{"id":136254,"date":"2020-10-31T15:00:55","date_gmt":"2020-10-31T18:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=136254"},"modified":"2020-10-31T11:15:16","modified_gmt":"2020-10-31T14:15:16","slug":"denisovanos-ja-habitavam-o-tibete-quando-humanos-chegaram-revela-dna-em-caverna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/denisovanos-ja-habitavam-o-tibete-quando-humanos-chegaram-revela-dna-em-caverna\/","title":{"rendered":"Denisovanos j\u00e1 habitavam o Tibete quando humanos chegaram, revela DNA em caverna"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-136255\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A caverna Baishiya Karst, que fica a mais de 3.000 metros acima do n\u00edvel do mar no Tibete, China, \u00e9 um importante santu\u00e1rio para monges budistas da regi\u00e3o. H\u00e1 dezenas de milhares de anos, por\u00e9m, o mesmo local pode ter servido de abrigo para alguns homin\u00eddeos de Denisova\u00a0\u2013\u00a0esp\u00e9cie similar ao\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0cuja origem e paradeiro permanece um mist\u00e9rio para os arque\u00f3logos.<\/p>\n<p>\u00c9 o que relata\u00a0<a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/370\/6516\/584\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um estudo<\/a>\u00a0publicado nesta quinta no peri\u00f3dico\u00a0<em>Science<\/em>. Uma equipe formada por pesquisadores da China, Austr\u00e1lia e EUA conseguiu identificar amostras de DNA de denisovanos, que datam de entre 100 mil e 45 mil anos atr\u00e1s, nos sedimentos do local.<\/p>\n<p>O achado torna Baishiya Karst apenas o segundo local onde material gen\u00e9tico denisovano foi encontrado at\u00e9 hoje.\u00a0A descoberta nos ajuda a entender a hist\u00f3ria da dispers\u00e3o dessa esp\u00e9cie obscura e os cruzamentos entre\u00a0<em>sapiens<\/em>\u00a0e outros homin\u00eddeos\u00a0que resultaram na diversidade gen\u00e9tica dos humanos modernos.<\/p>\n<p>Os Denisovanos guardam conosco um grau de parentesco evolutivo semelhante ao exibido pelos Neandertais. Mas os homens do vale de Neander, descobertos ainda no s\u00e9culo 19 na Alemanha, s\u00e3o bem mais conhecidos que os da caverna de Denisova, na Sib\u00e9ria\u00a0\u2013\u00a0identificados apenas em 2010. Perceba que as duas esp\u00e9cies foram batizadas em refer\u00eancia ao local da escava\u00e7\u00e3o dos primeiros f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Estudos gen\u00e9ticos em humanos modernos (n\u00f3s cruzamos com os denisovanos) ajudam a entender a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica original dessa esp\u00e9cie. Popula\u00e7\u00f5es atuais da \u00c1sia e dos arquip\u00e9lagos do Pac\u00edfico, abor\u00edgenes da Austr\u00e1lia e nativos da Am\u00e9rica do Norte possuem todos tra\u00e7os denisovanos em seus genomas (algo entre 0,5% e 3% do DNA). A maior taxa \u00e9 encontrada em habitantes da Papua Nova Guin\u00e9, que herdaram at\u00e9 6% de seu genoma desses homin\u00eddeos extintos.<\/p>\n<p>Esses dados indicam que, em algum ponto da hist\u00f3ria, a esp\u00e9cie foi amplamente distribu\u00edda pela \u00c1sia e, talvez, pela Oceania. Africanos e europeus n\u00e3o t\u00eam genes denisovanos, at\u00e9 onde sabemos. O problema \u00e9 que, apesar de sua presen\u00e7a ampla e fantasmag\u00f3rica no DNA, os denisovanos s\u00e3o escassos no registro f\u00f3ssil: conhec\u00edamos apenas o punhado de fragmentos usado na descri\u00e7\u00e3o original da esp\u00e9cie, em 2010.<\/p>\n<p><strong>Uma nova esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Em 2019, uma equipe liderada pela pesquisadora chinesa Zhang Dongju, da Universidade de Lanzhou,\u00a0<a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/364\/6439\/418\">identificou um peda\u00e7o de mand\u00edbula<\/a>\u00a0denisovana encontrado na caverna de Baishiya Karst que datava de mais ou menos 160 mil anos atr\u00e1s. O\u00a0f\u00f3ssil havia sido encontrado 40 anos antes por um monge budista, e passou esse tempo todo guardado.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da publica\u00e7\u00e3o do estudo, arque\u00f3logos de outras institui\u00e7\u00f5es questionaram a descoberta. A mand\u00edbula havia sido atribu\u00edda a um denisovano por meio de um m\u00e9todo criado recentemente, que se baseava em varia\u00e7\u00f5es de uma \u00fanica prote\u00edna. Um teste de DNA seria uma evid\u00eancia bem mais conclusiva, mas o osso n\u00e3o estava suficientemente preservado para isso.<\/p>\n<p>Dongju e sua equipe voltaram a escavar a caverna em busca de mais provas. Como o local \u00e9 sagrado para os budistas e usado para fins religiosos, foi necess\u00e1rio um acordo com os monges \u2013 eles s\u00f3 escavariam \u00e0 noite, quando n\u00e3o h\u00e1 cerim\u00f4nias, e no inverno, quando as temperaturas atingem um patamar bem pouco divino. Detalhe: o local fica a 3.200 metros de altitude.<\/p>\n<p><strong>O imp\u00e9rio contra-ataca<\/strong><\/p>\n<p>Valeu a pena encarar os monges, o frio de Everest e os\u00a0<em>haters<\/em>.\u00a0O resultado desse rol\u00ea congelante \u00e9 a not\u00edcia que voc\u00ea est\u00e1 lendo: Dongju conseguiu as primeiras amostras de DNA denisovano fora da Sib\u00e9ria.<\/p>\n<p>O material n\u00e3o foi extra\u00eddo de f\u00f3sseis, mas sim do pr\u00f3prio solo da caverna. Ele pode ter se misturado aos sedimentos pegando carona em urina, fezes ou sangue de ferimentos. Ou ser proveniente da pr\u00f3pria decomposi\u00e7\u00e3o dos corpos, explicou Dongju em entrevista \u00e0 SUPER.<\/p>\n<p>O mais interessante \u00e9 que o DNA foi encontrado em sedimentos datados de \u00e9pocas bem diferentes: algumas amostras eram de 100 mil anos atr\u00e1s, outras de 60 mil, e algumas, possivelmente, de 45 mil anos. A data\u00e7\u00e3o dos fragmentos mais antigos \u00e9 bastante confi\u00e1vel; a dos mais jovens \u00e9 incerta.<\/p>\n<p>Se confirmada, essa \u00faltima data coincidiria com a chegada dos primeiros\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0ao leste asi\u00e1tico, h\u00e1 mais ou menos 40 mil anos. A caverna e seus arredores podem ter sido um local de encontro entre as esp\u00e9cies \u2013 e, possivelmente, reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do DNA mitocondrial, a equipe tamb\u00e9m encontrou f\u00f3sseis de animais e ferramentas de pedra na caverna. Esses itens ainda n\u00e3o foram datados, portanto, n\u00e3o sabemos se foram produzidos pelos denisovanos ou pelos sapiens que chegaram depois.<\/p>\n<p><strong>No teto do mundo<\/strong><\/p>\n<p>Encontrar ind\u00edcios da presen\u00e7a de homin\u00eddeos pr\u00e9-hist\u00f3ricos em altitudes t\u00e3o grandes \u00e9 algo raro na arqueologia. Em atitudes superiores a 2.500 metros, humanos modernos j\u00e1 come\u00e7am a sofrer com o ar rarefeito.\u00a0Isso indica que os denisovanos da regi\u00e3o tinham adapta\u00e7\u00f5es que os ajudavam a suportar a falta de oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Como a mand\u00edbula encontrada em 2019 data de 160 mil anos atr\u00e1s e as amostras de DNA s\u00e3o de at\u00e9 45 mil anos atr\u00e1s, \u00e9 prov\u00e1vel que a esp\u00e9cie tenha habitado o Tibete por dezenas de milhares de anos \u2013 tempo suficiente para muta\u00e7\u00f5es emergirem e se espalharem por sele\u00e7\u00e3o natural. Em um ambiente extremo, qualquer gene que d\u00ea um g\u00e1s na capacidade respirat\u00f3ria sairia na vantagem.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/nature13408\">Um estudo anterior<\/a>\u00a0indicou que os humanos que habitam o Tibete atualmente possuem adapta\u00e7\u00f5es a grandes altitudes gra\u00e7as aos denisovanos. Eles possuem uma varia\u00e7\u00e3o do gene EPAS1 que torna as hem\u00e1cias (gl\u00f3bulos vermelhos) capazes de carregar oxig\u00eanio com mais efici\u00eancia. Os pesquisadores acreditam que essa muta\u00e7\u00e3o surgiu e se tornou comum entre os denisovanos, e depois foi herdada pelos humanos que cruzaram com eles.<\/p>\n<p><strong>Cad\u00ea os ossinhos?<\/strong><\/p>\n<p>Se os denisovanos ocuparam uma fatia t\u00e3o grande da \u00c1sia, fica a pergunta: por que seus restos mortais s\u00e3o t\u00e3o raros?<\/p>\n<p>\u201cF\u00f3sseis de homin\u00eddeos em geral s\u00e3o raros devido aos problemas de preserva\u00e7\u00e3o\u201d, explicou \u00e0 SUPER Charles Perreault, da Universidade Estadual do Arizona, EUA, que tamb\u00e9m participou do novo estudo. \u201cO ambiente de muitas partes da \u00c1sia n\u00e3o \u00e9 adequado \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de f\u00f3sseis \u2013 as florestas \u00famidas do sudeste asi\u00e1tico s\u00e3o um exemplo disso.\u201d<\/p>\n<p>Outro problema \u00e9 que n\u00e3o sabemos como era, exatamente, a anatomia dos denisovanos. Talvez j\u00e1 tenhamos encontrados dezenas de ossos deles, mas n\u00e3o soubemos atribui-los \u00e0 esp\u00e9cie correta. Dongju explicou que \u00e9 preciso fazer uma ponte entre fragmentos que preservaram o DNA, mas s\u00e3o pequenos demais para nos dar caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas, e fragmentos maiores, que nos d\u00e3o informa\u00e7\u00f5es sobre a a apar\u00eancia f\u00edsica e a mec\u00e2nica do esqueleto desses homin\u00eddeos.<\/p>\n<p>Perreault concorda. \u201cSabemos muito pouco sobre a morfologia do esqueleto de denisovanos e sobre sua apar\u00eancia. Na medida em que esqueletos guardados em museus e laborat\u00f3rios de universidades comecem a ter seus DNAs estudados, espero que possamos descobrir que alguns deles na verdade s\u00e3o de denisovanos\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 l\u00e1, a equipe vai continuar cavando a caverna chinesa, na esperan\u00e7a de encontrar mais f\u00f3sseis da esp\u00e9cie misteriosa, bem como outros ind\u00edcios que revelem seus h\u00e1bitos. \u201cVai ser interessante comparar o comportamento de denisovanos com o de humanos modernos e de neandertais\u201d, diz\u00a0Perreault.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A caverna Baishiya Karst, que fica a mais de 3.000 metros acima do n\u00edvel do<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":136255,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/descoberta.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A caverna Baishiya Karst, que fica a mais de 3.000 metros acima do n\u00edvel do","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136254"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136254\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/136255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}