{"id":133279,"date":"2020-09-05T16:12:48","date_gmt":"2020-09-05T19:12:48","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=133279"},"modified":"2020-09-05T16:12:48","modified_gmt":"2020-09-05T19:12:48","slug":"entrevista-especial-com-antonio-barbosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-antonio-barbosa\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Ant\u00f4nio Barbosa"},"content":{"rendered":"<h1>As solu\u00e7\u00f5es para o Semi\u00e1rido precisam partir da realidade local.<\/h1>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/09\/04_09_agreste_ana_lira_arquivo_asa-2.jpg\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p>De acordo com o coordenador do Projeto Daki \u2013 Semi\u00e1rido Vivo, as popula\u00e7\u00f5es das \u00e1reas \u00e1ridas e semi\u00e1ridas precisam de pol\u00edticas estruturantes para sair de vez da situa\u00e7\u00e3o de fome, pobreza e inseguran\u00e7a alimentar em que se encontram<\/p>\n<p>As\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/602173-areas-secas-da-america-latina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">regi\u00f5es \u00e1ridas e semi\u00e1ridas da Am\u00e9rica Latina<\/a>, como o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/592171-o-ainda-desconhecido-semiarido-brasileiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Semi\u00e1rido brasileiro<\/a>, o\u00a0<strong>Chaco Trinacional<\/strong>, que abrange \u00e1reas da\u00a0<strong>Argentina<\/strong>,\u00a0<strong>Paraguai<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Bol\u00edvia<\/strong>, e o\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>, que atravessa a\u00a0<strong>Am\u00e9rica Central<\/strong>, passando por sete pa\u00edses, entre eles,\u00a0<strong>El Salvador<\/strong>,\u00a0<strong>Guatemala<\/strong>,\u00a0<strong>Honduras<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Nicar\u00e1gua<\/strong>, t\u00eam em comum, al\u00e9m das caracter\u00edsticas clim\u00e1ticas, o fato de serem abandonadas pelos governos nacionais. Com acesso restrito a recursos e pol\u00edticas p\u00fablicas por causa da falta de investimento p\u00fablico, a popula\u00e7\u00e3o que vive nesses territ\u00f3rios enfrenta situa\u00e7\u00f5es de extrema pobreza e inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>No\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>, onde ocorre um dos maiores\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/582427-razoes-politicas-economicas-climaticas-e-violacao-de-direitos-humanos-explicam-o-fenomeno-migratorio-na-america-latina-entrevista-especial-com-camila-asano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fluxos migrat\u00f3rios da Am\u00e9rica Latina<\/a>, a popula\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>Honduras<\/strong>,\u00a0<strong>El Salvador<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Guatemala<\/strong>\u00a0foge da fome, da viol\u00eancia e do narcotr\u00e1fico, e este cen\u00e1rio lembra a situa\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>\u00a0nos anos 1970 e 1980, em que in\u00fameras pessoas migravam para o Sudeste\u00a0em busca de oportunidades. \u201cUma parte consider\u00e1vel do\u00a0<strong>fluxo migrat\u00f3rio<\/strong>\u00a0do<strong>\u00a0Corredor Seco<\/strong>\u00a0se deve ao fato de o Estado negar o lugar onde as pessoas vivem, dizendo que nesse ambiente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel produzir nada, que a melhor op\u00e7\u00e3o para as pessoas \u00e9 abandonarem o territ\u00f3rio\u201d, diz\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/515970-semente-transgenica-invade-o-semiarido-brasileiro-entrevista-especial-com-antonio-barbosa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ant\u00f4nio Barbosa<\/a>\u00a0\u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>.<\/p>\n<p>Segundo ele, apesar do descaso dos Estados nacionais com essas regi\u00f5es do continente, \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel garantir a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/573816-a-morte-do-velho-chico-ameaca-a-convivencia-com-o-semiarido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">conviv\u00eancia com o Semi\u00e1rido<\/a>\u00a0e expandir a produ\u00e7\u00e3o de alimentos nesses territ\u00f3rios a partir da valoriza\u00e7\u00e3o do conhecimento dos povos tradicionais. Dar visibilidade a esse conhecimento e garantir o interc\u00e2mbio entre os agricultores \u00e9 objetivo do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/602324-projeto-daki-semiarido-vivo-e-uma-iniciativa-unica-inovadora-e-com-grande-potencial-para-gerar-mudancas-permanentes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Projeto Daki &#8211; Semi\u00e1rido Vivo<\/a>, que prop\u00f5e identificar e sistematizar as experi\u00eancias locais e transform\u00e1-las em pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201cA nossa proposta n\u00e3o \u00e9 rom\u00e2ntica, mas visa partir do conhecimento local para ampli\u00e1-lo, de modo que o conhecimento de um agricultor chegue at\u00e9 outro e os povos possam ter liberdade de produ\u00e7\u00e3o em seus territ\u00f3rios\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp,\u00a0<strong>Barbosa<\/strong>\u00a0explica as propostas desse projeto, que est\u00e1 sendo desenvolvido pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594673-asa-20-anos-ciencia-tecnologia-e-inovacao-no-semiarido-brasileiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Articula\u00e7\u00e3o Semi\u00e1rido Brasileiro &#8211; ASA<\/a>\u00a0e pela\u00a0<strong>Plataforma Semi\u00e1ridos<\/strong>, com financiamento do\u00a0<strong>Fundo Internacional de Desenvolvimento Agr\u00edcola &#8211; Fida<\/strong>, ligado \u00e0\u00a0<strong>Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas &#8211; ONU<\/strong>, e relata como iniciativas desse tipo permitiram alterar a realidade do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Semi\u00e1rido brasileiro<\/a>\u00a0nas \u00faltimas d\u00e9cadas. \u201cHoje, o\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0j\u00e1 \u00e9, para 200 mil fam\u00edlias, uma das regi\u00f5es que mais produz alimentos saud\u00e1veis no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>. (&#8230;) Se for poss\u00edvel garantir o\u00a0<strong>acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong>, o manejo adequado das florestas e dos biomas, associado \u00e0s pr\u00e1ticas locais, ao manejo agroflorestal, aos quintais produtivos, aos ro\u00e7ados agroecol\u00f3gicos,\u00a0ao uso dessas sementes e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de animais adaptados a essas regi\u00f5es, ser\u00e1 poss\u00edvel produzir mais alimentos, preservar a natureza, melhorar a vida das pessoas e construir um mundo melhor\u201d, assegura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/09\/04_09_antonio_barbosa_foto_arquivo_pessoal-2.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" \/>Ant\u00f4nio Barbosa\u00a0(Foto: Arquivo pessoal)<\/p>\n<\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/510053-as-secas-sao-previsiveis-e-uma-questao-de-se-prevenir-entrevista-com-antonio-barbosa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ant\u00f4nio Barbosa<\/a>\u00a0\u00e9 soci\u00f3logo e coordenador do Projeto Daki-Semi\u00e1rido Vivo e de dois programas da ASA que favorecem o estoque de \u00e1gua para produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o Programa Uma Terra e Duas \u00c1guas &#8211; P1+2 e o Programa Sementes do Semi\u00e1rido.<\/p>\n<h3>Confira a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que \u00e9 o Projeto \u2018Daki &#8211; Semi\u00e1rido Vivo\u2019 e como surgiu essa iniciativa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0A estrat\u00e9gia e o objetivo principal do\u00a0<strong>projeto Daki<\/strong>\u00a0\u00e9 gerar capacidade para as popula\u00e7\u00f5es viverem e se adaptarem melhor \u00e0s\u00a0<strong>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong>\u00a0em cada uma das tr\u00eas regi\u00f5es: no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/555503-transformacoes-no-semiarido-brasileiro-a-luta-pela-agua-nao-pode-acabar-ela-e-permanente-entrevista-especial-com-gloria-araujo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Semi\u00e1rido brasileiro<\/a>, no\u00a0<strong>Chaco Trinacional<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>. Para isso, o programa fez duas op\u00e7\u00f5es que s\u00e3o muito importantes. A primeira delas \u00e9 partir das experi\u00eancias que j\u00e1 existem nessas regi\u00f5es, que t\u00eam grande capacidade de resili\u00eancia e um poder inventivo significativo, e sistematiz\u00e1-las. A segunda \u00e9 transformar essas experi\u00eancias em um processo de forma\u00e7\u00e3o de gestores, ou seja, transformar a pr\u00e1tica e a experi\u00eancia de modo que elas possam se tornar pol\u00edticas p\u00fablicas. Iniciaremos um processo de forma\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos, de extensionistas, de agricultores, mas tamb\u00e9m de gestores p\u00fablicos. A ess\u00eancia do programa \u00e9 esta: gerar capacidades a partir do conhecimento local e do processo de forma\u00e7\u00e3o e, a partir disso, influenciar em cada um dos espa\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O projeto ser\u00e1 desenvolvido no Chaco argentino, no Nordeste brasileiro e na parte do Corredor Seco, em El Salvador. O que essas regi\u00f5es t\u00eam em comum do ponto de vista ambiental e social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0Este projeto atua em tr\u00eas regi\u00f5es: no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>, que \u00e9 imenso; no\u00a0<strong>Chaco Trinacional<\/strong>, uma \u00e1rea cont\u00ednua que abrange tr\u00eas pa\u00edses,\u00a0<strong>Argentina<\/strong>,\u00a0<strong>Paraguai<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Bol\u00edvia<\/strong>; e no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/585626-mudancas-climaticas-definem-a-dificil-escolha-entre-ficar-ou-partir-na-america-central\">Corredor Seco da Am\u00e9rica Central<\/a>, que inicia no\u00a0<strong>M\u00e9xico<\/strong>\u00a0e passa por pa\u00edses que est\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, sobretudo\u00a0<strong>El Salvador<\/strong>,\u00a0<strong>Honduras<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Guatemala<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/09\/04_09_mapa_areas_secas_foto_cleto_campos_ascom_asa.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" \/>\u00a0Tr\u00eas \u00e1reas secas da Am\u00e9rica Latina unidas por uma a\u00e7\u00e3o que prev\u00ea interc\u00e2mbios e forma\u00e7\u00f5es | Arte: Cleto Campos\/Ascom ASA<\/p>\n<\/div>\n<p>Essas regi\u00f5es t\u00eam em comum o fato de serem\u00a0<strong>semi\u00e1ridas<\/strong>, ou seja, t\u00eam caracter\u00edsticas muito parecidas em rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0<strong>acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong>\u00a0e \u00e0\u00a0<strong>disponibilidade h\u00eddrica<\/strong>. Elas s\u00e3o consideradas dif\u00edceis do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o, especialmente para quem entende que a produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada a lugares com maior disponibilidade de \u00e1gua. Al\u00e9m disso, uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 empurrada para esses locais. Por exemplo, no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0mais de quatro milh\u00f5es de fam\u00edlias vivem no meio rural; destas, a metade vive no\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>, a maioria delas no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>. Ent\u00e3o, a primeira situa\u00e7\u00e3o \u00e9 esta: existe uma quantidade muito grande de popula\u00e7\u00f5es que vivem nessas regi\u00f5es. No Chaco h\u00e1 uma densidade populacional menor e no Corredor Seco a densidade populacional \u00e9 maior. Mas a pobreza, a extrema pobreza, a fome, a mis\u00e9ria e o n\u00e3o acesso \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas e a recursos talvez sejam as principais caracter\u00edsticas dessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>A pobreza, a extrema pobreza, a fome, a mis\u00e9ria e o n\u00e3o acesso \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas e a recursos talvez sejam as principais caracter\u00edsticas dessas regi\u00f5es &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<p>A perspectiva de desenvolvimento dominante segue um padr\u00e3o e, por conta disso, h\u00e1 uma tend\u00eancia hist\u00f3rica de tentar modificar essas regi\u00f5es. Sempre tentaram transformar o\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/564053-agua-incita-disputa-por-terras-no-nordeste\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">per\u00edmetro irrigado<\/a>, mas essa n\u00e3o \u00e9 a sua caracter\u00edstica. No\u00a0<strong>Chaco<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>\u00a0ocorre o mesmo, onde todo o desenvolvimento hist\u00f3rico consiste em negar sua situa\u00e7\u00e3o, mudar sua vegeta\u00e7\u00e3o e sua cultura. Essas regi\u00f5es s\u00e3o muito pr\u00f3ximas nesta perspectiva de nega\u00e7\u00e3o do seu povo e das suas caracter\u00edsticas e da\u00a0<strong>nega\u00e7\u00e3o do acesso aos recursos<\/strong>\u00a0que as pessoas precisam ter.<\/p>\n<p>Quando se nega a natureza de um determinado local, a situa\u00e7\u00e3o se torna muito mais dif\u00edcil \u2013 e essas regi\u00f5es s\u00e3o marcadas por tentativas de artificializa\u00e7\u00e3o a partir de um conceito de produ\u00e7\u00e3o e desenvolvimento que foge \u00e0 realidade. Mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o regi\u00f5es que se aproximam muito pelas experi\u00eancias e resist\u00eancias. Resumindo, diria que as caracter\u00edsticas que mais aproximam essas regi\u00f5es s\u00e3o a nega\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, a nega\u00e7\u00e3o do povo e a dificuldade de acessar um conjunto de pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como as comunidades conseguem produzir e sobreviver nessas regi\u00f5es e como as experi\u00eancias de uma comunidade podem ajudar a outra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0A popula\u00e7\u00e3o dessas regi\u00f5es tem uma capacidade imensa de resili\u00eancia. Imagine como \u00e9 viver no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>, no\u00a0<strong>Chaco<\/strong>\u00a0ou no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>, sem acesso \u00e0 terra, a recursos, a pol\u00edticas p\u00fablicas. Mas a popula\u00e7\u00e3o vive, resiste, produz, e temos registros de experi\u00eancias bel\u00edssimas.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">As caracter\u00edsticas que mais aproximam essas regi\u00f5es s\u00e3o a nega\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, a nega\u00e7\u00e3o do povo e a dificuldade de acessar um conjunto de pol\u00edticas &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3>Estrat\u00e9gias invis\u00edveis<\/h3>\n<p>No imagin\u00e1rio das pessoas h\u00e1 uma ideia de que no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0n\u00e3o se produz nada; pelo contr\u00e1rio, tem muita\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/563833-sementes-tradicionais-alimentam-semiarido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">diversidade e uma agrobiodiversidade consider\u00e1vel<\/a>, mesmo com pouqu\u00edssimos recursos. Ent\u00e3o, a pergunta \u00e9: como esse povo consegue viver em situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o dif\u00edceis? \u00c9 isso que precisamos conhecer, aprender e sistematizar. Como vivem as popula\u00e7\u00f5es que t\u00eam pouca \u00e1gua, pouca terra e que n\u00e3o t\u00eam acesso a um conjunto de recursos? Elas t\u00eam estrat\u00e9gias para isso e essas experi\u00eancias est\u00e3o invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong>Articula\u00e7\u00e3o Semi\u00e1rido Brasileiro &#8211; ASA<\/strong>, partimos de um pressuposto muito caro para n\u00f3s: os agricultores e agricultoras t\u00eam uma capacidade de criar, produzir e inventar. Al\u00e9m disso, eles t\u00eam a capacidade de conhecer uma determinada realidade e adaptar as suas experi\u00eancias a essa realidade, com um poder de comunica\u00e7\u00e3o muito grande. Partindo desses pressupostos, podemos dizer que as experi\u00eancias existem e precisamos dar visibilidade a elas, fazendo com que outras pessoas as conhe\u00e7am. Uma solu\u00e7\u00e3o que uma fam\u00edlia encontra para determinada situa\u00e7\u00e3o pode servir para outra fam\u00edlia que se encontra numa situa\u00e7\u00e3o parecida. Ent\u00e3o, a perspectiva \u00e9 olhar para essas experi\u00eancias e fazer com que elas sirvam para o processo de forma\u00e7\u00e3o dos agricultores e t\u00e9cnicos, porque as experi\u00eancias existem, mas o Estado n\u00e3o as v\u00ea, as universidades e os centros de pesquisa n\u00e3o as veem e, tentam, inclusive, encontrar outras solu\u00e7\u00f5es para resolver os problemas. As\u00a0<strong>solu\u00e7\u00f5es para o Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0nunca partem do zero; elas partem da realidade local.<\/p>\n<p>O Programa Daki tamb\u00e9m visa transformar em pol\u00edtica p\u00fablica as experi\u00eancias existentes no Chaco e no Corredor Seco &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<h3>Experi\u00eancias locais como fontes para pol\u00edticas p\u00fablicas<\/h3>\n<p>Quando observamos o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/571000-programa-cisternas-um-exemplo-de-politica-publica-que-teve-origem-na-sociedade-civil-entrevista-especial-com-valquiria-lima\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Programa Um Milh\u00e3o de Cisternas<\/a>, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/564688-ha-dez-anos-asa-promove-o-acesso-a-agua-de-producao-para-familias-agricultoras-do-semiarido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Programa Uma Terra e Duas \u00c1guas<\/a>\u00a0e o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/589801-bancos-de-sementes-e-tecnologias-de-captacao-de-agua-contribuem-para-o-desenvolvimento-sustentavel-no-semiarido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Programa Sementes do Semi\u00e1rido<\/a>, estamos falando de a\u00e7\u00f5es que j\u00e1 existiam no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>. A\u00a0<strong>ASA<\/strong>\u00a0contribuiu com esses programas sistematizando, organizando e transformando essas experi\u00eancias em pol\u00edticas p\u00fablicas. Nesse sentido, o\u00a0<strong>Programa Daki<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m visa transformar em pol\u00edtica p\u00fablica as experi\u00eancias existentes no\u00a0<strong>Chaco<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>. N\u00e3o estamos dizendo que somente essas experi\u00eancias importam, mas elas podem gerar outras experi\u00eancias ou serem aperfei\u00e7oadas. O ponto \u00e9 que precisamos partir delas e n\u00e3o de experi\u00eancias de outros lugares. Essas popula\u00e7\u00f5es querem e precisam ser valorizadas a partir do seu conhecimento. \u00c9 nesse modelo que o projeto aposta.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8N4VDJVyDdc\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5rz51w3yjTg\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Precisamos olhar para essas experi\u00eancias de modo integrado e n\u00e3o como algo isolado, porque n\u00e3o \u00e9 uma\u00a0<strong>cisterna<\/strong>\u00a0ou um tipo de manejo que muda a vida das pessoas; o que muda a vida das pessoas \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o disso tudo em suas comunidades. Ent\u00e3o, a perspectiva da sistematiza\u00e7\u00e3o desse projeto \u00e9 feita a partir de um territ\u00f3rio, considerando o seguinte: uma fam\u00edlia, que vive a partir de uma realidade, est\u00e1 inserida numa comunidade e essa comunidade est\u00e1 dentro de um territ\u00f3rio, onde acontecem v\u00e1rias intera\u00e7\u00f5es sociais, comerciais, de disputa, de educa\u00e7\u00e3o etc. N\u00f3s olhamos para esse espa\u00e7o e para as intera\u00e7\u00f5es que ocorrem no territ\u00f3rio a fim de observar onde as pessoas vivem melhor, por que vivem melhor, e sistematizamos essas informa\u00e7\u00f5es para que a comunidade de um territ\u00f3rio possa aprender com a outra.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual o lugar do conhecimento dos povos das \u00e1reas semi\u00e1ridas neste projeto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0Todo o debate sobre o\u00a0<strong>desenvolvimento<\/strong>\u00a0parte do conhecimento e, em fun\u00e7\u00e3o da moderniza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma l\u00f3gica de nega\u00e7\u00e3o do conhecimento dos povos dessas regi\u00f5es. Os povos tradicionais t\u00eam conhecimentos variados, mas h\u00e1 uma tend\u00eancia da sociedade de se apropriar desses conhecimentos para depois neg\u00e1-los. A produ\u00e7\u00e3o de medicamentos e cosm\u00e9ticos parte do conhecimento tradicional, e depois se diz que o \u00fanico conhecimento v\u00e1lido \u00e9 o cient\u00edfico. Esse \u00e9 um erro tremendo. Precisamos dar visibilidade e valorizar o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/557514-conhecimento-tradicional-associado-a-biodiversidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">conhecimento<\/a><strong>\u00a0<\/strong>dos<strong>\u00a0povos ind\u00edgenas<\/strong>, das\u00a0<strong>comunidades quilombolas<\/strong>, dos<strong>\u00a0ribeirinhos<\/strong>, porque s\u00e3o essas popula\u00e7\u00f5es que sabem em qual per\u00edodo e quais sementes plantar, em que regi\u00f5es determinado plantio se adapta melhor e qual \u00e9 a forma mais indicada de fazer o manejo.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de medicamentos e cosm\u00e9ticos parte do conhecimento tradicional, e depois se diz que o \u00fanico conhecimento v\u00e1lido \u00e9 o cient\u00edfico. Esse \u00e9 um erro tremendo &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<h3>Disputa pelo conhecimento<\/h3>\n<p>Quero refor\u00e7ar que tudo gira em torno da disputa pelo conhecimento. Toda vez que se quer escravizar algu\u00e9m ou algum povo, se diz que o conhecimento dele n\u00e3o vale. No caso dos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588138-povos-do-semiarido-vao-a-brasilia-dar-um-recado-nao-aceitam-sair-do-orcamento-federal-no-proximo-plano-plurianual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">povos tradicionais<\/a>, por exemplo, dizem que as sementes deles n\u00e3o s\u00e3o sementes. A disputa e a nega\u00e7\u00e3o do conhecimento desses povos acabam gerando o que chamamos de\u00a0<strong>viol\u00eancia simb\u00f3lica<\/strong>: nega-se o conhecimento dos povos e eles passam a acreditar que o seu conhecimento n\u00e3o vale, que sua terra \u00e9 ruim, suas sementes n\u00e3o s\u00e3o boas, passam a acreditar no que os outros falam sobre eles e passam, inclusive, a negar o seu pr\u00f3prio conhecimento.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>\u00a0foi v\u00edtima disso durante muito tempo, quando se dizia que as pessoas da regi\u00e3o eram coitadas e precisavam de ajuda. Todo final de ano, no\u00a0<strong>Natal<\/strong>, as pessoas do<strong>\u00a0Centro-Oeste<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>Sul<\/strong>\u00a0enchiam caminh\u00f5es de roupas e comidas e mandavam para o\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>\u00a0para ajudar os flagelados. N\u00e3o \u00e9 isso que queremos. Queremos que valorizem o conhecimento que esse povo tem, de modo que ele possa ser usado para transformar as regi\u00f5es. O\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0\u00e9 parte desse processo e posso dizer que a regi\u00e3o hoje, em compara\u00e7\u00e3o com a de 20 anos atr\u00e1s, \u00e9 outro lugar. H\u00e1 20 anos, o Semi\u00e1rido era um lugar seco, visto como um local de pessoas incapazes. Hoje, n\u00f3s vivemos no semi\u00e1rido mais chuvoso do mundo, o povo voltou a valorizar a sua cultura, as suas sementes, seus animais, suas express\u00f5es culturais no campo da arte e da dan\u00e7a, ou seja, passou a ser um povo produtivo. Mas veja, trata-se do mesmo povo; o que mudou foi a forma de valoriza\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os e isso parte da disputa pelo conhecimento.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>conhecimento dos agricultores<\/strong>\u00a0\u00e9 v\u00e1lido e n\u00e3o quer suplantar o\u00a0<strong>conhecimento da academia<\/strong>. N\u00e3o se trata de valorizar ou o conhecimento da academia ou o conhecimento dos agricultores. Quem avalia assim \u00e9 m\u00edope, porque o conhecimento \u00e9 uma t\u00e1bua sem fim, e esses dois tipos de conhecimento n\u00e3o est\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o; eles precisam colaborar. Se trabalharmos com essa perspectiva, vamos perceber que o conhecimento dos agricultores pode ser aperfei\u00e7oado e o da academia tamb\u00e9m. Esse tema est\u00e1 na centralidade da a\u00e7\u00e3o; n\u00e3o existe desenvolvimento nenhum que n\u00e3o parta do conhecimento, especialmente do conhecimento local, porque \u00e9 esse povo que conhece a sua regi\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">H\u00e1 20 anos, o Semi\u00e1rido era um lugar seco, visto como um local de pessoas incapazes. Hoje, o povo voltou a valorizar a sua cultura, as suas sementes, seus animais, suas express\u00f5es culturais &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O manejo e o acesso a recursos s\u00e3o os grandes desafios dessas regi\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0O grande desafio est\u00e1 mais associado \u00e0 quest\u00e3o do acesso aos recursos e n\u00e3o tanto ao manejo. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591457-agricultura-organica-reune-todos-os-elementos-da-producao-sustentavel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">censo agropecu\u00e1rio<\/a>\u00a0publicado no ano passado mostra um dado assustador: de todos os estados do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>,\u00a0<strong>Pernambuco<\/strong>\u00a0\u00e9 o \u00fanico em que a\u00a0<strong>agricultura familiar<\/strong>\u00a0consegue chegar a 51% das terras. Nos demais estados, o percentual de terras que est\u00e1 na m\u00e3o dos agricultores \u00e9 muito menor. Entretanto, n\u00e3o existe desenvolvimento sem terra. Isso n\u00e3o tem a ver com o\u00a0<strong>MST<\/strong>, mas com a economia cl\u00e1ssica. Quem estuda economia, seja marxista ou liberal, h\u00e1 de convir que n\u00e3o se desenvolve nada sem terra, capital e trabalho. A terra, nesse sentido, \u00e9 um elemento central, mas muitos agricultores est\u00e3o na terra e n\u00e3o t\u00eam a posse dela. No\u00a0<strong>Chaco<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>, por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 documenta\u00e7\u00e3o sobre a terra.<\/p>\n<p>De todos os estados do Brasil, Pernambuco \u00e9 o \u00fanico em que a agricultura familiar consegue chegar a 51% das terras &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<h3>Falta de acesso \u00e0 infraestrutura<\/h3>\n<p>Al\u00e9m de n\u00e3o terem terra, esses\u00a0<strong>agricultores<\/strong>\u00a0n\u00e3o t\u00eam capital, entendido aqui como tecnologia. Uma fam\u00edlia que n\u00e3o tem uma\u00a0<strong>cisterna<\/strong>\u00a0vive numa situa\u00e7\u00e3o diferente de uma fam\u00edlia que tem; uma fam\u00edlia que tem sua \u00e1rea cercada vive de modo diferente daquelas que n\u00e3o t\u00eam. Essas infraestruturas requerem dinheiro e n\u00e3o adianta adotar o princ\u00edpio da economia liberal, segundo o qual, para ter estrutura, \u00e9 preciso economizar. Estamos falando de uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de economizar, porque vive no\u00a0<strong>limite da economia<\/strong>. Por isso, o Estado precisa cumprir a sua a\u00e7\u00e3o de prover infraestrutura para que as fam\u00edlias tenham condi\u00e7\u00f5es de fazer o manejo das suas \u00e1reas, infraestrutura para estocar \u00e1gua, para que possam, inclusive, produzir riqueza.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante valorizar os\u00a0<strong>programas de distribui\u00e7\u00e3o de renda<\/strong>\u00a0nessas regi\u00f5es, mas as fam\u00edlias n\u00e3o querem permanecer a vida toda sendo dependentes desses programas. Se elas tiverem condi\u00e7\u00f5es de produzir, elas d\u00e3o conta por si s\u00f3. Hoje\u00a0<strong>200 mil fam\u00edlias<\/strong>\u00a0no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>\u00a0t\u00eam\u00a0<strong>\u00e1gua<\/strong>\u00a0para produ\u00e7\u00e3o, e a situa\u00e7\u00e3o dessas fam\u00edlias \u00e9 infinitamente superior \u00e0 daquelas que n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua. A situa\u00e7\u00e3o delas, inclusive, \u00e9 superior \u00e0 de fam\u00edlias de outras regi\u00f5es que, inclusive, n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua para fazer o manejo. Ent\u00e3o, quando se trata de analisar as condi\u00e7\u00f5es de manejo e acesso, precisamos perceber que as fam\u00edlias est\u00e3o privadas de infraestrutura e, por isso, muitas vivem em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/580707-povos-do-semiarido-percorrem-mais-de-2-mil-quilometros-para-denunciar-volta-da-fome\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">situa\u00e7\u00e3o de fome<\/a>. Existem fam\u00edlias no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0que n\u00e3o t\u00eam\u00a0<strong>acesso \u00e0 cisterna<\/strong>\u00a0nem para beber\u00a0<strong>\u00e1gua<\/strong>; estamos falando de 350 mil fam\u00edlias nessa condi\u00e7\u00e3o. Um milh\u00e3o e 100 mil fam\u00edlias t\u00eam \u00e1gua para beber, mas 350 mil n\u00e3o t\u00eam, por isso a possibilidade de essas fam\u00edlias terem uma vida de priva\u00e7\u00f5es, de fome, \u00e9 infinitamente maior. Portanto, as fam\u00edlias precisam de condi\u00e7\u00f5es; se a fam\u00edlia tem terra, \u00e1gua, sementes, ela consegue ter perspectiva. Precisamos avan\u00e7ar na perspectiva do acesso, especialmente da terra, da infraestrutura dos bens comuns, como bancos de acesso de sementes, estruturas coletivas e comunit\u00e1rias. Essas iniciativas e solu\u00e7\u00f5es j\u00e1 existem, mas as fam\u00edlias precisam ter acesso a elas.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Existem fam\u00edlias no Semi\u00e1rido que n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 cisterna nem para beber \u00e1gua; estamos falando de 350 mil fam\u00edlias nessa condi\u00e7\u00e3o &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; \u00c9 poss\u00edvel estimar qual \u00e9 o n\u00edvel de pobreza e desnutri\u00e7\u00e3o nessas regi\u00f5es? A que atribui esse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0Sem\u00a0<strong>acesso \u00e0 terra<\/strong>, \u00e0s\u00a0<strong>pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong>, \u00e0\u00a0<strong>\u00e1gua<\/strong>, \u00e0\u00a0<strong>alimenta\u00e7\u00e3o<\/strong>, \u00e0\u00a0<strong>educa\u00e7\u00e3o<\/strong>, muitas fam\u00edlias vivem na pobreza e na mis\u00e9ria, mas, ao mesmo tempo, como mencionei antes, \u00e9 comum entre esses agricultores a capacidade inventiva, de cria\u00e7\u00e3o, no sentido de que as pessoas encontram solu\u00e7\u00f5es para viver em condi\u00e7\u00f5es com poucos recursos.<\/p>\n<h3>Semi\u00e1rido brasileiro<\/h3>\n<p>Entre 1979 e 1983, quando ocorreu uma\u00a0<strong>grande seca no Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>, em cada munic\u00edpio da regi\u00e3o morriam de cinco a sete crian\u00e7as por dia. Naquele per\u00edodo, aproximadamente um milh\u00e3o de pessoas morreram em decorr\u00eancia da\u00a0<strong>seca<\/strong>, seja por falta de alimentos, por falta de \u00e1gua, seja pela ingest\u00e3o de \u00e1gua contaminada. Nessa \u00e9poca, o\u00a0<strong>\u00cdndice de Desenvolvimento Humano &#8211; IDH<\/strong>\u00a0do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0era um e o do\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>, outro. Os indicadores do\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0eram os mesmos da\u00a0<strong>\u00c1frica Subsaariana<\/strong>: mortalidade infantil alt\u00edssima, mortalidade materna tamb\u00e9m alt\u00edssima, n\u00edveis de educa\u00e7\u00e3o quase zero, falta de trabalho para a popula\u00e7\u00e3o, ou seja, as pessoas viviam em situa\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis. Ainda no per\u00edodo do governo\u00a0<strong>Fernando Henrique<\/strong>, em 2001, segundo dados do\u00a0<strong>IBGE<\/strong>, a cada cinco minutos morria uma crian\u00e7a. Mas essa realidade foi sendo alterada depois que se implantou uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/565242-cisternas-permitem-maior-oferta-de-agua-potavel-a-regiao-do-semiarido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pol\u00edtica p\u00fablica de acesso \u00e0 \u00e1gua<\/a>, um\u00a0<strong>programa de renda m\u00ednima<\/strong>\u00a0e um\u00a0<strong>programa de alimenta\u00e7\u00e3o escolar<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">A popula\u00e7\u00e3o, sobretudo de Honduras, El Salvador e Guatemala, foge da fome, da viol\u00eancia e do narcotr\u00e1fico &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3>Chaco e Corredor Seco<\/h3>\n<p>No\u00a0<strong>Chaco<\/strong>, a situa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 muito parecida com aquela do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0dos anos 1980: existem popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria absoluta, sem acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas. Essas comunidades entram numa perspectiva de isolamento social, em que a situa\u00e7\u00e3o piora cada vez mais, porque a pobreza traz consigo a viol\u00eancia, as drogas etc.<\/p>\n<p>Existem no mundo hoje dois grandes\u00a0<strong>fluxos migrat\u00f3rios populacionais<\/strong>. Um ocorre na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/569062-a-africa-no-sahel-devido-a-seca-esta-se-preparando-para-maior-migracao-da-historia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00c1frica Subsaariana<\/a>, onde as popula\u00e7\u00f5es\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/580543-seis-milhoes-de-pessoas-estao-em-risco-de-morrer-de-fome-na-regiao-do-sahel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">atravessam o deserto para chegar \u00e0 Europa<\/a>, fugindo da fome e da viol\u00eancia. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/586137-mais-uma-caravana-de-emigrantes-deixou-honduras-por-que-eles-fogem\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">outro fluxo migrat\u00f3rio<\/a>\u00a0acontece nas\u00a0<strong>regi\u00f5es \u00e1ridas e semi\u00e1ridas da Am\u00e9rica Central<\/strong>. As pessoas caminham em marcha, tentando entrar nos\u00a0<strong>EUA<\/strong>. Essa popula\u00e7\u00e3o, sobretudo de\u00a0<strong>Honduras<\/strong>,<strong>\u00a0El Salvador<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Guatemala<\/strong>, foge da fome, da viol\u00eancia e do narcotr\u00e1fico. M\u00e3es com filhos querem salv\u00e1-los para que eles n\u00e3o tenham que servir ao narcotr\u00e1fico e possam mudar de vida. Uma parte consider\u00e1vel do\u00a0<strong>fluxo migrat\u00f3rio do Corredor Seco<\/strong>\u00a0se deve ao fato de o Estado negar o lugar onde as pessoas vivem, dizendo que nesse ambiente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel produzir nada, que a melhor op\u00e7\u00e3o para as pessoas \u00e9 abandonarem o territ\u00f3rio. Isso gera a ilus\u00e3o de que existe um lugar fict\u00edcio que \u00e9 o melhor lugar do mundo, neste caso, os\u00a0<strong>EUA<\/strong>, porque quem mudar para l\u00e1 vai \u201cse dar bem\u201d, quando na verdade, o \u201cse dar bem\u201d est\u00e1 associado ao lugar no sentido de valoriz\u00e1-lo e construir uma outra identidade. Esses povos que tentam migrar s\u00e3o v\u00edtimas. Quando migram, eles enfrentam in\u00fameros outros problemas, como a separa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e as pris\u00f5es arbitr\u00e1rias. Mas tudo isso \u00e9 fruto da n\u00e3o valoriza\u00e7\u00e3o dos lugares onde as pessoas vivem e da falta de oportunidades.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.google.com\/maps\/d\/embed?mid=1qM28afl8e78nBlRLCmexFYAJm4s&amp;hl=es\" width=\"640\" height=\"480\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/09\/04_09_mapa_rota_imigrantes_arte_natalia_froner.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"479\" \/><br \/>\nTrajeto de 3.500 quil\u00f4metros percorrido pela maioria dos migrantes da Am\u00e9rica Central rumo aos EUA (Arte: Nat\u00e1lia Froner | IHU)<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2018\/07\/04_07_deserto_sahel_fonte_stepmap_de.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" \/>A \u00e1rea em laranja\u00a0abrange o territ\u00f3rio do Sahel, na \u00c1frica Subsaariana, \u00e1rea que \u00e9 atravessada pelos migrantes (Mapa: stepmap.de)<\/p>\n<\/div>\n<p>O\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0hoje vive outra realidade, mas n\u00f3s j\u00e1 fomos como o\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>. Quem n\u00e3o lembra que a perspectiva de quem vivia no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>\u00a0anos atr\u00e1s era ir para O Sudeste, porque quem ia para o<strong>\u00a0Sudeste<\/strong>\u00a0\u201cse dava bem\u201d e quem ficava aqui n\u00e3o tinha perspectiva? Hoje, vivemos um processo inverso: pessoas que estavam no Centro-Oeste voltaram para o Nordeste porque este \u00e9 um lugar que produz, que tem valor. Ent\u00e3o, a valoriza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os \u00e9 importante e precisa ser desenvolvida a partir da perspectiva da conviv\u00eancia, do viver bem.<\/p>\n<p>Hoje temos essa perspectiva muito presente no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>\u00a0e precisamos valoriz\u00e1-la no\u00a0<strong>Chaco<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>, onde milhares de pessoas est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade total. \u00c9 poss\u00edvel construir outra identidade; n\u00f3s fizemos isso no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>\u00a0e \u00e9 poss\u00edvel fazer o mesmo em outras regi\u00f5es. Justamente por essa raz\u00e3o, \u00e9 importante que uma regi\u00e3o aprenda com a outra.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">O Semi\u00e1rido hoje vive outra realidade, mas n\u00f3s j\u00e1 fomos como o Corredor Seco &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O Projeto \u2018Daki &#8211; Semi\u00e1rido Vivo\u2019 \u00e9 uma iniciativa da sociedade civil organizada que atua na Am\u00e9rica do Sul, com apoio do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agr\u00e1rio &#8211; Fida. De que forma essa a\u00e7\u00e3o pode influenciar as pol\u00edticas p\u00fablicas dos pa\u00edses com \u00e1reas secas para que as medidas sejam adotadas pelo poder p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0O\u00a0<strong>projeto Daki<\/strong>\u00a0\u00e9 uma grande inova\u00e7\u00e3o porque d\u00e1 escala a algumas atividades. No\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>, apesar das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/559923-seca-se-intensifica-com-alto-risco-para-cerca-de-90-municipios-do-semiarido-brasileiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">secas<\/a>, sempre foram feitas a\u00e7\u00f5es, seja por parte de pessoas, organiza\u00e7\u00f5es ou da Igreja, para tentar amenizar os\u00a0<strong>impactos da seca<\/strong>. No final de 1999, veio a ideia de fazermos uma a\u00e7\u00e3o em rede e, assim, surgiu a\u00a0<strong>ASA<\/strong>, como uma rede de redes. Nesse contexto, chamamos a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia de o Estado cumprir a fun\u00e7\u00e3o de atender \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o, e a nossa principal necessidade no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0era de\u00a0<strong>acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong>. A partir disso constru\u00edmos o\u00a0<strong>Programa Um Milh\u00e3o de Cisternas<\/strong>, por meio de parcerias, trazendo outros sujeitos para este debate, incluindo as pessoas que estavam exclu\u00eddas e fazendo com que o Estado as reconhecesse. Estou mencionando essa hist\u00f3ria porque o\u00a0<strong>Daki<\/strong>\u00a0faz exatamente isto: amplia as a\u00e7\u00f5es locais, que est\u00e3o acontecendo no\u00a0<strong>Chaco<\/strong>, no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>, para juntar as organiza\u00e7\u00f5es dessas regi\u00f5es, de modo que elas possam atuar em rede, e chama os governos para refletirem sobre essa situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante construir isso a partir dos mecanismos da\u00a0<strong>Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas &#8211; ONU<\/strong>\u00a0que financiam a\u00e7\u00f5es de agricultura e t\u00eam financiado regi\u00f5es com projetos. Quando partimos de experi\u00eancias concretas, como os projetos de conviv\u00eancia com o\u00a0<strong>Semi\u00e1rido no Brasil<\/strong>, \u00e9 poss\u00edvel rediscutir as propostas de desenvolvimento. Esse \u00e9 um passo importante, e o\u00a0<strong>Daki<\/strong>\u00a0\u00e9 uma oportunidade nesse campo.<\/p>\n<p>Nessa a\u00e7\u00e3o atuam duas grandes redes. Uma \u00e9 a\u00a0<strong>ASA<\/strong>, que tem uma atua\u00e7\u00e3o no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>, e a outra \u00e9 a<strong>\u00a0Plataforma Semi\u00e1ridos da Am\u00e9rica Latina<\/strong>, que tem dialogado com a\u00a0<strong>ASA<\/strong>\u00a0h\u00e1 um bom tempo no intuito de construir solu\u00e7\u00f5es locais. Essa Plataforma tem levado\u00a0<strong>cisternas<\/strong>\u00a0para a\u00a0<strong>Argentina<\/strong>\u00a0e para o\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>, sempre na perspectiva de planejar o desenvolvimento das comunidades a partir das bacias e microbacias e do manejo da vegeta\u00e7\u00e3o, percebendo que um lugar impacta o outro. Especialmente no Corredor Seco isso \u00e9 muito forte, pois quem vive na montanha precisa ter um determinado comportamento para que quem est\u00e1 embaixo tenha acesso \u00e0 \u00e1gua. Da mesma forma, quem est\u00e1 embaixo precisa ter um determinado comportamento para que quem vive na montanha possa ter acesso \u00e0s florestas e tamb\u00e9m \u00e0 \u00e1gua.<\/p>\n<h3>Constru\u00e7\u00e3o de novas redes<\/h3>\n<p>O\u00a0<strong>Daki<\/strong>\u00a0tem atuado em v\u00e1rias frentes e cada pessoa tem uma tarefa. Estamos convidando a\u00a0<strong>Embrapa<\/strong>\u00a0para esse debate, para saber como ela atua nessas regi\u00f5es e para que ela fa\u00e7a o debate com o\u00a0<strong>Instituto Nacional de Tecnologia Agropecu\u00e1ria &#8211; Inta<\/strong>, na\u00a0<strong>Argentina<\/strong>, e com o\u00a0<strong>Centro Nacional de Tecnologia Agropecu\u00e1ria e Florestal Enrique \u00c1lvarez C\u00f3rdova &#8211; Centa<\/strong>, em\u00a0<strong>El Salvador<\/strong>, e com outros institutos de pesquisa nessas regi\u00f5es, de modo que eles possam desenvolver pesquisas a partir do conhecimento e das contribui\u00e7\u00f5es dos agricultores e das agricultoras. A proposta \u00e9 montar uma rede no campo da pesquisa, voltada para o\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>. Outro objetivo importante do\u00a0<strong>Daki<\/strong>\u00a0\u00e9 constituir uma frente de universidades, com pesquisadores, em parceria com a\u00a0<strong>Universidade Federal Rural de Pernambuco<\/strong>\u00a0e outras universidades federais e estaduais que atuam no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>. O desafio \u00e9 aproximar esses pesquisadores das universidades que est\u00e3o no\u00a0<strong>Chaco<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>\u00a0de modo a transformar isso em uma rede de pesquisa sobre os\u00a0<strong>semi\u00e1ridos da Am\u00e9rica Latina<\/strong>\u00a0e uma rede de gestores.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma oportunidade \u00fanica de criar outras redes de pesquisa, de ensino, de extens\u00e3o, de gestores, de organiza\u00e7\u00f5es, e de garantir interc\u00e2mbios entre os agricultores, quilombolas e povos ind\u00edgenas. Temos o limite da l\u00edngua, porque no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0falamos portugu\u00eas e nos demais pa\u00edses se fala espanhol, mas a\u00a0<strong>ASA<\/strong>\u00a0j\u00e1 promoveu outros interc\u00e2mbios, ent\u00e3o o idioma \u00e9 o que menos importa, porque os agricultores falam a partir do seu conhecimento. De todo modo, esse \u00e9 um elemento que n\u00e3o podemos perder de vista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Segundo dados da ASA, a regi\u00e3o Nordeste \u00e9 a \u00e1rea semi\u00e1rida que abriga 59,1% de todos os brasileiros em extrema pobreza do pa\u00eds (9,6 milh\u00f5es de pessoas) e \u00e9 onde est\u00e3o 32,7% dos munic\u00edpios com alta vulnerabilidade alimentar e nutricional. Qual \u00e9 o n\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar no Semi\u00e1rido do Nordeste hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0Nunca podemos perder de vista o debate sobre a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/576731-encontro-discute-seguranca-alimentar-producao-de-base-agroecologica-e-convivencia-com-o-semiarido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">inseguran\u00e7a alimentar<\/a>\u00a0porque ela significa aus\u00eancia ou a falta de acesso a alimentos em quantidade e qualidade necess\u00e1rias para suprir as necessidades das pessoas. Para produzir alimentos, \u00e9 preciso ter terra, \u00e1gua, sementes dispon\u00edveis, animais e \u00e9 justamente isso que as popula\u00e7\u00f5es das \u00e1reas semi\u00e1ridas n\u00e3o t\u00eam. Diante desse cen\u00e1rio, obviamente, a inseguran\u00e7a alimentar volta.<\/p>\n<p>A nossa sorte, no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>, \u00e9 que neste ano choveu \u2013 porque n\u00e3o chovia com intensidade desde 2009 \u2013, ent\u00e3o, as fam\u00edlias que t\u00eam\u00a0<strong>acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong>\u00a0e \u00e0 terra est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o um pouco melhor. Mas a\u00ed, come\u00e7ou a pandemia de covid-19, o que fez com que as pessoas n\u00e3o pudessem interagir umas com as outras e isso tamb\u00e9m gerou inseguran\u00e7a alimentar, porque as pessoas deixaram de vender e passaram a produzir menos.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">800 mil fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua para a produ\u00e7\u00e3o, e elas precisam de tecnologias para conseguir sair de vez da situa\u00e7\u00e3o de fome, pobreza e inseguran\u00e7a alimentar em que se encontram &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3>Pol\u00edticas estruturais para reduzir a fome e a pobreza<\/h3>\n<p>No ano passado, a\u00a0<strong>ASA<\/strong>\u00a0denunciou o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/576635-revista-destaca-risco-do-brasil-voltar-ao-mapa-da-fome\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aumento da fome e da pobreza<\/a>, que est\u00e1 relacionado \u00e0 nega\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas. O Estado \u00e9 necess\u00e1rio para garantir a infraestrutura e os insumos iniciais para que as fam\u00edlias possam garantir sua sobreviv\u00eancia, mas ele est\u00e1 se retirando deste debate. Desde o\u00a0<strong>governo Temer<\/strong>, e principalmente no\u00a0<strong>governo Bolsonaro<\/strong>, os investimentos para o\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>\u00a0minguaram e o\u00a0<strong>Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social &#8211; BNDES<\/strong>\u00a0n\u00e3o aplica mais recursos na regi\u00e3o, o que explica a atual situa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A novidade agora \u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/602322-de-olho-na-reeleicao-bolsonaro-mira-em-programas-que-marcaram-os-governos-do-pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mudar o nome do Programa Bolsa Fam\u00edlia<\/a>, aumentar o recurso \u2013 que \u00e9 importante, inclusive \u2013, mas para al\u00e9m disso o governo precisa garantir que o programa chegue a quem necessita. No caso espec\u00edfico do\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>, \u00e9 preciso ainda garantir o retorno das\u00a0<strong>pol\u00edticas p\u00fablicas de acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong>, porque hoje o\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0n\u00e3o investe um \u00fanico centavo nessas a\u00e7\u00f5es. O governo simplesmente acabou com os programas que eram desenvolvidos, os quais garantiam que as pessoas n\u00e3o precisassem do\u00a0<strong>Bolsa Fam\u00edlia<\/strong>. O governo inverteu a ordem: primeiro, disse que o Bolsa Fam\u00edlia era um programa para miser\u00e1veis e que era preciso fazer programas estruturantes, mas agora abandonou os programas estruturantes e tenta investir em programas emergenciais.<\/p>\n<p>Eu disse anteriormente que hoje\u00a0<strong>350 mil fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong>\u00a0para beber, mas h\u00e1 um n\u00famero ainda mais alarmante:\u00a0<strong>800 mil fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua para a produ\u00e7\u00e3o<\/strong>, e elas precisam de tecnologias para conseguir sair de vez da situa\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>fome<\/strong>,\u00a0<strong>pobreza<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>inseguran\u00e7a alimentar<\/strong>\u00a0em que se encontram. Hoje, o\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0j\u00e1 \u00e9, para 200 mil fam\u00edlias, uma das regi\u00f5es que mais produz alimentos saud\u00e1veis no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>. Ent\u00e3o, a volta da fome no pa\u00eds \u00e9 resultado do fim das pol\u00edticas sociais e do fim das pol\u00edticas estruturantes. Precisamos de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/601263-em-edicao-metade-da-populacao-brasileira-foi-beneficiada-pelo-auxilio-emergencial-do-governo-em-junho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aux\u00edlio emergencial<\/a>, mas se tivermos uma pol\u00edtica estruturante, pode ser que n\u00e3o precisemos mais de pol\u00edticas emergenciais.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/576148-industria-da-seca-aflige-a-populacao-nordestina-e-irriga-os-bolsos-dos-empreiteiros-entrevista-especial-com-joao-abner-guimaraes-junior\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ind\u00fastria da seca<\/a>, por exemplo, \u00e9 uma\u00a0<strong>pol\u00edtica emergencial<\/strong>. A diferen\u00e7a da pol\u00edtica da ind\u00fastria da seca para a\u00a0<strong>pol\u00edtica de conviv\u00eancia no Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0\u00e9 justamente esta: a conviv\u00eancia com o Semi\u00e1rido trabalha com as pol\u00edticas emergenciais, mas traz consigo as pol\u00edticas estruturantes para que a comunidade n\u00e3o fique ref\u00e9m somente das pol\u00edticas emergenciais. O que a pol\u00edtica da seca faz \u00e9 justamente o contr\u00e1rio: torna as pessoas dependentes.<\/p>\n<p>Apesar desse cen\u00e1rio, vale destacar que o\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>\u00a0tem um conjunto de iniciativas importantes, como um cons\u00f3rcio de governadores para discutir o desenvolvimento da regi\u00e3o, com um comit\u00ea cient\u00edfico formado por pesquisadores de diversas \u00e1reas, que refletem e pensam o Nordeste. O que provocou a\u00a0<strong>mis\u00e9ria no Nordeste<\/strong>\u00a0foi a falta de investimentos, mas se ampliarmos as pol\u00edticas de infraestrutura, \u00e9 poss\u00edvel construir um novo caminho.<\/p>\n<p>Desde o governo Temer, e principalmente no governo Bolsonaro, os investimentos para o Nordeste minguaram e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social &#8211; BNDES n\u00e3o aplica mais recursos na regi\u00e3o &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A ASA tamb\u00e9m informa que na regi\u00e3o semi\u00e1rida do Chaco, na Argentina, 80% dos moradores vivem na pobreza, com alta incid\u00eancia de pessoas desnutridas, e nas \u00e1reas do Corredor Seco da Am\u00e9rica Central, 2,2 milh\u00f5es de pessoas vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e vulnerabilidade clim\u00e1tica. As causas da pobreza e da desnutri\u00e7\u00e3o nessas regi\u00f5es s\u00e3o as mesmas do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0A situa\u00e7\u00e3o no\u00a0<strong>Chaco<\/strong>\u00a0e no\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>\u00a0\u00e9 muito pior do que aquela que vivemos no\u00a0<strong>Semi\u00e1rido<\/strong>\u00a0hoje. Em rela\u00e7\u00e3o ao Corredor Seco, vou mencionar dois pa\u00edses como refer\u00eancia:\u00a0<strong>Guatemala<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>El Salvador<\/strong>. Em El Salvador, o recurso que mais faz girar a economia \u00e9 o das remessas, ou seja, o dinheiro que pessoas dos\u00a0<strong>EUA<\/strong>\u00a0enviam para pessoas que vivem em El Salvador \u2013 tanto \u00e9 assim, que a economia de El Salvador \u00e9 baseada em d\u00f3lar americano. O segundo recurso que mais circula no pa\u00eds \u00e9 o dinheiro do narcotr\u00e1fico e o terceiro \u00e9 o do Estado. Na Guatemala, o primeiro recurso que mais circula no pa\u00eds \u00e9 o dinheiro do narcotr\u00e1fico e o segundo, o das remessas. Estamos falando de regi\u00f5es em que o Estado praticamente inexiste e n\u00e3o conhece a sua popula\u00e7\u00e3o. Algumas pessoas nascem e morrem sem serem registradas.<\/p>\n<p>N\u00f3s vivemos situa\u00e7\u00f5es parecidas no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0at\u00e9 a d\u00e9cada de 1990, ou seja, a\u00a0<strong>fome<\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong>mis\u00e9ria<\/strong>\u00a0s\u00e3o consequ\u00eancia da aus\u00eancia do Estado. Veja que o Estado \u00e9 ausente nessas regi\u00f5es porque elas n\u00e3o interessam; inclusive, ele quer que essas regi\u00f5es virem outra coisa, porque a perspectiva de desenvolvimento \u00e9 outra. \u00c9 justamente isso que gera fome, mis\u00e9ria e faz, sobretudo, que essas duas regi\u00f5es sejam assim. Apesar de a\u00a0<strong>Argentina<\/strong>\u00a0ser mais desenvolvida, o Norte do pa\u00eds tamb\u00e9m \u00e9 esquecido. No caso do\u00a0<strong>Corredor Seco<\/strong>, estamos falando de uma regi\u00e3o onde ocorre um dos maiores\u00a0<strong>fluxos migrat\u00f3rios<\/strong>\u00a0do planeta, sem estar associado \u00e0 guerra. Nessas regi\u00f5es as m\u00e3es vivem de forma desesperadora: n\u00e3o sabem se no dia seguinte ter\u00e3o alimentos e \u00e1gua para seus filhos. Isso \u00e9 prova de que o modelo de desenvolvimento que constru\u00edmos est\u00e1 falido.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Dados da Fiocruz apontam que metade dos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/556450-fome-ainda-afeta-800-milhoes-de-pessoas-no-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">800 milh\u00f5es de pessoas que passam fome no mundo<\/a>\u00a0trabalha com agricultura familiar e vive em \u00e1reas secas de todo o planeta. Como \u00e9 poss\u00edvel reverter esse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0O\u00a0<strong>cen\u00e1rio de fome<\/strong>\u00a0hoje \u00e9 inexplic\u00e1vel. Existe, de fato, um contingente enorme de pessoas vivendo no meio rural e na\u00a0<strong>extrema pobreza<\/strong>. \u00c9 importante dizer que essas pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 terra e foram expulsas de seus territ\u00f3rios. A pobreza \u00e9 um fen\u00f4meno muito doloroso e leva as pessoas ao isolamento social. Uma fam\u00edlia que n\u00e3o tem o que comer n\u00e3o diz isso para ningu\u00e9m, porque passar fome \u00e9 vergonhoso, e essa situa\u00e7\u00e3o empurra as pessoas para uma situa\u00e7\u00e3o ainda mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel reverter essa situa\u00e7\u00e3o com a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579927-agricultura-familiar-do-brasil-e-8-maior-produtora-de-alimentos-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">agricultura familiar<\/a>, que tem como finalidade a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. A quest\u00e3o \u00e9 que, em muitos locais, os agricultores n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de produzir e, portanto, onde existe\u00a0<strong>fome<\/strong>, \u00e9 porque as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o colocadas. Como eu mencionei antes \u2013 e \u00e9 importante destacar \u2013, a\u00a0<strong>prolifera\u00e7\u00e3o da fome nas regi\u00f5es semi\u00e1ridas<\/strong>\u00a0ocorre por causa da nega\u00e7\u00e3o do lugar, do territ\u00f3rio, dos direitos e dos recursos, porque os Estados insistem em produzir em condi\u00e7\u00f5es impr\u00f3prias para a regi\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer a\u00a0<strong>reforma agr\u00e1ria<\/strong>, garantir o acesso \u00e0 terra, o direito aos territ\u00f3rios dos povos e infraestrutura para que essas pessoas possam mudar suas vidas.<\/p>\n<p>Quem estuda economia, seja marxista ou liberal, h\u00e1 de convir que n\u00e3o se desenvolve nada sem terra, capital e trabalho &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como a agricultura familiar pode ser uma alternativa para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, considerando o avan\u00e7o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas? De que forma este tipo de produ\u00e7\u00e3o ajuda igualmente no enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0Todo o debate que se faz hoje no mundo est\u00e1 associado \u00e0s\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/592450-em-13-anos-as-areas-suscetiveis-a-desertificacao-no-semiarido-sao-agora-quase-deserticas-e-ocupam-13-da-regiao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>, sobretudo por causa do\u00a0<strong>aquecimento global<\/strong>. Nessa discuss\u00e3o, as\u00a0<strong>regi\u00f5es \u00e1ridas e semi\u00e1ridas<\/strong>\u00a0ganharam import\u00e2ncia porque as pessoas passaram a se perguntar como essas popula\u00e7\u00f5es conseguem viver em regi\u00f5es com altas temperaturas, uma vez que o planeta caminha para situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Os agricultores conseguem plantar nessas regi\u00f5es porque eles t\u00eam os recursos apropriados. A\u00ed est\u00e1 a import\u00e2ncia das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/550523-uso-de-sementes-crioulas-na-resistencia-camponesa-em-ambiente-agroecologico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sementes crioulas<\/a>\u00a0para as regi\u00f5es semi\u00e1ridas, porque s\u00e3o sementes adaptadas \u00e0quela temperatura, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 \u00e1gua, aos nutrientes da terra. Se segu\u00edssemos a l\u00f3gica das sementes crioulas, ter\u00edamos outra perspectiva, porque \u00e9 poss\u00edvel produzir em escala e garantir a diversidade. Al\u00e9m disso, a agricultura familiar, assim como os povos ind\u00edgenas e quilombolas, protege a natureza, ao contr\u00e1rio das grandes empresas e do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Hoje, a estrat\u00e9gia em torno das sementes est\u00e1 diretamente associada ao\u00a0<strong>aquecimento global<\/strong>, as sementes dos\u00a0<strong>agricultores das regi\u00f5es \u00e1ridas e semi\u00e1ridas<\/strong>\u00a0ganharam import\u00e2ncia e est\u00e3o sendo estudadas para saber como elas se adaptaram a essas regi\u00f5es e como \u00e9 poss\u00edvel produzir em determinadas situa\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Se for poss\u00edvel garantir o\u00a0<strong>acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong>, o manejo adequado das florestas e dos biomas, associado \u00e0s pr\u00e1ticas locais,\u00a0ao manejo agroflorestal, aos quintais produtivos, aos ro\u00e7ados agroecol\u00f3gicos,\u00a0ao uso dessas sementes e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de animais adaptados a essas regi\u00f5es, ser\u00e1 poss\u00edvel produzir mais alimentos, preservar a natureza, melhorar a vida das pessoas e construir um mundo melhor.<\/p>\n<p>Estamos falando de uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de economizar, porque vive no limite da economia &#8211; Ant\u00f4nio Barbosa<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os principais entraves que dificultam a expans\u00e3o da agricultura familiar no Brasil hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Barbosa \u2013<\/strong>\u00a0No\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, o principal entrave continua sendo a\u00a0<strong>quest\u00e3o da terra<\/strong>, porque a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/563025-menos-de-1-das-propriedades-agricolas-detem-45-da-area-rural-no-pais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">concentra\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0ainda \u00e9 muito grande e v\u00e1rios agricultores n\u00e3o t\u00eam onde plantar. Somente em\u00a0<strong>Pernambuco<\/strong>\u00a0os agricultores familiares t\u00eam mais terras do que o\u00a0<strong>agroneg\u00f3cio<\/strong>. Al\u00e9m disso, os agricultores n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 infraestrutura para armazenarem o que produzem e n\u00e3o t\u00eam apoio para comercializar, ou seja, todas as\u00a0<strong>pol\u00edticas garantidas ao agroneg\u00f3cio<\/strong>\u00a0n\u00e3o s\u00e3o garantidas aos\u00a0<strong>agricultores<\/strong>. Sem infraestrutura n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel produzir ou se produz muito pouco. Al\u00e9m disso, a pol\u00edtica de sementes no pa\u00eds \u00e9 um desastre: elas chegam quando para de chover e como o agricultor n\u00e3o conhece essas sementes, ele n\u00e3o sabe como e quando plant\u00e1-las, porque elas precisam de venenos e de acompanhamento para serem cultivadas. Mesmo assim, apesar das dificuldades, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579927-agricultura-familiar-do-brasil-e-8-maior-produtora-de-alimentos-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">agricultura familiar no Brasil \u00e9 respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o da maioria dos alimentos<\/a>\u00a0que est\u00e3o na mesa das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A sa\u00edda alternativa para o campo, que \u00e9 a sa\u00edda para as cidades, \u00e9 apoiar o conhecimento desses povos e, nesse sentido, o\u00a0<strong>Daki<\/strong>\u00a0prop\u00f5e dar visibilidade a esse conhecimento, para que ele dialogue com outros conhecimentos. Da\u00ed a import\u00e2ncia do di\u00e1logo com as universidades e os institutos de pesquisa, como a\u00a0<strong>Embrapa<\/strong>, o\u00a0<strong>Inta<\/strong>, e com o poder p\u00fablico, no sentido de reconhecer e respeitar tanto os espa\u00e7os quanto os conhecimentos locais. A nossa proposta n\u00e3o \u00e9 rom\u00e2ntica, mas visa partir do conhecimento local para ampli\u00e1-lo, de modo que o conhecimento de um agricultor chegue at\u00e9 outro e os povos possam ter liberdade de produ\u00e7\u00e3o em seus territ\u00f3rios. Por isso, ser\u00e1 fundamental criar uma rede de comunica\u00e7\u00e3o para as regi\u00f5es semi\u00e1ridas e dar visibilidade para os\u00a0<strong>semi\u00e1ridos da Am\u00e9rica Latina<\/strong>. Eles s\u00e3o belos, produzem riquezas, e temos a oportunidade de usar isso para criar um\u00a0<strong>modelo de desenvolvimento sustent\u00e1vel<\/strong>, em que todas as pessoas possam ser inclu\u00eddas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As solu\u00e7\u00f5es para o Semi\u00e1rido precisam partir da realidade local. De acordo com o coordenador<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"As solu\u00e7\u00f5es para o Semi\u00e1rido precisam partir da realidade local. De acordo com o coordenador","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133279"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=133279"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133279\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=133279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=133279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=133279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}