{"id":134900,"date":"2020-10-04T19:13:48","date_gmt":"2020-10-04T22:13:48","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=134900"},"modified":"2020-10-04T19:13:48","modified_gmt":"2020-10-04T22:13:48","slug":"por-que-informacoes-falsas-sobre-a-origem-da-covid-19-continuam-viralizando-nas-redes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/por-que-informacoes-falsas-sobre-a-origem-da-covid-19-continuam-viralizando-nas-redes-sociais\/","title":{"rendered":"Por que informa\u00e7\u00f5es falsas sobre a origem da covid-19 continuam viralizando nas redes sociais"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"css-1psdhlm\">Uma nova informa\u00e7\u00e3o falsa a respeito do coronav\u00edrus est\u00e1 sendo amplamente divulgada. Saiba como verificar a veracidade das not\u00edcias.<\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/bat_ss2442973.jpg?w=1600&amp;h=900\" alt=\"O morcego-ferradura chin\u00eas (Rhinolophus sinicus) pode ser encontrado do norte da \u00cdndia ao sul da China. ...\" width=\"640\" height=\"360\" \/><\/p>\n<p>H\u00c1 VINTE ANOS, o cientista de dados Sinan Aral come\u00e7ou a perceber o in\u00edcio de uma tend\u00eancia que agora define a nossa era de redes sociais: a rapidez com que informa\u00e7\u00f5es falsas s\u00e3o disseminadas. Ele observou not\u00edcias falsas esquentarem debates na internet assim como pequenas fa\u00edscas se transformam em um grande inc\u00eandio. Atualmente diretor da Iniciativa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) para Economia Digital, Aral acredita que um conceito que ele chama de hip\u00f3tese da novidade demonstra esse cont\u00e1gio viral quase irrefre\u00e1vel de not\u00edcias falsas.<\/p>\n<p>\u201cA curiosidade humana \u00e9 instigada por novidades, por tudo o que \u00e9 novo e inesperado\u201d, constata\u00a0<a href=\"http:\/\/ide.mit.edu\/\">Aral<\/a>. \u201cGanhamos moral quando compartilhamos not\u00edcias porque elas d\u00e3o a impress\u00e3o de que estamos por dentro ou temos acesso a informa\u00e7\u00f5es privilegiadas\u201d.<\/p>\n<p>E foi assim que o relat\u00f3rio de Yan entrou em cena. Em 14 de setembro, um artigo publicado no Zenodo, site de acesso aberto para o compartilhamento de pesquisas cient\u00edficas, alegava que as evid\u00eancias gen\u00e9ticas demonstravam que o SARS-CoV-2 havia sido criado em laborat\u00f3rio, e n\u00e3o se originado a partir de uma troca de hospedeiro natural entre animais. A pesquisa de 26 p\u00e1ginas, liderada pelo virologista chin\u00eas Li-Meng Yan, pesquisador de p\u00f3s-doutorado que deixou a Universidade de Hong Kong, n\u00e3o foi revisada por pares e alega que essa evid\u00eancia gen\u00e9tica foi \u201ccensurada\u201d em revistas cient\u00edficas.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>National Geographic<\/strong>\u00a0entrou em contato com Yan e os outros tr\u00eas autores do relat\u00f3rio para que comentassem o assunto, mas n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n<p>Um caos generalizado rapidamente tomou conta do Twitter. Virologistas renomados, como Kristian Andersen, da Scripps Research, e\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/CT_Bergstrom\/status\/1305743494913245184\">Carl Bergstrom<\/a>, da Universidade de Washington, pronunciaram-se na internet e criticaram o artigo por sua falta de embasamento cient\u00edfico. A principal cr\u00edtica foi que o relat\u00f3rio ignorou a vasta literatura publicada sobre o que j\u00e1 se sabe a respeito das formas de circula\u00e7\u00e3o dos coronav\u00edrus nas popula\u00e7\u00f5es de animais selvagens e da tend\u00eancia de passarem a utilizar humanos como hospedeiros, incluindo publica\u00e7\u00f5es recentes sobre a origem do SARS-CoV-2.<\/p>\n<p>Os especialistas tamb\u00e9m destacaram as teorias de conspira\u00e7\u00e3o absurdas citadas no relat\u00f3rio, al\u00e9m de falsas acusa\u00e7\u00f5es sobre jornais acad\u00eamicos se aliarem a conspiradores para censurar evid\u00eancias importantes.<\/p>\n<p>Em julho,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gla.ac.uk\/researchinstitutes\/iii\/staff\/davidrobertson\/\">David Robertson<\/a>, pesquisador de gen\u00f4mica viral da Universidade de Glasgow, escreveu\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41564-020-0771-4\">um artigo revisado por pares<\/a>\u00a0na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Nature Medicine<\/em>\u00a0que demonstrou que a linhagem por tr\u00e1s do SARS-CoV-2 e seu ancestral mais pr\u00f3ximo conhecido, um v\u00edrus chamado RaTG13, circulam em popula\u00e7\u00f5es de morcegos h\u00e1 d\u00e9cadas. Os virologistas acreditam que esse parente, que \u00e9 96% id\u00eantico ao novo coronav\u00edrus, provavelmente se propagou e evoluiu em morcegos ou hospedeiros humanos. Depois disso, n\u00e3o foi detectado por cerca de 20 anos at\u00e9 se adaptar \u00e0 sua forma atual e causar a pandemia em curso.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio de Yan apresenta essa hip\u00f3tese como controversa e afirma que o RaTG13 tamb\u00e9m foi criado em laborat\u00f3rio, mas essas duas alega\u00e7\u00f5es s\u00e3o refutadas pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/asm.org\/COVID\/COVID-19-Research-Registry\/Basic-Virology#evolutions\">n\u00famero esmagador de evid\u00eancias gen\u00e9ticas publicadas<\/a>\u00a0sobre o SARS-CoV-2 e seus progenitores. Al\u00e9m disso, o relat\u00f3rio foi financiado pela Rule of Law Society,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/politics\/steve-bannon-guo-wengui\/2020\/09\/13\/8b43cd06-e964-11ea-bc79-834454439a44_story.html\">uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos fundada pelo<\/a>\u00a0ex-estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon, que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2020\/08\/20\/nyregion\/steve-bannon-arrested-indicted.html\">foi preso por fraude recentemente<\/a>. Essa \u00e9 outra raz\u00e3o pela qual muitos virologistas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.factcheck.org\/2020\/09\/report-resurrects-baseless-claim-that-coronavirus-was-bioengineered\/\">est\u00e3o questionando a veracidade das alega\u00e7\u00f5es<\/a>\u00a0de Yen.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma verdadeira invas\u00e3o de pseudoci\u00eancia\u201d, lamenta Robertson. \u201cEsse artigo escolheu a dedo alguns exemplos, ignorou evid\u00eancias cient\u00edficas e apresentou um cen\u00e1rio absurdo.\u201d<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>National Geographic\u00a0<\/strong>entrou em contato com outros virologistas renomados e pesquisadores de not\u00edcias falsas para entender melhor o ponto de partida do relat\u00f3rio de Yan e em que momento ele se desviou da veracidade dos fatos. Durante a conversa, os especialistas ofereceram dicas para combater informa\u00e7\u00f5es falsas sobre o coronav\u00edrus.<\/p>\n<h3><strong>O que se sabe a respeito da origem do SARS-CoV-2?<\/strong><\/h3>\n<p>Os coronav\u00edrus existem na natureza e podem infectar muitas esp\u00e9cies diferentes. Coronav\u00edrus semelhantes ao SARS-CoV-2 s\u00e3o encontrados em morcegos, porcos, gatos e fur\u00f5es, para citar alguns. A origem mais amplamente aceita do SARS-CoV-2,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/2020\/03\/how-coronavirus-mutations-can-track-its-spread-and-disprove-conspiracies\/\">com base em sua gen\u00e9tica<\/a>, \u00e9 que seus ancestrais se moveram entre diferentes animais selvagens \u2014 trocando caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas \u00e0 medida que avan\u00e7avam \u2014 antes de infectarem os humanos.<\/p>\n<p>Os pesquisadores ainda n\u00e3o encontraram o parente direto do SARS-CoV-2 em animais silvestres, embora seus parentes mais pr\u00f3ximos existam em morcegos. O v\u00edrus pode ter passado por um hospedeiro intermedi\u00e1rio \u2014\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/animals\/2020\/03\/coronavirus-animal-reservoir-research\/\">pangolins figuram entre os acusados<\/a>\u00a0\u2014 e evolu\u00eddo para se tornar mais eficiente em infectar humanos. Pode tamb\u00e9m ter saltado diretamente dos morcegos para os humanos, considerando\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/nm.3985\">casos<\/a>\u00a0anteriores em que isso aconteceu. Ap\u00f3s o surto inicial de SRAG na China, h\u00e1 20 anos, os pesquisadores come\u00e7aram a estudar morcegos silvestres em cavernas locais e a popula\u00e7\u00e3o que vive perto desses animais. Um\u00a0<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s12250-018-0012-7\">estudo de 2018<\/a>\u00a0encontrou os parentes gen\u00e9ticos do v\u00edrus SARS original em mam\u00edferos voadores \u2014 assim como anticorpos espec\u00edficos, um sinal residual de infec\u00e7\u00e3o, em humanos que viviam nas proximidades.<\/p>\n<p>Encontrar respostas para os acontecimentos espec\u00edficos que resultaram na pandemia \u00e9 como procurar \u201cagulha no palheiro\u201d, segundo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.publichealth.columbia.edu\/research\/center-infection-and-immunity\/w-ian-lipkin-md\">Ian Lipkin<\/a>, epidemiologista da Universidade de Columbia e coautor de um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41591-020-0820-9\">artigo incipiente<\/a>\u00a0na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Nature Medicine<\/em>\u00a0sobre as origens naturais do SARS- CoV-2. O relat\u00f3rio de Yan alega que esse\u00a0<em>relat\u00f3rio da Nature Medicine<\/em>\u00a0\u00e9 caracterizado por \u201cconflito de interesses\u201d devido ao trabalho de Lipkin na conten\u00e7\u00e3o da epidemia de SRAG em 2002 e 2003, pelo qual ele\u00a0<a href=\"https:\/\/www.publichealth.columbia.edu\/public-health-now\/news\/ian-lipkin-receives-top-science-honor-china\">recebeu um pr\u00eamio<\/a>\u00a0do governo chin\u00eas. Lipkin contesta que a acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cdescabida\u201d e, quando questionado sobre sua opini\u00e3o a respeito do papel da bioengenharia na origem do SARS-CoV-2, ele acrescenta: \u201cN\u00e3o h\u00e1 dados que confirmem a hip\u00f3tese\u201d.<\/p>\n<p>Descobrir a origem natural do coronav\u00edrus provavelmente exigir\u00e1 uma amostragem de animais em grande escala \u2014 incluindo popula\u00e7\u00f5es de morcegos e humanos \u2014 na China para rastrear a evolu\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) est\u00e1 montando uma equipe para conduzir a pesquisa na China, embora nenhum cronograma tenha sido divulgado at\u00e9 o momento.<\/p>\n<h3><strong>O que diz o relat\u00f3rio de Yan?<\/strong><\/h3>\n<p>O relat\u00f3rio de Yan tenta abordar a quest\u00e3o de uma maneira diferente, e come\u00e7a com a afirma\u00e7\u00e3o suspeita de que o SARS-CoV-2 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o eficaz assim em infectar morcegos e que, dessa forma, n\u00e3o poderia ter surgido a partir desses mam\u00edferos. Mas especialistas ressaltam que os v\u00edrus est\u00e3o em constante evolu\u00e7\u00e3o e seguem se espalhando entre as esp\u00e9cies. A troca inicial de hospedeiro entre morcegos e humanos pode ter acontecido d\u00e9cadas atr\u00e1s, dando ao v\u00edrus tempo suficiente para aperfei\u00e7oar, por meio da sele\u00e7\u00e3o natural, sua prote\u00edna da esp\u00edcula, a parte que utiliza para entrar nas c\u00e9lulas, e assim contaminar humanos.<\/p>\n<p>Outro argumento apresentado pelo relat\u00f3rio de Yan foca na presen\u00e7a de um \u201clocal de clivagem de furina\u201d na prote\u00edna da esp\u00edcula, uma caracter\u00edstica gen\u00e9tica preocupante, que parece aumentar a capacidade do v\u00edrus de entrar nas c\u00e9lulas. O relat\u00f3rio afirma que essa caracter\u00edstica n\u00e3o foi encontrada em nenhum outro coronav\u00edrus e que, portanto, deve ter sido modificada. Contudo, a afirma\u00e7\u00e3o contradiz as descobertas: locais de clivagem semelhantes s\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S096098222030662X\">encontrados em coronav\u00edrus de morcegos<\/a>\u00a0em popula\u00e7\u00f5es silvestres.<\/p>\n<p>\u201cAcho que vou enlouquecer se precisar explicar o fato de que muitos v\u00edrus possuem locais de clivagem\u201d, comenta\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/angie_rasmussen\">Angela Rasmussen<\/a>, virologista da Universidade de Columbia.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio tamb\u00e9m afirma que o SARS-CoV-2 \u00e9, \u201cde modo suspeito\u201d, semelhante a duas cepas de coronav\u00edrus de morcego, chamadas ZC45 e ZXC21, que foram descobertas por cientistas em laborat\u00f3rios militares na China. Os autores afirmam que essas cepas poderiam ter sido utilizadas como um modelo para clonar um v\u00edrus mais mortal. Mas outros cientistas refutam essa teoria.<\/p>\n<p>Primeiro, as duas cepas diferem em at\u00e9 3,5 mil pares de bases de nucleot\u00eddeos, as \u201cletras\u201d qu\u00edmicas utilizadas no c\u00f3digo gen\u00e9tico. Sendo assim, seriam um ponto de partida ruim para a bioengenharia do SARS-CoV-2. Projetar um v\u00edrus em que \u00e9 necess\u00e1rio substituir mais de 10% de seu genoma \u00e9 ineficiente, sen\u00e3o imposs\u00edvel, de acordo com Rasmussen e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.microbe.tv\/twiv\/twiv-664\/\">v\u00e1rios outros virologistas<\/a>. O fato de essas cepas terem sido identificadas em um laborat\u00f3rio militar chin\u00eas tamb\u00e9m \u00e9 \u201capenas circunstancial\u201d, afirma Robertson. Os coronav\u00edrus dos morcegos estavam circulando em morcegos silvestres e poderiam ter sido descobertos por qualquer pessoa.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio tamb\u00e9m argumenta que o SARS-CoV-2 possui \u201clocais de enzimas de restri\u00e7\u00e3o\u201d ou sequ\u00eancias gen\u00e9ticas que podem ser cortadas e manipuladas por enzimas. Essas caracter\u00edsticas gen\u00f4micas \u00e0s vezes s\u00e3o utilizadas na clonagem, e o relat\u00f3rio afirma que sua presen\u00e7a indicaria um v\u00edrus modificado. Por sua vez, os especialistas explicam que esses locais ocorrem naturalmente em todos os tipos de genomas, de bact\u00e9rias a humanos.<\/p>\n<p>\u201cParece um estudo leg\u00edtimo porque muitos jarg\u00f5es t\u00e9cnicos s\u00e3o utilizados. Por\u00e9m, grande parte do que defendem n\u00e3o faz nenhum sentido\u201d, diz Rasmussen. Ela acrescenta que o tipo de clonagem que utiliza enzimas de restri\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito desatualizado e, portanto, \u00e9 improv\u00e1vel que seja utilizado para produzir uma arma biol\u00f3gica viral. E, para in\u00edcio de conversa, criar um v\u00edrus em laborat\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 algo simples de ser feito. Os pesquisadores ainda est\u00e3o tentando entender as raz\u00f5es moleculares e gen\u00e9ticas para alguns v\u00edrus serem mais infecciosos do que outros. Adicionar caracter\u00edsticas a um v\u00edrus para torn\u00e1-lo mais transmiss\u00edvel, por exemplo, \u00e9 conhecido como pesquisa de ganho de fun\u00e7\u00e3o, algo altamente pol\u00eamico dado o seu potencial de fabricar armas biol\u00f3gicas, que inclusive\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-017-08837-7\">foi proibido<\/a>\u00a0nos Estados Unidos por um tempo, limitando os dados dispon\u00edveis sobre seu funcionamento.<\/p>\n<h3><strong>Mas como o relat\u00f3rio de Yan foi publicado apesar de tudo isso?<\/strong><\/h3>\n<p>Uma marca registrada da pandemia tem sido o r\u00e1pido fluxo de pesquisas e o compartilhamento gratuito de informa\u00e7\u00f5es para aumentar o ritmo das descobertas. A pr\u00e1tica de disponibilizar \u201cpr\u00e9-publica\u00e7\u00f5es\u201d \u2014 relat\u00f3rios que n\u00e3o foram revisados por colegas da academia \u2014 tem suas vantagens.<\/p>\n<p>\u201cPara a comunidade cient\u00edfica, isso tem sido muito \u00fatil\u201d, esclarece Robertson, uma vez que mais pesquisadores podem analisar rapidamente os dados dispon\u00edveis. Mas as pr\u00e9-publica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m possuem um lado negativo. As informa\u00e7\u00f5es falsas s\u00e3o outra marca registrada da pandemia e essa pr\u00e1tica teve sua cota de responsabilidade no aumento das not\u00edcias com afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o comprovadas, incluindo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/2020\/07\/why-this-coronavirus-mutation-not-cause-for-alarm-cvd\/\">a muta\u00e7\u00e3o do v\u00edrus para uma forma mais mortal<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencealert.com\/snakes-are-the-likely-source-of-china-s-deadly-coronavirus-here-s-why\">sua origem em cobras<\/a>\u00a0ou a no\u00e7\u00e3o de que o v\u00edrus\u00a0<a href=\"https:\/\/www.buzzfeednews.com\/article\/stephaniemlee\/ioannidis-trump-white-house-coronavirus-lockdowns\">seria menos letal<\/a>\u00a0do que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/2020\/07\/coronavirus-deadlier-than-many-believed-infection-fatality-rate-cvd\/\">realmente \u00e9<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cPode ser muito dif\u00edcil distinguir not\u00edcias ver\u00eddicas de not\u00edcias falsas\u201d, acrescenta, mencionando o fato de que at\u00e9 mesmo alguns artigos revisados por pares sobre o coronav\u00edrus cont\u00eam erros devido \u00e0 pressa de publicar. Essa combina\u00e7\u00e3o de erros honestos e propositais pode apenas indicar uma tend\u00eancia maior na publica\u00e7\u00e3o de artigos durante uma crise em r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o acredito que o sistema de pr\u00e9-publica\u00e7\u00e3o esteja sendo transformado em uma arma de not\u00edcias falsas, j\u00e1 que todos os ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo utilizados para dissemin\u00e1-las: todos mesmo, de redes sociais e manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia convencional a pr\u00e9-publica\u00e7\u00f5es e peri\u00f3dicos cient\u00edficos revisados por pares\u201d, conclui Rasmussen.<\/p>\n<h3><strong>Not\u00edcia ruim chega r\u00e1pido<\/strong><\/h3>\n<p>Apesar da desaprova\u00e7\u00e3o dos especialistas, o relat\u00f3rio de Yan e outras informa\u00e7\u00f5es falsas semelhantes sobre o coronav\u00edrus, como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencemag.org\/news\/2020\/05\/fact-checking-judy-mikovits-controversial-virologist-attacking-anthony-fauci-viral\">o document\u00e1rio\u00a0<em>Plandemic<\/em><\/a>, ganharam for\u00e7a nas redes sociais porque se aproveitam da vulnerabilidade das emo\u00e7\u00f5es humanas. Essa caracter\u00edstica pode levar \u00e0 r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o de boatos.<\/p>\n<p>Em 2018, Aral e sua equipe do MIT Media Lab\u00a0<a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/359\/6380\/1146\/tab-pdf\">testaram sua hip\u00f3tese da novidade<\/a>, analisando 11 anos de dados do Twitter, ou cerca de 4,5 milh\u00f5es de tu\u00edtes. Seus c\u00e1lculos mostraram uma correla\u00e7\u00e3o surpreendente: \u201cO que descobrimos foi que as not\u00edcias falsas eram divulgadas em locais mais distantes, de forma mais r\u00e1pida, mais profundamente e mais amplamente do que informa\u00e7\u00f5es verdadeiras em todas as categorias de informa\u00e7\u00f5es que estudamos, \u00e0s vezes em uma ordem de magnitude\u201d, ele explica.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais em jogo do que apenas not\u00edcias, assunto discutido por Aral em seu novo livro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sinanaral.io\/books\"><em>The Hype Machine<\/em><\/a>. A forma como as pessoas reagem a hist\u00f3rias tocantes nas redes sociais \u00e9 intensa e previs\u00edvel. As respostas a um tu\u00edte ficam repletas de cr\u00edticas e \u00f3dio e as not\u00edcias falsas passam a ter 70% mais chance de serem retuitadas do que not\u00edcias verdadeiras.<\/p>\n<p>Uma combina\u00e7\u00e3o complicada de fatores psicol\u00f3gicos entra em a\u00e7\u00e3o toda vez que leitores decidem compartilhar not\u00edcias, e pessoas inteligentes podem se tornar parte do ciclo de desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um fator dessa equa\u00e7\u00e3o \u00e9 a neglig\u00eancia do conhecimento: \u201cisso acontece quando as pessoas n\u00e3o conseguem acessar o conhecimento previamente armazenado e aplic\u00e1-lo de forma adequada em uma situa\u00e7\u00e3o do presente\u201d, de acordo com\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vanderbilt.edu\/psychological_sciences\/bio\/lisa-fazio\">Lisa Fazio<\/a>, professora assistente de psicologia e desenvolvimento humano na Universidade Vanderbilt.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro humano procura op\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis. Quem recebe as informa\u00e7\u00f5es pula etapas, geralmente compartilhando mat\u00e9rias com manchetes alarmantes antes de se aprofundar no assunto. Mesmo quando os usu\u00e1rios de redes sociais leem o que compartilham, sua mente racional encontra outras maneiras de fazer menos esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Somos propensos, por exemplo, a adotar um vi\u00e9s de confirma\u00e7\u00e3o, uma forma de interpretar novas informa\u00e7\u00f5es como uma valida\u00e7\u00e3o de nossas no\u00e7\u00f5es preconcebidas. O racioc\u00ednio motivado tamb\u00e9m \u00e9 ativado, e o c\u00e9rebro tenta unir essas novas pe\u00e7as conceituais do quebra-cabe\u00e7a a todo custo, fazendo conex\u00f5es mesmo quando elas n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>O fator mais potente que distorce o pensamento cr\u00edtico \u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32857670\/\">o efeito da verdade ilus\u00f3ria<\/a>, que Fazio define com o seguinte exemplo: \u201cse voc\u00ea ouvir algo duas vezes, \u00e9 mais prov\u00e1vel que acredite ser verdade do que se tivesse ouvido apenas uma vez\u201d. Assim, a preval\u00eancia potencializa not\u00edcias falsas e o que antes era apenas eco se transforma em um redemoinho de descren\u00e7a que cresce sozinho.<\/p>\n<p>Se a not\u00edcia envolve pol\u00edtica, ganha mais um impulso para r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o. \u201cNot\u00edcias envolvendo pol\u00edtica s\u00e3o divulgadas mais rapidamente do que o resto das not\u00edcias falsas\u201d, complementa Aral. \u201cPodemos afirmar que s\u00e3o como um para-raios por envolverem muita emo\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo Aral, o relat\u00f3rio de Yan possui todos as caracter\u00edsticas de uma not\u00edcia falsa que foi pensada para viralizar.<\/p>\n<p>\u201cA respeito dessa mat\u00e9ria espec\u00edfica, eu diria que s\u00e3o aplic\u00e1veis todas essas an\u00e1lises que focam nos motivos de as not\u00edcias falsas se espalharem\u201d, explica. \u201c\u00c9 chocante, ofensivo. \u00c9 extremamente relevante para os debates pol\u00edticos do momento, mas, sem d\u00favidas, o coronav\u00edrus est\u00e1 na mente de todos. Tentar entender sua origem rende uma grande mat\u00e9ria.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma nova informa\u00e7\u00e3o falsa a respeito do coronav\u00edrus est\u00e1 sendo amplamente divulgada. 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