{"id":134521,"date":"2020-09-28T09:00:22","date_gmt":"2020-09-28T12:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=134521"},"modified":"2020-09-28T07:48:38","modified_gmt":"2020-09-28T10:48:38","slug":"quadrilhas-organizadas-ameacam-populacoes-de-oncas-pintadas-da-bolivia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/quadrilhas-organizadas-ameacam-populacoes-de-oncas-pintadas-da-bolivia\/","title":{"rendered":"Quadrilhas organizadas amea\u00e7am popula\u00e7\u00f5es de on\u00e7as pintadas da Bol\u00edvia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-134522\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Em 2016, em meio \u00e0s primeiras investiga\u00e7\u00f5es sobre o tr\u00e1fico de on\u00e7as na Bol\u00edvia, a bi\u00f3loga \u00c1ngela N\u00fa\u00f1ez recebeu um curto \u00e1udio de Whatsapp: \u201cDentes, tigre\u201d. Isso foi tudo que ela podia ouvir e foi o suficiente. O arquivo foi enviado por um informante pr\u00f3ximo \u00e0 Reserva Nacional de Vida Selvagem da Amaz\u00f4nia Manuripi-Heath, em Pando. Ele afirmou que a voz era de um trabalhador chin\u00eas que trabalhava em uma ponte na \u00e1rea. Embora N\u00fa\u00f1ez tenha alertado seus colegas do Servi\u00e7o Nacional de \u00c1reas Protegidas (Sernap) na \u00e9poca, ela confessa que por falta de or\u00e7amento n\u00e3o puderam chegar ao local.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das hist\u00f3rias que N\u00fa\u00f1ez e outros cientistas que estudam on\u00e7as na Bol\u00edvia coletaram de campo nos \u00faltimos sete anos. Al\u00e9m desses, h\u00e1 an\u00fancios em r\u00e1dios locais e at\u00e9 folhetos colados nas ruas promovendo a ca\u00e7a de on\u00e7as para a venda de suas presas. As autoridades conseguiram investigar e processar 21 destes traficantes, segundo dados da Dire\u00e7\u00e3o-Geral da Biodiversidade (DGBAP) do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente. Destes, cinco foram condenados.<\/p>\n<p>No entanto, esses desenvolvimentos come\u00e7aram a diminuir h\u00e1 mais de um ano e desde janeiro de 2019, n\u00e3o houve novas apreens\u00f5es de on\u00e7as. Mesmo assim, a Bol\u00edvia come\u00e7ou a agir e junto com cientistas de entidades p\u00fablicas, participa atualmente de uma das campanhas mais fortes da Am\u00e9rica Latina para evitar a perda de cerca de 6.000 a 7.000 on\u00e7as-pintadas no pa\u00eds.<\/p>\n<div class=\"td-a-rec td-a-rec-id-content_inline  td_uid_2_5f71be729d6e3_rand td_block_template_1\">\n<div class=\"td-all-devices\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O n\u00famero \u00e9 otimista ao se levar em conta os inc\u00eandios de 2019 em importantes habitats de on\u00e7as-pintadas e a atual falta de apreens\u00f5es, segundo Marco Ribera, assessor cient\u00edfico da iniciativa Opera\u00e7\u00e3o Jaguar e parceiro da ONG Savia. Ent\u00e3o, o que est\u00e1 acontecendo com a on\u00e7a na Bol\u00edvia? As brechas que facilitam o tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Os primeiros relatos sobre o tr\u00e1fico de presas e outras on\u00e7as-pintadas foram feitos por cientistas que trabalham em \u00e1reas naturais protegidas. Rob Wallace, que junto com Guido Ayala e Mar\u00eda Viscarra est\u00e1 conduzindo um estudo da Wildlife Conservation Society (WCS) sobre a popula\u00e7\u00e3o da on\u00e7a-pintada no Parque Nacional Madidi, diz que em 2014, enquanto estavam instalando armadilhas fotogr\u00e1ficas, ouviram uma mensagem no r\u00e1dio que n\u00e3o se ouviam desde 2000, quando come\u00e7aram os trabalhos na \u00e1rea. Como se estivesse anunciando uma cozinha ou loja, a mensagem propunha a compra de dentes de on\u00e7a.<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Jaguar, um projeto desenvolvido pela Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN), com sede na Holanda, ao lado de Savia, na Bol\u00edvia, indica que entre 2014 e 2016 cerca de 760 presas foram apreendidas na Bol\u00edvia. O alarme foi disparado, os pesquisadores calcularam que 200 on\u00e7as poderiam ter sido mortas. S\u00f3 o servi\u00e7o postal boliviano, o Ecobol, descobriu cerca de 300 deles em 16 pacotes com destino \u00e0 \u00c1sia.<\/p>\n<p>Um ano depois, Nu\u00f1ez e o colega bi\u00f3logo Enzo Aliaga come\u00e7aram a reunir todos os casos conhecidos notificados a diferentes \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. Eles encontraram apreens\u00f5es de presas de on\u00e7as feitas durante inspe\u00e7\u00f5es domiciliares ou em pris\u00f5es associadas a outros crimes. Eles tamb\u00e9m coletaram casos associados a an\u00fancios de r\u00e1dio, o m\u00e9todo mais comum usado para solicitar presas de on\u00e7a, muitos dos quais resultaram na pris\u00e3o dos envolvidos. \u201cEm muitos casos, o incentivo econ\u00f4mico pode ser tentador para os moradores (\u2026) Os traficantes aproveitam essas necessidades\u201d, afirmam os especialistas.<\/p>\n<p>As apreens\u00f5es continuaram at\u00e9 2018. Ainda assim, de janeiro de 2019 at\u00e9 hoje, a Pol\u00edcia Florestal e de Conserva\u00e7\u00e3o Ambiental (Pofoma) n\u00e3o informou nenhuma nova descoberta de partes de on\u00e7a. \u201cN\u00e3o sabemos se devemos lamentar ou nos alegrar por n\u00e3o termos recebido mais den\u00fancias sobre o tr\u00e1fico de on\u00e7as na Bol\u00edvia, muito menos [qualquer] reclama\u00e7\u00e3o\u201d, diz Rodrigo Herrera, assessor jur\u00eddico da DGBAP.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o de dizer se houve ou n\u00e3o uma diminui\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico do felino, uma vez que podem existir novas formas de tr\u00e1fico dentro do com\u00e9rcio ilegal. O que eles podem confirmar, entretanto, \u00e9 que o tr\u00e1fico de outras esp\u00e9cies selvagens aumentou, incluindo outros felinos, como pumas e jaguatiricas. \u201cSabemos que o mercado asi\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 atendido apenas pela on\u00e7a-pintada\u201d, diz Herrera.<\/p>\n<p>\u00c9 claro para a comunidade cient\u00edfica que essa falta de apreens\u00e3o \u00e9 uma not\u00edcia alarmante. \u201cN\u00f3s bi\u00f3logos, estamos preocupados com essa situa\u00e7\u00e3o. Discutimos isso em workshops que foram realizados este ano. Ficamos imaginando se o julgamento dos 21 casos de tr\u00e1fico surtiu algum efeito ou se est\u00e3o atuando de forma menos \u00f3bvia, como fazem as m\u00e1fias\u201d, diz Marco Ribera, da Opera\u00e7\u00e3o Jaguar.<\/p>\n<p>Diante de um cen\u00e1rio de incertezas, surgem v\u00e1rias hip\u00f3teses. Rob Wallace, da WCS, comenta que a aus\u00eancia de apreens\u00f5es pode estar associada a uma forma mais clandestina de operar para as m\u00e1fias. No entanto, tamb\u00e9m pode ser que as a\u00e7\u00f5es realizadas at\u00e9 agora tenham sido bem-sucedidas. H\u00e1 uma terceira hip\u00f3tese compartilhada por v\u00e1rios especialistas em on\u00e7as e que est\u00e1 ligada ao conflito entre on\u00e7as e criadores de animais para consumo.<\/p>\n<p>\u201cSempre houve conflitos entre on\u00e7as e pessoas. Onde h\u00e1 gado existe a possibilidade de conflito. Por isso, durante todos esses anos, a on\u00e7a-pintada foi ca\u00e7ada para fins n\u00e3o comerciais, apenas para controlar um problema\u201d, diz Wallace. Ainda assim, nunca considerou que essas pessoas armazenavam partes de jaguar, incluindo cabe\u00e7as, peles e presas. \u201cQuando o mercado de tr\u00e1fico aparecer, \u00e9 prov\u00e1vel que tenha havido algum estoque\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>M\u00e1fias podem estar armazenando esses peda\u00e7os com essas pessoas, algo que as autoridades bolivianas n\u00e3o consideraram em suas investiga\u00e7\u00f5es. Melissa Arias, pesquisadora do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, argumenta que o conflito entre on\u00e7as e pessoas precisa ser analisado mais de perto. \u201c\u00c9 poss\u00edvel que o com\u00e9rcio de presas de on\u00e7a seja um subproduto desse conflito com os humanos\u201d, acrescenta ela.<\/p>\n<p>Nuno Negr\u00f5es, cientista que at\u00e9 o ano passado liderava esfor\u00e7os de monitoramento na Associa\u00e7\u00e3o Boliviana de Pesquisa e Conserva\u00e7\u00e3o dos Ecossistemas Andino-Amaz\u00f4nicos (Aceaa), publicou em dezembro passado um estudo com outros cientistas em que analisavam como \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o da on\u00e7a-pintada, que eles descrever como perigoso, pode levar a conflitos e \u00e0 morte do animal.<\/p>\n<p>Negr\u00f5es diz que no noroeste da Bol\u00edvia eles descobriram que as mortes de on\u00e7as s\u00e3o frequentes, mas n\u00e3o est\u00e3o principalmente relacionadas ao tr\u00e1fico. \u201cN\u00e3o encontramos evid\u00eancias de que as pessoas saiam para matar on\u00e7as para vender suas presas, mas podem acabar sendo vendidas para traficantes\u201d, acrescenta. Ele tamb\u00e9m acredita que a aus\u00eancia de tais dados tem a ver com a falta de uma capacidade de resposta r\u00e1pida aos diferentes m\u00e9todos de tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>O surgimento de novas modalidades de tr\u00e1fico tem uma certa l\u00f3gica segundo Pauline Verheij, pesquisadora e advogada ambientalista especializada em crimes contra a vida selvagem. Ela sugere que o alerta das autoridades e da sociedade em geral pode ter criado um efeito de bolha: \u201cEles n\u00e3o v\u00e3o mais anunciar no r\u00e1dio porque est\u00e3o sendo vigiados. O que aconteceu em outros pa\u00edses com problemas de tr\u00e1fico de vida selvagem \u00e9 que as rotas e as metodologias mudam.\u201d<\/p>\n<p>Por enquanto, especialistas da Opera\u00e7\u00e3o Jaguar, junto com guardas-florestais e autoridades ambientais da Bol\u00edvia, identificaram pontos de coleta e compra de presas de felinos, bem como outras cidades potenciais das quais sairiam os carregamentos internacionais. A an\u00e1lise indica que as partes de animais s\u00e3o coletadas tanto no nordeste quanto no sudeste da Bol\u00edvia, em \u00e1reas onde a on\u00e7a-pintada vive, e depois traficadas pela fronteira com o Peru.<\/p>\n<p>\u201cO tr\u00e1fico de partes de on\u00e7as e outros animais silvestres \u00e9 crime e, assim como o tr\u00e1fico de drogas ou de humanos, utiliza rotas e s\u00edtios muito remotos, com pouca vigil\u00e2ncia e popula\u00e7\u00e3o reduzida. Podem at\u00e9 ser crimes inter-relacionados\u201d, afirma Marco Ribera. Enzo Aliaga, que desde janeiro \u00e9 o diretor-geral da DGBAP, critica o papel que o Estado tem desempenhado: \u201cConversamos com a Pofoma \u2013 a ag\u00eancia policial \u2013 para saber por que n\u00e3o h\u00e1 mais apreens\u00f5es, mas n\u00e3o h\u00e1 resposta. Os resultados obtidos nos anos anteriores foram casuais, n\u00e3o houve busca espec\u00edfica para o tr\u00e1fico de on\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>O assessor jur\u00eddico da DGBAP, Rodrigo Herrera, concorda com Aliaga e acrescenta que at\u00e9 o momento n\u00e3o existe uma lei de prote\u00e7\u00e3o aos animais silvestres. \u201cN\u00e3o h\u00e1 san\u00e7\u00f5es para o tr\u00e1fico. Os 21 processos judiciais que alcan\u00e7amos s\u00e3o porque constru\u00edmos com v\u00e1rias regras e leis uma den\u00fancia de destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico\u201d.<\/p>\n<p>A falta de leis significa que as penas s\u00e3o menos severas e quem mais se beneficia s\u00e3o as m\u00e1fias, diz Enzo Aliaga. \u201cDas cinco senten\u00e7as proferidas, apenas tr\u00eas receberam penas de pris\u00e3o, que variam de tr\u00eas a seis anos, com possibilidade de negocia\u00e7\u00e3o da liberdade condicional\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo, segundo Aliaga, \u00e9 ir atr\u00e1s dos traficantes. No entanto, antes de fazer isso, \u00e9 preciso entender como eles funcionam e ter penalidades mais severas.<\/p>\n<p><strong>Aproximando-se dos traficantes<\/strong><\/p>\n<p>Um fato n\u00e3o pode ser esquecido. Dos 21 processados por tr\u00e1fico de on\u00e7as, 17 s\u00e3o cidad\u00e3os chineses. Na verdade, Verheij aponta em seu relat\u00f3rio do in\u00edcio de 2019 com a IUCN que, desde 2013, a compra de presas por cidad\u00e3os chineses tem sido \u201cpara contrabandear para a China, \u00e0s vezes com a ajuda de bolivianos\u201d. Verheij especifica na reportagem que \u201cos an\u00fancios n\u00e3o estavam apenas no r\u00e1dio, mas tamb\u00e9m em cartazes e panfletos distribu\u00eddos em \u00e1reas rurais.<\/p>\n<p>O advogado ambiental tamb\u00e9m confirma que dos 16 pacotes com 300 presas detectados pelos correios bolivianos, 14 foram enviados por cidad\u00e3os chineses que trabalham na Bol\u00edvia. \u201cEsse pa\u00eds \u00e9 o destino final. Quando produtos para felinos foram encontrados em outras partes da \u00c1sia, foi porque estavam em tr\u00e2nsito para a China\u201d, diz Vincent Nijman, antrop\u00f3logo da Universidade Oxford Brookes.<\/p>\n<p>Nijman e a pesquisadora Tha\u00eds Morcatty publicaram recentemente um estudo sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o investimento chin\u00eas em projetos de infraestrutura e o tr\u00e1fico de felinos, um padr\u00e3o j\u00e1 observado na \u00c1frica, onde as popula\u00e7\u00f5es de le\u00f5es est\u00e3o caindo.<\/p>\n<p>O governo boliviano prefere ser cauteloso e referir-se em termos gerais \u00e0 \u00c1sia ao falar sobre o destino e o mercado interessado nessas partes da on\u00e7a. \u201cN\u00e3o queremos estimular a xenofobia\u201d, diz o advogado Rodrigo Herrera. Ele acrescenta que os esfor\u00e7os para trabalhar em conjunto com a embaixada chinesa come\u00e7aram em 2018, quando ela emitiu um lembrete da proibi\u00e7\u00e3o de compra e movimenta\u00e7\u00e3o de presas de on\u00e7as. Desde ent\u00e3o, por\u00e9m, a embaixada n\u00e3o se comunicou com o \u00f3rg\u00e3o boliviano pertinente.<\/p>\n<p>\u201cA posi\u00e7\u00e3o da China tem sido neutra. Eles nos disseram que a maior interven\u00e7\u00e3o que poderiam fazer seria recomendar aos seus cidad\u00e3os que n\u00e3o consumissem esses produtos\u201d, disse Herrera. Ele tamb\u00e9m diz que as visitas a empresas chinesas que operam em territ\u00f3rios onde vivem on\u00e7as se tornaram mais frequentes, especialmente no departamento de Beni. \u201cTem sido dif\u00edcil porque a maioria das operadoras n\u00e3o fala espanhol ou n\u00e3o tem interesse em saber.\u201d<\/p>\n<p>Uma das maiores preocupa\u00e7\u00f5es das autoridades bolivianas \u00e9 que o tr\u00e1fico de on\u00e7as abra um canal que facilita o com\u00e9rcio ilegal de outras esp\u00e9cies para a \u00c1sia. \u201cDetectamos interesse no mercado do urso andino, por exemplo, que devemos come\u00e7ar a proteger com mais for\u00e7a\u201d, disse Herrera.<\/p>\n<p>Para Tha\u00eds Morcatty, candidata a doutorado em antropologia na Oxford Brookes University e especialista em tr\u00e1fico de vida selvagem, pa\u00edses com governan\u00e7a fraca e altos n\u00edveis de investimento da China, bem como florestas mal protegidas, s\u00e3o aqueles com os maiores n\u00edveis de com\u00e9rcio ilegal de vida selvagem, especificamente on\u00e7as. N\u00fa\u00f1ez avisa desde 2016: \u201cConstatamos que estavam sendo realizadas obras de constru\u00e7\u00e3o com a capital chinesa em Pando e na fronteira entre La Paz e Beni, onde cidad\u00e3os chineses foram encontrados pedindo presas e onde foram apreendidas presas\u201d.<\/p>\n<p>Morcatty vem coletando informa\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica Central e do Sul desde 2012 e conseguiu identificar que a rela\u00e7\u00e3o comercial estabelecida com a China tamb\u00e9m permitia o estabelecimento de uma cadeia legal de c\u00e2mbio monet\u00e1rio que pode cobrir transfer\u00eancias ilegais de dinheiro. No entanto, ao analisar apreens\u00f5es de partes de on\u00e7as, ela descobriu que apenas 34% tinham como destino a China. \u201cOs outros 66% n\u00e3o tinham destino claro ou seriam usados para o com\u00e9rcio ilegal dentro da Bol\u00edvia\u201d, disse ela.<\/p>\n<p>Nijman, que tamb\u00e9m realizou a pesquisa, diz que 66% precisam de mais pesquisas para revelar quem mais faz parte da cadeia do tr\u00e1fico. \u201cA ideia n\u00e3o \u00e9 estigmatizar uma comunidade ou um pa\u00eds, mas trabalhar os dois lados do problema para resolv\u00ea-lo. N\u00e3o queremos inferir que todos os trabalhadores chineses que v\u00eam para obras de infraestrutura na Am\u00e9rica Latina s\u00e3o criminosos, provavelmente a grande maioria n\u00e3o est\u00e1 ligada ao crime\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cEm nossas investiga\u00e7\u00f5es, procuramos criminosos, n\u00e3o pessoas de uma determinada nacionalidade\u201d, diz Andrea Crosta, diretora executiva da Earth League International (ELI), que investiga o tr\u00e1fico de vida selvagem em todo o mundo.<\/p>\n<p><strong>Abrigos de jaguar e planos para salv\u00e1-los<\/strong><\/p>\n<p>As amea\u00e7as \u00e0 on\u00e7a-pintada na Bol\u00edvia \u2013 e no resto da Am\u00e9rica Latina \u2013 n\u00e3o se resolvem apenas com o controle do tr\u00e1fico de animais selvagens. Existem outros problemas a serem resolvidos. \u201cAinda temos que lidar com a perda de habitat e a diminui\u00e7\u00e3o do consumo de presas pela on\u00e7a-pintada, o que a obriga a continuar viajando em \u00e1reas maiores e tem maior probabilidade de entrar em conflito com as pessoas\u201d, afirma Aliaga, diretora da DGBAP.<\/p>\n<p>Em junho do ano passado, o Mongabay Latam relatou o desaparecimento da on\u00e7a-pintada da Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Natural (UPCN) de Santa Cruz La Vieja, justamente pelo crescimento da fronteira agr\u00edcola e consequente desmatamento da \u00e1rea.<br \/>\nUm estudo publicado em 2018 por Leonardo Maffei e outros pesquisadores sobre a situa\u00e7\u00e3o da on\u00e7a na Bol\u00edvia constatou que o avan\u00e7o das fronteiras agr\u00edcolas e pecu\u00e1rias \u00e9 a principal raz\u00e3o pela qual o habitat da on\u00e7a passou de 75% do territ\u00f3rio nacional para pouco mais de 50 %.<\/p>\n<p>\u201cA perspectiva de m\u00e9dio prazo \u00e9 que essa \u00e1rea seja reduzida de forma mais dr\u00e1stica por pol\u00edticas estaduais relacionadas \u00e0 seguran\u00e7a alimentar que promovam a expans\u00e3o produtiva\u201d, alerta a pesquisa.<\/p>\n<p>Da mesma forma, os grandes inc\u00eandios de 2019 afetaram grande parte do territ\u00f3rio coberto pela on\u00e7a-pintada. Panthera, a organiza\u00e7\u00e3o de conserva\u00e7\u00e3o global de felinos selvagens, estimou que pelo menos 500 on\u00e7as-pintadas adultas morreram ou foram deslocadas pelos inc\u00eandios no Brasil e na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Maikol Melgar, chefe do Servi\u00e7o Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o (Sernap), cita pesquisa da Funda\u00e7\u00e3o para a Conserva\u00e7\u00e3o da Floresta de Chiquitano, ressaltando os estragos causados pelos inc\u00eandios. \u201cForam arrasados 2,8 milh\u00f5es de hectares, o que significa 16,5% do territ\u00f3rio da on\u00e7a-pintada no ecossistema Chiquitano, em Santa Cruz\u201d, disse a autoridade.<\/p>\n<p>Diante desse panorama de riscos, diversas iniciativas estatais come\u00e7aram a surgir com o apoio de entidades privadas, universidades e cientistas independentes. O primeiro passo foi a cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a Nacional pela Conserva\u00e7\u00e3o da On\u00e7a-Pintada, um espa\u00e7o para facilitar a troca de informa\u00e7\u00f5es e a tomada de decis\u00f5es. O resultado foi a publica\u00e7\u00e3o de um Plano de A\u00e7\u00e3o para a Conserva\u00e7\u00e3o da On\u00e7a Pintada.<\/p>\n<p>Outra proposta que tramita na presid\u00eancia boliviana \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma Lei de Prote\u00e7\u00e3o Animal, a primeira do g\u00eanero no pa\u00eds. \u201cPrecisamos mudar o c\u00f3digo penal para que as san\u00e7\u00f5es mais dr\u00e1sticas sejam efetivas para crimes como o tr\u00e1fico de partes de on\u00e7as\u201d, diz Aliaga. Essas altera\u00e7\u00f5es propostas pelo projeto de lei consideram o biocida animal, que tem pena m\u00e1xima de 15 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma parte essencial dessa luta inclui a prote\u00e7\u00e3o de \u00e1reas naturais protegidas. A maior parte das pesquisas que conseguiram monitorar on\u00e7as-pintadas por um longo per\u00edodo de tempo encontra-se nessas \u00e1reas, que na Bol\u00edvia s\u00e3o 22. Um exemplo desse trabalho \u00e9 o realizado pela WCS no Parque Nacional Madidi, onde eles t\u00eam conseguido monitorar a popula\u00e7\u00e3o de on\u00e7as pintadas por 20 anos, em \u00e1reas onde os madeireiros haviam derrubado grande parte da floresta.<\/p>\n<p>Wallace, um dos pesquisadores WCS neste projeto, comenta que em cada interven\u00e7\u00e3o eles t\u00eam mais ou menos 100 esta\u00e7\u00f5es com armadilhas fotogr\u00e1ficas. Em uma dessas \u00e1reas, localizada entre os vales dos rios Tuichi e Hondo, eles encontraram resultados surpreendentes. Em 2001 obtiveram uma densidade de meio jaguar por 100 quil\u00f4metros quadrados, em 2008 passaram para dois e em 2014 para entre 5 e 6 on\u00e7as. Algumas semanas atr\u00e1s, eles conseguiram terminar o processamento dos dados coletados pelas armadilhas fotogr\u00e1ficas naquele ponto e observaram at\u00e9 9 on\u00e7as por 100 km2, o que \u00e9 mais do que o dobro da m\u00e9dia sul-americana (4 por 100 km2).<\/p>\n<p>Embora Wallace indique que os resultados recentes s\u00e3o de um \u00fanico ponto em Madidi, n\u00e3o deixa de ser uma evid\u00eancia encorajadora da import\u00e2ncia das \u00e1reas protegidas na conserva\u00e7\u00e3o da vida selvagem. \u201cEst\u00e1 claro que a primeira coisa que precisamos fortalecer \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o nessas \u00e1reas\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia \u00e9 animadora, pois segundo o diretor da Sernap, Melgar, a on\u00e7a-pintada est\u00e1 inserida em 12 unidades de conserva\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia que somam mais de 20 milh\u00f5es de hectares e podem acomodar pelo menos 70% das esp\u00e9cies, segundo a Opera\u00e7\u00e3o Jaguar. No entanto, os perigos permanecem e a pr\u00f3xima miss\u00e3o dos cientistas bolivianos \u00e9 fazer com que a IUCN aprove a Mo\u00e7\u00e3o 106 em seu pr\u00f3ximo congresso. A mo\u00e7\u00e3o pede a eleva\u00e7\u00e3o do status de prote\u00e7\u00e3o global do jaguar de Quase Amea\u00e7ado para Vulner\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2016, em meio \u00e0s primeiras investiga\u00e7\u00f5es sobre o tr\u00e1fico de on\u00e7as na Bol\u00edvia, a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":134522,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/onca-2.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Em 2016, em meio \u00e0s primeiras investiga\u00e7\u00f5es sobre o tr\u00e1fico de on\u00e7as na Bol\u00edvia, a","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134521"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=134521"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134521\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/134522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=134521"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=134521"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=134521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}