{"id":132180,"date":"2020-08-16T11:12:26","date_gmt":"2020-08-16T14:12:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=132180"},"modified":"2020-08-16T11:12:26","modified_gmt":"2020-08-16T14:12:26","slug":"entrevista-com-achille-mbembe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-com-achille-mbembe\/","title":{"rendered":"Entrevista com Achille Mbembe"},"content":{"rendered":"<h1>Brutalismo do Antropoceno<\/h1>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/08\/14_08_remocoes_vila_autodromo_foto_alexandre_mendes_topo.jpg\" width=\"639\" height=\"213\" \/><\/p>\n<p><strong>Brutalismo<\/strong>. A palavra refere-se, espontaneamente, a um\u00a0<strong>movimento arquitet\u00f4nico<\/strong>\u00a0famoso pelo uso eficiente do concreto bruto. Ao optar por tom\u00e1-lo como o t\u00edtulo de seu novo livro,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/594028-achille-mbembe-obra-em-movimento\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Achille Mbembe<\/a>\u00a0prop\u00f5e outro significado, ainda que o termo original continue ressoando em seu trabalho, j\u00e1 que arquitetura, pol\u00edtica, verticalidade e materialidade habitam o pensamento do autor.<\/p>\n<p><strong>Brutalisme<\/strong>\u00a0\u00e9 um ensaio original e ambicioso, um livro de urg\u00eancia, que sabe levar o tempo longo em considera\u00e7\u00e3o para enfrentar todas as principais quest\u00f5es do momento.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o da entrevista concedida pelo fil\u00f3sofo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/eventos\/564255-achille-mbembe-a-era-do-humanismo-esta-terminando\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Achille Mbembe<\/a>\u00a0a\u00a0<strong>Sylvain Bourmeau<\/strong>, do canal\u00a0<strong>France Culture<\/strong>\u00a0sobre o seu novo livro\u00a0<a href=\"https:\/\/editionsladecouverte.fr\/catalogue\/index-Brutalisme-9782348057496.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Brutalisme<\/em>\u00a0<\/a>(La D\u00e9couverte, 2020), realizada no dia 25 de janeiro de 2020. Pela proximidade entre o que\u00a0<strong>Mbembe<\/strong>\u00a0denomina de\u00a0<strong>brutalismo<\/strong>\u00a0e o\u00a0<strong>contexto brasileiro<\/strong>, escolhemos, para ilustrar esta publica\u00e7\u00e3o, uma imagem das demoli\u00e7\u00f5es realizadas na comunidade\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/543294-vila-autodromo-desapropriacoes-ocorrem-ao-largo-de-processos-judiciais-entrevista-especial-com-clarissa-pires-naback\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vila Aut\u00f3dromo<\/a>, removida quase completamente sob o pretexto da constru\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/565192-removidos-pelo-parque-olimpico-lutam-por-compensacao-mais-justa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Parque Ol\u00edmpico<\/a>, no\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Achille Mbembe<\/strong>\u00a0\u00e9 professor de Hist\u00f3ria e Ci\u00eancias Pol\u00edticas na Universidade de Witwatersrand (Joanesburgo) e pesquisador do Wits Institute for Social and Economic Research (WISER).<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 publicada, em portugu\u00eas, por\u00a0<strong>Pragmatismos<\/strong>. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/569935-entrevista-especial-com-alexandre-mendes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alexandre Mendes<\/a>.<\/p>\n<h3>Eis a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>Bom dia, Achille Mbembe. Voc\u00ea \u00e9&#8230; bom, n\u00e3o sei mais como o descrever, porque voc\u00ea \u00e9 historiador, cientista pol\u00edtico, fil\u00f3sofo&#8230; [risos de Mbembe ao fundo]. Na verdade, era isso que eu queria dizer, voc\u00ea \u00e9 um pensador, e um pensador que acaba de publicar um novo livro,\u00a0<em>Brutalisme<\/em>, pela editora La D\u00e9couverte. Um livro que, de um lado, se inscreve em uma bibliografia j\u00e1 consider\u00e1vel, porque nele s\u00e3o retomadas quest\u00f5es que voc\u00ea n\u00e3o cessa de reexaminar. Mas, de outro, voc\u00ea faz um reexame que acaba n\u00e3o voltando para o mesmo ponto de partida, porque, a cada vez, as quest\u00f5es s\u00e3o enriquecidas, e enriquecidas pela recep\u00e7\u00e3o do seu trabalho. Uma recep\u00e7\u00e3o que acontece, agora, nos quatro cantos do mundo. Voc\u00ea viaja bastante e encontra pessoas que leram o seu trabalho e com as quais dialoga. Al\u00e9m disso, voc\u00ea tamb\u00e9m se deixa afetar pela atualidade, sendo solicitado, de certa forma, a enfrent\u00e1-la em um livro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s n\u00e3o temos tempo, em uma emiss\u00e3o, de abordar, adequadamente, a densidade da sua reflex\u00e3o sobre o brutalismo. Eu gostaria apenas que a nossa porta de entrada fosse o pr\u00f3prio t\u00edtulo do livro. Um t\u00edtulo que pode surpreender porque, como voc\u00ea explicou na introdu\u00e7\u00e3o, n\u00f3s vemos o que \u00e9 o brutalismo, diretamente, atrav\u00e9s dos pr\u00e9dios. \u00c9 essa a rela\u00e7\u00e3o que explica a escolha da palavra?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o&#8230; A rela\u00e7\u00e3o para mim, n\u00e3o obstante, \u00e9 absolutamente evidente. Eu gostaria de dar um nome a um conjunto de experi\u00eancias que s\u00e3o as nossas, n\u00e3o importa onde vivamos atualmente. Um nome a essa converg\u00eancia absolutamente estreita que n\u00f3s observamos entre a raz\u00e3o pol\u00edtica, a\u00a0<strong>l\u00f3gica da nova tecnologia<\/strong>, que interv\u00e9m em nossas exist\u00eancias, e um tipo de\u00a0<strong>viol\u00eancia<\/strong>\u00a0da qual, ao mesmo tempo, os corpos, os c\u00e9rebros e a natureza s\u00e3o os alvos. Eu quis refletir sobre o que isso significa em rela\u00e7\u00e3o ao que poder\u00edamos chamar de hist\u00f3ria dos humanos neste planeta. Um planeta que est\u00e1, nisso estamos todos de acordo, em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/582885-o-antropoceno-e-um-alerta-sobre-as-acoes-humanas-no-planeta-entrevista-especial-com-etienne-turpin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">franca combust\u00e3o<\/a>. Ent\u00e3o, \u00e9 a esse momento totalmente in\u00e9dito que o termo brutalismo busca fazer refer\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Trata-se de um termo que, na realidade, poderia recuperar outra palavra que relacionamos a esse momento atual, da qual n\u00f3s ficamos conscientes apenas recentemente, mesmo se ela foi criada j\u00e1 h\u00e1 bastante tempo: a palavra \u201cAntropoceno\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Bom&#8230; Nesta altura, n\u00e3o sei mais se eu utilizei o termo \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/552037-antropoceno-ou-mudamos-nosso-estilo-de-vida-ou-vamos-sucumbir-entrevista-especial-com-wagner-costa-ribeiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antropoceno<\/a>\u201d&#8230;<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o, acho que n\u00e3o! Eu procurei no livro, mas n\u00e3o encontrei. N\u00e3o chega a ser um sin\u00f4nimo, o que voc\u00ea chama de brutalismo, mas existe uma afinidade, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Existe uma grande afinidade. Mas eu utilizei outras imagens. Mencionei a\u00a0<strong>combust\u00e3o do mundo<\/strong>. Poderia me referir tamb\u00e9m a todos os desenvolvimentos do livro que sugerem e que colocam, de maneira direta, a quest\u00e3o de saber em que p\u00e9 estamos &#8211; e por essa express\u00e3o quero dizer a humanidade inteira, a terra inteira, com um \u201cT\u201d mai\u00fasculo, quero dizer este planeta, que vem se tornando cada vez menor. Trata-se de um\u00a0<strong>planeta<\/strong>\u00a0que ser\u00e1 preciso, bem ou mal, compartilhar; que ser\u00e1 preciso recuperar, pois j\u00e1 o danificamos o suficiente. Tudo isso para colocar de forma n\u00e3o catastrofista, espero, a quest\u00e3o da nossa\u00a0<strong>sobreviv\u00eancia<\/strong>, a quest\u00e3o da vida, a quest\u00e3o do vivo. E tamb\u00e9m a possibilidade de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588630-sexta-extincao-em-massa-na-terra-ameaca-mais-de-meio-milhao-de-especies\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">nossa extin\u00e7\u00e3o<\/a>. Enfim, a quest\u00e3o de compreender o que sobrou do projeto da humanidade, entendida como humanidade livre.<\/p>\n<p><strong>Sem catastrofismo, voc\u00ea diz. No entanto, se trata&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Porque n\u00e3o podemos fazer isso! Porque na\u00a0<strong>\u00c1frica<\/strong>, pelo menos, n\u00e3o podemos nos dar esse luxo.<\/p>\n<p><strong>Porque voc\u00eas est\u00e3o alguns s\u00e9culos \u00e0 frente.<\/strong><\/p>\n<p>Porque n\u00f3s fizemos a\u00a0<strong>experi\u00eancia da cat\u00e1strofe<\/strong>\u00a0j\u00e1 h\u00e1 muito tempo. E, no entanto, continuamos aqui. E o fato de que, efetivamente, n\u00f3s ainda estejamos aqui, esse fato deveria se tornar o objeto n\u00e3o apenas de perplexidade, mas de um pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Por bastante tempo voc\u00ea fez da \u00c1frica um terreno de pensamento porque havia esse continente de experi\u00eancias, de uma hist\u00f3ria, ali\u00e1s, de hist\u00f3rias muito importantes para se compreender. Mas, pouco a pouco, voc\u00ea se deu conta de que o planeta inteiro se transformava na \u00c1frica. Que havia um devir-\u00c1frica do planeta e que, na realidade, n\u00e3o havia um excepcionalismo africano. Havia, talvez, um laborat\u00f3rio africano.<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea o diz bem melhor do que eu mesmo. Escrevi um livro que se chama\u00a0<strong><em>De la postcolonie<\/em><\/strong>\u00a0(2000), que acabou de ser relan\u00e7ado pela editora\u00a0<strong>La D\u00e9couverte<\/strong>, e que se esfor\u00e7a a pensar a quest\u00e3o e a persist\u00eancia da tirania. Assim, como voc\u00ea destacou no come\u00e7o dessa transmiss\u00e3o, s\u00e3o textos que circularam e que foram recebidos em outros lugares. Essa recep\u00e7\u00e3o me possibilitou, ent\u00e3o, revisitar o meu pr\u00f3prio ponto de partida. Acabei percebendo que aquilo que eu acreditava ser espec\u00edfico da\u00a0<strong>\u00c1frica<\/strong>\u00a0\u00e9 composto, na verdade, de situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o compartilhadas, mesmo que de maneira bastante diversa, em v\u00e1rios lugares. Ent\u00e3o, comecei a compreender que a \u00c1frica era um laborat\u00f3rio, entre outros, do que se passa hoje no mundo. Assim, textos como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579121-achille-mbembe-o-devir-negro-do-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Negra<\/a>\u00a0(2013\/2018),\u00a0<strong>Pol\u00edticas da Inimizade<\/strong>\u00a0(2016\/2017) e\u00a0<em><strong>Brutalisme<\/strong>\u00a0<\/em>(2020), fazem parte desse ciclo, que me permite refletir sobre o mundo, mas, evidentemente, a partir de um lugar.<\/p>\n<p><strong>Esse lugar, a \u00c1frica, como eu disse, se antecipou com rela\u00e7\u00e3o a v\u00e1rias quest\u00f5es que encontramos hoje por todo o planeta e, especialmente, em um aspecto central do seu trabalho: a exist\u00eancia de uma \u201cpol\u00edtica dos corpos\u201d, se podemos colocar dessa maneira.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. \u00c9 impressionante que os\u00a0<strong>corpos<\/strong>, que antes imagin\u00e1vamos, mais ou menos, descartados ou&#8230;<\/p>\n<p><strong>Substitu\u00edveis.<\/strong><\/p>\n<p>Isso, ou substitu\u00edveis&#8230; Que eles tenham se tornado, novamente, um centro ou um alvo principal de l\u00f3gicas que s\u00e3o utilizadas atualmente: l\u00f3gicas pol\u00edticas, penso na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/601877-a-violencia-policial-como-dispositivo-da-ordem-politica-artigo-de-donatella-di-cesare\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia<\/a>, a maneira como a pol\u00edcia se transformou em\u00a0<strong>pol\u00edcia dos corpos<\/strong>; a\u00a0<strong>l\u00f3gica econ\u00f4mica<\/strong>, o corpo que se vende. Por exemplo, no livro menciono o\u00a0<strong>negro americano<\/strong>\u00a0que vende o seu plasma sangu\u00edneo para sobreviver. A\u00a0<strong>l\u00f3gica tecnol\u00f3gica<\/strong>&#8230;<\/p>\n<p><strong>A\u00a0gest\u00e3o de nossa aten\u00e7\u00e3o pelos algoritmos, por exemplo.<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza, o fato de n\u00e3o haver um corpo hoje sem pr\u00f3teses, um corpo humano que n\u00e3o seja, ao mesmo tempo, um corpo-objeto. E, portanto, essa pol\u00edtica dos corpos est\u00e1 inteiramente no centro dessa nova s\u00e9rie de reflex\u00f5es. Sem contar os corpos fronteiri\u00e7os, os corpos que s\u00e3o deixados em espa\u00e7os-limiares, tudo isso demonstra uma preocupa\u00e7\u00e3o central da nossa \u00e9poca, que consiste em saber o que fazer com os\u00a0<strong>corpos sup\u00e9rfluos<\/strong>, com os corpos em excesso. Como iremos nos livrar disso que sobrecarrega, que ocupa um espa\u00e7o. Um espa\u00e7o que pensamos nos pertencer e que pode ser apropriado, se tornando objeto de um c\u00e1lculo preciso.<\/p>\n<p><strong>Uma das formas de dar uma resposta, para alguns, consiste em, simplesmente, dividir a humanidade em dois. Um projeto executado, v\u00e1rias vezes, historicamente e geograficamente. Mas, dessa vez, estamos na escala do pr\u00f3prio planeta. Voc\u00ea cita, a prop\u00f3sito,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581769-por-um-direito-internacional-da-hospitalidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00c9tienne Balibar<\/a>\u00a0sobre esse assunto.<\/strong><\/p>\n<p>Sim.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/169-noticias\/noticias-2015\/543000-a-socialdemocracia-se-alinhou-com-a-economia-neoliberal-entrevista-com-etienne-balibar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00c9tienne<\/a>\u00a0tem um texto sobre o tema que \u00e9 absolutamente certeiro, como a maior parte de seus textos, ali\u00e1s. Creio que existe um processo que no livro chamei de \u201c<strong>fratura\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d. Voc\u00ea mencionou a divis\u00e3o em dois. Tenho a impress\u00e3o de que a divis\u00e3o \u00e9&#8230; Ela \u00e9 mais ampla.<\/p>\n<p><strong>Como nas c\u00e9lulas.<\/strong><\/p>\n<p>Isso. Como provocar uma redu\u00e7\u00e3o ao estado de poeira daquilo que antes era uma unidade? Ent\u00e3o, esse processo de \u201cfratura\u00e7\u00e3o\u201d me parece sist\u00eamico. E os corpos est\u00e3o, mais uma vez, no centro dessa l\u00f3gica de \u201cfratura\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Existem algumas coisas que s\u00e3o bastante antigas nessa pol\u00edtica dos corpos, a respeito das quais a \u00c1frica esteve na primeira fileira do processo. Mas existem tamb\u00e9m fen\u00f4menos que s\u00e3o bem novos e que lhe interessam particularmente. Voc\u00ea mencionava a transforma\u00e7\u00e3o digital e n\u00e3o faria qualquer sentido, seria totalmente anacr\u00f4nico, querer ler o que se passou h\u00e1 muito s\u00e9culos \u00e0 luz das novas governamentalidades tornadas poss\u00edveis por essas transforma\u00e7\u00f5es. O que surpreende \u00e9 que isso afeta \u2013 relativamente [\u00eanfase] \u2013 a totalidade do planeta de um modo que \u00e9 independente do n\u00edvel de riqueza.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Estou de acordo com essa constata\u00e7\u00e3o. Creio que isso seja novo. A nossa entrada num\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/593618-a-revolucao-4-0-e-a-reedicao-das-logicas-das-revolucoes-burguesas-entrevista-especial-com-gaudencio-frigotto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">novo sistema tecnol\u00f3gico<\/a>\u00a0e a escalada que lhe \u00e9 correspondente \u00e9 um fen\u00f4meno que n\u00e3o existia h\u00e1 25, 30 ou 40 anos. Alguns historiadores acham que nunca h\u00e1 nada de novo no cen\u00e1rio, mas eu creio que a novidade faz parte do real. E a\u00a0<strong>escalada tecnol\u00f3gica<\/strong>\u00a0\u00e9 algo novo. Ela \u00e9 nova pelo esfor\u00e7o de\u00a0<strong>domestica\u00e7\u00e3o da velocidade<\/strong>. A velocidade se transformou numa arma. [<strong>Paul<\/strong>]\u00a0<strong>Virilio<\/strong>\u00a0destacou isso j\u00e1 h\u00e1 bastante tempo, mas foi antes&#8230;<\/p>\n<p><strong>Antes do com\u00e9rcio de computadores, por exemplo.<\/strong><\/p>\n<p>Isso, antes. O tempo agora implodiu completamente. N\u00e3o parece existir mais uma rela\u00e7\u00e3o entre passado, presente e futuro. Na verdade, \u00e9 como se, n\u00e3o apenas o tempo restasse fragmentado, compartimentado, mas \u00e9 como se houvesse uma eviscera\u00e7\u00e3o de toda ideia de futuro. Uma eviscera\u00e7\u00e3o que permitiria mergulhar os novos sujeitos em uma esp\u00e9cie de presente infinito, instant\u00e2neo. Que n\u00e3o seria necessariamente o fim da hist\u00f3ria, mas que transformaria os par\u00e2metros a partir dos quais tempo e subjetividade est\u00e3o relacionados. Isso criaria figuras e sujeitos totalmente novos que n\u00e3o s\u00e3o, de forma alguma, os sujeitos imaginados pelo\u00a0<strong>Iluminismo<\/strong>. Esses sujeitos estavam, supostamente, no fundamento da\u00a0<strong>democracia liberal<\/strong>. Ent\u00e3o, n\u00f3s conservamos a forma da\u00a0<strong>democracia liberal<\/strong>, mas os sujeitos que deveriam dar vida ao conte\u00fado dessa democracia n\u00e3o s\u00e3o mais os mesmos. Saber como pensar essa esp\u00e9cie de dissocia\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das quest\u00f5es fundamentais da nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Esse tipo de presentismo, no qual estamos situados, essa omnipresen\u00e7a do presente, converge hoje, e voc\u00ea h\u00e1 pouco comentava sobre o catastrofismo, com representa\u00e7\u00f5es \u201ccolapsologistas\u201d do futuro.<\/strong><\/p>\n<p>Sobre esse ponto, eu dizia que na\u00a0<strong>\u00c1frica<\/strong>\u00a0n\u00e3o podemos nos permitir o luxo da<strong>\u00a0colapsologia<\/strong>. Por raz\u00f5es bem evidentes. Em todo caso, digo para alguns entre n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Mesmo o afrofuturismo?<\/strong><\/p>\n<p>O afrofuturismo, mas&#8230; O que me impressiona quando eu viajo pela \u00c1frica e chego nas grandes cidades, essas esp\u00e9cies de megal\u00f3poles \u2013\u00a0<strong>Abidjan<\/strong>,\u00a0<strong>Lagos<\/strong>,\u00a0<strong>Kinshasa<\/strong>,\u00a0<strong>Casablanca<\/strong>,\u00a0<strong>Argel<\/strong>\u00a0etc. \u2013 \u00e9 o fato de que h\u00e1 muita gente. Tem sempre muita gente e todo mundo est\u00e1 fazendo alguma coisa. O que eles fazem? Muitos est\u00e3o ocupados em consertar alguma coisa. Pode ser um sapato, uma casa, uma porta, um tecido, um pano que rasgou. Uma pr\u00e1tica de repara\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>De pessoas tamb\u00e9m, \u00e0s vezes.<\/strong><\/p>\n<p>De pessoas tamb\u00e9m, machucadas etc. Sobre essa pr\u00e1tica de repara\u00e7\u00e3o, penso que ainda n\u00e3o dedicamos toda a aten\u00e7\u00e3o que dever\u00edamos. Seja como pr\u00e1tica social, mas tamb\u00e9m como opera\u00e7\u00e3o mental na qual est\u00e1 em jogo um determinado saber, certas intelig\u00eancias, certos conhecimentos etc. Portanto, ao inv\u00e9s de falar em\u00a0<strong>colapsologia<\/strong>, eu prefiro me concentrar nesses micromecanismos de recupera\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de tecelagem, de repara\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria viva, que nos ser\u00e3o necess\u00e1rios para enfrentar esta nova fase da hist\u00f3ria humana. Uma fase que \u00e9 insepar\u00e1vel, inclusive, da hist\u00f3ria geol\u00f3gica que voc\u00ea chamava, no in\u00edcio, de\u00a0<strong>Antropoceno<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Bom, n\u00f3s consertamos, n\u00f3s reparamos os corpos, n\u00f3s reparamos as pr\u00f3teses desses corpos que se tornam, cada vez mais, indissoci\u00e1veis aos pr\u00f3prios corpos, a ponto da distin\u00e7\u00e3o entre humanos e objetos ter se turvado.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, se turvou completamente. Na realidade, tudo aquilo que est\u00e1vamos acostumados a resolver por oposi\u00e7\u00e3o, escapa agora, de alguma forma, a essas dicotomias. Eu ontem estava em\u00a0<strong>Bobigny<\/strong>\u00a0e mencionei a hist\u00f3ria dos autom\u00f3veis na\u00a0<strong>\u00c1frica<\/strong>. Comentei a ideia de que, entre os autom\u00f3veis, s\u00e3o poucos aqueles que efetivamente \u201cmorrem\u201d. Isso porque, estamos sempre recauchutando esses autom\u00f3veis. Uma pe\u00e7a de l\u00e1, outra que vem da\u00a0<strong>Renault<\/strong>, outra da\u00a0<strong>Toyota<\/strong>, outra de n\u00e3o sei mais qual marca etc. N\u00f3s colocamos todas elas juntas. Essa cole\u00e7\u00e3o de coisas aparentemente&#8230;<\/p>\n<p><strong>Esses s\u00e3o os verdadeiros h\u00edbridos.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, com certeza. Essas s\u00e3o as sociedades verdadeiramente h\u00edbridas. Portanto, a emerg\u00eancia dessa forma h\u00edbrida, que me faz lembrar, ali\u00e1s, para quem acompanha a literatura, dos textos de escritores como\u00a0<strong>Amos Tutuola<\/strong>. Na realidade, ele invoca tudo isso j\u00e1 nos anos 1960. Ele extrai essas coisas de mem\u00f3ria atrav\u00e9s da\u00a0<strong>mitologia Iorub\u00e1<\/strong>, das\u00a0<strong>mitologias africanas pr\u00e9-coloniais<\/strong>, que correspondem, perfeitamente, ao momento tecnol\u00f3gico que vivemos. N\u00e3o vou dizer que \u00e9 a mesma coisa, mas, digamos, fui bastante tocado pela correspond\u00eancia entre esses diferentes universos. Ent\u00e3o, tudo isso interpela o pensamento, interpela o trabalho de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, as \u00e1reas ligadas \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo que est\u00e1 muito longe da colapsologia e, me parece, \u00e9 algo tamb\u00e9m bem mais entusiasmante.<\/p>\n<p><strong>E isso tem a ver com o animismo, tema sobre o qual voc\u00ea dedicou v\u00e1rias p\u00e1ginas em Brutalisme.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. O que \u00e9 o\u00a0<strong>animismo<\/strong>? Bom, voc\u00ea sabe, animismo \u00e9 um termo inventado no s\u00e9culo 19 pelos antrop\u00f3logos ocidentais, que chegaram at\u00e9 n\u00f3s e que ficaram impressionados, justamente, por isso que acabei de descrever. Essa esp\u00e9cie de prolifera\u00e7\u00e3o criadora, no interior da qual as pessoas, aparentemente, n\u00e3o conhecem distin\u00e7\u00f5es que seriam necess\u00e1rias. E, assim, havia a impress\u00e3o de que elas perdiam todo o senso de causalidade. Elas vinham das florestas, elas vinham das rochas, elas utilizavam m\u00e1scaras \u00e0s quais concediam um poder manifesto. De todo modo, do ponto de vista de uma raz\u00e3o reduzida ao seu sentido primeiro, tudo isso n\u00e3o fazia qualquer sentido. Ent\u00e3o eles disseram: \u201colha, essas pessoas s\u00e3o animistas\u201d. Elas creem em coisas que n\u00f3s tamb\u00e9m j\u00e1 acreditamos, mas quando \u00e9ramos crian\u00e7as. N\u00f3s sa\u00edmos dessa cren\u00e7a infantil. A diferen\u00e7a entre eles e n\u00f3s \u00e9 que n\u00f3s sa\u00edmos dessa cren\u00e7a e eles ficaram. Isso \u00e9 o animismo. Na verdade, uma rela\u00e7\u00e3o absolutamente complexa entre os humanos e os objetos. Ora, n\u00f3s coment\u00e1vamos h\u00e1 pouco, a nova era na qual entramos recoloca, em larga medida, a quest\u00e3o da nossa rela\u00e7\u00e3o com os objetos. Nos s\u00e9culos 18, 19 e 20, por exemplo, a convic\u00e7\u00e3o era de que o humano n\u00e3o era um objeto. A ideia segundo a qual o humano n\u00e3o \u00e9 um objeto est\u00e1 na base das ideias modernas de emancipa\u00e7\u00e3o, de libera\u00e7\u00e3o etc. Ora, hoje, muitos gostariam de ser tratados mais como objetos do que como seres humanos. Ontem, dei o exemplo do telefone celular. No meu caso, eu gostaria de ser tratado como o celular de Sylvain. Por qu\u00ea? Porque Sylvain trata muito bem o seu telefone. O telefone est\u00e1 ali do seu lado o tempo todo. Ele lhe dedica bastante cuidado. Existem objetos que merecem mais zelo do que os pr\u00f3prios humanos. Ent\u00e3o, esse desejo de objetifica\u00e7\u00e3o, ou de objetalidade, encontrem voc\u00eas o melhor termo, me parece caracter\u00edstico do momento contempor\u00e2neo. Esse desejo nos exige repensar algumas das categorias cr\u00edticas que fundaram as nossas ideias do pol\u00edtico e do comum, categorias v\u00e1lidas h\u00e1 at\u00e9 bem pouco tempo.<\/p>\n<p><strong>Agora, antes de voltar a falar do brutalismo, com Kaoutar Harchi, na segunda parte dessa transmiss\u00e3o, Achile Mbembe, poder\u00edamos escutar uma parte do c\u00e9lebre \u00e1lbum de David Byrne e Brian Eno, My life in the bush of Ghosts, porque com essa refer\u00eancia a Tutuola, teria tudo a ver. Os livros dele foram essenciais para a fabrica\u00e7\u00e3o dessa m\u00fasica h\u00edbrida, e isso j\u00e1 tem bastante tempo, foi em 1981. Mas eu acabei escolhendo outra coisa, sabendo que voc\u00ea viria hoje, Achille Mbembe. \u00c9 um estrato do novo \u00e1lbum de Blick Bassy, \u201c1958\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Ah, muito obrigado.<\/p>\n<p><strong>Uma palavra sobre o Blick Bassy, \u201c1958\u201d, Achille Mbembe.<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DJHXlc7Afzk\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Se eu entendi direito, ele est\u00e1 cantando uma m\u00fasica em mem\u00f3ria a\u00a0<strong>Ruben Um Nyob\u00e9<\/strong>, que foi uma grande l\u00edder nacionalista de\u00a0<strong>Camar\u00f5es<\/strong>, nos anos 1950, e que foi assassinado pelas tropas francesas, em 1958. A\u00a0<strong>mem\u00f3ria de Ruben<\/strong>\u00a0foi apagada por v\u00e1rios anos no per\u00edodo subsequente \u00e0 independ\u00eancia, mas a sua lembran\u00e7a ficou fortemente marcada em nossas mentes. \u00c9 reconfortante ver que Blick, e outros, recuperam isso com a m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>Camar\u00f5es \u00e9 o pa\u00eds onde voc\u00ea nasceu, Achille Mbembe.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, onde nasci. E de onde eu sa\u00ed&#8230;<\/p>\n<h3>Notas do tradutor:<\/h3>\n<p>[1] A segunda parte da entrevista, n\u00e3o traduzida aqui, \u00e9 dedicada \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do livro da soci\u00f3loga\u00a0<strong>Kaotar Harchi<\/strong>, com algumas interven\u00e7\u00f5es pontuais de\u00a0<strong>Achille Mbembe<\/strong>.\u00a0<strong>Kaoutar HARCHI<\/strong>\u00a0\u00e9 soci\u00f3loga e escritora, autora do livro\u00a0<em>Je n\u2019ai qu\u2019une langue et ce n\u2019est pas la mienne<\/em>\u00a0(Fayard, coll. Pauvert, 2016). N.T. Participa da segunda parte do programa, n\u00e3o traduzida nesta publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[2]\u00a0Sylvain Bourmeau. Jornalista, professor associado na \u00c9cole des Hautes \u00c9tudes en Sciences Sociales, diretor do jornal AOC e produtor do programa La Suite dans les id\u00e9es na France Culture.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brutalismo do Antropoceno Brutalismo. A palavra refere-se, espontaneamente, a um\u00a0movimento arquitet\u00f4nico\u00a0famoso pelo uso eficiente do<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Brutalismo do Antropoceno Brutalismo. A palavra refere-se, espontaneamente, a um\u00a0movimento arquitet\u00f4nico\u00a0famoso pelo uso eficiente do","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/132180"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=132180"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/132180\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=132180"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=132180"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=132180"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}