{"id":136681,"date":"2020-11-07T16:35:20","date_gmt":"2020-11-07T19:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=136681"},"modified":"2020-11-07T16:35:20","modified_gmt":"2020-11-07T19:35:20","slug":"poema-da-salvacao-da-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/poema-da-salvacao-da-floresta\/","title":{"rendered":"Poema da salva\u00e7\u00e3o da floresta"},"content":{"rendered":"<h3><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/foto-Jorge-Luiz-Valente-_poesia-e-pintura.jpg\" width=\"640\" height=\"480\" \/><\/h3>\n<p>Era uma vez um pa\u00eds que tinha bicho, vida, terra. Besouro, vespa, lesma, laranja, vermelha, branca, preta, amarela, roxo, rosa, s\u00e9pia. Que tinha verde escuro e claro sobre a relva. Quando ventava, soprava a bem-aventuran\u00e7a nos campos e ali vivia em paz o guaxe, a seriema, o rouxinol.<\/p>\n<p>Mam\u00edfero, p\u00e1ssaro, r\u00e9ptil, anf\u00edbio. Bicho que voa. Bicho que enterra-se. Bicho que esturra. Bicho de guelra. Bicho que come semente, que come outro bicho, que come planta, que come folha e erva. Bicho de rio, de \u00e1rvore, de selva.<\/p>\n<p>E tinha on\u00e7a e feras a dar com pau, onde bicava \u00e0 vontade o pica-pau, que tinha dias e noites de chuva e sol. Que tinha \u00e1gua \u00e0s vezes verde musgo, \u00e0s vezes turmalina, \u00e0s vezes prateada, \u00e0s vezes azul-marinho, onde se via, cinza e rosa, muito golfinho. E onde o c\u00e9u de t\u00e3o azul era azulzinho. Onde at\u00e9 bicho de outra plumagem e latitude ali vinha e, esta\u00e7\u00e3o em esta\u00e7\u00e3o, se aboletava e se entocava, a fazer ninho.<\/p>\n<p>Havia \u00e1rvores de grande copa, onde as fam\u00edlias penduravam seus filhotes. Muito bugio, muito sagui, muito guariba, sempre no cio, sempre a saltar, sempre a nascer e a morrer no pr\u00f3prio ciclo.<\/p>\n<p>E l\u00e1 nos chapad\u00f5es, muita aranha, tamandu\u00e1, bicho peludo, bicho pelado, pre\u00e1. Uma p\u00e1. Bicho dormindo, bicho acordado. De olho aberto, olho fechado. E na Amaz\u00f4nia seca ou encharcada, abelha que d\u00e1 mel, boto que d\u00e1 beijo, pregui\u00e7a que d\u00e1 abra\u00e7o. \u00cdndio e \u00edndia pelada. Escorpi\u00e3o do mato. Gavi\u00e3o que voa alto, morcego que voa baixo.<\/p>\n<p>E sempre havia cantoria: de dia, canta o sanha\u00e7o; de noite, a coruja pia; de tarde, papagaio, cacatua, maritaca, can\u00e1rio, pardal, calopsita importada, japira. E a sinfonia do sabi\u00e1-laranjeira, chamando ao longe, sedutor e afinado, a companheira.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.plurale.com.br\/upfiles\/fckeditor\/cdbf94d5-f490-4d30-b886-0f85eb6899da.jpg\" width=\"640\" height=\"361\" \/><\/p>\n<p>E agora, tudo calado. O fogo \u00e9 a besta-fera. Calcina a terra. A cascavel arrasta o ventre por entre a lava. Est\u00e3o a salvo s\u00f3 o boi mugidor e a vaca. Berra, aqui e ali, a motosserra. Tudo isso, um dia, vai ser s\u00f3 fotografia? Tudo isso, um dia, vai ser digitalizado? Quem me dera ver de novo o c\u00e9u anil. E dar uma topada em uma toupeira ou num pau-brasil.<\/p>\n<p>Antes, tinha surucucu, jararaca, carcar\u00e1, caititu. Hoje, uma jiboia se enforcou num jatob\u00e1. Gato do mato, jaguatirica. Andorinha, cotovia, beija-flor, bigu\u00e1. A quem ir\u00e3o beijar no meio de tanta dor? Que arca haver\u00e1 pra lhes salvar do vulc\u00e3o?<\/p>\n<p>Caparam a capivara. Apagaram o vagalume. Garfaram o gafanhoto. Pintaram com o pintassilgo. O soc\u00f3 pediu socorro. A piranha pirou. Corroeu-se a corru\u00edra. A lagarta se largou. O trinca-ferro se ereiferrou. O mergulh\u00e3o se afogou. A cambaxirra acabou. A gar\u00e7a se esgar\u00e7ou. N\u00e3o se viu o bem-te-vi. A rolinha n\u00e3o rolou. Pra onde foram o colhereiro, o suiriri? E h\u00e1 pouco, uma tar\u00e2ntula atarantada, no af\u00e3 de se salvar, grudou na l\u00edngua em brasa de uma sucuri engasgada.<\/p>\n<p>Antes, tinha cerrado, pantanal, floresta, canal, praia, ba\u00eda, rio, restinga, lagoa, l\u00edrios, gard\u00eanias, flores \u00e0s pampas, igarap\u00e9s, ararinhas, ariranhas, pororocas e bosques com amoras e frutas apetitosas, manac\u00e1s, beg\u00f4nias, morangos vermelhos, brom\u00e9lias abertas, joaninhas e centopeias, palmeiras quilom\u00e9tricas, castanheiras altivas e outras diversas plantas, nativas, girass\u00f3is soprando ao vento, toda a bot\u00e2nica \u00e0s margens do Atl\u00e2ntico e do pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Sabi\u00e1s aqui cantavam como n\u00e3o cantam nos A\u00e7ores. E gorjeavam os azul\u00f5es como n\u00e3o fazem na Fran\u00e7a, em Angola, na Espanha, na Tanz\u00e2nia, na Transilv\u00e2nia, em Istambul, na Mong\u00f3lia, em Seul, na Patag\u00f4nia e Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Antes, abriam as asas as harpias e tinham onde aterrissar no lusco-fusco, das caatingas, dos sert\u00f5es, nas lonjuras de um pomar, e tinham \u00e1rvore de onde espiar. Cad\u00ea voc\u00ea Jo\u00e3o de Barro? Perdeu a casa e foi viver ao Deus-dar\u00e1? \u00c9 tudo agora uma lembran\u00e7a? \u00c9 tudo agora um recordar?<\/p>\n<p>Cad\u00ea voc\u00ea, tucano? Que pena eu sinto da tua pena e do teu canto. Pra onde foram o uirapuru, o tangar\u00e1, o tuiui\u00fa, a arara azul? Voar pra onde, se a terra sangra, o fogo inflama? O ar enforca o curi\u00f3 e a urutu, asfixia o tatu bola, resseca o brejo, machuca a flora, cancela a lua, mata o jacu, cala o can\u00e1rio, e o cururu.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.plurale.com.br\/upfiles\/fckeditor\/28813086-05bf-419e-91e0-a005721d947f.jpg\" width=\"640\" height=\"361\" \/><\/p>\n<p>Cad\u00ea voc\u00ea, sapo kamb\u00f4? Teu berro agora \u00e9 uma nota de langor? Cad\u00ea voc\u00ea, urubu-rei? Quem se atreveu a destruir o teu reinado? Quem foi o Nero que tacou fogo no teu castelo? Quem violou no Amap\u00e1 a tua lei?<\/p>\n<p>E a abelha-rainha, onde vai reinar? Como fazer o mel em meio ao fogar\u00e9u?<\/p>\n<p>Ali, havia um jabuti. Aqui, voava um colibri. O helic\u00f3ptero espantou o cole\u00f3ptero. O teco-teco abafou o tico-tico. E o trator passou por cima do umbuzeiro. Pra onde foi o tamandu\u00e1-bandeira? Onde se esconde o belo urso-formigueiro?<\/p>\n<p>Cad\u00ea voc\u00ea, maracaj\u00e1? A tua casa est\u00e1 em chamas, queimaram o c\u00e9u, queimaram o ch\u00e3o. Pra onde vai tua fam\u00edlia? Pra onde v\u00e3o os teus bichanos, sem torr\u00e3o?<\/p>\n<p>Cad\u00ea voc\u00ea, macaco prego? Pra onde foge o primata inzoneiro? Cad\u00ea voc\u00ea, cravo-do-Maranh\u00e3o e flor de Caraj\u00e1s? O mico le\u00e3o, aflito, olha pro Norte e se pergunta, prostrado e aflito: at\u00e9 quando, nessa trag\u00e9dia, terei um lar? Serei, tamb\u00e9m, nessa epopeia, um \u201chomeless\u201d?<\/p>\n<p>E o que ser\u00e1 do Guarani Kaiow\u00e1? Como vencer a artilharia, com que arma? Que pode a flecha contra as ondas de um braseiro? Como beber de um rio que \u00e9 vermelho? Pra que bu\u00e1 se a terra seca, esturricada, j\u00e1 n\u00e3o se pode irrigar com um lamento? Quem aprendeu a combater em campo aberto, como enfrentar numa cilada, num embuste, a naja em forma de um covarde pistoleiro?<\/p>\n<p>Cad\u00ea voc\u00ea cobra coral, corais tigrados, gamb\u00e1s grudados, os emplumados, corujas grandes, \u00e1guias gigantes, peixes dourados, tucunar\u00e9s? Cad\u00ea voc\u00eas, sapos listrados?<\/p>\n<p>Cad\u00ea voc\u00ea, \u00f4 jacar\u00e9? Cad\u00ea voc\u00ea, veado campeiro? Cad\u00ea voc\u00ea, \u00f4 saru\u00ea? Cad\u00ea o degrad\u00ea do sol se pondo, indo e voltando? Quem vai salvar o peixe-boi desse mel\u00ea? Quem vai salvar o boto e o mico brasileiros?<\/p>\n<p>Senhor Deus dos sabi\u00e1s, dizei-me v\u00f3s, senhor Deus, se eu deliro ou se \u00e9 verdade o fim do lobo-guar\u00e1? \u00d3 floresta milenar, por que n\u00e3o apagas com a for\u00e7a das tuas matas de teu ch\u00e3o esse ti\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>On\u00e7as, raias, jararacas. Rolai das florestas bravas, varrei os c\u00e9us, gavi\u00e3o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez um pa\u00eds que tinha bicho, vida, terra. Besouro, vespa, lesma, laranja, vermelha,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Era uma vez um pa\u00eds que tinha bicho, vida, terra. 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