{"id":136351,"date":"2020-11-02T09:46:16","date_gmt":"2020-11-02T12:46:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=136351"},"modified":"2020-11-02T09:46:16","modified_gmt":"2020-11-02T12:46:16","slug":"rebanhos-produzindo-mais-leite-com-menos-alimento-sao-a-nova-fronteira-da-pesquisa-agropecuaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/rebanhos-produzindo-mais-leite-com-menos-alimento-sao-a-nova-fronteira-da-pesquisa-agropecuaria\/","title":{"rendered":"Rebanhos produzindo mais leite com menos alimento s\u00e3o a nova fronteira da pesquisa agropecu\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/gado_leite.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-136352\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/gado_leite-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/gado_leite-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/gado_leite.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>As pesquisas sobre efici\u00eancia alimentar em bovinos de leite avan\u00e7am no Brasil. Recentemente, a Embrapa Gado de Leite concluiu seus primeiros estudos com f\u00eameas da ra\u00e7a Girolando. Outro trabalho vem sendo desenvolvido com f\u00eameas da ra\u00e7a Gir Leiteiro em lacta\u00e7\u00e3o. Essas s\u00e3o pesquisas pioneiras em bovinocultura de leite no pa\u00eds (h\u00e1 estudos recentes sobre efici\u00eancia alimentar em bovinos de corte). Para o produtor de leite, \u201cefici\u00eancia alimentar\u201d pode parecer confuso, mas o significado \u00e9 simples e de grande interesse do setor: vacas comendo menos e produzindo mais. \u00c9 poss\u00edvel? \u201cCom toda certeza\u201d, garante a pesquisadora da Embrapa, Mariana Magalh\u00e3es Campos, coordenadora das pesquisas. \u201cNa sociedade humana, h\u00e1 pessoas que comem menos do que outras e ganham mais peso; com as vacas \u00e9 a mesma coisa. Algumas podem apresentar melhores resultados, em termos de produ\u00e7\u00e3o, alimentando-se em menor quantidade ou igual \u00e0s outras\u201d, completa.<\/p>\n<p>Os estudos possuem aspectos complexos, mas em linhas gerais, o que os pesquisadores fizeram, num primeiro momento, foi observar as caracter\u00edsticas dos bovinos que apresentavam potencial para produzir mais, com menos alimento. A essas caracter\u00edsticas observ\u00e1veis, d\u00e1-se o nome de \u201cfen\u00f3tipo\u201d. Em uma segunda etapa, os fen\u00f3tipos ser\u00e3o associados aos gen\u00f3tipos, que s\u00e3o as caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas determinantes do fen\u00f3tipo. As pesquisas com marcadores gen\u00e9ticos dar\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para se obter vacas mais eficientes, possibilitando uma nutri\u00e7\u00e3o de precis\u00e3o com animais selecionados.<\/p>\n<p>Conforme explica a pesquisadora, \u201ca identifica\u00e7\u00e3o de fen\u00f3tipos qualificados para efici\u00eancia alimentar de f\u00eameas leiteiras nas fases de cria, recria, pr\u00e9-parto, lacta\u00e7\u00e3o e per\u00edodo seco, permitir\u00e1 a gera\u00e7\u00e3o de uma base de dados consistente, possibilitando a identifica\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas que poder\u00e3o ser inclu\u00eddas nos programas de melhoramento de bovinos de leite\u201d. Em outras palavras, o produtor poder\u00e1 encontrar, nas centrais de insemina\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es o material gen\u00e9tico (s\u00eamen ou embri\u00e3o) que lhe garanta um rebanho com a melhor rela\u00e7\u00e3o consumo de alimentos\/produ\u00e7\u00e3o de leite. Isso j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel com outras caracter\u00edsticas, tamb\u00e9m gen\u00e9ticas, como resist\u00eancia a endo e a ectoparasitas, problemas de cascos, conforma\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o de s\u00f3lidos no leite, etc.<\/p>\n<p><strong>Resultados \u2013<\/strong>\u00a0Um dos primeiros resultados do projeto foi provar que as diferen\u00e7as de efici\u00eancia alimentar podem ter in\u00edcio j\u00e1 na fase de aleitamento das bezerras. Segundo Mariana Campos, \u201cfoi poss\u00edvel, de forma pioneira, realizar essa avalia\u00e7\u00e3o para diferentes \u00edndices como consumo alimentar residual, ganho de peso residual e consumo e ganho residual\u201d. O consumo foi dividido entre o esperado e o observado. Animais com consumo menor que o estimado s\u00e3o considerados mais eficientes comparados aos animais com consumo maior que o estimado. Essa caracter\u00edstica foi denominada \u201cconsumo alimentar residual\u201d.<\/p>\n<p>Mariana explica que a digestibilidade de um alimento \u00e9 medida pela diferen\u00e7a entre os nutrientes consumidos subtra\u00eddos daqueles que foram excretados nas fezes, ou seja, s\u00e3o os nutrientes de fato utilizados. Nos experimentos, ao avaliar as bezerras mais eficientes para\u00a0consumo alimentar residual,\u00a0os pesquisadores verificaram diferen\u00e7as na digestibilidade de nutrientes, fazendo com que algumas vacas obtivessem maior digestibilidade da dieta. Tamb\u00e9m foram encontradas diferen\u00e7as no metabolismo das prote\u00ednas, na fase de aleitamento.<\/p>\n<p>Para chegar a estas conclus\u00f5es, os pesquisadores\u00a0monitoraram 80 bezerras\u00a0Gir e Girolando. Duas ferramentas de pesquisa utilizadas durante a avali\u00e7\u00e3o foram:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0<strong>M\u00e1scara facial<\/strong>\u00a0\u2013 m\u00e1scara facial acoplada ao animal para mensurar trocas gasosas (consumo de oxig\u00eanio e produ\u00e7\u00e3o de metano e g\u00e1s carb\u00f4nico). A m\u00e1scara foi utilizada por 20 a 30 minutos, tr\u00eas horas ap\u00f3s a alimenta\u00e7\u00e3o da manh\u00e3. Os animais foram avaliados por dois dias consecutivos. Essa ferramenta estimou a diferen\u00e7a de calor produzido por bezerras mais e menos eficientes. As bezerras mais eficientes produziram menos calor.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0<strong>Termografia infravermelha\u00a0<\/strong><strong>(TIV)<\/strong>\u00a0\u2013\u00a0m\u00e9todo n\u00e3o invasivo utilizado para indicar altera\u00e7\u00f5es biom\u00e9tricas t\u00e9rmicas no metabolismo animal, resultantes\u00a0do aumento da temperatura corporal e altera\u00e7\u00f5es no fluxo sangu\u00edneo em resposta a condi\u00e7\u00f5es\u00a0ambientais ou fisiol\u00f3gicas. A aplica\u00e7\u00e3o da TIV em ensaios de efici\u00eancia alimentar \u0117 baseada na teoria de que animais mais eficientes tem menor requerimento de energia basal. Diferen\u00e7as em temperatura superficial mensuradas por TIV parecem estar relacionadas\u00a0com \u00edndices de efici\u00eancia alimentar.<\/p>\n<p>Os estudos levaram seis anos para ser conclu\u00eddos. Segundo a pesquisadora Fernanda Samarini os projetos contaram diretamente com 47 pessoas (15 pesquisadores, 15 bolsistas, sete mestrandos e 10 doutorandos). \u201cA rede de parceiros continua aumentando\u201d, diz Fernanda, que completa: \u201cesse tipo de pesquisa envolve uma s\u00e9rie de experimentos com animais e d\u00e1 muito trabalho, mas na velocidade com que avan\u00e7am as tecnologias em gen\u00e9tica molecular, poderemos obter resultados pr\u00e1ticos em poucos anos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Benef\u00edcios para o produtor e para o meio ambiente<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA sele\u00e7\u00e3o de animais com maior efici\u00eancia alimentar contribuir\u00e1 para a sustentabilidade dos sistemas de produ\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 o que garante Thierry Ribeiro Tomich, pesquisador da Embrapa Gado de Leite. Os bovinos s\u00e3o emissores de metano (CH<sub>4<\/sub>) na atmosfera, um dos gases com maior potencial de provocar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201cUma produ\u00e7\u00e3o mais eficiente diminui a emiss\u00e3o desse g\u00e1s\u201d, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Diferente dos animais monog\u00e1stricos (que possuem apenas o estomago), a digest\u00e3o dos ruminantes utiliza a fermenta\u00e7\u00e3o, possibilitando o aproveitamento da celulose como alimento. Em contrapartida, h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o de CH<sub>4<\/sub>. \u201cA nutri\u00e7\u00e3o de precis\u00e3o visa tamb\u00e9m mitigar essas emiss\u00f5es, j\u00e1 que quanto mais eficiente na convers\u00e3o do alimento e na produ\u00e7\u00e3o de leite e carne for o bovino, haver\u00e1 menos emiss\u00e3o de CH<sub>4<\/sub>\u00a0por produto gerado\u201d, constata Tomich.<\/p>\n<p>O pesquisador destaca ainda que, al\u00e9m da sustentabilidade ambiental, a otimiza\u00e7\u00e3o da nutri\u00e7\u00e3o animal pode influenciar de forma expressiva na viabilidade econ\u00f4mica do sistema de produ\u00e7\u00e3o. Segundo dados da Embrapa, a alimenta\u00e7\u00e3o representa o principal custo da atividade leiteira (entre 50% e 60%), reduzindo a margem de lucro dos pecuaristas. \u201cVacas que utilizam os alimentos de forma mais eficiente, consomem menos para atingir o mesmo n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o e, dessa forma, s\u00e3o mais lucrativos e produzem mais leite por \u00e1rea cultivada\u201d, conclui.<\/p>\n<p><strong>Parceira com a Universidade de Nottingham, no Reino Unido<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhos realizados pela Embrapa Gado de Leite despertaram o interesse da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, que possui linha de pesquisa semelhante, estudando ra\u00e7as de clima temperado. A parceria com a Embrapa ir\u00e1 incorporar as ra\u00e7as de clima tropical. Foram assinados dois contratos de coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A articula\u00e7\u00e3o entre as institui\u00e7\u00f5es foi coordenada pelo Labex Europa,\u00a0que durante dois anos coordenou a prepara\u00e7\u00e3o do acordo firmado no \u00e2mbito do<em>\u00a0Future Food &#8211; Beacon of Excellence<\/em>, parte de um programa de investimento nas \u00e1reas de ci\u00eancia das plantas e dos animais. Al\u00e9m da Embrapa Gado de Leite, outras unidades (Embrapa Arroz e Feij\u00e3o e Embrapa Trigo) foram beneficiadas pelo projeto.<\/p>\n<p>Segundo o coordenador do Labex Europa, Vin\u00edcius Guimar\u00e3es, a negocia\u00e7\u00e3o trouxe oportunidades para a pesquisa, mas demandou esfor\u00e7o na articula\u00e7\u00e3o, envolvendo dois coordenadores do Labex, o anterior e o atual. \u201cTrabalhamos juntos no alinhamento \u00e0s exig\u00eancias contratuais at\u00e9 a libera\u00e7\u00e3o dos recursos no Brasil, por meio da Funda\u00e7\u00e3o Arthur Bernardes \u2013 Funarbe\u201d, explica. \u201cApesar de todas as dificuldades, continuaremos em estreita rela\u00e7\u00e3o com essa importante institui\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo Guimar\u00e3es, o apoio financeiro internacional tem sido fundamental para as pesquisas neste momento de restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria.<\/p>\n<p>A assinatura dos contratos foi conclu\u00edda em outubro. O primeiro deles tem como objetivo estabelecer as rela\u00e7\u00f5es entre efici\u00eancia alimentar e emiss\u00f5es de metano de animais Girolando, do nascimento ao final da primeira lacta\u00e7\u00e3o. Os pesquisadores tamb\u00e9m pretendem correlacionar a emiss\u00e3o de metano, os \u00edndices de efici\u00eancia alimentar e o desempenho animal ao sequenciamento gen\u00e9tico do microbioma ruminal, al\u00e9m de identificar os biomarcadores para animais mais eficientes.<\/p>\n<p>O segundo contrato prev\u00ea a avalia\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o da efici\u00eancia alimentar e o status imunol\u00f3gico, o microbioma ruminal, vaginal e do leite de bovinos leiteiros da ra\u00e7a Holandesa (realizado no Reino Unido) e da ra\u00e7a Gir Leiteiro (realizado na Embrapa Gado de Leite). Prev\u00ea ainda comparar microbiomas e fen\u00f3tipos de vacas Gir Leiteiro em condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas tropicais e vacas holandesas em condi\u00e7\u00f5es temperadas, identificando similaridades e diferen\u00e7as entre as ra\u00e7as europeia e indiana. Como no primeiro projeto, espera-se identificar biomarcadores para animais mais eficientes. Os projetos t\u00eam a dura\u00e7\u00e3o de dois anos.<\/p>\n<p><strong>Institui\u00e7\u00f5es parceiras<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da Universidade de Nottingham, no Brasil as pesquisas contam com as seguintes institui\u00e7\u00f5es parceiras:<\/p>\n<p>&#8211; Universidade Federal de Minas Gerais<\/p>\n<p>&#8211; Universidade Federal de Vi\u00e7osa<\/p>\n<p>&#8211; Universidade Federal do Sudoeste da Bahia<\/p>\n<p>&#8211; Universidade Federal de Juiz de Fora<\/p>\n<p>&#8211; EPAMIG &#8211; Empresa de Pesquisa Agropecu\u00e1ria de Minas Gerais<\/p>\n<p>&#8211; Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Criadores de Girolando<\/p>\n<p>&#8211; Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro<\/p>\n<p>&#8211; Fazenda Canoas<\/p>\n<p>&#8211; Intergado<\/p>\n<p>&#8211; Allflex<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As pesquisas sobre efici\u00eancia alimentar em bovinos de leite avan\u00e7am no Brasil. 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