{"id":133592,"date":"2020-09-11T11:00:49","date_gmt":"2020-09-11T14:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=133592"},"modified":"2020-09-10T22:13:58","modified_gmt":"2020-09-11T01:13:58","slug":"especialistas-se-unem-para-criar-o-maior-banco-de-dados-sobre-especies-exoticas-das-americas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/especialistas-se-unem-para-criar-o-maior-banco-de-dados-sobre-especies-exoticas-das-americas\/","title":{"rendered":"Especialistas se unem para criar o maior banco de dados sobre esp\u00e9cies ex\u00f3ticas das Am\u00e9ricas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-133593\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Na \u00e9poca das grandes navega\u00e7\u00f5es europeias a melhor forma de conservar carne era levar animais vivos nos navios. Assim chegaram na Am\u00e9rica do Sul os primeiros javalis (<em>Sus scrofa<\/em>). Hoje, eles competem diretamente com as esp\u00e9cies nativas e alteram o ambiente, tornando-se um dos mais problem\u00e1ticos mam\u00edferos invasores do mundo. Para Clarissa Alves da Rosa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (INPA), era crucial ter dados da distribui\u00e7\u00e3o do animal invasor, obtidos durante em sua tese de doutorado defendida em 2015. \u201cPor eu j\u00e1 trabalhar com essa tem\u00e1tica de invas\u00f5es biol\u00f3gicas, na \u00e9poca focada principalmente no javali, surgiu a ideia, partindo de mim, do Bruno Ribeiro (Universidade Federal de Goi\u00e1s \u2013 UFG) e dos professores Mauro Galetti e Milton Ribeiro (Universidade Estadual Paulista \u2013 UNESP\/Rio Claro), em fazer um\u00a0<em>data paper\u00a0<\/em>espec\u00edfico de mam\u00edferos invasores. Esse trabalho foi iniciado em 2017 com o objetivo de reunir informa\u00e7\u00f5es de mam\u00edferos ex\u00f3ticos em toda regi\u00e3o Neotropical\u201d. A iniciativa culminou num\u00a0<a href=\"https:\/\/esajournals.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1002\/ecy.3115\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">artigo<\/a>\u00a0publicado na revista Ecology, reunindo 73.738 registros de 642 pesquisadores, dos anos de 1574 a 2018.<\/p>\n<p>As invas\u00f5es biol\u00f3gicas s\u00e3o uma das principais causas da perda de biodiversidade e se tornaram um grande problema mundial. A disponibilidade de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro passo para prevenir que esp\u00e9cies ex\u00f3ticas se tornem invasoras. Nesse sentido, os d<em>ata papers<\/em>\u00a0\u2013 artigos cient\u00edficos que buscam reunir grandes volumes de dados em plataformas de acesso p\u00fablico e gratuito \u2013 s\u00e3o fundamentais, e o Brasil vem dando exemplo para todas as regi\u00f5es do planeta de como se consegue, em pouco tempo, recuperar e organizar informa\u00e7\u00f5es importantes para o entendimento da biodiversidade, quest\u00f5es ecol\u00f3gicas, influ\u00eancias de degrada\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201cUm conjunto consider\u00e1vel de informa\u00e7\u00f5es est\u00e1 se tornado acess\u00edvel. Outros pa\u00edses j\u00e1 perceberam nossa estrat\u00e9gia de como montar essa rede e de como estimular seu funcionamento. Hoje podemos quantificar mais de 3 mil pesquisadores que est\u00e3o disponibilizando suas informa\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 um grande exemplo que estamos dando com esta\u00a0<em>open mind.<\/em>\u00a0Temos um grupo de pessoas bem-intencionadas que est\u00e1 fazendo com que as coisas aconte\u00e7am\u201d, comemora Milton Ribeiro.<\/p>\n<figure id=\"attachment_84710\" class=\"wp-caption alignright\" aria-describedby=\"caption-attachment-84710\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-84710\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Registro-de-distribuicao-de-pequenos-roedores.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals.png\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Registro-de-distribuicao-de-pequenos-roedores.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals.png 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Registro-de-distribuicao-de-pequenos-roedores.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals-288x300.png 288w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"417\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-84710\" class=\"wp-caption-text\">Registro de distribui\u00e7\u00e3o de pequenos roedores. Figura: Acervo Neotropical Alien Mammals.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O grupo iniciou a articula\u00e7\u00e3o para constru\u00e7\u00e3o da base de dados de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas e invasoras a partir de uma lista de pesquisadores que atuam com mam\u00edferos. \u201cEssa lista foi compilada pelos professores Mauro, Milton e parceiros. Fizemos ent\u00e3o um convite oficial com instru\u00e7\u00f5es de como cada pesquisador deveria acrescentar os dados no nosso banco de dados, pois a padroniza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es \u00e9 muito importante nesse tipo de banco de dados. Os pesquisadores foram estimulados a participar e a repassar, de forma livre, o convite a outras pessoas que poderiam ter dados de mam\u00edferos ex\u00f3ticos. Em poucas semanas, uma lista de pouco mais de 100 pesquisadores se transformou em mais de 600 pessoas\u201d, explicou Clarissa.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, todas as pessoas que tinham dados coletados e que participaram com esses dados foram inclu\u00eddas como autoras do trabalho. \u201cNosso objetivo n\u00e3o foi coletar novos dados, mas sim organizar e padronizar os j\u00e1 existentes. Ent\u00e3o, no momento que o pesquisador aceitava o convite, o mesmo deveria preencher uma planilha padr\u00e3o com informa\u00e7\u00f5es da esp\u00e9cie, local de registro, tipo de ambiente, m\u00e9todo, etc. As informa\u00e7\u00f5es eram ent\u00e3o revisadas por nossa equipe, havendo sobretudo uma preocupa\u00e7\u00e3o na identifica\u00e7\u00e3o correta da esp\u00e9cie e de sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica\u201d.<\/p>\n<p><strong>Neotropical Series<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores Mauro Galetti e Milton Ribeiro lideram os projetos denominados\u00a0<a href=\"https:\/\/esajournals.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/toc\/10.1002\/(ISSN)1939-9170.AtlanticPapers\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">Atlantic Series<\/a>, com dados sobre a Mata Atl\u00e2ntica, e\u00a0<a href=\"https:\/\/esajournals.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1002\/ecy.2663\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">Neotropical Series<\/a>, que abrange a \u00e1rea desde a fronteira norte dos Neotr\u00f3picos (incluindo M\u00e9xico, sul dos EUA e regi\u00f5es do Caribe), at\u00e9 o sul austral da Am\u00e9rica do Sul (Argentina, Uruguai e Paraguai). Por meio desses projetos tem\u00e1ticos, bases de dados sobre a biodiversidade dessas regi\u00f5es s\u00e3o publicadas em forma de artigos cient\u00edficos, tornando-se p\u00fablicas e de acesso gratuito. \u201cAvan\u00e7amos bastante no conhecimento da biodiversidade em geral, mas muitas vezes acabamos ficando sem tanto acesso a tal hist\u00f3ria, pois poucas foram as vezes que esses conhecimentos se tornaram acess\u00edveis\u201d, justificou Ribeiro. \u201cTemos que nos preparar no Brasil, como pa\u00eds continental que \u00e9, para buscar conhecimento de todos os Neotr\u00f3picos. Temos dados da maioria dos lugares, de onde e quantas vezes os animais foram registrados. Estamos num ponto \u00f3timo para conhecer cen\u00e1rios da real situa\u00e7\u00e3o do impactos que as esp\u00e9cies ex\u00f3ticas est\u00e3o causando na biodiversidade e em diferentes ambientes\u201d.<\/p>\n<p><strong>Esp\u00e9cies ex\u00f3ticas<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_84712\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 640px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-84712\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-84712\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Registro-de-distribuicao-de-javalis-Sus-scrofa.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals.png\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Registro-de-distribuicao-de-javalis-Sus-scrofa.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals.png 750w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Registro-de-distribuicao-de-javalis-Sus-scrofa.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals-288x300.png 288w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Registro-de-distribuicao-de-javalis-Sus-scrofa.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals-600x626.png 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Registro-de-distribuicao-de-javalis-Sus-scrofa.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals-640x667.png 640w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"667\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-84712\" class=\"wp-caption-text\">Registro de distribui\u00e7\u00e3o de javalis (Sus scrofa). Figura: Acervo Neotropical Alien Mammals.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma esp\u00e9cie ex\u00f3tica \u00e9 aquela que originalmente n\u00e3o faz parte de uma regi\u00e3o. De acordo com Clarissa Alves, os mam\u00edferos foram os primeiros organismos introduzidos intencionalmente em v\u00e1rias partes do mundo. \u201cEssa introdu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ocorrer de forma massiva nas grandes navega\u00e7\u00f5es europeias. Sem refrigera\u00e7\u00e3o, a melhor forma de conservar a carne era levar animais vivos (ex. porcos, cabras, etc.) e, ao chegar em um novo territ\u00f3rio, os animais vivos eram introduzidos de forma a reproduzir e manter o estoque de carne. Posteriormente, nos s\u00e9culos 18 e 19, muitos animais foram introduzidos para ca\u00e7a, for\u00e7a de trabalho e carne. Atualmente, mam\u00edferos seguem sendo introduzidos intencionalmente para fins de ca\u00e7a ou n\u00e3o intencionalmente, ocasionado de escapes de animais\u00a0<em>pets\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o s\u00f3 esp\u00e9cies de outros pa\u00edses s\u00e3o consideradas ex\u00f3ticas. \u00c9 o caso, por exemplo, do tamandu\u00e1-bandeira (<em>Tamandua tetradactyla<\/em>) ou do lobo-guar\u00e1 (<em>Chrysocyon brachyurus<\/em>), listados no artigo. \u201cEssas esp\u00e9cies s\u00e3o amea\u00e7adas no Bioma Cerrado e detectamos que est\u00e3o se fazendo presente em outras regi\u00f5es. Mesmo que uma esp\u00e9cie seja considerada sens\u00edvel, n\u00e3o necessariamente \u00e9 positivo que ela esteja em outros locais. Com o avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola, perde-se floresta nos biomas de Mata Atl\u00e2ntica e Amaz\u00f4nico, por exemplo, e cria-se ambientes abertos e semiabertos, como os do Cerrado, favorecendo a expans\u00e3o dessas esp\u00e9cies e deslocando seu centro geogr\u00e1fico de atividade. Algu\u00e9m em Ubatuba\/SP pode achar que o lobo-guar\u00e1 agora faz parte do ambiente da regi\u00e3o. N\u00e3o. O que temos s\u00e3o indiv\u00edduos que, devido ao desmatamento, encontraram condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para se deslocar de uma regi\u00e3o originalmente de Cerrado para outra. A esp\u00e9cie pode estar invadindo, o que pode n\u00e3o ser necessariamente positivo, pois ela pode causar impactos em outras que dividem o mesmo recurso e que precisam do mesmo ambiente\u201d, informou Milton Ribeiro.<\/p>\n<p><strong>Esp\u00e9cies domesticadas<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_84719\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 639px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-84719\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-84719\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Gato2-Registro-de-distribuicao-de-gatos-domesticos.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Gato2-Registro-de-distribuicao-de-gatos-domesticos.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals.jpg 400w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Gato2-Registro-de-distribuicao-de-gatos-domesticos.-Foto-Acervo-Neotropical-Alien-Mammals-288x300.jpg 288w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"666\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-84719\" class=\"wp-caption-text\">Registro de distribui\u00e7\u00e3o de gatos dom\u00e9sticos. Figura: Acervo Neotropical Alien Mammals.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ribeiro explica que os avan\u00e7os das a\u00e7\u00f5es humanas abriram espa\u00e7o para que esp\u00e9cies nativas ou ex\u00f3ticas viessem de outros pa\u00edses e regi\u00f5es e ocupassem o espa\u00e7o, e que isso favorece algumas esp\u00e9cies e outras n\u00e3o. As esp\u00e9cies domesticadas, por exemplo, causaram mudan\u00e7as na biodiversidade que demandam maior conhecimento. \u201c\u00c9 prematuro afirmar que as esp\u00e9cies domesticadas e n\u00e3o domesticadas definitivamente s\u00e3o prejudiciais \u00e0 biodiversidade, todavia sabe-se que h\u00e1 uma modifica\u00e7\u00e3o na din\u00e2mica natural. Precisamos entend\u00ea-las em cada contexto mas, no geral, esp\u00e9cies que n\u00e3o s\u00e3o de uma regi\u00e3o tem mais chances de causar impactos negativos\u201d.<\/p>\n<p>Os cachorros e gatos dom\u00e9sticos, por exemplo, s\u00e3o esp\u00e9cies favorecidas, pois tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o toda produ\u00e7\u00e3o nas resid\u00eancias ou nas propriedades rurais. Contudo, s\u00e3o animais que, quando exercem seus instintos, acabam adentrando nos ambientes naturais. \u201cQuando eles entram nessas \u00e1reas naturais, devemos considerar que levam algo para os animais nativos e podem trazer algo para os animais que vivem na sua \u00e1rea de origem, bem como repassar algo para os humanos. Assim, precisamos pensar do ponto de vista das zoonoses\u201d, alertou Ribeiro. \u201cSab\u00edamos que haveria um impacto potencial desses animais sobre a biodiversidade, mas n\u00e3o t\u00ednhamos dados sobre para onde eles estariam indo e qual fauna nativa estaria circulando por essas \u00e1reas. A partir de agora, com essa s\u00e9rie de levantamentos que fizemos, teremos condi\u00e7\u00f5es de avaliar o impacto de forma mais precisa\u201d.<\/p>\n<p>Outro exemplo de animal dom\u00e9stico causador de impactos em potencial \u00e9 o gado. \u201cAinda n\u00e3o sabemos quase nada sobre os impactos do gado nos Neotr\u00f3picos. O que sabemos \u00e9 que se trata de uma fauna de grande porte que muitas vezes \u00e9 favorecida pelo tipo de manejo. Quando v\u00e1rios indiv\u00edduos adentram nos ambientes naturais, eles mexem com quase toda aquela estrutura, principalmente a da parte de baixo da floresta, o sub-bosque, criando uma abertura de at\u00e9 2 metros do solo para cima que chamamos de \u2018bosqueado\u2019. Com isso, toda a fauna e flora daquele ambiente \u00e9 comprometida\u201d, lamentou Ribeiro.<\/p>\n<p><strong>Impactos dos mam\u00edferos invasores no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>A pesquisadora Clarissa Alves explica que no Brasil podemos dividir, a grosso modo, os mam\u00edferos invasores em tr\u00eas grandes tipos:<\/p>\n<p>1)\u00a0<strong>Animais dom\u00e9sticos de vida livre, como \u00e9 o caso do gado e dos c\u00e3es e gatos<\/strong>. Uma esp\u00e9cie dom\u00e9stica passa a ser classificada como ex\u00f3tica e invasora quando \u00e9 criada de forma livre, ou seja, a esp\u00e9cie ainda recebe assist\u00eancia humana (assist\u00eancia alimentar, m\u00e9dica, etc.), mas habita um ambiente natural, onde pode causar muitos impactos como pisoteio de solo e c\u00f3rregos (ex. o gado) ou preda\u00e7\u00e3o de animais nativos (ex. cachorro e gato).<\/p>\n<p>2)\u00a0<strong>Animais advindos do hemisf\u00e9rio norte, sobretudo da Europa<\/strong>. Das esp\u00e9cies de fora do pa\u00eds podemos considerar o javali e a lebre as esp\u00e9cies mais problem\u00e1ticas. Elas est\u00e3o cada vez mais ocupando o territ\u00f3rio brasileiro, sendo que o javali, por exemplo, j\u00e1 pode ser encontrado em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds. S\u00e3o esp\u00e9cies que, de forma geral, competem diretamente por recursos alimentares com as esp\u00e9cies nativas e alteram o ambiente, mudando padr\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies. O javali, por exemplo, tem o h\u00e1bito de chafurdar o solo para se alimentar, e com isso ele remove a cobertura vegetal, deixando o solo exposto, removendo o banco de sementes e reduzindo a germina\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies nativas. Ele tamb\u00e9m destr\u00f3i c\u00f3rregos e nascentes devido ao h\u00e1bito de se banhar nesses cursos d\u2019\u00e1gua. A passagem de grandes bandos de javali j\u00e1 foi comparada, em artigos cient\u00edficos, com o impacto de lavragem do solo, que deixa-o completamente removido e exposto. O javali tamb\u00e9m \u00e9 predador de sementes, reduzindo o sucesso reprodutivo de algumas esp\u00e9cies vegetais, al\u00e9m de predar animais (embora seja menos comum).<\/p>\n<p>3)\u00a0<strong>Animais brasileiros que s\u00e3o introduzidos em outros locais do pa\u00eds<\/strong>. O caso mais emblem\u00e1tico s\u00e3o os pequenos primatas vendidos como\u00a0<em>pet<\/em>. Muitas primatas brasileiros possuem distribui\u00e7\u00e3o restrita a algumas regi\u00f5es do Brasil. Motivados pela venda de\u00a0<em>pet,<\/em>\u00a0os primatas t\u00eam sido transportados e soltos no Brasil todo e o principal impacto tem sido a hibridiza\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, ou seja, a reprodu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies do mesmo g\u00eanero, mas n\u00e3o da mesma esp\u00e9cie, resultando em descendentes n\u00e3o f\u00e9rteis e levando \u00e0 morte gradual das gera\u00e7\u00f5es de uma popula\u00e7\u00e3o. Isso tem acontecido at\u00e9 mesmo no grupo do mico-le\u00e3o, que possui diversas esp\u00e9cies, todas amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o e que est\u00e3o hibridizando em alguns locais, levando ao risco de se perder duas esp\u00e9cies amea\u00e7adas de uma vez! Ent\u00e3o, de forma geral, esp\u00e9cies de mam\u00edferos invasores modificam ambiente, predam, competem e alteram ciclos h\u00eddricos e de nutrientes.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil possui uma ampla legisla\u00e7\u00e3o que trata da invas\u00e3o de esp\u00e9cies nos \u00e2mbitos estadual e federal. Por\u00e9m, segundo Clarissa Alves, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma lei federal ou material p\u00fablico de base que consolide conceitos e que seja claro sobre qual a atitude do pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o a essa tem\u00e1tica. \u201cIsso tem levado a alguns casos pontuais de excesso em alguns estados, levando a legisla\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias na esfera federal e estadual e causando, entre tomadores de decis\u00e3o, uma verdadeira confus\u00e3o sobre quais diretrizes devem ser adotadas\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, ainda temos muito a avan\u00e7ar, mas o pa\u00eds j\u00e1 vem fazendo isso na \u00faltima d\u00e9cada. \u201cComo exemplo temos uma legisla\u00e7\u00e3o que permite o controle do javali que, apesar de ainda estar sujeita a algumas falhas, abriu precedentes para que se discutisse no pa\u00eds, pela primeira vez, o manejo de fauna ex\u00f3tica de forma ampla e clara. Depois veio o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/ibama\/pt-br\/centrais-de-conteudo\/2017-planojavali-2017-2022-pdf\" rel=\"noopener noreferrer nofollow external\" data-wpel-link=\"external\">Plano Javali<\/a>, uma iniciativa hist\u00f3rica que uniu Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Minist\u00e9rio da Agricultura. Junto com o Plano Javali come\u00e7ou a ser estruturado o Plano Nacional para Esp\u00e9cies Ex\u00f3ticas Invasoras, o qual ainda est\u00e1 em andamento. Essas s\u00e3o iniciativas que est\u00e3o mudando a forma de encararmos as invas\u00f5es biol\u00f3gicas, pois d\u00e3o mais seguran\u00e7a a gestores p\u00fablicos, estimulam inclusive uma \u00e1rea ainda muito defasada no pa\u00eds, que \u00e9 o manejo de esp\u00e9cies de fauna. Por\u00e9m, como tudo relacionado ao meio ambiente nos \u00faltimos dois anos, essas iniciativas, que estavam sendo realizados de forma cont\u00ednua e progressiva, foram reduzidas, dependendo muito mais da boa vontade das pessoas atuantes do que das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_84723\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 639px;\" aria-describedby=\"caption-attachment-84723\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-84723\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Lobo_capturad-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Lobo_capturad-1.jpg 1000w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Lobo_capturad-1-300x181.jpg 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Lobo_capturad-1-600x361.jpg 600w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Lobo_capturad-1-640x385.jpg 640w\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"385\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-84723\" class=\"wp-caption-text\">Lobo-guar\u00e1 \u00e9 capturado em Jacare\u00ed, interior de S\u00e3o Paulo Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Corpo de Bombeiros\/SP.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Lacunas de conhecimento<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da defasagem de pol\u00edticas p\u00fablicas, h\u00e1 tamb\u00e9m poss\u00edveis lacunas na amostragem desses registros. Nas regi\u00f5es Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste do Brasil, por exemplo, h\u00e1 bem menos registros do que nas regi\u00f5es Sul e Sudeste. Segundo Ribeiro, esse vi\u00e9s pode ser explicado pela \u201csociologia da amostragem\u201d, devido aos m\u00e9todos de esfor\u00e7o e coleta. \u201cObservando a Amaz\u00f4nia, vou perceber que existem dados pr\u00f3ximos \u00e0s vias de acesso, que s\u00e3o os rios e rodovias. Ent\u00e3o durante a an\u00e1lise posso erradamente concluir que os animais est\u00e3o perto dos rios e dos acessos. Mas sabemos que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. O acesso para entrar na floresta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para se fazer coleta de dados\u201d.<\/p>\n<p>Outro ponto que o pesquisador considera importante \u00e9 sobre onde est\u00e3o as principais linhas de financiamento de pesquisa. \u201cPesquisar \u00e9 caro, tanto do ponto de vista dos levantamentos como do ponto de vista humano. Da\u00ed acredito que as universidades e institutos de pesquisa acabam influenciando para onde podemos conhecer mais\u201d.<\/p>\n<p>Para o pesquisador Paulo Henrique Marinho, que contribuiu para o artigo com dados coletados principalmente em \u00e1reas de Caatinga, o Nordeste ainda carece de investimentos em pesquisa. \u201cO ainda carente investimento em pesquisa prejudica esse mapeamento, pois pode dar a falsa no\u00e7\u00e3o de que, no Nordeste, o problema das esp\u00e9cies invasoras \u00e9 menor. Mam\u00edferos ex\u00f3ticos invasores est\u00e3o por toda a Caatinga, sejam eles totalmente dom\u00e9sticos, como ovelhas e cabras, que aqui ocorrem nas maiores densidades encontradas no Brasil, ou animais asselvajados como as v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es de jumentos abandonados que hoje se reproduzem livremente nas \u00e1reas menos antropizadas\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, Ribeiro acredita que essa realidade vem sendo modificada, gra\u00e7as \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de redes de pesquisa. \u201cFelizmente percebo que os grupos de pesquisa est\u00e3o montando suas redes, e essa cultura pode fortalecer esses conhecimentos. Os dados j\u00e1 existentes podem subsidiar excelentes an\u00e1lises, mesmo que parte dos pesquisadores n\u00e3o consigam compartilhar as informa\u00e7\u00f5es. Eles podem se organizar em redes e buscar estrat\u00e9gias para o preenchimento de lacunas de informa\u00e7\u00e3o. Uma linha de pesquisa importante \u00e9 saber das lacunas de conhecimento. Faltam levantamentos? Ent\u00e3o precisamos de pol\u00edticas que fa\u00e7am com que eles aconte\u00e7am\u201d, conclui o pesquisador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00e9poca das grandes navega\u00e7\u00f5es europeias a melhor forma de conservar carne era levar animais<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":133593,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/javali.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Na \u00e9poca das grandes navega\u00e7\u00f5es europeias a melhor forma de conservar carne era levar animais","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133592"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=133592"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133592\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/133593"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=133592"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=133592"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=133592"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}