{"id":135724,"date":"2020-10-20T13:30:22","date_gmt":"2020-10-20T16:30:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=135724"},"modified":"2020-10-20T06:57:57","modified_gmt":"2020-10-20T09:57:57","slug":"restaurar-paisagem-em-areas-prioritarias-pode-evitar-71-das-extincoes-e-mitigar-crise-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/restaurar-paisagem-em-areas-prioritarias-pode-evitar-71-das-extincoes-e-mitigar-crise-climatica\/","title":{"rendered":"Restaurar paisagem em \u00e1reas priorit\u00e1rias pode evitar 71% das extin\u00e7\u00f5es e mitigar crise clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<div class=\"gr-wrap ngart__group\">\n<div class=\"ngart__main-col\">\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-135725\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) definiu que, a partir de 2021, o mundo entrar\u00e1 na D\u00e9cada de Restaura\u00e7\u00e3o de Ecossistemas. E um estudo encomendado pela ONU e liderado pelo pesquisador brasileiro\u00a0<a href=\"http:\/\/csrio.usuarios.rdc.puc-rio.br\/equipe\/bernardo-baeta-neves-strassburg\/\">Bernardo Strassburg<\/a>\u00a0ajudar\u00e1 a nortear as negocia\u00e7\u00f5es. Um mapeamento global constatou que h\u00e1 2,9 bilh\u00f5es de hectares de terras degradadas pass\u00edveis de recupera\u00e7\u00e3o em todos os tipos de ambientes, como florestas, ecossistemas \u00e1ridos, terras alagadas, pradarias e matagais.<\/p>\n<p>Nessas regi\u00f5es, os pesquisadores identificaram \u00e1reas priorit\u00e1rias onde a regenera\u00e7\u00e3o da paisagem original seria 13 vezes mais custo-efetiva. Calcularam tamb\u00e9m os impactos para diferentes cen\u00e1rios. A restaura\u00e7\u00e3o para habitats saud\u00e1veis de 15% dessas \u00e1reas cruciais, por exemplo, poderia evitar a extin\u00e7\u00e3o de 60% das esp\u00e9cies amea\u00e7adas atualmente, al\u00e9m de sequestrar 299 gigatoneladas de CO2 \u2013\u00a030% do total incrementado na atmosfera desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, iniciada em 1760. J\u00e1 uma recupera\u00e7\u00e3o de 30% representaria a preserva\u00e7\u00e3o de 71% das esp\u00e9cies em risco de extin\u00e7\u00e3o e o armazenamento de metade do CO2 produzido no mesmo per\u00edodo. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-020-2784-9\">artigo foi publicado nesta quarta-feira<\/a>, 14 de outubro, na revista cient\u00edfica\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-020-2784-9\">Nature<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Uma restaura\u00e7\u00e3o apropriada do ponto de vista ecol\u00f3gico pressup\u00f5e o retorno do respectivo ecossistema \u00e0s suas caracter\u00edsticas originais, diz Strassburg. \u201cMundialmente, as terras alagadas s\u00e3o as mais priorit\u00e1rias. As florestas tropicais v\u00eam logo depois. Mas tem \u00e1reas importantes em todos os tipos de ecossistemas e biomas.\u201d<\/p>\n<p>Os locais cruciais apresentam uma forte liga\u00e7\u00e3o entre a conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e a mitiga\u00e7\u00e3o da crise clim\u00e1tica, observa Strassburg. Ao sequestrar carbono, a flora contribui para reduzir o aquecimento global e, por consequ\u00eancia, evitar a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies. Outra sinergia envolve a conectividade. Muitas das \u00e1reas identificadas, se restauradas, serviriam de corredores ecol\u00f3gicos entre ecossistemas fragmentados. \u201cH\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o comprovada de que, quanto mais biodiversa, mais produtiva no sequestro de carbono determinada \u00e1rea se torna. Tamb\u00e9m fica mais resistente e resiliente a desastres e flutua\u00e7\u00f5es do clima\u201d, analisa o pesquisador. \u201cQuando um ecossistema sofre impactos, mas se recupera r\u00e1pido com ajuda da biodiversidade, perde-se menos carbono.\u201d<\/p>\n<p>Os pesquisadores constataram que as \u00e1reas com maior potencial de regenera\u00e7\u00e3o combinam uma alta relev\u00e2ncia para biodiversidade com uma subutiliza\u00e7\u00e3o do ponto de vista da agricultura e da pecu\u00e1ria. \u201cCerca de 70% da natureza j\u00e1 perdida<strong>\u00a0<\/strong>foram convertidas para pastagem. O caso mais cl\u00e1ssico \u00e9 o de terras de pecu\u00e1ria de baixa produtividade ou abandonadas, muito comuns na Mata Atl\u00e2ntica, no Brasil em geral e no mundo\u201d, disse Strassburg.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ngart__side-col\">\n<div class=\"ngart__side-inner article-sticky\">\n<div class=\"ngart__ad-col\">\n<div class=\"ngart__side-ad\">\n<div id=\"gpt--article_side__0--52419\" class=\"css-qjq5zf\" data-google-query-id=\"CJfIiY_zwuwCFXwBuQYdhroH0w\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img ngart-img--large\">\n<div class=\"ngart-img__cntr\" tabindex=\"0\" role=\"button\"><picture class=\"resp-img-cntr\"><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/prancheta-14x-100-final-v2.jpg?w=768&amp;h=569\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/prancheta-14x-100-final-v2.jpg?w=1024&amp;h=759\" media=\"(max-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/prancheta-14x-100-final-v2.jpg?w=1280&amp;h=948\" media=\"(max-width: 1280px)\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"mapa recupera\u00e7\u00e3o \u00e1reas \" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/prancheta-14x-100-final-v2.jpg?w=1600&amp;h=1185\" alt=\"mapa recupera\u00e7\u00e3o \u00e1reas \" width=\"639\" height=\"473\" \/><\/picture><\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont\">\n<div class=\"ngart-img__cont__copy\">\n<p>Caso restauradas, as \u00e1reas marcadas em vermelho seriam as mais efetivas na conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e captura de carbono.\u00a0<a href=\"https:\/\/projetos.iis-rio.org\/globo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ferramenta desenvolvida pelos pesquisadores<\/a>\u00a0permite balancear esses dois crit\u00e9rios com um terceiro: o custo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont__author\">FOTO DE\u00a0<span class=\"ngart-img__cont--strong\">NATIONAL GEOGRAPHIC. FONTE: GLOBAL PRIORITY AREAS FOR ECOSYSTEM RESTORATION<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"gr-wrap ngart__group\">\n<div class=\"ngart__main-col\">\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p>A metodologia utilizada no artigo teve origem em 2013. Ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o do novo C\u00f3digo Florestal, em 2012, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente encomendou ao Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS), onde Strassburg \u00e9 diretor-executivo, uma ferramenta para definir estrat\u00e9gias mais eficazes e mais baratas para recuperar vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Assim, a equipe do instituto e pesquisadores estrangeiros desenvolveram um algoritmo matem\u00e1tico dedicado \u00e0 prioriza\u00e7\u00e3o espacial para restaura\u00e7\u00e3o, com foco em identificar \u00e1reas cruciais para regenera\u00e7\u00e3o na Mata Atl\u00e2ntica. O trabalho durou quatro anos e os resultados foram publicados na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41559-018-0743-8\">Nature Ecology &amp; Evolution<\/a>, em 2018.<\/p>\n<p>Ao apresentar o estudo em f\u00f3runs internacionais, diretores da Conven\u00e7\u00e3o da Biodiversidade das Na\u00e7\u00f5es Unidas perguntaram se Strassburg poderia desenvolver um mapeamento global para ajudar nas discuss\u00f5es em andamento sobre o novo grande marco global da biodiversidade. A confer\u00eancia sobre o tema est\u00e1 prevista para acontecer na China em 2021, e deve estabelecer o plano da d\u00e9cada 2021-2030 e os objetivos at\u00e9 2050. Strassburg aceitou a proposta e a equipe do IIS e colegas de outras institui\u00e7\u00f5es mundo afora mergulharam no projeto nos \u00faltimos dois anos.<\/p>\n<p>A metodologia adotou tr\u00eas eixos principais para identificar as regi\u00f5es mais importantes para a regenera\u00e7\u00e3o: a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, a mitiga\u00e7\u00e3o da crise clim\u00e1tica e os custos envolvidos nos esfor\u00e7os. Ao analisar uma s\u00e9rie de banco de dados, o algoritmo matem\u00e1tico realizou a leitura de 1.200 poss\u00edveis cen\u00e1rios com os tr\u00eas crit\u00e9rios em conjunto e determinou as regi\u00f5es onde a restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica seria mais custo-efetiva. Em cada mapa de \u00e1reas priorit\u00e1rias produzido, \u00e9 poss\u00edvel dimensionar os impactos, o que que \u00e9 \u00fatil para planejar pol\u00edticas p\u00fablicas e privadas e at\u00e9 engajar as pessoas.<\/p>\n<p>\u201cSe olhar para as \u00e1reas priorit\u00e1rias apenas do ponto de vista do custo, a restaura\u00e7\u00e3o tem uma performance muito baixa para biodiversidade e clima. Se olhar para mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, sai muito caro \u2013 tem um benef\u00edcio bom para biodiversidade, mas continua longe do potencial, e vice-versa\u201d, diz Strassburg. \u201cMas, quando se olha para todos ao mesmo tempo, essas solu\u00e7\u00f5es multicrit\u00e9rio s\u00e3o possivelmente as mais interessantes do ponto de vista de implementa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.iea.usp.br\/pessoas\/pasta-pessoar\/ricardo-rodrigues#:~:text=Ricardo%20Ribeiro%20Rodrigues%20%C3%A9%20professor,ESALQ%2FUniversidade%20de%20S%C3%A3o%20Paulo.&amp;text=Tamb%C3%A9m%20%C3%A9%20orientador%20na%20p%C3%B3s,Campinas%20(programa%20Biologia%20Vegetal).\">Ricardo Rodrigues<\/a>, professor titular da Universidade de S\u00e3o Paulo, que n\u00e3o participou da pesquisa,<strong>\u00a0<\/strong>considera importante<strong>\u00a0<\/strong>o estudo de Strassburg ter analisado todos os biomas, n\u00e3o apenas os florestais \u2013 que costumam ser o\u00a0foco dos debates internacionais. \u201cNos biomas brasileiros e do mundo, muitas dessas forma\u00e7\u00f5es n\u00e3o florestais t\u00eam uma import\u00e2ncia absurda n\u00e3o s\u00f3 para a biodiversidade, como para a quest\u00e3o de carbono e de esp\u00e9cies em risco de extin\u00e7\u00e3o\u201d, diz Rodrigues, que\u00a0coordenou o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bpbes.net.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Relatorio_Restauracao_VF.pdf\">relat\u00f3rio de 2019 sobre restaura\u00e7\u00e3o de ecossistemas<\/a>\u00a0da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Servi\u00e7os Ecossist\u00eamicos (BPBES). \u201cEnt\u00e3o, \u00e9 fundamental que tratemos de restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, e n\u00e3o apenas florestal.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Rodrigues ressalta que a recupera\u00e7\u00e3o dos ecossistemas n\u00e3o substitui a necessidade da preserva\u00e7\u00e3o ambiental. \u201cAtrav\u00e9s da restaura\u00e7\u00e3o, conseguimos interligar os fragmentos naturais da paisagem, dar mobilidade aos organismos e quebrar a quest\u00e3o dos efeitos de borda dos fragmentos naturais\u201d, explica o bi\u00f3logo. \u201cA restaura\u00e7\u00e3o deve ser vista dentro de uma perspectiva de paisagem e de forma complementar \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Para\u00a0<a href=\"http:\/\/csrio.usuarios.rdc.puc-rio.br\/equipe\/renato-crouzeilles\/\">Renato Crouzeilles<\/a>, co-autor do artigo publicado na\u00a0<em>Nature<\/em>, o Brasil \u00e9 pioneiro na restaura\u00e7\u00e3o de biomas n\u00e3o florestais. O\u00a0<a href=\"https:\/\/mma.gov.br\/images\/arquivos\/florestas\/planaveg_plano_nacional_recuperacao_vegetacao_nativa.pdf\">Plano Nacional de Recupera\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa<\/a>, em vigor desde 2017, abrange todos os seis biomas brasileiros. \u201cNos \u00faltimos anos, o Brasil vinha avan\u00e7ando muito bem como l\u00edder de uma agenda de restaura\u00e7\u00e3o que considera todos os ecossistemas. O governo atual tem tido menor aten\u00e7\u00e3o com a restaura\u00e7\u00e3o, mas ainda assim os processos de identifica\u00e7\u00e3o de \u00e1reas priorit\u00e1rias foram mantidos\u201d, avalia.<\/p>\n<p>O que falta, continua o<strong>\u00a0<\/strong>Crouzeilles, \u00e9 implementar a\u00e7\u00f5es de larga escala para a regenera\u00e7\u00e3o dos biomas, j\u00e1 que os projetos ainda s\u00e3o pulverizados e, por isso, t\u00eam menor impacto. \u201cO conhecimento t\u00e9cnico no Brasil existe. Precisamos de mais apoio e interesse econ\u00f4mico e pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m do sequestro de carbono e da conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, Crouzeilles destaca que a recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas tamb\u00e9m melhora \u201cos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos \u2013 qualidade e quantidade de \u00e1gua, poliniza\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o em deslizamentos e enchentes\u201d, bem como \u201co benef\u00edcio socioecon\u00f4mico da restaura\u00e7\u00e3o, que gera emprego, renda, formas de manejo e m\u00e9todos com fins econ\u00f4micos\u201d. O relat\u00f3rio do BPBES\u00a0aponta que, no processo de restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, s\u00e3o criados 200 empregos para cada mil hectares regenerados.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito socioecon\u00f4mico, Rodrigues observa um grande \u00eaxodo rural de terras marginais, \u00e1reas agr\u00edcolas de baixa aptid\u00e3o. \u201cGeralmente, quem est\u00e1 nessas \u00e1reas s\u00e3o os pequenos produtores, que foram deslocados historicamente pelo agroneg\u00f3cio\u201d, diz. Nessa situa\u00e7\u00e3o, ele considera a restaura\u00e7\u00e3o assistida como melhor m\u00e9todo. As pastagens de baixa produtividade poderiam ser substitu\u00eddas por sistemas agroflorestais biodiversos, o que melhoraria a qualidade de vida do produtor, inclusive com cr\u00e9dito de carbono e culturas frut\u00edferas, medicinais e ornamentais, por exemplo, e geraria benef\u00edcios ambientais. Outro ponto necess\u00e1rio \u00e9 o cumprimento do C\u00f3digo Florestal na Mata Atl\u00e2ntica, que s\u00f3 no estado de S\u00e3o Paulo prev\u00ea a recupera\u00e7\u00e3o de 700 mil hectares de matas ciliares em \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o permanente e 350 mil hectares de reserva legal.<\/p>\n<h3><strong>O papel do Brasil<\/strong><\/h3>\n<p>O mundo iniciar\u00e1 a D\u00e9cada da Restaura\u00e7\u00e3o de Ecossistemas munido de compromissos importantes j\u00e1 estabelecidos. Desde 2011, 60 pa\u00edses \u2013\u00a0entre os quais o Brasil \u2013 e a Uni\u00e3o Europeia integraram o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bonnchallenge.org\/\">Desafio de Bonn<\/a>. O acordo, originado pela Alemanha e pela Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza, almeja restaurar 350 milh\u00f5es de hectares de terras degradadas at\u00e9 2030. A Iniciativa 20&#215;20, por sua vez, envolve pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe que se comprometeram a recuperar 20 milh\u00f5es de hectares na regi\u00e3o at\u00e9 o fim deste ano.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os compromissos nacionalmente determinados (NDC) pelos pa\u00edses signat\u00e1rios do Acordo de Paris, em 2015, englobam a recupera\u00e7\u00e3o de ecossistemas como forma de mitigar os impactos da crise clim\u00e1tica. O Brasil comprometeu-se a restaurar\u00a0<a href=\"https:\/\/mma.gov.br\/images\/arquivos\/florestas\/planaveg_plano_nacional_recuperacao_vegetacao_nativa.pdf\">12 milh\u00f5es de hectares de vegeta\u00e7\u00e3o nativa<\/a>\u00a0at\u00e9 2030<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, os pa\u00edses ainda precisam se engajar para n\u00e3o repetir o que aconteceu nesta d\u00e9cada. Em 2010, 193 pa\u00edses e a Uni\u00e3o Europeia concordaram com as\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cbd.int\/sp\/targets\/\">Metas de Aichi<\/a>\u00a0definidas na Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica. A estrat\u00e9gia visava restaurar 15% das \u00e1reas degradadas do mundo at\u00e9 2020, mas o objetivo n\u00e3o foi alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>As descobertas da pesquisa confirmaram que o Brasil n\u00e3o \u00e9 apenas um pa\u00eds-chave na conserva\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m na restaura\u00e7\u00e3o dos ecossistemas. \u201cA Mata Atl\u00e2ntica est\u00e1 no top 5%, a mais alta categoria de prioridade global para restaura\u00e7\u00e3o da biodiversidade, e no top 10% para a mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d, analisa Strassburg. \u201cA Amaz\u00f4nia possui alt\u00edssima prioridade do ponto de vista clim\u00e1tico e alta na biodiversidade. O Cerrado configura alt\u00edssima prioridade em termos de biodiversidade \u2013 um dos hotspots onde h\u00e1 milhares de plantas end\u00eamicas amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. O Pantanal corresponde \u00e0s terras alagadas, uma classe de ecossistema considerada a mais alta prioridade entre os biomas. Tamb\u00e9m h\u00e1 \u00e1reas priorit\u00e1rias na Caatinga e no Pampa.\u201d<\/p>\n<h3><strong>Solu\u00e7\u00f5es locais<\/strong><\/h3>\n<p>Os crit\u00e9rios utilizados na ferramenta do ISS podem ser adaptados para leituras mais espec\u00edficas de cada realidade local. Desde 2013, os dados fornecidos pela ferramenta auxiliam o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente (MMA) com mapas de restaura\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria na Mata Atl\u00e2ntica. ONGs, movimentos e empresas tamb\u00e9m t\u00eam utilizado os recursos, disponibilizados gratuitamente.<\/p>\n<p>No momento, o IIS tamb\u00e9m desenvolve com o MMA estrat\u00e9gias de restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica para o Pampa, a Caatinga e o Pantanal. A Amaz\u00f4nia, por sua vez, abrange outro projeto, em constru\u00e7\u00e3o, que envolve tamb\u00e9m ONGs locais para estabelecer cen\u00e1rios espec\u00edficos de recupera\u00e7\u00e3o. \u201cTemos feito oficinas participativas nesses biomas, com especialistas e representantes locais, para entender quais seriam os benef\u00edcios e custos mais importantes a serem inclu\u00eddos. Isso tem subsidiado pol\u00edticas p\u00fablicas, iniciativas privadas e do terceiro setor\u201d, diz Strassburg. Ele tamb\u00e9m participa de outras iniciativas para otimizar a restaura\u00e7\u00e3o em regi\u00f5es espec\u00edficas, como a \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental da Bacia do Rio S\u00e3o Jo\u00e3o, o \u00faltimo ref\u00fagio do mico-le\u00e3o-dourado, natural da Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Diversos fatores rendem \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica o t\u00edtulo de hotspot para restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Enquanto o bioma apresenta uma das mais ricas biodiversidades do mundo e suas \u00e1rvores de longo ciclo armazenam grande quantidade de carbono, o desmatamento que ocorre desde o per\u00edodo colonial deixou apenas 12,4% de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, espalhados em fragmentos ao longo de 17 estados<strong>\u00a0<\/strong>brasileiros.<\/p>\n<p>\u201cO uso e a ocupa\u00e7\u00e3o do solo no Brasil come\u00e7ou pelo litoral, com a chegada dos colonizadores. Extensas \u00e1reas de Mata Atl\u00e2ntica foram desmatadas para mudan\u00e7a de uso do solo dos mais diversos tipos \u2013 cana de a\u00e7\u00facar, caf\u00e9 e outras formas de agricultura\u201d, analisa Rafael Fernandes, gerente de restaura\u00e7\u00e3o florestal da Funda\u00e7\u00e3o SOS Mata Atl\u00e2ntica. \u201cEm uma vis\u00e3o contempor\u00e2nea, a expans\u00e3o das zonas urbanas vem fazendo com que os poucos fragmentos de Mata Atl\u00e2ntica continuem sob press\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A SOS Mata Atl\u00e2ntica j\u00e1 recuperou 23 mil hectares em nove estados, com um total de 40 milh\u00f5es de \u00e1rvores plantadas. A funda\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m integra o Pacto pela Restaura\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica, cujos esfor\u00e7os resultaram na regenera\u00e7\u00e3o de 83 mil hectares. Neste processo, Fernandes considera essencial a identifica\u00e7\u00e3o de \u00e1reas priorit\u00e1rias, como demonstrou o estudo de Strassburg. Em um bioma fragmentado como a Mata Atl\u00e2ntica, a estrat\u00e9gia permite estabelecer conex\u00f5es entre os remanescentes. Ao conectar as \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o permanente por meio da regenera\u00e7\u00e3o, \u201cnaturalmente se promove corredores biol\u00f3gicos que geram forte impacto na quest\u00e3o da paisagem e na maximiza\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios, formando grandes redes de biodiversidade\u201d.<\/p>\n<p>Em 2007, a funda\u00e7\u00e3o estabeleceu seu Centro de Experimentos Florestais em uma fazenda de 528 hectares em Itu, munic\u00edpio no interior de S\u00e3o Paulo. Historicamente, o local passou pelo ciclo do caf\u00e9 e depois foi tomado por pastagem. Com isso, 386 hectares desmatados precisavam de restaura\u00e7\u00e3o. \u201cHoje, \u00e9 um grande maci\u00e7o verde onde aplicamos uma s\u00e9rie de pesquisas e experimenta\u00e7\u00f5es\u201d, diz Fernandes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cinco anos de prote\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7os no restauro, os pesquisadores do instituto identificaram um aumento de mais de 200% no n\u00famero de esp\u00e9cies de aves, muitas delas amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tr\u00eas anos, passaram a estudar a mastofauna, composta por mam\u00edferos aqu\u00e1ticos e terrestres. Cinco tipos de felinos que utilizam o local para reprodu\u00e7\u00e3o j\u00e1 foram documentados, entre os quais o gato-mourisco, a on\u00e7a-parda e a jaguatirica. Em rela\u00e7\u00e3o aos aspectos biol\u00f3gicos e qu\u00edmicos do solo, a recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 mais demorada. Fernandes observa que estudos na Mata Atl\u00e2ntica em \u00e1reas restauradas h\u00e1 50 anos ainda n\u00e3o chegaram aos n\u00edveis de nitrog\u00eanio do solo de um remanescente natural.<\/p>\n<p>\u201cO processo de restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 cont\u00ednuo, mas \u00e9 importante que seja feito com qualidade e monitoramento, para ver se, de fato, a biodiversidade esperada est\u00e1 retornando, se tem um impacto positivo nos recursos h\u00eddricos, se os resultados s\u00e3o eficazes\u201d, analisa Fernandes. \u201cEsses pontos mostram o qu\u00e3o importante \u00e9 restaurar, mas tamb\u00e9m conservar os remanescentes. Os processos de restaura\u00e7\u00e3o s\u00e3o de alta complexidade e muitas vezes envolvem custos altos. Conservar \u00e9 muito mais barato do que restaurar. S\u00e3o a\u00e7\u00f5es que devem andar em paralelo. N\u00e3o \u00e9 por ser poss\u00edvel recuperar que podemos continuar desmatando.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) definiu que, a partir de 2021, o mundo entrar\u00e1<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":135725,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/primatas.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) definiu que, a partir de 2021, o mundo entrar\u00e1","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135724"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=135724"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135724\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/135725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=135724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=135724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=135724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}