{"id":134514,"date":"2020-09-28T07:34:52","date_gmt":"2020-09-28T10:34:52","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=134514"},"modified":"2020-09-28T07:34:52","modified_gmt":"2020-09-28T10:34:52","slug":"papagaios-em-cativeiro-criam-novos-dialetos-os-parentes-selvagens-conseguem-entende-los","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/papagaios-em-cativeiro-criam-novos-dialetos-os-parentes-selvagens-conseguem-entende-los\/","title":{"rendered":"Papagaios em cativeiro criam novos dialetos. Os parentes selvagens conseguem entend\u00ea-los?"},"content":{"rendered":"<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/papagaio.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-134515\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/papagaio-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/papagaio-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/papagaio.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Atualmente, os grasnidos, guinchos e assobios dos papagaios reverberam pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/environment\/habitats\/rain-forests\/\">floresta tropical<\/a>\u00a0de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/travel\/destinations\/north-america\/united-states\/puerto-rico\/\">Porto Rico<\/a>. Mas, h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, esses sons praticamente desapareceram.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/environment\/global-warming\/deforestation\/\">O desmatamento<\/a>\u00a0teve consequ\u00eancias nos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/animals\/birds\/group\/parrots\/\">papagaios<\/a>-de-porto-rico. Antes da coloniza\u00e7\u00e3o europeia em 1500, estima-se que sua popula\u00e7\u00e3o era de um milh\u00e3o.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fs.fed.us\/wildflowers\/Rare_Plants\/documents\/esa40\/ESAat40_PuertoRicanParrot_R8_EYNF.pdf\">Na d\u00e9cada de 1970, restavam apenas 13 papagaios-de-porto-rico na natureza,<\/a>\u00a0limitados a uma das \u00fanicas \u00e1reas florestais remanescentes da ilha, El Yunque.<\/p>\n<p>Na \u00faltima tentativa de salvar a esp\u00e9cie da extin\u00e7\u00e3o, conservacionistas come\u00e7aram a criar os papagaios em cativeiro. Foi uma estrat\u00e9gia bem-sucedida: embora esses p\u00e1ssaros tagarelas de cor verde-esmeralda sejam\u00a0<a href=\"https:\/\/www.iucnredlist.org\/species\/22686239\/130572716\">ainda considerados criticamente amea\u00e7ados<\/a>, hoje em dia existem mais de 600 indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Agora, pode haver uma nova amea\u00e7a \u00e0 sua sobreviv\u00eancia, segundo seus protetores. Os papagaios em cativeiro desenvolveram um dialeto totalmente novo, um fen\u00f4meno que n\u00e3o havia sido observado anteriormente em outras popula\u00e7\u00f5es de p\u00e1ssaros que vivem em cativeiro, conta a l\u00edder do estudo Tanya Mart\u00ednez, bi\u00f3loga conservacionista do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.drna.pr.gov\/programas-y-proyectos\/proyecto-para-la-reproduccion-en-cautiverio-de-la-cotorra-puertorriquena\/\">Projeto de Recupera\u00e7\u00e3o de Papagaios-de-Porto-Rico<\/a>\u00a0do Departamento Porto-Riquenho de Recursos Naturais e Ambientais.<\/p>\n<p>Por volta de 2013, Mart\u00ednez, na \u00e9poca mestranda da Universidade de Porto Rico, come\u00e7ou a perceber que os papagaios-de-porto-rico n\u00e3o \u201cfalavam\u201d todos a mesma l\u00edngua. \u201cAo entrar na floresta de El Yunque para trabalhar com a popula\u00e7\u00e3o selvagem, poder\u00edamos dizer que o som era de uma esp\u00e9cie diferente\u201d daquele emitido pelas aves em cativeiro, diz Mart\u00ednez, cujo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0003347220301639\">artigo foi publicado recentemente na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Animal Behavior<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Curiosa para saber mais, ela passou a prestar aten\u00e7\u00e3o nos sons de todas as quatro popula\u00e7\u00f5es de papagaios existentes \u2014 duas selvagens e duas em cativeiro \u2014 e os gravou. O que ela ouviu confirmou sua suspeita: as vocaliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram as mesmas entre as popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A poss\u00edvel barreira da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 preocupante, diz\u00a0<a href=\"http:\/\/biology-web.nmsu.edu\/~twright\/\">Timothy Wright<\/a>, bi\u00f3logo da Universidade Estadual do Novo M\u00e9xico, que n\u00e3o participou da pesquisa. Segundo ele, para serem reintroduzidos na natureza com sucesso, os papagaios devem ser capazes de se comunicar com seus semelhantes, principalmente para fortalecer os relacionamentos em suas comunidades individuais.<\/p>\n<p>\u201cSe um indiv\u00edduo n\u00e3o consegue comunicar aos outros que faz parte do mesmo grupo, talvez n\u00e3o obtenha os benef\u00edcios de fazer parte desse grupo\u201d, como unir-se aos bandos para fugir de predadores e trabalhar em conjunto para procurar comida, explica Wright.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img ngart-img--small\">\n<div class=\"ngart-img__cntr\" tabindex=\"0\" role=\"button\"><picture class=\"resp-img-cntr\"><img loading=\"lazy\" title=\"Tr\u00eas ovos de papagaio-de-porto-rico dentro da cavidade de uma \u00e1rvore.\n\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/puerto-rican-parrots-eggs.jpg?w=315&amp;h=420\" alt=\"Tr\u00eas ovos de papagaio-de-porto-rico dentro da cavidade de uma \u00e1rvore.\n\" width=\"315\" height=\"420\" \/><\/picture><\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont\">\n<div class=\"ngart-img__cont__copy\">\n<p>Tr\u00eas ovos de papagaio-de-porto-rico dentro da cavidade de uma \u00e1rvore.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont__author\">FOTO DE\u00a0<span class=\"ngart-img__cont--strong\">TANYA MARTINEZ<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img ngart-img--small\">\n<div class=\"ngart-img__cntr\" tabindex=\"0\" role=\"button\"><picture class=\"resp-img-cntr\"><img loading=\"lazy\" title=\"Um casal de papagaios-de-porto-rico usando coleiras com radiotransmissores espia pela cavidade do ninho. As coleiras ajudam ...\" src=\"https:\/\/static.nationalgeographicbrasil.com\/files\/styles\/image_3200\/public\/puerto-rican-parrots-radio-collar.jpg?w=315&amp;h=473\" alt=\"Um casal de papagaios-de-porto-rico usando coleiras com radiotransmissores espia pela cavidade do ninho. As coleiras ajudam ...\" width=\"315\" height=\"473\" \/><\/picture><\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont\">\n<div class=\"ngart-img__cont__copy\">\n<p>Um casal de papagaios-de-porto-rico usando coleiras com radiotransmissores espia pela cavidade do ninho. As coleiras ajudam os cientistas a monitorar a localiza\u00e7\u00e3o das aves.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ngart-img__cont__author\">FOTO DE\u00a0<span class=\"ngart-img__cont--strong\">TANYA MARTINEZ<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"paragraph\">\n<div>\n<h3><strong>Popula\u00e7\u00e3o em crescimento<\/strong><\/h3>\n<p>O Servi\u00e7o de Pesca e Vida Selvagem dos Estado Unidos declarou que o primeiro bando de papagaios-de-porto-rico em cativeiro nasceu em 1973, n\u00e3o muito longe do territ\u00f3rio isolado dos papagaios residentes na natureza, em El Yunque.<\/p>\n<p>Com a popula\u00e7\u00e3o selvagem t\u00e3o reduzida, os cientistas tiveram que usar a criatividade. Eles levaram para Porto Rico os papagaios-de-hispaniola, que t\u00eam um grau de parentesco pr\u00f3ximo \u2014 e eram relativamente abundantes em seus pa\u00edses de origem, Haiti e Rep\u00fablica Dominicana \u2014 e os colocaram para criar os filhotes de papagaios-de-porto-rico como se fossem seus pais.<\/p>\n<p>O programa foi um sucesso. Em 2006, havia quatro popula\u00e7\u00f5es de papagaios-de-porto-rico: um bando cativo em El Yunque, um bando cativo e um reintroduzido na Floresta Estadual de Rio Abajo e o bando selvagem original remanescente em El Yunque.<\/p>\n<p>Depois de gravar o som das quatro popula\u00e7\u00f5es em campo, Mart\u00ednez converteu mais de 800 horas de grava\u00e7\u00f5es dos p\u00e1ssaros em representa\u00e7\u00f5es visuais denominadas espectrogramas. Ela e seu orientador David Logue, agora na Universidade de Lethbridge, no Canad\u00e1, agruparam as vocaliza\u00e7\u00f5es de acordo com sua semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Eles se concentraram nas duas vocaliza\u00e7\u00f5es mais comuns, o\u00a0<em>cou<\/em>\u00a0e o\u00a0<em>tchi<\/em>\u00a0que os membros do bando reproduzem para manter contato entre si. A pesquisa revelou que os p\u00e1ssaros em cativeiro fazem as vocaliza\u00e7\u00f5es\u00a0<em>cou<\/em>\u00a0e\u00a0<em>tchi<\/em>\u00a0com pelo menos duas s\u00edlabas diferentes, enquanto os p\u00e1ssaros silvestres de El Yunque fazem vocaliza\u00e7\u00f5es completamente diferentes, que s\u00e3o basicamente uma \u00fanica s\u00edlaba repetida.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o desde t\u00e3o novos aos sons dos papagaios-de-hispaniola somada ao fato de terem sido separados dos mais velhos de sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie provavelmente colaborou para que as aves criadas em cativeiro desenvolvessem novas vocaliza\u00e7\u00f5es, diz Mart\u00ednez.<\/p>\n<p>Mas as mudan\u00e7as vocais n\u00e3o param por a\u00ed. O estudo tamb\u00e9m constatou que cada vez que os conservacionistas dividiam posteriormente os p\u00e1ssaros em novos grupos, pequenas inova\u00e7\u00f5es surgiam em suas vocaliza\u00e7\u00f5es. O grupo de Rio Abajo em cativeiro come\u00e7ou a emitir sons distintos de seu bando original em El Yunque \u2014 e depois que os p\u00e1ssaros de Rio Abajo em cativeiro foram soltos na floresta de Rio Abajo, as vocaliza\u00e7\u00f5es mudaram novamente.<\/p>\n<p>Por fim, Mart\u00ednez acabou concluindo sua pesquisa a tempo. Em 2017, logo depois de terminar suas grava\u00e7\u00f5es, uma trag\u00e9dia atingiu a floresta de El Yunque:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/news\/2017\/10\/hurricane-irma-harvey-maria-bird-impacts-caribbean\/\">o furac\u00e3o Maria matou todo o bando<\/a>\u00a0de aproximadamente 50 papagaios silvestres.<\/p>\n<p>\u201cEsse foi o \u00faltimo ref\u00fagio dos papagaios silvestres\u201d, diz ela. \u201cSe n\u00e3o fosse por essa floresta, essa esp\u00e9cie j\u00e1 estaria extinta\u201d \u2014 mas agora est\u00e1 preservada nos bandos em cativeiro e bandos reintroduzidos cujos antepassados foram coletados daquela floresta h\u00e1 quase 50 anos.<\/p>\n<h3><strong>Instrutores de idiomas<\/strong><\/h3>\n<p>Mudan\u00e7as nas vocaliza\u00e7\u00f5es podem afetar o comportamento do papagaio, diz Wright, que estuda os papagaios-de-nuca-amarela da Costa Rica, outra esp\u00e9cie dessa ave. Quando ele\u00a0<a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0048667\">\u00a0inseriu experimentalmente diversos papagaios em uma popula\u00e7\u00e3o com dialeto desconhecido<\/a>, os p\u00e1ssaros mais jovens aprenderam rapidamente a nova linguagem, mas os p\u00e1ssaros mais velhos n\u00e3o conseguiram domin\u00e1-la, ele conta: \u201cparecia que os adultos n\u00e3o queriam aprender o novo dialeto; eles s\u00f3 ficavam com p\u00e1ssaros do mesmo dialeto.\u201d<\/p>\n<p>Embora alguns papagaios-de-porto-rico tenham adquirido um novo dialeto ap\u00f3s serem transferidos para uma popula\u00e7\u00e3o diferente, nem todos os p\u00e1ssaros t\u00eam talento para isso, observa Thomas White, bi\u00f3logo da vida selvagem que trabalhou no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fws.gov\/southeast\/caribbean\/puerto-rican-parrott-recovery-program\/#:~:text=The%20Puerto%20Rican%20parrot%20recovery,found%20only%20in%20Puerto%20Rico.&amp;text=The%20second%20group%20of%20parrots%20is%20in%20the%20R%C3%ADo%20Abajo%20State%20Forest.\">programa de recupera\u00e7\u00e3o de papagaios-de-porto-rico<\/a>\u00a0do Servi\u00e7o de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos h\u00e1 mais de 20 anos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 parecido com humanos aprendendo uma l\u00edngua estrangeira \u2014 algumas pessoas aprendem com mais rapidez e facilidade do que outras\u201d, diz White.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para ajudar as aves em cativeiro a assimilar as vocaliza\u00e7\u00f5es selvagens, o programa de recupera\u00e7\u00e3o utilizou os papagaios reintroduzidos como instrutores.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros prestes a serem libertados na floresta de El Yunque primeiro passam um per\u00edodo em um local onde podem assistir, ouvir e aprender com seus futuros companheiros. Agora que h\u00e1 papagaios-de-porto-rico suficientes para criar seus pr\u00f3prios filhotes, os conservacionistas tamb\u00e9m pararam de usar papagaios-de-hispaniola como \u201cpais substitutos\u201d.<\/p>\n<p>E no in\u00edcio deste ano, a equipe libertou 30 papagaios, que viviam em cativeiro,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fs.usda.gov\/detail\/elyunque\/news-events\/?cid=FSEPRD700945#https:\/\/www.fs.usda.gov\/detail\/elyunque\/news-events\/?cid=FSEPRD700945\">na floresta de El Yunque para substituir a popula\u00e7\u00e3o morta pelo furac\u00e3o<\/a>. Seus dialetos, embora n\u00e3o sejam exatamente os mesmos, devolver\u00e3o \u00e0 floresta as vocaliza\u00e7\u00f5es cacof\u00f4nicas dos papagaios.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atualmente, os grasnidos, guinchos e assobios dos papagaios reverberam pela\u00a0floresta tropical\u00a0de\u00a0Porto Rico. 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