{"id":136456,"date":"2020-11-03T18:13:55","date_gmt":"2020-11-03T21:13:55","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=136456"},"modified":"2020-11-03T18:15:18","modified_gmt":"2020-11-03T21:15:18","slug":"queimar-a-caatinga-e-formar-mais-desertos-diz-especialista-em-meio-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/queimar-a-caatinga-e-formar-mais-desertos-diz-especialista-em-meio-ambiente\/","title":{"rendered":"&#8220;Queimar a caatinga \u00e9 formar mais desertos&#8221;, diz especialista em meio ambiente"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"description\">S\u00f3 no sert\u00e3o pernambucano j\u00e1 foram contabilizadas cerca de 250 ocorr\u00eancias de inc\u00eandio em vegeta\u00e7\u00e3o nativa da caatinga<\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/69962856f5cddc648e12f45cb952b803.jpeg\" width=\"638\" height=\"425\" \/><\/p>\n<p>O n\u00famero de queimadas no pa\u00eds tem aumentado nos \u00faltimos meses, principalmente na Amaz\u00f4nia e no Pantanal; mas o Cerrado, o Pampa e a Caatinga tamb\u00e9m v\u00eam sendo amea\u00e7ados pelos inc\u00eandios florestais. A Caatinga abriga aproximadamente 1,5 mil\u00a0esp\u00e9cies de animais que s\u00e3o amea\u00e7ados pelas queimadas. Em Pernambuco, desde o in\u00edcio de agosto, os bombeiros j\u00e1 atenderam cerca de 250 ocorr\u00eancias de inc\u00eandio em vegeta\u00e7\u00e3o nativa somente no sert\u00e3o do Paje\u00fa.<\/p>\n<p>O presidente do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN) e p\u00f3s-doutor em Biologia, Severino Ribeiro, foi o entrevistado da semana no Revista Brasil de Fato Pernambuco. O pesquisador\u00a0explicou\u00a0que essas queimadas\u00a0podem ser irrevers\u00edveis para o solo:\u00a0\u201cA\u00a0ci\u00eancia ainda n\u00e3o tem a resposta de como a gente reverter, de como a gente restaurar, de como a gente recuperar essa \u00e1rea\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ele acredita que as a\u00e7\u00f5es e as omiss\u00f5es do Governo Federal t\u00eam impactado diretamente no aumento das queimadas e desmatamentos no pa\u00eds: \u201cProblema ambiental sempre teve, mas a gente nunca teve aus\u00eancia e desmonte\u201d. Confira a entrevista:<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: A Caatinga ocupa uma \u00e1rea equivalente a 11% do territ\u00f3rio nacional e abrange os estados do nordeste\u00a0e o norte de Minas Gerais.\u00a0Quais s\u00e3o os principais impactos das queimadas na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Severino Ribeiro: A Caatinga \u00e9 um tipo de forma\u00e7\u00e3o vegetal, que na verdade s\u00e3o as Caatingas, porque temos diferentes tipos de Caatinga: arb\u00f3rea, arbustiva e herb\u00e1cea; e esse tipo de vegeta\u00e7\u00e3o sav\u00e2nica de floresta seca s\u00f3 ocorre no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>A frequ\u00eancia dos focos de inc\u00eandio, que outrora tinha um regime normal &#8211; v\u00e1rios ecossistemas brasileiros queimam como um ciclo natural da sua din\u00e2mica de funcionamento -,\u00a0o que est\u00e1 acontecendo hoje \u00e9 que devido \u00e0s atividades humanas, a gente est\u00e1 potencializando a frequ\u00eancia desses inc\u00eandios e isso vale para todos os ecossistemas brasileiros.<\/p>\n<p>Hoje estamos vivendo, presenciando, sentindo, os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, os aumentos de temperatura. E na nossa regi\u00e3o, a regi\u00e3o Nordeste, onde est\u00e1 inserida grande parte da nossa Caatinga, esses efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o muito mais frequentes, muito mais persistentes e atuam numa maior magnitude.<\/p>\n<p>A Caatinga \u00e9 um semideserto, a gente tem uma condi\u00e7\u00e3o aqui de semideserto, e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o ampliando e potencializando a forma\u00e7\u00e3o de novos desertos atrav\u00e9s de um processo chamado de desertifica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o pessoas que queimam a vegeta\u00e7\u00e3o nativa deliberadamente para abrir pasto, para abrir a fronteira agr\u00edcola, para fazer o loteamento; e hoje esses crimes est\u00e3o muito mais frequentes.<\/p>\n<p>O que a gente est\u00e1 vendo no Brasil \u00e9 uma trag\u00e9dia: o Pantanal queimou 24%, isso s\u00e3o dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O que a gente est\u00e1 vivendo no Brasil hoje \u00e9 uma trag\u00e9dia jamais documentada em nenhuma s\u00e9rie hist\u00f3rica dos sistemas de monitoramento que acompanham o avan\u00e7o de queimadas e de desmatamentos no Brasil.<\/p>\n<p><strong>As queimadas\u00a0j\u00e1 est\u00e3o a poucos quil\u00f4metros do Parque Nacional da Serra da Capivara, que \u00e9 Patrim\u00f4nio Cultural da Humanidade e onde est\u00e3o os primeiros vest\u00edgios do ser humano nas Am\u00e9ricas. De que forma \u00e9 poss\u00edvel combater o avan\u00e7o do fogo?<\/strong><\/p>\n<p>A gente tem o Parque da Capivara e a Chapada do Araripe, que \u00e9 outra regi\u00e3o muito importante em termos de geodiversidade, de sociocultural \u2013 dos hier\u00f3glifos, das pinturas rupestres. A chapada do Araripe tamb\u00e9m abriga uma esp\u00e9cie globalmente amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o, chamada soldadinho do Araripe; e a serra da Capivara talvez seja o s\u00edtio hist\u00f3rico-cultural e paleontol\u00f3gico mais importante do mundo. Tudo o que a gente est\u00e1 vendo aqui, do avan\u00e7o das linhas de fogo, do aumento dos focos de inc\u00eandio; tudo isso dava pra ser controlado<\/p>\n<p>\u00c9 inadmiss\u00edvel que o estado de Pernambuco n\u00e3o tenha um sistema de monitoramento de queimada e desmatamento. A gente tem sistemas gratuitos, como o Mapbiomas, que faz isso.\u00a0A\u00a0gente tem sistemas gratuitos que podem ser regionalizados atrav\u00e9s do nosso Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para ajudar as nossas ag\u00eancias estaduais de fiscaliza\u00e7\u00e3o e o nosso estado n\u00e3o tem um sistema de monitoramento para entender, combater, prevenir e planejar. Combater queimada requer planejamento e isso s\u00f3 se faz com monitoramento e estudo.<\/p>\n<p><strong>Apesar de tamb\u00e9m apresentarem queimadas, a Caatinga vem sendo deixada de lado, quando em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 outras vegeta\u00e7\u00f5es no Pa\u00eds, ainda que a mesma apresente uma rica biodiversidade que \u00e9 exclusivamente brasileira. A que o senhor atribuiria esse fato?<\/strong><\/p>\n<p>A gente tem modifica\u00e7\u00f5es profundas na din\u00e2mica de funcionamento da Caatinga quando a gente queima. Por ser uma vegeta\u00e7\u00e3o seca xerof\u00edtica, ela queima mais f\u00e1cil. A gente olha para aquela paisagem e v\u00ea aquela vegeta\u00e7\u00e3o cheia de folhas retorcidas, brancas; da\u00ed que vem o nome Caatinga que significa mata branca. Esse nome foi dado pelo efeito visual que a Caatinga tem quando perde as folhas, \u00e9 uma estrat\u00e9gia que a vegeta\u00e7\u00e3o tem para economizar \u00e1gua.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ela queima mais r\u00e1pido, porque naturalmente ela \u00e9 uma vegeta\u00e7\u00e3o mais seca. Existe um processo, que \u00e9 um dos processos que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o tem a resposta de como a gente reverter, de como a gente restaurar, de como a gente recuperar essa \u00e1rea; \u00e9 um processo chamado de desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A desertifica\u00e7\u00e3o acontece pelas m\u00e1s pr\u00e1ticas no uso do solo, ou seja, quando a gente corta a vegeta\u00e7\u00e3o nativa, queima e coloca em uma lavoura. Depois de um tempo, essa \u00e1rea perde a sua fertilidade, ent\u00e3o o agricultor vai para outra \u00e1rea, corta, queima e planta. Isso \u00e9 uma din\u00e2mica socioecol\u00f3gica muito comum no semi\u00e1rido brasileiro, \u00e9 o que a gente chama de agricultura de coivara, de corte e queima.<\/p>\n<p>Queimar a Caatinga \u00e9 a gente formar mais desertos, e quando a gente forma mais desertos, quando a gente amplia essa \u00e1rea de desertifica\u00e7\u00e3o, a gente est\u00e1 retroalimentando a pobreza. Aqueles sertanejos que v\u00e3o perder a sua \u00e1rea, que tem potencial de ser cultivada, de produzir alimentos; ele, ao inv\u00e9s de se fixar no seu im\u00f3vel rural, no seu sitiozinho, na sua terrinha, ele vai vir pra cidade atr\u00e1s de emprego, atr\u00e1s de comida.<\/p>\n<p><strong>E<\/strong><strong>m uma audi\u00eancia p\u00fablica do Senado, o ministro do Meio Ambiente\u00a0Ricardo Salles\u00a0criticou um excesso de medidas para proteger os biomas e sugeriu\u00a0a cria\u00e7\u00e3o de gado como medida para conter as queimadas. Como esse tipo de posicionamento impacta no jeito que a sociedade entende a preserva\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O ministro Salles n\u00e3o entende nada de meio ambiente. Ele usa toda essa ret\u00f3rica utilizando de v\u00e1rios e v\u00e1rios dados que s\u00e3o falsos, que n\u00e3o correspondem com a realidade. Esse devaneio de \u201cboi bombeiro\u201d, isso para n\u00f3s que somos t\u00e9cnicos, que somos pesquisadores, isso \u00e9 quase uma piada.<\/p>\n<p>Saiu um trabalho muito interessante em uma revista cient\u00edfica muito prestigiosa chamada \u201cScience Advanced\u201d, que\u00a0\u00e9 uma das revistas cient\u00edficas mais lidas do mundo e o professor da UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais],\u00a0Raoni Raj\u00e3o, conseguiu provar que apenas 2% dos agricultores brasileiros causam os danos na Amaz\u00f4nia, s\u00e3o as ma\u00e7\u00e3s podres. Sendo que essas ma\u00e7\u00e3s podres est\u00e3o ganhando palco, est\u00e3o ganhando holofote, est\u00e3o ganhando voz e essa voz est\u00e1 destruindo a imagem do Brasil no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>Isso implica em redu\u00e7\u00e3o de investimento,\u00a0em barreiras para a nossa agricultura, isso implica em v\u00e1rias e v\u00e1rias restri\u00e7\u00f5es para firmar acordos internacionais, feito a gente est\u00e1 presenciando essa novela que se tornou o acordo Uni\u00e3o Europeia \u2013 Mercosul por causa das barreiras ambientais que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 conseguindo cumprir; diz que vai cumprir, mas no outro dia descumpre. Existe uma inseguran\u00e7a na fala do governo brasileiro, do que ele diz na agenda ambiental brasileira e isso \u00e9 terr\u00edvel em todos os sentidos: econ\u00f4mico, ambiental e moral tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Entre 2019 e 2020, houve uma redu\u00e7\u00e3o de 58% no or\u00e7amento destinado \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o de pessoal de preven\u00e7\u00e3o e controle de inc\u00eandios florestais em \u00e1reas federais, apesar de 2020 ter sido o ano com maior n\u00famero de queimadas na hist\u00f3ria do Brasil. Como voc\u00ea observa essa medida do governo Bolsonaro e como ela impacta no meio ambiente?<\/strong><\/p>\n<p>De dois anos pra c\u00e1, na gest\u00e3o do Governo Federal atual, esse tipo de evento vem se tornando cada vez mais frequente.\u00a0Eu vou parafrasear um Procurador da Rep\u00fablica que fez uma cita\u00e7\u00e3o bel\u00edssima para a gente entender como a fala de um governante tem um papel important\u00edssimo. Ele falou o seguinte, que a Amaz\u00f4nia \u00e9 como uma Bolsa de Valores: se o governo d\u00e1 um sinal positivo, a bolsa sobe; se o governo d\u00e1 um sinal negativo, a bolsa desce; e \u00e9 a mesma coisa na Amaz\u00f4nia. Se o governo fala \u201cah, n\u00e3o vou punir garimpeiro, n\u00e3o vou punir pessoas que est\u00e3o fazendo pasto criminoso, n\u00e3o vou queimar as m\u00e1quinas do garimpo\u201d, o que acontece com o desmatamento na Amaz\u00f4nia? Sobe! O que acontece com as queimadas no pantanal? Sobe! O que acontece com as queimadas ao lado de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o ambiental como \u00e9 o Parque Nacional da Serra da Capivara? Sobe!<\/p>\n<p>Problema ambiental sempre teve, mas a gente nunca teve aus\u00eancia e desmonte. Aus\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o, pouco dinheiro para o minist\u00e9rio, pouca multa, isso acontecia. Agora, desmonte, falar de passar boiada, tirar deliberadamente resolu\u00e7\u00f5es protetivas de manguezal e \u00e1reas de restinga, reconfigurar o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que era a inst\u00e2ncia m\u00e1xima de participa\u00e7\u00e3o social em tomada de decis\u00e3o para a pauta ambiental brasileira. Isso aqui n\u00e3o \u00e9 uma fala pol\u00edtica, \u00e9 uma fala t\u00e9cnica de perplexidade, que faz com que a gente n\u00e3o tenha essa trag\u00e9dia que a gente est\u00e1 vivendo em focos de inc\u00eandio e uma completa aus\u00eancia da preven\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma vontade pol\u00edtica, n\u00e3o tem outra explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"editor\">Edi\u00e7\u00e3o: Vanessa Gonzaga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 no sert\u00e3o pernambucano j\u00e1 foram contabilizadas cerca de 250 ocorr\u00eancias de inc\u00eandio em vegeta\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"S\u00f3 no sert\u00e3o pernambucano j\u00e1 foram contabilizadas cerca de 250 ocorr\u00eancias de inc\u00eandio em vegeta\u00e7\u00e3o","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136456"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136456"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136456\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136456"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136456"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136456"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}