{"id":136625,"date":"2020-11-07T08:40:38","date_gmt":"2020-11-07T11:40:38","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=136625"},"modified":"2020-11-07T08:47:33","modified_gmt":"2020-11-07T11:47:33","slug":"entrevista-especial-com-heinrich-hasenack","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-heinrich-hasenack\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Heinrich Hasenack"},"content":{"rendered":"<h1>Enquanto Amaz\u00f4nia e Pantanal ardem em chamas, Pampa \u00e9 amea\u00e7ado pelas florestas artificiais.<\/h1>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-136626\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, o avan\u00e7o da agricultura sobre o tradicional bioma ga\u00facho \u00e9 uma amea\u00e7a e, de todas as culturas, a silvicultura \u00e9 que tem acarretado maiores danos<\/p>\n<p>Numa primeira vista, pode parecer contradit\u00f3rio. Enquanto as regi\u00f5es Centro, Centro-Oeste e Norte do Brasil, \u00e1reas dos biomas amaz\u00f4nico e pantaneiro, sofrem um dos seus piores anos em decorr\u00eancia das queimadas, a regi\u00e3o Sul, em grande parte constitu\u00edda pelo bioma Pampa, \u00e9 amea\u00e7ada justamente pelo reflorestamento. O problema \u00e9 que as \u00e1rvores que s\u00e3o plantadas n\u00e3o s\u00e3o somente para \u2018fazer floresta\u2019, mas sim para produzir madeira e celulose. \u201cA redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de campo no bioma Pampa est\u00e1 relacionada \u00e0 expans\u00e3o da agricultura, principalmente soja e silvicultura\u201d, resume Heinrich Hasenack, que pesquisa a \u00e1rea. \u201cNo bioma Pampa as queimadas s\u00e3o um problema menor. Praticamente n\u00e3o h\u00e1 queima do campo nativo\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line, o pesquisador explica que h\u00e1 perda da vegeta\u00e7\u00e3o natural para o plantio de qualquer cultura, mas na silvicultura o campo do Pampa \u00e9 ainda mais modificado. \u201cIsso n\u00e3o remove apenas as esp\u00e9cies da flora campestre, mas interfere tamb\u00e9m nas popula\u00e7\u00f5es animais presentes no bioma, tanto de insetos polinizadores, os quais tamb\u00e9m servem de alimentos para aves, e at\u00e9 de peixes, que vivem em intera\u00e7\u00e3o direta ou indireta com a vegeta\u00e7\u00e3o campestre e dependem dela\u201d, detalha.<\/p>\n<p>Hasenack ainda explica que na silvicultura h\u00e1 a inser\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies n\u00e3o nativas, tamb\u00e9m consideradas invasoras. \u201cA esp\u00e9cies usadas na silvicultura no bioma Pampa s\u00e3o o eucalipto, o pinus e a ac\u00e1cia, dominando a primeira. Dessas esp\u00e9cies, o pinus \u00e9 considerado uma esp\u00e9cie invasora, cuja consequ\u00eancia maior \u00e9 observada no litoral\u201d, observa. Para ele, \u00e9 emergente frear essa degrada\u00e7\u00e3o, pois, em bem pouco tempo, o Pampa pode n\u00e3o existir mais. \u201c\u00c9 a sociedade como um todo entender que h\u00e1 locais onde necessitamos cultivar e outros locais que devemos conservar para a manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack possui bacharelado e licenciatura em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul &#8211; UFRGS, mestrado em Ecologia e doutorado em Agroneg\u00f3cios, ambos pela UFRGS. Atualmente \u00e9 professor adjunto da UFRGS. Entre os projetos de pesquisa que desenvolve, coordena a Atualiza\u00e7\u00e3o do Mapa de Cobertura Vegetal do Estado do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Estudo da Rede MapBiomas aponta que o bioma Pampa do RS perdeu 21% da vegeta\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 34 anos. A que se deve essa perda?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 A redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de campo no bioma Pampa est\u00e1 relacionada \u00e0 expans\u00e3o da agricultura, principalmente soja e silvicultura.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel mensurar os impactos dessa perda de vegeta\u00e7\u00e3o no bioma? Quais as consequ\u00eancias para as demais formas de vida, de fauna a flora, do bioma?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 A perda da cobertura vegetal original para cultivos agr\u00edcolas anuais e para silvicultura acarreta a remo\u00e7\u00e3o do campo nativo para esses plantios. Isso n\u00e3o remove apenas as esp\u00e9cies da flora campestre, mas interfere tamb\u00e9m nas popula\u00e7\u00f5es animais presentes no bioma, tanto de insetos polinizadores, os quais tamb\u00e9m servem de alimentos para aves, e at\u00e9 de peixes, que vivem em intera\u00e7\u00e3o direta ou indireta com a vegeta\u00e7\u00e3o campestre e dependem dela.<\/p>\n<p>O bioma Pampa apresenta diferentes regi\u00f5es ecol\u00f3gicas campestres, as quais est\u00e3o associadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas localmente influenciadas pelo relevo e pelos solos presentes no bioma. E, por v\u00e1rias raz\u00f5es, algumas dessas regi\u00f5es t\u00eam sido mais convertidas para agricultura do que outras.<\/p>\n<p>A perda da cobertura vegetal original para cultivos agr\u00edcolas anuais e para silvicultura acarreta a remo\u00e7\u00e3o do campo nativo para esses plantios \u2013 Heinrich Hasenack<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel recuperar essa perda? De que forma?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 \u00c9 importante reconhecer que a agricultura e a conserva\u00e7\u00e3o s\u00e3o importantes e compat\u00edveis. E a legisla\u00e7\u00e3o ambiental define o m\u00ednimo a ser conservado em \u00e1reas de uso agr\u00edcola. O primeiro passo, portanto, \u00e9 garantir que essa legisla\u00e7\u00e3o seja seguida por todos que utilizam a terra para algum uso.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, boas pr\u00e1ticas no uso da terra tamb\u00e9m prestam, entre outros servi\u00e7os ambientais, para conserva\u00e7\u00e3o do solo e da \u00e1gua. Essas a\u00e7\u00f5es podem ser mais eficientes com assist\u00eancia t\u00e9cnica adequada. \u00c9 poss\u00edvel usar melhor as \u00e1reas j\u00e1 convertidas para agricultura, sem a necessidade de expandir a soja para \u00e1reas menos recomend\u00e1veis ao seu cultivo.<\/p>\n<p>Em paralelo, a\u00e7\u00f5es de restaura\u00e7\u00e3o, levando em considera\u00e7\u00e3o as caracter\u00edsticas das diferentes tipologias campestres, podem contribuir para recuperar \u00e1reas de campo degradadas pelo excesso de pastoreio e pelo uso agr\u00edcola inadequado. Nesse contexto, \u00e1reas de cultivo abandonadas, em \u00e1reas originalmente campestres, s\u00e3o utilizadas por esp\u00e9cies invasoras oportunistas para ocupar essas \u00e1reas antes das esp\u00e9cies nativas. Estudos voltados ao controle dessas invasoras ex\u00f3ticas, como o capim-annoni (Eragrostis plana) e o tojo (Ulex europaeus), por exemplo, podem ser excelente contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas do ponto de vista da restaura\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m para a recupera\u00e7\u00e3o dos campos nativos para uso agropecu\u00e1rio.Origin\u00e1rio da Inglaterra e parte da Europa, o tojo atinge entre um e tr\u00eas metros de altura, apresentando muitos espinhos | Foto: Wikip\u00e9dia<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 O mesmo estudo aponta que houve aumento de \u00e1reas de florestas plantadas, com vistas \u00e0 silvicultura. O que s\u00e3o essas florestas e quais os seus impactos no Pampa?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 As esp\u00e9cies usadas na silvicultura no bioma Pampa s\u00e3o o eucalipto, o pinus e a ac\u00e1cia, dominando a primeira. Dessas esp\u00e9cies, o pinus \u00e9 considerado uma esp\u00e9cie invasora, cuja consequ\u00eancia maior \u00e9 observada no litoral. \u00c9 o exemplo da regi\u00e3o de Cidreira e da Lagoa do Peixe (RS).<\/p>\n<p>As florestas plantadas de pinus s\u00e3o uma recorrente no Pampa, mas representam amea\u00e7a por serem esp\u00e9cies invasoras | Foto: Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco<\/p>\n<p>Do ponto de vista dos plantios, seria desej\u00e1vel t\u00ea-los em \u00e1reas que originalmente foram floresta, pois, em \u00e1reas de silvicultura abandonadas, a vegeta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea que recoloniza essas \u00e1reas parece ser diferente. E, tal como os cultivos anuais, a silvicultura exige a remo\u00e7\u00e3o total da vegeta\u00e7\u00e3o original. Tem-se de positivo no Rio Grande do Sul que o licenciamento da atividade deve atender \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o, o que tem sido feito pelas empresas envolvidas.<\/p>\n<p>Existem alguns projetos de pesquisa envolvendo o efeito da silvicultura sobre a diversidade de aves, outros acompanhando a sucess\u00e3o vegetal em \u00e1reas de silvicultura abandonadas. O zoneamento da silvicultura tamb\u00e9m levou muitos pesquisadores a estudar os efeitos das mudan\u00e7as provocadas pelos plantios arb\u00f3reos, o que poder\u00e1 ser bastante \u00fatil em tomadas de decis\u00e3o futuras sobre o tema.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o as maiores amea\u00e7as ao bioma Pampa na atualidade?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 O avan\u00e7o n\u00e3o planejado da agricultura e o interesse de uma parte dos produtores rurais no Pampa n\u00e3o reconhecer a necessidade de delimita\u00e7\u00e3o da reserva legal no bioma, entendendo que se trata de \u00e1rea n\u00e3o mais nativa porque vem sendo usada h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas na cria\u00e7\u00e3o extensiva do gado bovino. Apesar de estar sendo usada para tal fim, ainda predomina ali a vegeta\u00e7\u00e3o campestre nativa, portanto ela deveria ser delimitada e registrada no Cadastro Ambiental Rural &#8211; CAR.<\/p>\n<p>E, mesmo sendo registrada, a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o exclui essas \u00e1reas de uso. Ela permite que se fa\u00e7a uso dessas \u00e1reas, desde que mantendo a vegeta\u00e7\u00e3o original, exatamente o que j\u00e1 vem sendo feito. Portanto n\u00e3o haver\u00e1 perda para o produtor, que poder\u00e1 continuar a fazer uso da terra com pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 a sociedade como um todo entender que h\u00e1 locais onde necessitamos cultivar e outros locais que devemos conservar para a manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade \u2013 Heinrich Hasenack<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Quais os desafios para aliar a atividade agr\u00edcola \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do Pampa?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 \u00c9 a sociedade como um todo entender que h\u00e1 locais onde necessitamos cultivar e outros locais que devemos conservar para a manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Ambas devem acontecer no mesmo territ\u00f3rio e h\u00e1 espa\u00e7o para que isso seja efetivado.<\/p>\n<p>Entretanto, no Pampa temos um potencial enorme de fazer isso acontecer tamb\u00e9m na propriedade rural. O produtor que faz o planejamento da sua propriedade levando em considera\u00e7\u00e3o o potencial natural de sua terra, e produz seguindo boas pr\u00e1ticas de conserva\u00e7\u00e3o, est\u00e1 fazendo sua parte. O bioma Pampa s\u00f3 se manter\u00e1 campestre se houver o gado, pois \u00e9 ele que mant\u00e9m a vegeta\u00e7\u00e3o herb\u00e1cea. Sem o gado, o campo, em maior ou menor grau, se transformar\u00e1 em \u00e1reas arbustivas ou at\u00e9 florestais em poucas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O ideal \u00e9 que se tivesse n\u00e3o um zoneamento setorial por atividade, como o da silvicultura, mas que se tivesse um planejamento territorial que contemplasse n\u00e3o apenas a agropecu\u00e1ria, mas o territ\u00f3rio como um todo. Em parte, o Zoneamento Ecol\u00f3gico Econ\u00f4mico &#8211; ZEE teria esse prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 As queimadas tamb\u00e9m s\u00e3o uma realidade no Pampa? Que rela\u00e7\u00f5es podemos estabelecer entre as queimadas que ocorrem no Pantanal e na Amaz\u00f4nia com as que ocorrem no Pampa?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 No bioma Pampa as queimadas s\u00e3o um problema menor. Praticamente n\u00e3o h\u00e1 queima do campo nativo, como ocorre de forma mais comum nos Campos de Cima da Serra. A professora Ilsi Boldrini [titular no Departamento de Bot\u00e2nica da UFRGS] revelou, em comunica\u00e7\u00e3o pessoal com ela, que a vegeta\u00e7\u00e3o campestre do bioma Pampa chega no inverno com pouca biomassa, pois foi consumida pelo gado, cuja lota\u00e7\u00e3o \u00e9, via de regra, maior do que aquela dos Campos de Cima da Serra.<\/p>\n<p>A condu\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o ambiental em n\u00edvel federal \u00e9 um desastre. Sequer merece coment\u00e1rios \u2013 Heinrich Hasenack<\/p>\n<p>Tweet<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como avalia a atual gest\u00e3o dos governos federal e estadual no que diz respeito a a\u00e7\u00f5es ambientais que visem assegurar a preserva\u00e7\u00e3o do Pampa?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 A condu\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o ambiental em n\u00edvel federal \u00e9 um desastre. Sequer merece coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>No estado do Rio Grande do Sul, percebo uma receptividade muito grande dos t\u00e9cnicos da Secretaria do Meio Ambiente &#8211; Sema e da Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental Henrique Luis Roessler &#8211; Fepam em utilizar resultados de pesquisa das universidades e incorporar esse conhecimento para subsidiar tecnicamente seus trabalhos. J\u00e1 do lado pol\u00edtico, entendo que, como acontece em outros temas, dever\u00edamos discutir os dados tanto ambientais como de produ\u00e7\u00e3o de forma mais integrada.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Quais os maiores desafios para a preserva\u00e7\u00e3o do Pampa? E como superar esses desafios?<\/p>\n<p>Heinrich Hasenack \u2013 Precisamos buscar a sustentabilidade na pr\u00e1tica, n\u00e3o na ret\u00f3rica. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio buscar conciliar a atividade econ\u00f4mica com a conserva\u00e7\u00e3o ambiental. E isso significa que devemos planejar no longo prazo, pensando no todo, n\u00e3o cada um vendo apenas a sua atividade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto Amaz\u00f4nia e Pantanal ardem em chamas, Pampa \u00e9 amea\u00e7ado pelas florestas artificiais. 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