{"id":136893,"date":"2020-11-11T13:30:17","date_gmt":"2020-11-11T16:30:17","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=136893"},"modified":"2020-11-10T23:07:23","modified_gmt":"2020-11-11T02:07:23","slug":"poeira-do-saara-faz-mal-a-saude-mas-e-crucial-para-a-vida-e-o-clima-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/poeira-do-saara-faz-mal-a-saude-mas-e-crucial-para-a-vida-e-o-clima-da-terra\/","title":{"rendered":"Poeira do Saara faz mal \u00e0 sa\u00fade \u2013 mas \u00e9 crucial para a vida e o clima da Terra"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"css-1psdhlm\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-136894\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Nuvem de poeira do Saara \u00e9 uma vers\u00e3o superdimensionada daquelas que atravessam o Atl\u00e2ntico o tempo todo, transportando part\u00edculas que irritam os pulm\u00f5es, mas tamb\u00e9m fertilizam a vida dos oceanos e a vegeta\u00e7\u00e3o.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p>Uma enorme nuvem de poeira chegou a Porto Rico em meados deste ano, cobrindo e manchando o c\u00e9u noturno de um branco leitoso. O ar ficou mais pesado com um aumento de poeira a cada hora.\u00a0<a href=\"http:\/\/web.ites.upr.edu\/faculty-members\/olga-l-mayol-bracero\">Olga Mayol-Bracero<\/a>, qu\u00edmica atmosf\u00e9rica da Universidade de Porto Rico, em Rio Piedras, verificou as leituras na esta\u00e7\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica operada por ela na ponta nordeste da ilha. Os n\u00fameros eram os mais elevados de todos os seus 16 anos de medi\u00e7\u00f5es na esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/20200616-sahara-dust.gif?w=1600&amp;h=900\" alt=\"Um sat\u00e9lite da NOAA (Administra\u00e7\u00e3o Atmosf\u00e9rica Oce\u00e2nica Nacional) captou as imagens do turbilh\u00e3o de poeira do ...\" width=\"639\" height=\"360\" \/><\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o conseguia enxergar o c\u00e9u ou as nuvens, apenas uma camada acinzentada\u201d, conta ela. \u201cDefinitivamente, nunca observamos algo assim.\u201d<\/p>\n<p>A poeira sobre Porto Rico representava a borda dianteira de uma nuvem gigante que havia partido do deserto do Saara e atravessado o Oceano Atl\u00e2ntico por mais de 8 mil quil\u00f4metros, impregnando os c\u00e9us da Am\u00e9rica do Norte e al\u00e9m.<\/p>\n<p>Essa nuvem de poeira em especial \u00e9 ao mesmo tempo not\u00e1vel e totalmente comum. A cada ano, essa esp\u00e9cie de nuvem varre o Saara, arrastando cerca de\u00a0<a href=\"https:\/\/ui.adsabs.harvard.edu\/abs\/2015AGUFMEP42A..05Y\/abstract\">180 milh\u00f5es de toneladas<\/a>\u00a0de poeira repleta de minerais de lagos secos. Milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia mais \u00e0 frente na dire\u00e7\u00e3o do vento, os gr\u00e3os finos da poeira determinam tanto a vida dos locais onde se depositam quanto o clima como um todo.<\/p>\n<p>Mas a nuvem deste ano \u00e9 impressionante porque parece ser a mais espessa e densa a atravessar desde o in\u00edcio desse monitoramento por sat\u00e9lite, em 1979. Al\u00e9m disso, a nuvem transporta toneladas de part\u00edculas finas que irritam os pulm\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica do Norte, onde h\u00e1 um n\u00famero expressivo de doen\u00e7as respirat\u00f3rias cr\u00f4nicas incapacitantes que podem levar \u00e0 morte.<\/p>\n<h3><strong>Nuvem diferente<\/strong><\/h3>\n<p>As extens\u00f5es de deserto seco no norte da \u00c1frica s\u00e3o as maiores e mais constantes fontes de poeira do mundo. Dunas de areia geralmente n\u00e3o fornecem poeira \u2013 somente ventos mais intensos s\u00e3o capazes de suspender part\u00edculas t\u00e3o pesadas. Mas part\u00edculas finas de poeira geralmente se acumulam em cavidades ou \u00e1reas planas na paisagem do deserto que, em algum momento no passado, contiveram \u00e1gua. Podendo ocorrer durante o ano todo, uma \u00fanica ventania forte que passe pela superf\u00edcie desses locais repletos de poeira \u00e9 capaz de lan\u00e7ar toneladas de poeira no ar.<\/p>\n<p>Sob as condi\u00e7\u00f5es certas, que normalmente ocorrem entre o fim da primavera e o in\u00edcio do outono [do hemisf\u00e9rio norte], uma grande quantidade de poeira \u00e9 arrastada para a \u201c<a href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=saharan+air+layer&amp;oq=saharan+air+layer&amp;aqs=chrome.0.69i59j0l4j69i60l3.2602j1j4&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8\">camada de ar saariana<\/a>\u201d: um ac\u00famulo de ar quente e seco, normalmente 1,6 quil\u00f4metro ou mais acima da superf\u00edcie terrestre e com espessura aproximada de 3,2 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>No ver\u00e3o, uma onda de poeira \u00e9 arrastada do continente em poucos dias. Quando as massas de ar mais frio do oceano lan\u00e7am a nuvem na atmosfera, a poeira pode flutuar por dias, se n\u00e3o semanas, a depender da altura e umidade do ar. Os ventos al\u00edsios de leste a oeste arrastam a nuvem atrav\u00e9s do Atl\u00e2ntico em dire\u00e7\u00e3o ao Caribe e aos Estados Unidos em alguns dias. Durante sua circula\u00e7\u00e3o, fragmentos da nuvem de poeira caem formando uma chuva constante de part\u00edculas.<\/p>\n<p>Geralmente, a poeira se espalha por centenas de metros acima da superf\u00edcie da Terra. Mas essa nuvem n\u00e3o \u00e9 apenas muito maior que o normal: ela tamb\u00e9m est\u00e1 muito mais baixa. Quando a nuvem alcan\u00e7ou o solo perto do Caribe e do sul dos Estados Unidos na semana passada, a chuva de poeira estava mais pr\u00f3xima do que o habitual de onde as pessoas vivem e respiram.<\/p>\n<p>\u201cOs par\u00e2metros que analisamos atingiram valores que nunca hav\u00edamos observado, em termos de material particulado\u201d, afirma Mayol-Bracero. A qualidade do ar em Porto Rico saltou para condi\u00e7\u00f5es \u201cinsalubres\u201d quando a nuvem baixou sobre a ilha. Mesmo com as janelas fechadas, a poeira entrou e se depositou nas superf\u00edcies, e foi inalada pelas pessoas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img ngart-img--medium\">\n<div class=\"ngart-img__cntr\" tabindex=\"0\" role=\"button\"><picture class=\"resp-img-cntr\"><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/sahara-dust-cuba-20177072273975.jpg?w=768&amp;h=512\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/sahara-dust-cuba-20177072273975.jpg?w=1024&amp;h=683\" media=\"(max-width: 1024px)\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Pessoas assistem ao p\u00f4r do sol de cores incomuns, tingido pela nuvem de poeira do Saara ...\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/sahara-dust-cuba-20177072273975.jpg?w=710&amp;h=474\" alt=\"Pessoas assistem ao p\u00f4r do sol de cores incomuns, tingido pela nuvem de poeira do Saara ...\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/picture><\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont\">\n<div class=\"ngart-img__cont__copy\">\n<p>Pessoas assistem ao p\u00f4r do sol de cores incomuns, tingido pela nuvem de poeira do Saara suspensa no ar, em Havana, em 24 de junho de 2020. A poeira cobriu o Caribe antes de seguir para o norte, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 regi\u00e3o continental dos Estados Unidos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont__author\">FOTO DE\u00a0<span class=\"ngart-img__cont--strong\">RAMON ESPINOSA, AP PHOTO<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<h3><strong>A poeira faz mal \u00e0 sa\u00fade<\/strong><\/h3>\n<p>A poeira da nuvem do Saara \u00e9 composta principalmente por min\u00fasculos fragmentos de minerais que j\u00e1 foram rochas no passado. Normalmente, quando uma nuvem passa pelas Ilhas Can\u00e1rias espanholas, localizadas na dire\u00e7\u00e3o do vento a algumas centenas de quil\u00f4metros da origem da nuvem no deserto, a maior parte da poeira que cai possui di\u00e2metro inferior a 20 m\u00edcrons, metade do tamanho de uma part\u00edcula vis\u00edvel a olho nu. Quando uma nuvem atravessa o oceano at\u00e9 o Caribe, a poeira que cai \u00e9 ainda mais fina \u2014\u00a0<a href=\"https:\/\/www.atmos-chem-phys.net\/16\/13697\/2016\/\">com di\u00e2metro inferior a 10 m\u00edcrons<\/a>\u00a0\u2014 e muitos dos fragmentos restantes s\u00e3o menores ainda.<\/p>\n<p>Os cientistas sabem h\u00e1 muito tempo que respirar part\u00edculas finas n\u00e3o faz bem para os pulm\u00f5es. Existem diversas fontes de part\u00edculas finas insalubres: a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e poluentes agr\u00edcolas lan\u00e7am no ar pequenas part\u00edculas de materiais irritantes aos pulm\u00f5es. E a poeira, \u00e0 medida que avan\u00e7a, pode provocar expressivos males \u00e0 sa\u00fade das comunidades localizadas na dire\u00e7\u00e3o do vento.<\/p>\n<p>Em um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41893-020-0562-1\">estudo<\/a>\u00a0 publicado recentemente no peri\u00f3dico\u00a0<em>Nature Sustainability<\/em>, os cientistas monitoraram os efeitos de nuvens de poeira arrastadas a partir da depress\u00e3o Bod\u00e8le, no Chade, uma das maiores e mais conhecidas fontes de poeira do mundo. A poeira dessa depress\u00e3o foi encontrada em locais t\u00e3o distantes quanto a Groenl\u00e2ndia e a Am\u00e9rica do Sul, mas suas nuvens s\u00e3o mais espessas e mais prejudiciais na \u00c1frica Ocidental e na \u00c1frica Subsaariana. O ar nessas regi\u00f5es cont\u00e9m tanta poeira que \u00e0s vezes \u00e9 dif\u00edcil respirar.<\/p>\n<p>Os cientistas reuniram 15 anos de registros do impacto da poeira na qualidade do ar em comunidades localizadas na dire\u00e7\u00e3o do vento no continente africano. Foi descoberta uma forte correla\u00e7\u00e3o devastadora entre a elevada densidade do ar carregado de poeira e a probabilidade de beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos completarem um ano. Na \u00c1frica Ocidental, se ocorresse um aumento na densidade da poeira de cerca de 25% \u2014 10 microgramas de poeira a mais a cada metro c\u00fabico de ar \u2014 haveria uma redu\u00e7\u00e3o de 18% na chance de sobreviv\u00eancia do beb\u00ea.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma banalidade dizer: \u2018respirar poeira faz mal\u2019\u201d, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/gps.ucsd.edu\/faculty-directory\/jennifer-burney.html\">Jen Burney<\/a>, cientista ambiental da Universidade da Calif\u00f3rnia, em San Diego, Estados Unidos, uma dos autores do estudo. \u201cMas agora \u00e9 poss\u00edvel determinar \u2014nitidamente \u2014 as diferen\u00e7as nos impactos reais entre locais atingidos por essas nuvens e locais n\u00e3o atingidos, embora pr\u00f3ximos. Houve um aumento da mortalidade infantil em determinados locais devido \u00e0 carga maior de poeira.<\/p>\n<p>Uma nuvem como a atual, conta Burney, \u00e9 um sistema concentrado de distribui\u00e7\u00e3o de part\u00edculas finas que prejudicam a sa\u00fade humana. As doen\u00e7as respirat\u00f3rias s\u00e3o as principais causas de morte e invalidez em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos. Os perigos da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 baixa qualidade do ar s\u00e3o bastante conhecidos e os cientistas associam longos per\u00edodos dessa exposi\u00e7\u00e3o a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.medrxiv.org\/content\/medrxiv\/early\/2020\/04\/27\/2020.04.05.20054502.full.pdf\">riscos maiores de morrer de covid-19<\/a>.<\/p>\n<h3><strong>Uma chuva de fertilizante<\/strong><\/h3>\n<p>Normalmente, as nuvens arrastadas do norte da \u00c1frica n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o densamente carregadas ou pr\u00f3ximas ao solo quanto essa. Mas toda massa de poeira afeta a vida e o clima em locais muitas vezes milhares de quil\u00f4metros distantes de sua origem.<\/p>\n<p>\u201cUm erro de percep\u00e7\u00e3o que venho observando \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de que a poeira proveniente do Saara \u00e9 um sinal apocal\u00edptico!\u201d, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ggpersad.com\/\">Geeta Persad<\/a>, cientista clim\u00e1tica da Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos. \u201cEssa \u00e9 uma vers\u00e3o incomum desse tipo de fen\u00f4meno devido a sua grande dimens\u00e3o, mas acontece todos os anos.\u201d<\/p>\n<p>Os fragmentos minerais que formam a nuvem de poeira do Saara s\u00e3o geralmente ricos em ferro e f\u00f3sforo, nutrientes necess\u00e1rios ao crescimento da vegeta\u00e7\u00e3o terrestre e do fitopl\u00e2ncton no mar. \u00c0 medida que gr\u00e3os de p\u00f3 caem da nuvem em movimento e se depositam na superf\u00edcie ensolarada do oceano, fertilizam os organismos fotossintetizadores existentes no mar, que, muitas vezes, apresentam uma grande car\u00eancia desses elementos.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/nature13482\">Mais de 70% do ferro dispon\u00edvel<\/a>\u00a0aos fotossintetizadores oce\u00e2nicos no Atl\u00e2ntico \u00e9 proveniente da poeira do Saara, segundo um estudo de 2014.<\/p>\n<p>A poeira tem a mesma utilidade para a Amaz\u00f4nia. A floresta equatorial \u00e9 um dos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/environment\/habitats\/rain-forests\/\">locais mais produtivos em termos biol\u00f3gicos<\/a>\u00a0do mundo, mas o solo que sustenta as \u00e1rvores da floresta \u00e9 notoriamente pobre em alguns elementos essenciais ao crescimento \u2014 sobretudo em f\u00f3sforo.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/pdf\/1939481.pdf?refreqid=excelsior%3A5da147f38b6a339366c97ed49ce7c53f\">Grande parte do solo da bacia n\u00e3o possui f\u00f3sforo suficiente<\/a>\u00a0para sustentar a abund\u00e2ncia de vida existente nela e uma caracter\u00edstica b\u00e1sica do\u00a0<em>habitat<\/em>\u00a0da floresta equatorial \u2014 a chuva \u2014 lixivia qualquer f\u00f3sforo n\u00e3o utilizado quase t\u00e3o r\u00e1pido quanto esse elemento aparece.<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel haver uma riqueza biol\u00f3gica t\u00e3o vasta na Amaz\u00f4nia em solos t\u00e3o pobres em nutrientes? Algumas equipes de cientistas suspeitam que a resposta para essa pergunta poderia estar nas min\u00fasculas part\u00edculas de poeira suspensas que, conforme sabemos, atravessam o Atl\u00e2ntico h\u00e1 milh\u00f5es de anos. \u00c9 de amplo conhecimento entre os cientistas que essa poeira cont\u00e9m f\u00f3sforo. Em 2015, uma equipe calculou que o f\u00f3sforo presente nessa poeira poderia\u00a0<a href=\"https:\/\/agupubs.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1002\/2015GL063040\">basicamente completar<\/a>\u00a0a diferen\u00e7a que faltava entre a necessidade de f\u00f3sforo da floresta tropical e o aparente baixo teor existente em seus solos exauridos.<\/p>\n<h3><strong>A supress\u00e3o de tempestades<\/strong><\/h3>\n<p>Segundo muitos cientistas, a poeira transportada na alta atmosfera desempenha ainda outro papel na bacia do Atl\u00e2ntico: ajuda a suprimir a forma\u00e7\u00e3o e o fortalecimento de ciclones tropicais.<\/p>\n<p>Camadas de ar repletas de poeira, como a que transporta a atual nuvem densa, costumam ser totalmente \u00e1ridas \u2014 uma m\u00e1 not\u00edcia para tempestades tropicais, alimentadas pelo calor e pela umidade. Assim, se uma tempestade que estiver se formando e em ascens\u00e3o na atmosfera alcan\u00e7ar a camada de poeira, o ar seco ajudar\u00e1 a dissip\u00e1-la, como o fogo sem o oxig\u00eanio necess\u00e1rio para continuar queimando.<\/p>\n<p>As camadas de poeiras geralmente s\u00e3o impulsionadas por fortes ventanias, raz\u00e3o pela qual conseguem atravessar o oceano em poucos dias. Uma tempestade que estiver se transformando em um turbilh\u00e3o imenso pode ter a parte superior cortada pelo vento, impedindo que aumente de tamanho.<\/p>\n<p>Por ora, \u00e9 uma boa not\u00edcia, j\u00e1 que est\u00e1 previsto que esta temporada de furac\u00f5es ser\u00e1 mais intensa do que o normal.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/2020\/04\/what-happens-when-natural-disasters-strike-during-coronavirus-pandemic\/\">O gerenciamento de emerg\u00eancia est\u00e1 bastante preocupado<\/a>\u00a0com as consequ\u00eancias de um grande furac\u00e3o que venha a atingir a Am\u00e9rica do Norte\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/2020\/04\/what-happens-when-natural-disasters-strike-during-coronavirus-pandemic\/\">em meio a pandemia de covid-19, dificultando as iniciativas de recupera\u00e7\u00e3o de desastres<\/a>. Mas a temporada de poeira \u00e9 mais intensa em junho e julho, ao passo que a temporada de furac\u00f5es atinge seu auge em agosto e setembro, ent\u00e3o qualquer eventual efeito de enfraquecimento que ocorra neste momento \u00e9 provavelmente tempor\u00e1rio, ponderam os meteorologistas.<\/p>\n<h3><strong>Curinga clim\u00e1tico<\/strong><\/h3>\n<p>As a\u00e7\u00f5es humanas para conter as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem determinar a frequ\u00eancia futura das nuvens de poeira, sua espessura e dispers\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAo que parece, houve um aumento na poeira durante o s\u00e9culo 20\u201d, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.eas.cornell.edu\/faculty-directory\/natalie-m-mahowald\">Natalie Mahowald<\/a>, cientista clim\u00e1tica da Universidade de Cornell. Segundo ela, quase metade do aumento provavelmente \u00e9 devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; a outra metade provavelmente \u00e9 afetada pelas altera\u00e7\u00f5es no uso do solo do Saara em raz\u00e3o da intensifica\u00e7\u00e3o das press\u00f5es agr\u00edcolas e humanas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se sabe ao certo quais seriam os efeitos clim\u00e1ticos futuros de um aumento na poeira, uma vez que a poeira pode tanto aquecer quanto esfriar o planeta. Quando nuvens de poeira de cor clara ficam suspensas sobre o oceano, elas refletem o calor proveniente do sol que a superf\u00edcie escura do oceano absorveria caso n\u00e3o houvesse essa nuvem. Contudo, por outro lado, quando a poeira se deposita em superf\u00edcies brilhantes como a neve ou o gelo, ela faz o contr\u00e1rio, absorvendo o calor solar e acelerando o derretimento do gelo.<\/p>\n<p>A poeira tamb\u00e9m altera a forma\u00e7\u00e3o dos diferentes tipos de nuvens. \u00c0s vezes, a poeira se distribui em um banco de nuvens refletoras que podem desviar o calor extra \u2014 e, \u00e0s vezes, forma nuvens que mant\u00eam o calor pr\u00f3ximo \u00e0 superf\u00edcie da Terra.<\/p>\n<p>E ainda existem maneiras mais complexas da intera\u00e7\u00e3o entre a poeira e o clima. Por um lado, sua capacidade de fertilizar organismos fotossintetizantes \u00e9 t\u00e3o intensa que, nas condi\u00e7\u00f5es certas, pode provocar explos\u00f5es populacionais que resultam na retirada do di\u00f3xido de carbono da atmosfera. A for\u00e7a fertilizante da poeira pode ter sido respons\u00e1vel por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/content\/115\/9\/2026\">pelo menos um quarto da altera\u00e7\u00e3o no teor atmosf\u00e9rico de di\u00f3xido de carbono<\/a>\u00a0que provocou a \u00faltima era glacial da Terra.<\/p>\n<p>\u201cEsses tipos de fen\u00f4menos s\u00e3o bastante poderosos\u201d, afirma Mahowald. \u201cA meu ver, \u00e9 impressionante a capacidade de transporte e arrasto da atmosfera \u2014 na verdade, da pr\u00f3pria Terra \u2014 por dist\u00e2ncias t\u00e3o grandes e com efeitos t\u00e3o amplos.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nuvem de poeira do Saara \u00e9 uma vers\u00e3o superdimensionada daquelas que atravessam o Atl\u00e2ntico o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":136894,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/poeira.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Nuvem de poeira do Saara \u00e9 uma vers\u00e3o superdimensionada daquelas que atravessam o Atl\u00e2ntico o","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136893"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136893"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136893\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/136894"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}