional, quanto global. Dano global, porque a combust\u00e3o de energia f\u00f3ssil emite\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/598725-se-emissoes-de-carbono-nao-cairem-1-3-da-humanidade-podera-viver-em-areas-de-calor-insuportavel-em-50-anos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">di\u00f3xido de carbono<\/a>\u00a0(<strong>CO2<\/strong>),\u00a0<strong>g\u00e1s de efeito estufa<\/strong>\u00a0(<strong>GEE<\/strong>) n\u00e3o t\u00f3xico respons\u00e1vel pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/598217-o-aquecimento-global-atual-e-10-vezes-mais-rapido-do-que-os-eventos-anteriores-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aquecimento global<\/a>. Local e\/ou regional, porque a combust\u00e3o emite diversos poluentes e part\u00edculas t\u00f3xicas de efeito circunscrito, como o SO2, NOx, PM2.5, COV, CH4, CO, Pb, Hg\u2026 A conhecida\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596655-novos-dados-reforcam-riscos-da-poluicao-do-ar-para-a-saude-humana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">polui\u00e7\u00e3o do ar<\/a>\u00a0que afeta aglomera\u00e7\u00f5es urbanas e industriais, respons\u00e1vel por 8,8 milh\u00f5es de \u00f3bitos anuais no mundo.<\/p>\n<p>A magnitude ou dimens\u00e3o dos danos ao meio natural \u00e9 um fator extremamente importante. A\u00a0<strong>degrada\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0pode ser repar\u00e1vel, ou regener\u00e1vel, como no caso de uma \u00e1rvore abatida que pode ser substitu\u00edda por outra, como tamb\u00e9m pode ser irrevers\u00edvel, irrepar\u00e1vel, como no caso do\u00a0<strong>CO2<\/strong>, principal\u00a0<strong>GEE<\/strong>\u00a0lan\u00e7ado por\u00a0<strong>motores t\u00e9rmicos<\/strong>, subst\u00e2ncia cumulativa que perdura s\u00e9culos na atmosfera. Tamb\u00e9m, a aniquila\u00e7\u00e3o de um bioma terrestre ou aqu\u00e1tico e a perda de biodiversidade t\u00eam car\u00e1ter irremedi\u00e1vel, irremiss\u00edvel. A sociedade termo industrial, infelizmente, caminha rapidamente em dire\u00e7\u00e3o dessa irreversibilidade.<\/p>\n<p>Um outro aspecto a ser considerado reside no fato de que os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o iguais face \u00e0s press\u00f5es que eles mesmo exercem sobre a natureza. Um ca\u00e7ador coletor de uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603809-povos-indigenas-isolados-estao-ameacados-pelos-incendios-na-amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tribo isolada da Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0n\u00e3o provoca o mesmo tipo de dano que um\u00a0<strong>banqueiro de Wall Street<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio um desenho para compreender essa afirma\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e7a va de soi\u201d. Como, tamb\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o iguais diante dos sofrimentos ocasionados pelas degrada\u00e7\u00f5es. Por exemplo, o impacto negativo do\u00a0<strong>aquecimento<\/strong>\u00a0<strong>global<\/strong>\u00a0sobre o modo de vida da etnia\u00a0<strong>Tuaregue<\/strong>\u00a0\u00e9 muito mais grave e intenso do que o suportado pela popula\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Quartier Latin<\/strong>; embora a contribui\u00e7\u00e3o dessa \u00faltima para o aquecimento global seja superior a produzida pelos berberes n\u00f4mades do\u00a0<strong>Saara<\/strong>. Na realidade, os danos provocados pelas atividades humanas s\u00e3o bastantes diferentes, variam segundo as caracter\u00edsticas dos grupos humanos, de seus modos de vida, do que e de como produzem e consomem, de como se alimentam, divertem, transportam, habitam, vestem, rezam, etc.<\/p>\n<p>Por essas raz\u00f5es, constatar que h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre a\u00a0<strong>popula\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0e a press\u00e3o que a popula\u00e7\u00e3o exerce sobre a\u00a0<strong>natureza<\/strong>\u00a0n\u00e3o autoriza nenhuma corrente da ecologia pol\u00edtica afirmar que determinado grupo social est\u00e1 em demasia no planeta. Nem tampouco assinalar qual grupo merece permanecer sobre a face da Terra. Do ponto de vista \u00e9tico e filos\u00f3fico, ecol\u00f3gico e pol\u00edtico n\u00e3o existe ningu\u00e9m que esteja em sobre n\u00famero no globo terrestre.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m foi assinalado, o impacto nocivo depende dos recursos empregados e de sua apropria\u00e7\u00e3o. Assim, quanto maior for o volume de mat\u00e9rias primas e de energia empregadas para satisfazer as necessidades de uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/583817-o-envelhecimento-e-a-diminuicao-da-populacao-podem-ter-beneficios-socioeconomicos-e-ambientais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">popula\u00e7\u00e3o<\/a>, mais intensa ser\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o operada na natureza. A\u00a0<strong>energia<\/strong>\u00a0\u00e9 uma grandeza f\u00edsica com a propriedade de modificar o estado de um sistema. Ela altera a temperatura de um recinto, a forma de um objeto, a velocidade de um corpo, a composi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria, etc. Quanto mais energia for empregada em um sistema, maior ser\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o desse sistema. Em consequ\u00eancia, quanto mais energia for injetada para produzir e consumir bens e servi\u00e7os, maior ser\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o provocada no meio natural bi\u00f3tico e abi\u00f3tico. E hoje, infelizmente, n\u00f3s injetamos uma quantidade de energia superior ao que o sistema terrestre pode absorver.<\/p>\n<p>As medidas de energia e de\u00a0<strong>emiss\u00f5es de GEE<\/strong>, entre outras de cunho f\u00edsico, qu\u00edmico e biol\u00f3gico, s\u00e3o excelentes indicadores das\u00a0<strong>press\u00f5es que a humanidade exerce sobre o meio natural<\/strong>. S\u00e3o \u00edndices muito superiores aos econ\u00f4micos que se revelam inadequados para avaliar as enormes transforma\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A sociedade termo industrial, iniciada com a inven\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina a vapor, em 1777, alcan\u00e7ou um elevado n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o na biosfera, atmosfera, litosfera, hidrosfera\/criosfera. Em apenas 150 anos, houve intensifica\u00e7\u00e3o brutal dos n\u00edveis de interfer\u00eancia no meio natural \u2013 fen\u00f4meno jamais ocorrido desde o surgimento do g\u00eanero\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591233-nao-somos-mais-homo-sapiens\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Homo<\/a>, nossos ancestrais. Ao mesmo tempo, nunca se produziu tanta riqueza, tantos bens e servi\u00e7os como nesse curto per\u00edodo da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem toda a\u00a0<strong>popula\u00e7\u00e3o da Terra<\/strong>\u00a0desfruta da riqueza constru\u00edda pela sociedade termo industrial. Apenas uma parte est\u00e1 integrada a ela. A popula\u00e7\u00e3o mundial que desfruta da sociedade de consumo de massa \u00e9 hoje da ordem de 4,8 bilh\u00f5es de indiv\u00edduos, sobre um total de 7,7 bilh\u00f5es de habitantes. Em 1980, ela era em torno de 1,8 bilh\u00e3o de pessoas, para uma popula\u00e7\u00e3o total de 4,5 bilh\u00f5es. Foram absorvidos 3,0 bilh\u00f5es de habitantes em 40 anos. Fato que explica o elevado grau de degrada\u00e7\u00e3o que hoje afeta o meio natural.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/598043-um-virus-a-humanidade-e-a-terra-artigo-de-vandana-shiva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">humanidade<\/a>\u00a0est\u00e1 diante de um impasse insol\u00favel: manter a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 integrada e, ao mesmo tempo, estender a inser\u00e7\u00e3o ao restante exclu\u00eddo, mas sem intensificar a transforma\u00e7\u00e3o do meio natural. Estamos diante de uma impossibilidade determinada pelas leis da natureza. A integra\u00e7\u00e3o j\u00e1 alcan\u00e7ada foi suficiente para acender a luz vermelha de todos os indicadores ambientais que crescem exponencialmente (biol\u00f3gicos, qu\u00edmicos, h\u00eddricos, f\u00edsicos, produtivos, geol\u00f3gicos, minerais, energ\u00e9ticos e o escambau). Basicamente, a popula\u00e7\u00e3o integrada a sociedade termo industrial \u00e9 a principal respons\u00e1vel pelas grandes modifica\u00e7\u00f5es, com diferentes graus de inser\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O consumo de energia prim\u00e1ria e as emiss\u00f5es de\u00a0<strong>GEE<\/strong>, particularmente do\u00a0<strong>CO2<\/strong>, s\u00e3o preciosos indicadores da\u00a0<strong>desregula\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>ecol\u00f3gica<\/strong>.<\/p>\n<p>O consumo anual m\u00e9dio de energia prim\u00e1ria de um habitante dos\u00a0<strong>Estados Unidos<\/strong>\u00a0\u00e9 de 6,9 toneladas equivalente petr\u00f3leo (TEP\/habitante\/ano). O de um habitante da\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0<strong>Ocidental<\/strong>\u00a0\u00e9 inferior a 4,0 TEP\/habitante\/ano. Ou seja, o consumo de um europeu \u00e9 42% inferior ao de um norte-americano. Mas, o n\u00edvel de vida material de ambos \u00e9 semelhante.\u00a0<strong>Portugal<\/strong>, por exemplo, disp\u00f5e de indicadores sociais melhores do que os dos\u00a0<strong>Estados<\/strong>\u00a0<strong>Unidos<\/strong>, n\u00e3o obstante dispor de um PIB per capita 65% inferior e consumir 2,1 TEP\/habitante\/ano. Portanto, h\u00e1 muito espa\u00e7o para redu\u00e7\u00e3o do consumo de energia. O\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0consome 1,6 TEP\/habitante\/ano.<\/p>\n<p>Mas, a diferen\u00e7a \u00e9 gritante quando comparamos aos\u00a0<strong>pa\u00edses pobres<\/strong>. O consumo m\u00e9dio de um habitante do\u00a0<strong>Bangladesh<\/strong>\u00a0\u00e9 de 0,25 TEP\/habitante\/ano (73% dos habitantes s\u00e3o rurais). O pa\u00eds abriga metade da popula\u00e7\u00e3o dos\u00a0<strong>Estados<\/strong>\u00a0<strong>Unidos<\/strong>\u00a0e cada habitante consome 28 vezes menos energia do que um norte-americano.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/587413-acoes-agressivas-e-imediatas-na-reducao-das-emissoes-de-co2-sao-fundamentais-para-garantir-um-clima-toleravel-para-as-geracoes-futuras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">emiss\u00f5es de CO2<\/a>\u00a0de origem antr\u00f3pica, o principal\u00a0<strong>GEE<\/strong>. Segundo\u00a0<strong>Oxfam<\/strong>\u00a0(2020), os 10%\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/603061-alerta-da-oxfam-os-mais-ricos-poluem-os-mais-pobres-sofrem-as-mudancas-climaticas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mais ricos do planeta<\/a>\u00a0emitiram 52% do total de\u00a0<strong>CO2<\/strong>\u00a0acumulado na atmosfera entre 1990 e 2015. Refinando a an\u00e1lise, o 1% mais rico \u00e9 respons\u00e1vel por 15% das emiss\u00f5es de CO2 acumuladas. Enquanto que os 50% mais pobres respondem por apenas 7% das emiss\u00f5es de CO2 acumuladas; ou seja, contribu\u00edram para o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/595108-cop-25-entenda-como-o-aquecimento-global-impacta-o-futuro-da-humanidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aquecimento global<\/a>\u00a0com a metade das emiss\u00f5es do 1% mais abastado. Isto posto, n\u00e3o \u00e9 absurdo afirmar que se a popula\u00e7\u00e3o mais pobre n\u00e3o existisse, o aquecimento global continuaria imperturbavelmente sua nefasta trajet\u00f3ria ascendente. A emiss\u00e3o total mundial de\u00a0<strong>CO2<\/strong>, em 2017, foi de 37 giga toneladas (Gt).<\/p>\n<p>Comparativamente, as\u00a0<strong>degrada\u00e7\u00f5es causadas pela sociedade<\/strong>\u00a0termo industrial s\u00e3o muito superiores \u00e0s provocadas pela agricultura camponesa mundial. A\u00a0<strong>popula\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>agr\u00edcola<\/strong>\u00a0(moderna e tradicional) \u00e9 o contingente mais numeroso de trabalhadores do planeta: em torno de 2,8 bilh\u00f5es de habitantes, 38% da popula\u00e7\u00e3o mundial. A maior parte pr\u00e1tica a pequena produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola camponesa, vive em autarquia, s\u00e3o sistemas de produ\u00e7\u00e3o aut\u00f4nomos com poucas trocas com o exterior. Esse grupo pertence aos 50% mais pobres da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>atividade<\/strong>\u00a0<strong>agr\u00edcola<\/strong>, moderna e tradicional, responde por algo em torno de 30% das emiss\u00f5es totais mundiais de\u00a0<strong>GEE<\/strong>\u00a0(CO2, CH4, N2O). Sendo que, 20% do total mundial prov\u00e9m essencialmente da agricultura e da pecu\u00e1ria moderna (fermenta\u00e7\u00e3o ent\u00e9rica de ruminantes, adubos de s\u00edntese, esterco, rizicultura, m\u00e1quinas e equipamentos), enquanto que os outros 10% prov\u00e9m da<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594262-mudanca-de-uso-do-solo-e-responsavel-por-44-das-emissoes-de-gases-do-efeito-estufa-no-brasil-aponta-relatorio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0modifica\u00e7\u00e3o do uso do solo<\/a>\u00a0(queimadas, desmatamento, extens\u00e3o da fronteira agr\u00edcola), basicamente resultantes do processo de transforma\u00e7\u00e3o de ecossistemas naturais diversificados (florestas, cerrados, savanas), compostos por uma diversidade de esp\u00e9cies animais e vegetais, em ecossistemas artificiais, antr\u00f3picos mono-espec\u00edficos. Os espa\u00e7os naturais s\u00e3o e est\u00e3o sendo reduzidos em proveito de culturas de gr\u00e3os e pastagens, atividades agr\u00edcolas modernas intensivas em m\u00e1quinas, insumos, energia (uma das raz\u00f5es do desaparecimento de 60% do n\u00famero de indiv\u00edduos da fauna selvagem de vertebrados entre 1970 e 2014).<\/p>\n<p>No tocante a superf\u00edcie mundial destinada a agricultura, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/585248-desmatamento-nao-e-solucao-para-producao-de-alimentos-diz-relatorio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">produ\u00e7\u00e3o de alimentos<\/a>\u00a0para os animais ocupa 77% da \u00e1rea total (culturas de gr\u00e3os e pastagens). Os 23% restantes s\u00e3o destinadas a alimenta\u00e7\u00e3o humana. Mas, a produ\u00e7\u00e3o animal responde por apenas 18% das calorias e 37% das prote\u00ednas mundiais. A maior parte dos gr\u00e3os produzidos no mundo s\u00e3o destinados \u00e0\u00a0<strong>alimenta\u00e7\u00e3o de animais\u00a0<\/strong>(ruminantes, su\u00ednos, aves, peixes, etc.) e s\u00e3o produzidos basicamente pela agricultura moderna.<\/p>\n<p>Mas, a efici\u00eancia dessa cadeia tr\u00f3fica muito baixa. Grosso modo, um\u00a0<strong>bovino<\/strong>, se for considerado como uma m\u00e1quina, seria um instrumento de transformar\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/502795-biomassa-podera-gerar-ate-um-terco-da-eletricidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">biomassa vegetal<\/a>\u00a0em\u00a0<strong>biomassa animal<\/strong>. Mas, com um rendimento reduzido, da ordem de 10% no caso dos ruminantes. Em outros termos, o animal ingere dez quilos de\u00a0<strong>biomassa vegetal<\/strong>\u00a0(gr\u00e3os e ervas), em mat\u00e9ria seca, para convert\u00ea-la em apenas um quilo de biomassa animal (carne e derivados), em mat\u00e9ria seca. O saldo de nove quilos \u00e9 transformado em excremento e calor. A\u00a0<strong>pecu\u00e1ria intensiva<\/strong>\u00a0e moderna alimenta os bichos com ra\u00e7\u00f5es compostas em 80% por gr\u00e3os (soja, trigo, aveia, milho e outros) e um pouco de erva. Portanto, uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/601663-por-que-deveriamos-adotar-uma-dieta-a-base-de-vegetais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">dieta alimentar humana mais fundada em vegetais<\/a>\u00a0reduziria, ao mesmo tempo, o espectro da falta de alimentos e as\u00a0<strong>emiss\u00f5es de<\/strong>\u00a0<strong>GEE<\/strong>.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas e a magnitude dos danos provocados pelas pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o camponesa, elas s\u00e3o fundamentalmente repar\u00e1veis, locais e regionais. A principal fonte de energia prim\u00e1ria consumida \u00e9 a\u00a0<strong>biomassa<\/strong>\u00a0<strong>vegetal<\/strong>, energia renov\u00e1vel. Conv\u00e9m destacar que cerca de 1,0 bilh\u00e3o de agricultores n\u00e3o disp\u00f5em de eletricidade. O emprego de energias f\u00f3sseis \u00e9 irris\u00f3rio. A moto mecaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 incipiente, bem como o uso de adubos f\u00f3sseis, agrot\u00f3xicos e outros insumos. A polui\u00e7\u00e3o do solo, \u00e1gua e ar \u00e9 org\u00e2nica, raramente qu\u00edmica ou f\u00edsica de dif\u00edcil absor\u00e7\u00e3o pelo meio natural. Os principais danos ocasionados por essa atividade tradicional afetam a biodiversidade vegetal e animal e podem ser reparadas, controladas, minimizadas, contrariamente aos\u00a0<strong>GEE<\/strong>\u00a0que s\u00e3o cumulativos na atmosfera.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-137049\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico2.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico2.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/grafico2-300x185.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a>QUADRO II &#8211; O consumo anual mundial de todas as fontes de energia prim\u00e1ria.\u00a0(Fonte: AIE Jancovici, 2017)<\/p>\n<\/div>\n<p>O consumo anual mundial de todas as fontes de energia prim\u00e1ria \u00e9 da ordem de 14 G\/TEP (Quadro II), dos quais 83%, aproximadamente, s\u00e3o\u00a0<strong>f\u00f3sseis<\/strong>\u00a0(petr\u00f3leo: 32%; carv\u00e3o: 30%; g\u00e1s natural: 21%). O nuclear e a hidroeletricidade respondem por 4% cada. A biomassa por 6%. As renov\u00e1veis, solar, e\u00f3lica e outras est\u00e3o em torno de 1%. Conter o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/587771-as-mudancas-climaticas-estao-acontecendo-agora-e-nao-precisamos-esperar-o-futuro-para-ver-os-efeitos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aquecimento global e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>\u00a0significa substituir e reduzir a parte das\u00a0<strong>energias<\/strong>\u00a0<strong>f\u00f3sseis<\/strong>\u00a0\u2013 esteio da modernidade e de sua opul\u00eancia. Basta constatar que, entre outros aspectos, que o consumo de petr\u00f3leo mundial per capita \u00e9 de 2 litros por dia, superior ao consumo de \u00e1gua pot\u00e1vel por habitante.<\/p>\n<p>Para conter o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581584-estudo-indica-que-o-aquecimento-global-de-2-c-pode-desencadear-processos-de-retroalimentacao-e-mais-aquecimento\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aquecimento global em 2\u00baC<\/a>\u00a0no final do s\u00e9culo, ser\u00e1 necess\u00e1rio reduzir o uso de energia f\u00f3ssil em 50%, at\u00e9 2050. Isso significa reduzir em torno da metade o consumo mundial per capita de energia prim\u00e1ria (1,9 TEP\/ano) e as emiss\u00f5es de GEE (no caso do CO2 4,8 ton.\/ano). Para conter o\u00a0<strong>aquecimento global em 2\u00b0C<\/strong>\u00a0no final do S\u00e9culo XXI, as emiss\u00f5es globais de GEE devem ser reduzidas pela metade, at\u00e9 2050. Nos restam apenas 30 anos para efetuar essa transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A responsabilidade pela preserva\u00e7\u00e3o dos equil\u00edbrios do meio natural \u00e9 comum a todos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/188-noticias\/noticias-2018\/580698-qual-e-o-numero-ideal-de-humanos-sobre-a-terra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">habitantes do planeta<\/a>. Por\u00e9m, essa responsabilidade \u00e9 diferenciada e n\u00e3o se estende apenas \u00e0s popula\u00e7\u00f5es dos\u00a0<strong>pa\u00edses ricos<\/strong>. Ela deve tamb\u00e9m alcan\u00e7ar os grupos sociais ricos dos\u00a0<strong>pa\u00edses<\/strong>\u00a0<strong>pobres<\/strong>. Os segmentos da popula\u00e7\u00e3o que se apropriam da maior quantidade e volume de mat\u00e9rias primas e de energia s\u00e3o os principais agentes da desregula\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. \u00c9 necess\u00e1rio reduzir o uso desse substrato natural sobre o qual repousa a qualidade de vida material de parte da popula\u00e7\u00e3o. Trata-se da quest\u00e3o ecol\u00f3gica central para conter o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/600971-em-4-anos-o-planeta-pode-superar-o-temido-aumento-de-1-5-grau\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aquecimento global<\/a>, fen\u00f4meno que exige medidas muito mais urgentes do que\u00a0<strong>controle da popula\u00e7\u00e3o<\/strong>, ainda que a sua redu\u00e7\u00e3o ou estabiliza\u00e7\u00e3o seja necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>humanidade<\/strong>\u00a0est\u00e1 diante de uma impossibilidade f\u00edsica, qu\u00edmica, biol\u00f3gica de manter o padr\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o e consumo e ao mesmo tempo dar continuidade ao processo de inser\u00e7\u00e3o dos 3,0 bilh\u00f5es de habitantes \u00e0 sociedade termo industrial.<\/p>\n<p>Hoje, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/598658-em-50-anos-um-terco-do-planeta-estara-condenado-a-um-clima-como-o-do-saara\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">temperatura m\u00e9dia do planeta<\/a>\u00a0est\u00e1 apenas 1\u00b0C acima da temperatura da era pr\u00e9-industrial. No entanto, a humanidade assiste impotente a intensifica\u00e7\u00e3o dos impactos do\u00a0<strong>aquecimento<\/strong>\u00a0<strong>global<\/strong>\u00a0(inunda\u00e7\u00f5es, secas, ciclones, inc\u00eandios, derretimento do gelo, perda de biodiversidade, etc.).<\/p>\n<p>A dificuldade reside no fato de n\u00e3o haver possibilidade de compatibilizar a necessidade de crescimento permanente do capitalismo com os princ\u00edpios ecol\u00f3gicos. A como afirma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/ideias\/047cadernosihuideias.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Schumpeter<\/a>\u00a0\u201ca destrui\u00e7\u00e3o criadora constitui a base essencial do capitalismo\u201d. Faltou acrescentar que se trata n\u00e3o apenas de\u00a0<strong>destruir um capital obsoleto<\/strong>\u00a0em proveito de outro, mais eficiente em termos econ\u00f4micos, mas que tamb\u00e9m \u00e9 um gigantesco processo f\u00edsico, qu\u00edmico e biol\u00f3gico de transforma\u00e7\u00e3o de energia e recursos naturais, vivos e inanimados, em dejetos nocivos, dentre os quais os\u00a0<strong>GEE<\/strong>.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 tempo para mudar a trajet\u00f3ria. Dispomos de conhecimentos cient\u00edficos para construir uma sociedade fundada na sobriedade socialmente compartilhada, livre e justa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A responsabilidade pela\u00a0preserva\u00e7\u00e3o dos equil\u00edbrios do meio natural\u00a0\u00e9 comum a todos\u00a0habitantes do planeta. 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