{"id":136767,"date":"2020-11-09T12:30:24","date_gmt":"2020-11-09T15:30:24","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=136767"},"modified":"2020-11-09T12:03:22","modified_gmt":"2020-11-09T15:03:22","slug":"onde-as-harpias-dormem-protegendo-ninhos-da-maior-aguia-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/onde-as-harpias-dormem-protegendo-ninhos-da-maior-aguia-do-mundo\/","title":{"rendered":"Onde as harpias dormem: protegendo ninhos da maior \u00e1guia do mundo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-136768\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Eu ando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 nova casa, o rel\u00f3gio do celular anunciando que estou quase atrasado para a entrevista que eu mesmo marquei. Enquanto ando, percebo um detalhe no m\u00f3vel que estou levando para dentro: no recorte onde se encaixa o tampo de pedra da pesada cristaleira entre os meus bra\u00e7os \u2013 um presente de segunda-m\u00e3o-mas-mesmo-assim-muito-acima-do-nosso-or\u00e7amento-de-quem-vive-de-aluguel dado pela tia da minha esposa \u2013 eu leio, escrita \u00e0 m\u00e3o, a palavra \u201cmogno\u201d.<\/p>\n<p>Mogno. Nome popular dado a tr\u00eas esp\u00e9cies do g\u00eanero\u00a0<em>Swietenia<\/em>, atualmente protegidas contra a extra\u00e7\u00e3o de madeira que levou todas as tr\u00eas a quase desaparecerem de sua \u00e1rea de ocorr\u00eancia original.<\/p>\n<p>N\u00f3s organizamos a mob\u00edlia velha, por\u00e9m preservada, e eu encaixo correndo a tampa de pedra, escondendo aquele pequeno escrito enquanto meu computador inicia. At\u00e9 eu acessar o programa de teleconfer\u00eancia para entrevistar o pesquisador daquela tarde, o lembrete da natureza misteriosa do m\u00f3vel novo j\u00e1 est\u00e1 al\u00e9m da minha vis\u00e3o. Isso ajuda a impedir que eu fique pensando obsessivamente sobre a poss\u00edvel proced\u00eancia suspeita da cristaleira nova, deixando espa\u00e7o para a minha cabe\u00e7a se ocupar com o tema principal da entrevista: a harpia, ou gavi\u00e3o-real.<\/p>\n<p>Mal sabia eu que n\u00e3o seria a \u00faltima vez que eu seria convidado, naquela mesma tarde, a pensar na pequena palavra escrita a m\u00e3o na madeira.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\">\n<div class=\"ai-viewport-1\">Eu digo tchau para a nossa tia, agradecendo mais uma vez pelas belas adi\u00e7\u00f5es \u00e0 nossa paisagem de mobili\u00e1rio \u2013 muita dela composta de outros itens que ela mesma nos deu em reformas anteriores da pr\u00f3pria casa \u2013 e digo oi para o jovem cientista (e amigo pessoal desde os tempos de gradua\u00e7\u00e3o) Everton Miranda. Com nossas conex\u00f5es inst\u00e1veis \u00e0 internet, come\u00e7amos a discutir, entre outros assuntos da vida, as implica\u00e7\u00f5es de seu <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0006320720308120\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">artigo mais recente<\/a>, na\u00a0<em>Biological Conservation<\/em>, uma das publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas sobre conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade mais prestigiadas do mundo.<\/div>\n<\/div>\n<p>Escondida por tr\u00e1s da tampa de m\u00e1rmore, a palavra \u201cmogno\u201d e seu significado ecol\u00f3gico desaparecem da minha mente, enquanto eu al\u00e7o voo com as \u00e1guias do pesquisador. Mas n\u00e3o por muito tempo.<\/p>\n<p><strong>De brigas na rua \u00e0 ci\u00eancia ambiental<\/strong><\/p>\n<p>Para resumir em uma \u00fanica frase, o artigo de Everton Miranda e colaboradores detalha a preocupante coincid\u00eancia entre a lista de \u00e1rvores normalmente selecionadas como lar por casais de harpia em busca de um lugar para construir ninhos e a lista das esp\u00e9cies visadas por opera\u00e7\u00f5es de extra\u00e7\u00e3o de madeira por corte seletivo.<\/p>\n<p>\u201cEu vim para o Arco do Desmatamento, na por\u00e7\u00e3o de Amaz\u00f4nia do norte do Mato Grosso, depois de terminar meu mestrado, com o objetivo central de encontrar e estudar um n\u00famero razo\u00e1vel de harpias. Estudar a maior \u00e1guia do mundo estava nos meus planos desde a \u00e9poca da gradua\u00e7\u00e3o em biologia, e a minha meta aqui era instalar c\u00e2meras nos ninhos para monitorar e aprender mais sobre os h\u00e1bitos alimentares, o comportamento e a resili\u00eancia da esp\u00e9cie a viver em \u00e1reas degradadas.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_88042\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 640px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-88042\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-88042\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto02-Rachel-Nuwer.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto02-Rachel-Nuwer.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto02-Rachel-Nuwer-220x300.jpg 220w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"873\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88042\" class=\"wp-caption-text\">Everton Miranda e seu caderno de anota\u00e7\u00f5es de campo em uma por\u00e7\u00e3o de floresta que resiste de p\u00e9 em pleno Arco do Desmatamento. Fotografia: Rachel Nuwer.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Atualmente terminando seu doutorado pela Universidade de KwaZulu-Natal, na \u00c1frica do Sul, a trajet\u00f3ria de Miranda pela Academia brasileira \u2013 e pela vida, de maneira geral \u2013 \u00e9 bastante incomum. Apresentando um grande interesse pelo mundo natural desde a primeira inf\u00e2ncia, Everton aprendeu a ler com um livro de Zoologia para o p\u00fablico universit\u00e1rio que ganhou de presente de seus padrinhos aos cinco anos de idade. Devido aos problemas estruturais de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o no Brasil, ambos n\u00e3o sabiam ler. E queriam dar ao sobrinho, que estava aprendendo como funcionam as palavras escritas, um presente realmente especial.<\/p>\n<p>Acabaram dando tamb\u00e9m, ao mundo, um cientista bastante teimoso.<\/p>\n<p>\u201cO livro n\u00e3o durou muito, j\u00e1 que eu o levava comigo para todo lugar. Mas a minha paix\u00e3o pela natureza apenas cresceu a partir da\u00ed. Por volta de uns treze, eu tinha minha pr\u00f3pria cole\u00e7\u00e3o de insetos, que eu pegava por a\u00ed e organizava pela filogenia de acordo com livros que eu achava em uma biblioteca p\u00fablica que ficava perto o bastante para ir de bicicleta. Essa cole\u00e7\u00e3o foi doada para o Museu da UnB um pouco depois, quando minha fam\u00edlia se mudou para a fronteira com o Uruguai.\u201d<\/p>\n<p>Mas besouros e formigas est\u00e3o longe de serem os interesses principais de Everton. Pegando emprestado o vocabul\u00e1rio do jornalista de ci\u00eancia\u00a0<a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Monstro_de_Deus.html?id=FKjIwAEACAAJ&amp;source=kp_book_description&amp;redir_esc=y\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">David Quammen<\/a>, o ec\u00f3logo est\u00e1 muito mais interessado na \u201ccadeia alimentar de poder e gl\u00f3ria\u201d. Em outras palavras: os efeitos hipn\u00f3ticos e ecologicamente complexos de predadores de topo como a harpia. Uma obsess\u00e3o que surgiu como uma forma de lidar com os pr\u00f3prios impulsos e comportamentos violentos de adolesc\u00eancia, j\u00e1 que as artes marciais haviam falhado em controlar seu temperamento. Miranda viu, em document\u00e1rios de natureza sobre animais cheios de garras longas, uma forma mais segura de vivenciar essa viol\u00eancia do que se envolver em brigas (de cair na m\u00e3o mesmo) por a\u00ed.<\/p>\n<p>\u201cA preda\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de viol\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 imoral, que n\u00e3o tem consequ\u00eancias para a sociedade. E \u00e9 por isso que eu desenvolvi uma rela\u00e7\u00e3o quase que espiritual com o estudo de predadores\u201d, explica o bi\u00f3logo. Vindo do complicado mundo dos sistemas p\u00fablicos de ensino fundamental e m\u00e9dio \u2013 que infelizmente, devido \u00e0s mesmas barreiras estruturais mencionadas acima, raramente d\u00e3o origem a cientistas \u2013 e com uma inclina\u00e7\u00e3o pessoal \u00e0 viol\u00eancia, \u00e9 seguro dizer que os predadores salvaram a vida de Everton Miranda.<\/p>\n<p>Seu interesse pelas maiores m\u00e1quinas de matar criadas pela evolu\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, vai muito al\u00e9m da possibilidade de vivenciar \u00e0 dist\u00e2ncia a express\u00e3o do comportamento agressivo: \u201cVoc\u00ea pode somar a isso tudo o fato de que esses s\u00e3o animais particularmente interessantes, especialmente quando se trata de estudar a conserva\u00e7\u00e3o da natureza de uma perspectiva mais ampla e hol\u00edstica.\u201d<\/p>\n<p>De fato, como explica ele, predadores de topo como a harpia podem ser esp\u00e9cies guarda-chuva eficientes. Isso porque, para garantir sua exist\u00eancia em um determinado local, a de muitas outras esp\u00e9cies tamb\u00e9m t\u00eam de ser garantida. Das plantas que comp\u00f5em seus h\u00e1bitats at\u00e9 as muitas esp\u00e9cies de presas, nas densidades apropriadas, \u00e9 necess\u00e1rio um ecossistema rico para sustentar popula\u00e7\u00f5es funcionais de predadores de topo. E, conforme diz a teoria ecol\u00f3gica, tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es funcionais de predadores de topo para manter seus ecossistemas nativos.<\/p>\n<p>Predadores de topo de cadeia exercem uma s\u00e9rie de fun\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias vitais nas teias alimentares das quais participam, e a extin\u00e7\u00e3o local de predadores de topo normalmente \u00e9 seguida de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.uvm.edu\/~ngotelli\/Bio%20264\/Terborgh.pdf\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">efeitos dr\u00e1sticos<\/a>, como popula\u00e7\u00f5es superdensas de herb\u00edvoros e os impactos que esses herb\u00edvoros causam nas esp\u00e9cies vegetais das quais se alimentam. \u201cAdicionalmente, predadores tamb\u00e9m s\u00e3o geralmente muito carism\u00e1ticos, s\u00e3o f\u00e1ceis de vender para o p\u00fablico\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<figure id=\"attachment_88046\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 639px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-88046\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-88046\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto06-Acervo-pessoal-Everton-Miranda.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto06-Acervo-pessoal-Everton-Miranda.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto06-Acervo-pessoal-Everton-Miranda-169x300.jpg 169w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"1136\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88046\" class=\"wp-caption-text\">A n\u00e3o ser por v\u00ea-las pessoalmente, a melhor maneira de se compreender o tamanho das \u00e1rvores emergentes escolhidas pelas harpias \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o atenta de imagens como esta. Fotografia: Acervo pessoal de Everton Miranda.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Apesar de seu carisma, por\u00e9m, predadores de topo tamb\u00e9m est\u00e3o no centro de conflitos com seus vizinhos humanos. Harpias adultas, por exemplo, s\u00e3o normalmente\u00a0<a href=\"http:\/\/www.globalraptors.org\/grin\/researchers\/uploads\/208\/muniz-lopez_2017_harpy_mortility_ecuador.pdf\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">abatidas a tiros, por uma s\u00e9rie de motivos<\/a>\u00a0incluindo retalia\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a preda\u00e7\u00e3o de animais de cria\u00e7\u00e3o comercial ou de estima\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m tem de se levar em conta o medo de viver pr\u00f3ximo a um animal carn\u00edvoro de quase cinco quilos e armado com garras matadoras, especialmente em casas com crian\u00e7as.<\/p>\n<p>E, como discute o artigo que motivou esse texto, existe tamb\u00e9m a quest\u00e3o das \u00e1rvores de ninho.<\/p>\n<p><strong>O \u201cmercado imobili\u00e1rio\u201d das harpias<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o seria poss\u00edvel ser a maior \u00e1guia do mundo sem ter, tamb\u00e9m, uma das estruturas de ninho mais impressionantes. Dados de medi\u00e7\u00f5es de 21 desses ninhos, encontrados na literatura por Miranda e seus colegas, revelam que esses ninhos possuem, em m\u00e9dia, 1,52 metros de di\u00e2metro por 99 cent\u00edmetros de altura. Os mesmos dados de literatura permitiram que o grupo modelasse a estrutura das \u00e1rvores preferidas pelas harpias quando elas buscam um lugar para construir esses ninhos, baseados em 98 registros nos quais as \u00e1rvores foram medidas e descritas.<\/p>\n<p>As \u00e1rvores de nidifica\u00e7\u00e3o de harpias s\u00e3o o que especialistas chamam de \u201c<a href=\"https:\/\/repositorio.inpa.gov.br\/handle\/1\/11858\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">\u00e1rvores emergentes<\/a>\u201d, um termo elegante para dizer que elas s\u00e3o IMENSAS. Emergentes t\u00eam esse nome por serem aqueles indiv\u00edduos que se projetam acima do dossel da floresta \u2013 que j\u00e1 \u00e9 bastante alto na Floresta Amaz\u00f4nica. O estudo revela uma altura m\u00e9dia de 45 metros para as \u00e1rvores utilizadas para constru\u00e7\u00e3o de ninhos na por\u00e7\u00e3o n\u00e3o-inund\u00e1vel da Amaz\u00f4nia. As \u00e1guias tendem a escolher a bifurca\u00e7\u00e3o principal de uma \u00e1rvore para a constru\u00e7\u00e3o do ninho, uma vez que essa forquilha prov\u00ea uma estrutura ao mesmo tempo resistente e ampla o bastante para acomodar o ninho.<\/p>\n<p>Quando se comparam os indiv\u00edduos escolhidos pelas harpias com outras \u00e1rvores da mesma esp\u00e9cie, \u00e9 poss\u00edvel notar outros fatores que influenciam a sele\u00e7\u00e3o das \u00e1guias. N\u00e3o apenas s\u00e3o \u00e1rvores mais altas, mas seus pontos de bifurca\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o mais altos (com as alturas de ninhos sendo, em m\u00e9dia, de 33,5 metros comparados \u00e0s forquilhas de indiv\u00edduos n\u00e3o selecionados, a 28,0 metros do solo). Suas coroas s\u00e3o tamb\u00e9m mais achatadas, provendo mais estabilidade e galhos menos \u00edngremes, onde as \u00e1guias podem se empoleirar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_88037\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 639px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-88037\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-88037\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arvore.png\" sizes=\"(max-width: 650px) 100vw, 650px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arvore.png 650w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arvore-300x198.png 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arvore-600x397.png 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/arvore-640x423.png 640w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"423\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88037\" class=\"wp-caption-text\">Figura adaptada da publica\u00e7\u00e3o original, ilustrando as caracter\u00edsticas de \u00e1rvores de nidifica\u00e7\u00e3o (B) e suas conspec\u00edficas n\u00e3o selecionadas pelas \u00e1guias (A).\u00a0Legenda original: Figura 6: Compara\u00e7\u00e3o da arquitetura das \u00e1rvores. As \u00e1rvores emergentes usadas como pseudo-controle (A) tinham di\u00e2metros de coroa 26,6% menores, 33,3% menos galhos a \u00e2ngulos inferiores a 45\u00ba, eram 19,6% mais baixas, com galhos 35% menos \u00edngremes quando comparadas \u00e0s \u00e1rvores selecionadas para nidifica\u00e7\u00e3o por harpias (B) (ilustra\u00e7\u00e3o: Paula Viana).<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cEsse \u00e9 o fator mais vital entre os que afetam a parte mais vital da vida de um predador: o processo da reprodu\u00e7\u00e3o e do cuidado do casal de harpias com seu filhote\u201d, diz o pesquisador. \u201cJ\u00e1 que capturar macacos grandes e pregui\u00e7as, entre outros vertebrados, n\u00e3o \u00e9 uma coisa t\u00e3o trivial, as harpias t\u00eam uma inf\u00e2ncia longa, e podem ficar pr\u00f3ximas ao ninho por per\u00edodos de dois a tr\u00eas anos\u201d. Levando em conta que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.globalraptors.org\/grin\/researchers\/uploads\/208\/muniz-lopez_2017_harpy_mortility_ecuador.pdf\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">principal causa natural de morte em harpias juvenis \u00e9 a ocorr\u00eancia de quedas acidentais<\/a>, a estrutura dos galhos e das coroas das \u00e1rvores faz bastante sentido.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m faz bastante sentido que \u00e1rvores que come\u00e7am a se ramificar apenas em pontos bem mais altos do tronco atraiam outros olhares que n\u00e3o os das harpias: os olhares de companhias madeireiras e propriet\u00e1rios de terra interessados na explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de suas reservas legais, prevista nos planos de manejo. E tamb\u00e9m, claro, infratores ambientais como madeireiros ilegais e grileiros. Das vinte e oito esp\u00e9cies utilizadas pelas harpias registradas na literatura, 92,8% tamb\u00e9m s\u00e3o esp\u00e9cies de interesse comercial, conforme o artigo.<\/p>\n<p>Se levarmos em conta as pr\u00e1ticas usuais em economias emergentes da Am\u00e9rica do Sul no que diz respeito a conflitos de interesse entre a economia e a natureza, as implica\u00e7\u00f5es do estudo de Everton para a conserva\u00e7\u00e3o a longo prazo deste predador de topo s\u00e3o inquietantes. Como ele explica: \u201cMesmo que se assuma que s\u00f3 exista atividade madeireira em conformidade com o que dita a lei para a elabora\u00e7\u00e3o de planos de manejo, com ciclos de corte seletivo de vinte e cinco a trinta e cinco anos e a sele\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores que n\u00e3o ser\u00e3o derrubadas, n\u00e3o tem como garantir que essas \u00e1rvores v\u00e3o ser as mais adequadas para as necessidades das harpias\u201d.<\/p>\n<p><strong>A mulher que descobriu as \u00e1guias<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEu acho que o artigo do Everton atinge a gente como um soco. Ou uma flechada dolorosa no peito\u201d.<\/p>\n<p>Eu rio, sorrindo internamente ao pensar no fato de que Miranda trocou os socos da juventude pela sua carreira cient\u00edfica. Do outro lado da tela, a Dra. Ruth Mu\u00f1iz-L\u00f3pez, pesquisadora espanhola radicada no Equador, tamb\u00e9m sorri. Mas sorri com um fundo de seriedade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_88049\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 639px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-88049\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-88049\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto03.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto03.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto03-225x300.jpg 225w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"851\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88049\" class=\"wp-caption-text\">Ruth Mu\u00f1iz-L\u00f3pez na por\u00e7\u00e3o equatoriana da Amaz\u00f4nia, onde desenvolve seu trabalho de conserva\u00e7\u00e3o das harpias h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas. Fotografia: Acervo PCAHE.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ainda na casa dos vinte (e bem poucos) anos, a bi\u00f3loga da Galiza voltou tanto sua aten\u00e7\u00e3o quanto suas habilidades em falcoaria para a Am\u00e9rica do Sul, trazida por uma bolsa de estudos para um curso na Costa Rica. Ap\u00f3s algum tempo trabalhando com tartarugas marinhas, a jovem pesquisadora retornou a sua paix\u00e3o de vida por aves de rapina. \u201cEu passei meus anos de adolescente no Estreito de Gibraltar, que separa o sul da Espanha do Norte da \u00c1frica. Praticamente todas as esp\u00e9cies europeias de aves cruzam os quase quatorze quil\u00f4metros do Estreito para poderem passar o inverno na \u00c1frica. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel observar cet\u00e1ceos em seus deslocamentos pelo oceano, assim como borboletas e todo tipo de aves, incluindo as de rapina que eu sempre amei tanto\u201d.<\/p>\n<p>Em 1998, j\u00e1 nos tr\u00f3picos, ela conheceu Karla Aparicio, outra bi\u00f3loga que amava as aves de rapina, e at\u00e9 hoje dedica seu tempo ao estudo e \u00e0 luta pela conserva\u00e7\u00e3o das harpias no Panam\u00e1, seu pa\u00eds de origem. Mu\u00f1iz-L\u00f3pez n\u00e3o conseguiu resistir \u00e0 vontade de ver as \u00e1guias com as quais Aparicio trabalhava, e se voluntariou para trabalhar no projeto por alguns meses.<\/p>\n<p>\u201cEu sempre digo aos amigos que eu n\u00e3o conhecia o significado verdadeiro da express\u00e3o \u2018ficar com as pernas bambas\u2019 at\u00e9 eu ver minha primeira harpia. Eu estava tremendo muito, e t\u00e3o tomada de felicidade e rever\u00eancia que eu tive de me sentar no ch\u00e3o da floresta e ficar l\u00e1 por um tempo. Sentada, olhando para aquele animal impressionante e pensando comigo mesma o quanto a minha teimosia tinha compensado\u201d, lembra ela, nost\u00e1lgica.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a Dra. Mu\u00f1iz-L\u00f3pez viu muitas outras harpias, sendo a fundadora do Programa para a Conserva\u00e7\u00e3o das \u00c1guias Harpias no Equador (PCAHE). A equipe do programa trabalha de maneira multidisciplinar, o que a pesquisadora acredita ser o melhor para atingir n\u00e3o apenas o objetivo de estudar as \u00e1guias, mas tamb\u00e9m os de trazer a popula\u00e7\u00e3o para o lado delas, convencer tomadores de decis\u00e3o e legisladores de sua import\u00e2ncia, e garantir a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie mesmo em situa\u00e7\u00f5es de conflito.<\/p>\n<p>Trabalhando no limite oeste da distribui\u00e7\u00e3o das \u00e1guias, Ruth consegue observar o qu\u00e3o bem as harpias conseguem se adaptar a mudan\u00e7as em seu ambiente. De acordo com ela \u2013 e registros esparsos, tamb\u00e9m citados por Everton, de ocorr\u00eancia da esp\u00e9cie em lugares onde suas \u00e1rvores de prefer\u00eancia n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis \u2013 as \u00e1guias conseguem se adaptar at\u00e9 certo ponto, especialmente os adultos. Mas n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que esses casais consigam criar seus filhotes at\u00e9 a independ\u00eancia.<\/p>\n<p>De acordo com Ruth, o fato de as harpias ocorrerem apenas em \u00e1reas florestadas relativamente pouco afetadas pela presen\u00e7a humana cria um cen\u00e1rio particular, no que diz respeito ao manejo de conflitos e a tomada de decis\u00f5es. Tanto na Amaz\u00f4nia Equatoriana quanto na Brasileira, a fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental raramente chega a essas \u00e1reas. Para se conservar manchas florestais remanescentes, \u00e9 importante que a popula\u00e7\u00e3o residente tamb\u00e9m tome essa decis\u00e3o. \u201cA \u00fanica recomenda\u00e7\u00e3o global que eu posso dar sobre a conserva\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 a de que temos de nos focar em cen\u00e1rios e culturas locais. O que funciona no Equador provavelmente n\u00e3o vai funcionar em outro lugar. A n\u00e3o ser que a estrat\u00e9gia seja adaptada aos modos de viver e se relacionar com a natureza de cada localidade\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>O que \u00e9 universal, segundo Mu\u00f1iz-L\u00f3pez, \u00e9 a necessidade de trabalhar com o m\u00e1ximo poss\u00edvel de aspectos da comunidade local nesse processo de compreender e transformar cada sociedade. O PCAHE combina pesquisa, educa\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sensibiliza\u00e7\u00e3o. Essa \u00faltima frente de a\u00e7\u00e3o, que consiste em cativar as emo\u00e7\u00f5es das pessoas em rela\u00e7\u00e3o a uma esp\u00e9cie e \u00e0 natureza em geral, \u00e9 encarado como vital para a mudan\u00e7a comportamental. E o trabalho de jornalistas tamb\u00e9m ajuda.<\/p>\n<p>\u201cSe ocorre, por exemplo, uma a\u00e7\u00e3o local para a prote\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie e isso \u00e9 noticiado em um jornal ou registrado em um document\u00e1rio, isso d\u00e1 aos participantes um lembrete f\u00edsico de que seu trabalho teve efeitos e foi reconhecido. No caso de um recorte de jornal, as pessoas ainda podem colocar num mural ou emoldurar, o que pode estender essa influ\u00eancia positiva para m\u00faltiplas gera\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_88051\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 640px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-88051\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-88051\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto04-Acervo-Projeto-Harpia.jpg\" sizes=\"(max-width: 1152px) 100vw, 1152px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto04-Acervo-Projeto-Harpia.jpg 1152w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto04-Acervo-Projeto-Harpia-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto04-Acervo-Projeto-Harpia-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto04-Acervo-Projeto-Harpia-600x450.jpg 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto04-Acervo-Projeto-Harpia-640x480.jpg 640w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88051\" class=\"wp-caption-text\">\u201cAs harpias t\u00eam uma inf\u00e2ncia longa, e podem ficar pr\u00f3ximas ao ninho por per\u00edodos de dois a tr\u00eas anos\u201d, como afirma Everton Miranda. Na fotografia, um filhote que ainda ficar\u00e1 mais de um ano em seu ninho, onde ir\u00e1 crescer e mudar a colora\u00e7\u00e3o das penas algumas vezes at\u00e9 sua apar\u00eancia final. Fotografia: Acervo Projeto Harpia.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00c1rvores, crimes e agentes federais<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com a Dra. Ruth Mu\u00f1iz-L\u00f3pez, a publica\u00e7\u00e3o de Everton Miranda tem um grande potencial de mudar a maneira em que pol\u00edticas ambientais s\u00e3o pensadas e fiscalizadas. Para proteger efetivamente as harpias, tamb\u00e9m \u00e9 importante que o processo de elabora\u00e7\u00e3o de planos de manejo mude, para que a viabilidade das popula\u00e7\u00f5es de suas \u00e1rvores de nidifica\u00e7\u00e3o seja garantida.<\/p>\n<p>Mas isso tudo assume que toda a madeira extra\u00edda prov\u00e9m de iniciativas legais de explora\u00e7\u00e3o madeireira. O que dificilmente \u00e9 verdade na Amaz\u00f4nia, longe dos olhos das autoridades.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes os grileiros derrubam trechos inteiros de floresta para poder declarar a posse da terra. A madeira proveniente das derrubadas muitas vezes vai ser vendida a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Vendida como eucalipto ou alguma outra esp\u00e9cie barata, por\u00e9m legalmente plantada para uso comercial. O lucro dessas vendas \u00e9 baixo, comparado ao pre\u00e7o que a madeira teria no mercado legal. Mas, como essas opera\u00e7\u00f5es ilegais t\u00eam baixo custo, essa desvaloriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz diferen\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>As palavras da Dra. Simone Vieira, professora da Unicamp e coordenadora do Biota FAPESP, um dos maiores programas p\u00fablicos de pesquisa com biodiversidade no Brasil, tamb\u00e9m me atingem como um soco.<\/p>\n<p>A Dra. Vieira disp\u00f5e de um profundo conhecimento proveniente de d\u00e9cadas estudando aspectos da biodiversidade amaz\u00f4nica \u2014\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/372666a0\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">da profundidade at\u00e9 a qual podem se expandir as ra\u00edzes das \u00e1rvores<\/a>\u00a0\u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/content\/102\/51\/18502.short\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">taxa pela qual essas \u00e1rvores crescem<\/a>. Ela tamb\u00e9m dedicou essas d\u00e9cadas de estudo e pesquisa \u00e0 compreens\u00e3o das melhores formas de manejar os recursos frente a esses resultados. Essa bagagem a torna uma excelente fonte para quem pedir respostas sobre a conserva\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie que nidifica em \u00e1rvores derrubadas para explora\u00e7\u00e3o comercial.<\/p>\n<p>\u201cAs \u00e1rvores na Amaz\u00f4nia tendem a crescer mais lentamente do que o esperado. Isso porque, sendo ela um ecossistema caracterizado, entre outras coisas, por alta energia e abund\u00e2ncia de \u00e1gua, as expectativas eram bastante altas. Mas n\u00f3s observamos que, especialmente em \u00e1reas com alta precipita\u00e7\u00e3o, na por\u00e7\u00e3o central da Amaz\u00f4nia, as \u00e1rvores tendem a crescer apenas algo em torno de 1,2 a 1,5 mil\u00edmetros ao ano\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_88053\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 639px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-88053\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-88053\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira.jpg\" sizes=\"(max-width: 1152px) 100vw, 1152px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira.jpg 1152w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira-640x427.jpg 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira-223x150.jpg 223w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira-790x527.jpg 790w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto05-Acervo-pessoal-Simone-Vieira-272x182.jpg 272w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"426\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88053\" class=\"wp-caption-text\">Simone Aparecida Vieira, em meio a uma das paisagens naturais que estuda durante sua impactante trajet\u00f3ria acad\u00eamica. Fotografia: Acervo pessoal da pesquisadora.<\/figcaption><\/figure>\n<p>De acordo com a pesquisadora, isso significa que as \u00e1rvores gigantes nas quais as harpias constroem ninhos s\u00e3o muito velhas, algumas provavelmente datando de mais de mil anos atr\u00e1s. Tamb\u00e9m significa que os ciclos de corte de trinta anos n\u00e3o s\u00e3o a maneira mais razo\u00e1vel de preserv\u00e1-las.<\/p>\n<p>Eu compartilho com a Dra. Simone uma ideia que Everton me contou, proposta pelo seu orientador de doutorado, Dr. Carlos A. Peres: uma vez que os planos de manejo atualmente j\u00e1 exigem que se mantenha na localidade que sofrer\u00e1 corte seletivo alguns indiv\u00edduos de cada esp\u00e9cie, al\u00e9m de estabelecerem tamanhos m\u00ednimos abaixo dos quais uma \u00e1rvore n\u00e3o pode ser cortada por ser muito jovem, uma maneira de se proteger as necessidades das harpias por \u00e1rvores imensas seria a de estabelecer tamb\u00e9m linhas de tamanho m\u00e1ximo. A partir de uma determinada altura, da mesma forma que as \u00e1rvores pequenas demais, as gigantescas tamb\u00e9m entrariam automaticamente para a \u201clista das n\u00e3o-cort\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Ela me soca novamente. Everton ficaria orgulhoso.<\/p>\n<p>\u201cIsso poderia funcionar e, na teoria, \u00e9 f\u00e1cil de implementar. Mas a gente tem de levar em conta que a fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente complicada nessas \u00e1reas. Uma vez eu acompanhei um time do Ibama durante uma campanha de fiscaliza\u00e7\u00e3o. Eles estavam investigando uma den\u00fancia de atividade madeireira ilegal. N\u00f3s tivemos de ser acompanhados por agentes da Pol\u00edcia Federal, fortemente armados. Porque quem est\u00e1 trabalhando com corte ilegal de madeira, como esses madeireiros clandestinos ou grileiros grandes, tem uma mil\u00edcia armada para garantir a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>A Dra. Simone tende a acreditar em resultados trazidos por uma fiscaliza\u00e7\u00e3o intensificada, com identifica\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, em outros pontos da cadeia. Por exemplo, quando a madeira est\u00e1 sendo vendida ou transportada. Isso exige profissionais especializados, treinados para a identifica\u00e7\u00e3o de diferentes esp\u00e9cies madeireiras, mas \u00e9 uma abordagem que j\u00e1 se provou efetiva no passado, quando o estado de S\u00e3o Paulo iniciou um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/11\/11150\/tde-11092013-151731\/publico\/Luiz_Santini_Junior_versao_revisada.pdf\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">programa que analisou a madeira que adentrava o estado em suas rodovias<\/a>.<\/p>\n<p>Se fossem criados mais programas como esse ao longo de todo o Brasil \u2013 e dado que eles continuem a funcionar apropriadamente, mesmo em uma cultura bastante familiar a atos de corrup\u00e7\u00e3o \u2013 seria poss\u00edvel uma redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica nos crimes ambientais que p\u00f5em em risco n\u00e3o apenas a harpia, mas uma ampla lista de esp\u00e9cies afetadas pelo desmatamento e a extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m \u00e9 bem importante que compradores estrangeiros, como em pa\u00edses europeus, assumam a sua pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o com o problema. Assumam e comecem a implementar medidas para fechar as portas \u00e0 entrada de madeira ilegal da Am\u00e9rica do Sul.\u201d<\/p>\n<p>Como diz a Dra. Ruth Mu\u00f1iz-L\u00f3pez, \u00e9 uma quest\u00e3o de mudar as culturas locais. Mesmo quando elas s\u00e3o, na verdade, mercados estrangeiros.<\/p>\n<figure id=\"attachment_88054\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 640px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-88054\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-88054\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto07-Acervo-Projeto-Harpia.jpg\" sizes=\"(max-width: 1152px) 100vw, 1152px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto07-Acervo-Projeto-Harpia.jpg 1152w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto07-Acervo-Projeto-Harpia-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto07-Acervo-Projeto-Harpia-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto07-Acervo-Projeto-Harpia-600x450.jpg 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto07-Acervo-Projeto-Harpia-640x480.jpg 640w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88054\" class=\"wp-caption-text\">Harpia adulta levando uma presa at\u00e9 o ninho. Everton Miranda diria ser um \u201clanchinho\u201d para o filhote.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Integrando a Amaz\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO\u00a0<a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/auk\/article-abstract\/44\/4\/562\/5268545\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">primeiro ninho de harpias a ser descrito<\/a>, pelo famoso ornit\u00f3logo\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/James_Bond_(ornit%C3%B3logo)\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">James Bond<\/a>\u00a0(inspira\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o de um outro famoso James Bond), estava em uma \u00e1rvore de mogno\u201d, me conta Everton Miranda. As minhas pr\u00f3prias pernas ficam bambas \u2013 embora n\u00e3o por rever\u00eancia \u2013 quando ele acrescenta: \u201cHoje, mesmo com a prote\u00e7\u00e3o estrita das esp\u00e9cies de mogno, voc\u00ea n\u00e3o encontra essas \u00e1rvores em locais de f\u00e1cil acesso. Onde tem estrada, n\u00e3o tem mogno\u201d.<\/p>\n<p>Everton foi para a Amaz\u00f4nia para estudar as harpias, mas tamb\u00e9m para entender as melhores maneiras de proteger essa esp\u00e9cie, seu h\u00e1bitat e suas presas. Um detalhe: Everton se refere sarcasticamente a pregui\u00e7as, macacos e filhotes de porco-do-mato como \u201clanchinhos de harpia\u201d. At\u00e9 a\u00ed, estamos falando de algu\u00e9m que, enquanto eu estava em casa jogando Mortal Kombat, estava por a\u00ed\u00a0<em>vivendo<\/em>\u00a0Street Fighter.<\/p>\n<p>Com a inten\u00e7\u00e3o de proteger a biodiversidade de sua regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia, o pesquisador est\u00e1 colaborando com uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.earthisland.org\/journal\/index.php\/articles\/entry\/harpy-eagles-amazon-rainforest-deforestation\/\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">empresa de turismo chamada SouthWild<\/a>\u00a0(reportagem em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>\u201cA \u00fanica forma que o Brasil arranjou de integrar a Amaz\u00f4nia \u00e0s economias nacionais e globais foi atrav\u00e9s da pecu\u00e1ria. Isso tem efeitos horr\u00edveis na biodiversidade, porque a cria\u00e7\u00e3o de gado requer o corte raso e a incinera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de floresta. Adicionalmente, para algu\u00e9m que tem vontade de adquirir uma propriedade e come\u00e7ar a produzir algo nela, n\u00e3o existem muitas outras op\u00e7\u00f5es al\u00e9m do gado e de algum ganho eventual com corte seletivo. \u00c9 muito f\u00e1cil apontar um dedo para essas pessoas. O que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil \u00e9 oferecer a elas alternativas que integrem a Amaz\u00f4nia \u00e0 economia sem desintegrar a floresta\u201d, diz ele, rindo do trocadilho acidental.<\/p>\n<figure id=\"attachment_88048\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 640px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-88048\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-88048\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto08-Acervo-pessoal-Bruno-Moraes.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto08-Acervo-pessoal-Bruno-Moraes.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto08-Acervo-pessoal-Bruno-Moraes-179x300.jpg 179w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"1070\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-88048\" class=\"wp-caption-text\">A cristaleira de mogno que tem perturbado o autor desta reportagem. O mogno brasileiro teve sua venda proibida em 2001, ap\u00f3s a constata\u00e7\u00e3o de que sua explora\u00e7\u00e3o massiva estava levando \u00e0 extin\u00e7\u00e3o das tr\u00eas esp\u00e9cies madeireiras do g\u00eanero Swietenia. Fotografia: Bruno Moraes.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao pagar valores calculados com base no n\u00famero de visitantes \u00e0s pessoas que t\u00eam a sorte de ter ninhos de harpia em suas propriedades, Everton espera criar um cen\u00e1rio no qual as harpias e suas \u00e1rvores sejam mais valiosas do que a alternativa do corte para outras atividades econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>\u201cIsso tamb\u00e9m muda a percep\u00e7\u00e3o que toda a comunidade local tem das \u00e1guias. Porque, de repente, tem turistas comprando artesanato nas lojas, indo aos restaurantes para descobrir a culin\u00e1ria brasileira como uma moqueca de pintado, se hospedando nos hot\u00e9is, etc. Isso para n\u00e3o falar do efeito de conhecer uma pessoa que saiu do pr\u00f3prio pa\u00eds e desembolsou quantias consider\u00e1veis de dinheiro para ver um animal que voc\u00ea tem, literalmente, vivendo no seu quintal. Eu espero que isso toque alguns cora\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Mudar culturas locais e mercados estrangeiros, melhorar a fiscaliza\u00e7\u00e3o e promover a visita de turistas. Essas s\u00e3o apenas tr\u00eas das ideias que podem mudar as perspectivas para a conserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. E de um de seus predadores de topo mais impressionantes, cuja distribui\u00e7\u00e3o atual \u2013 j\u00e1 bastante reduzida \u2013 tem aproximadamente 93% da \u00e1rea restrita a esse bioma.<\/p>\n<p>Ao perceber que a \u00faltima frase desta reportagem se aproxima, eu ando at\u00e9 nossa cristaleira para pegar uma caldereta de cerveja e colocar no freezer para mais tarde. Para celebrar o fim de mais um texto escrito na inten\u00e7\u00e3o de informar, mas tamb\u00e9m de mexer com as emo\u00e7\u00f5es que Ruth Mu\u00f1iz-L\u00f3pez defende como vitais para a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade frente \u00e0s press\u00f5es da economia. Minhas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es quase t\u00eam alegria o bastante para calar os pensamentos a respeito do mogno que me encara em minha sala de estar.<\/p>\n<p>Mas l\u00e1 no fundo eu sei que esse \u00e9 um tipo de pensamento que nenhuma quantidade de cerveja ou de tampos de pedra \u00e9 capaz de esconder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu ando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 nova casa, o rel\u00f3gio do celular anunciando que estou quase<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":136768,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/natureza-1.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Eu ando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 nova casa, o rel\u00f3gio do celular anunciando que estou quase","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136767"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136767"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136767\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/136768"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}