{"id":133654,"date":"2020-09-12T12:00:16","date_gmt":"2020-09-12T15:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=133654"},"modified":"2020-09-12T09:02:56","modified_gmt":"2020-09-12T12:02:56","slug":"europeus-de-3-mil-anos-atras-ainda-nao-eram-capazes-de-digerir-leite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/europeus-de-3-mil-anos-atras-ainda-nao-eram-capazes-de-digerir-leite\/","title":{"rendered":"Europeus de 3 mil anos atr\u00e1s ainda n\u00e3o eram capazes de digerir leite"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-133655\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>H\u00e1 mais de 3,2 mil anos, em plena Idade do Bronze, uma brutal batalha aconteceu nas margens do rio Tollense, localizado no nordeste da atual Alemanha. Dentre as quatro mil pessoas que se acredita terem participado, no m\u00ednimo algumas centenas morreram. Seus corpos foram enterrados por mil\u00eanios de terra, \u00e1gua e detritos.<\/p>\n<p>Desde 1996, quando o primeiro fragmento foi encontrado por acaso, arqueologistas vem escavando a regi\u00e3o e j\u00e1 localizaram centenas de peda\u00e7os de ossos de humanos e cavalos. Nos \u00faltimos anos, an\u00e1lises gen\u00e9ticas dessas amostras v\u00eam revelando detalhes impressionantes sobre a batalha e seus participantes, incluindo uma descoberta no m\u00ednimo curiosa: nenhum dos guerreiros conseguia digerir o leite.<\/p>\n<p>\u00c9 essa a conclus\u00e3o de um recente estudo que analisou o material gen\u00e9tico de 14 pessoas diferentes encontradas na batalha de Tollense. A pesquisa, publicada na revista Current Biology, tentava inicialmente descobrir mais sobre os guerreiros e o conflito em si \u2013 uma teoria era de que os dois grupos eram de povos de locais distantes lutando pela hegemonia local.<\/p>\n<p>Mas seus genomas mostraram que todos os combatentes compartilhavam tra\u00e7os gen\u00e9ticas compat\u00edveis com os de povos da Europa Central (\u00e1rea que hoje inclui a pr\u00f3pria Alemanha, a Rep\u00fablica Tcheca e a Pol\u00f4nia). Ou seja: do ponto de vista gen\u00e9tico, eram todos farinha do mesmo saco. \u00c9 claro, por\u00e9m, que eles tinham suas desaven\u00e7as culturais, caso contrario n\u00e3o teria havido conflito.<\/p>\n<p>A equipe se deparou com alguns detalhes importantes no meio do caminho. Um deles era que, dos 14 esqueletos analisados, dois eram de mulheres, indicando que as batalhas n\u00e3o eram combatidas exclusivamente por homens, como se acreditava. E um outro que poderia passar batido, caso n\u00e3o fosse essencial para a hist\u00f3ria evolutiva humana: todos eram intolerantes \u00e0 lactose, ou seja, n\u00e3o conseguiam digerir leite na vida adulta.<\/p>\n<p>Se a descoberta tivesse sido feita em qualquer outro continente, ou mesmo mais ao sul da pr\u00f3pria Europa, n\u00e3o seria de se estranhar tanto. Na verdade, a intoler\u00e2ncia \u00e0 lactose em humanos \u00e9 a regra, e n\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o: cerca de 2\/3 dos humanos n\u00e3o s\u00e3o capazes de digeri-la.<\/p>\n<p>Isso porque, para se digerir a lactose, o principal a\u00e7\u00facar do leite, \u00e9 preciso uma enzima chamada lactase, que est\u00e1 presente nos mam\u00edferos nos primeiros anos de vida, quando passam pelo per\u00edodo da amamenta\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s o desmame, a enzima n\u00e3o tem utilidade. Em todos os mam\u00edferos, o gene que cont\u00e9m a receita para essa enzima para de se expressar na vida adulta \u2013 a exce\u00e7\u00e3o s\u00e3o alguns humanos.<\/p>\n<p>Em algum momento na hist\u00f3ria, alguns seres humanos desenvolveram a chamada persist\u00eancia da lactase. Nestas pessoas, uma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica permite que a fabrica\u00e7\u00e3o de lactase continue na fase adulta. Essa muta\u00e7\u00e3o surgiu aleatoriamente e provavelmente foi selecionada e passada para seus descendentes pela sele\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>Na pr\u00e9-hist\u00f3ria, quem conseguia digerir o leite de animais n\u00e3o-humanos na vida adulta tinha uma fonte de nutrientes segura dispon\u00edvel na forma da pecu\u00e1ria, e sobrevivia durante per\u00edodos de escassez de comida e \u00e1gua limpa, que n\u00e3o eram incomuns h\u00e1 tr\u00eas mil anos. Por isso, esses humanos tendiam a sobreviver e se reproduzir com mais frequ\u00eancia que as pessoas intolerantes.<\/p>\n<p>Essa press\u00e3o seletiva aconteceu especialmente no norte e no centro da Europa. Prova disso \u00e9 que a persist\u00eancia da lactase \u00e9 algo muito comum nessas popula\u00e7\u00f5es at\u00e9 hoje \u2013 em torno de 70% a 90% da popula\u00e7\u00e3o em pa\u00edses da Europa central; chegando a quase 100% em lugares como Irlanda e Dinamarca. Saindo dessa regi\u00e3o, a capacidade de digerir a lactose \u00e9 bem menos comum e a maioria das pessoas apresenta intoler\u00e2ncia ao leite em alguma intensidade. Outros povos que praticavam o pastoreio, em outros lugares do mundo, passaram por processos parecidos.<\/p>\n<p>Quando o gene se tornou comum nessas popula\u00e7\u00f5es ainda \u00e9 um mist\u00e9rio. \u00c9 seguro afirmar que foi depois da domestica\u00e7\u00e3o de animais, h\u00e1 cerca de 8 mil anos, e an\u00e1lises gen\u00e9ticas dos primeiros europeus fazendeiros de fato mostraram que esses eram intolerantes \u00e0 lactose. Mas o novo estudo mostra que, h\u00e1 3,2 mil anos, a muta\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o estava generalizada na Europa central, j\u00e1 que nenhum dos esqueletos apresentava a caracter\u00edstica.<\/p>\n<p>Isso leva a uma conclus\u00e3o surpreendente: o gene da persist\u00eancia a lactose foi selecionado muito intensa e rapidamente a partir de algum momento nos \u00faltimos 3 mil anos, um per\u00edodo considerado bem curto quando se trata de sele\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>Uma teoria proposta em 2015 dizia que o gene de persist\u00eancia da lactase havia sido trazido para a Europa central e ocidental pelo povo Yamna, que habitava as estepes do que hoje seriam a Ucr\u00e2nia e o oeste da R\u00fassia \u2013 \u00e9 sabido que essas pessoas domesticavam vacas e outros mam\u00edferos e que tamb\u00e9m migraram para o oeste h\u00e1 cerca de 5 mil anos.<\/p>\n<p>O novo estudo, por\u00e9m, mostra que em 1200 a.C. o gene ainda n\u00e3o havia se espalhado entre os europeus, o que enfraquece essa teoria. Para confirmar, os pesquisadores analisaram genomas de ossos de pessoas que viviam nas estepes ucranianas e confirmaram que o gene da persist\u00eancia da lactose era muito pouco presente nesses indiv\u00edduos, enterrando a teoria de que eles seriam os respons\u00e1veis originais pela caracter\u00edstica.<\/p>\n<p>Uma hip\u00f3tese citada por pesquisadores do novo estudo \u00e9 a de que o surgimento de grandes concentra\u00e7\u00f5es urbanas possa ter acelerado a sele\u00e7\u00e3o desse gene. Isso porque, nessas cidades primitivas, era comum que doen\u00e7as se espalhassem rapidamente e epidemias eram frequentes. Uma das formas mais comuns de adoecer era consumir \u00e1gua contaminada \u2013 e quem conseguia beber leite no lugar da \u00e1gua podia evitar as infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O novo estudo restringe a janela de tempo para o surgimento e sele\u00e7\u00e3o do gene da toler\u00e2ncia do leite para os \u00faltimos tr\u00eas mil anos, mas o mist\u00e9rio permanece. Em entrevista \u00e0 revista Science, a geneticista de Harvard Christina Warinner, que n\u00e3o participou do novo artigo, comentou: \u201c\u00c9 quase constrangedor que este seja o exemplo mais forte de sele\u00e7\u00e3o natural que temos e ainda n\u00e3o conseguimos explic\u00e1-lo de fato.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 mais de 3,2 mil anos, em plena Idade do Bronze, uma brutal batalha aconteceu<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":133655,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/leite_antiguidade.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"H\u00e1 mais de 3,2 mil anos, em plena Idade do Bronze, uma brutal batalha aconteceu","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133654"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=133654"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133654\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/133655"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=133654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=133654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=133654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}