{"id":13206,"date":"2014-12-30T16:13:10","date_gmt":"2014-12-30T16:13:10","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=13206"},"modified":"2014-12-30T16:15:22","modified_gmt":"2014-12-30T16:15:22","slug":"na-amazonia-quando-o-rio-inunda-a-varzea-o-maior-felino-das-americas-deixa-de-ser-animal-terrestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/na-amazonia-quando-o-rio-inunda-a-varzea-o-maior-felino-das-americas-deixa-de-ser-animal-terrestre\/","title":{"rendered":"Na Amaz\u00f4nia, quando o rio inunda a v\u00e1rzea, o maior felino das Am\u00e9ricas deixa de ser animal terrestre"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/onca_dagua.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-13209\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/onca_dagua-300x191.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"191\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/onca_dagua-300x191.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/onca_dagua.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Primeiro aparece o filhote. Acomodado entre os galhos no alto da \u00e1rvore, exibe um olhar assustado. Pelo seu tamanho, calcula-se que deve ter uns 6 meses de vida. Quando a canoa se aproxima a 3 metros do tronco submerso, d\u00e1 para ver a m\u00e3e, uns 20 metros acima da linha d\u2019\u00e1gua. Ela olha, d\u00e1 uma espregui\u00e7ada como se estivesse enfadada para receber visitas, vira a cara e se afasta copa adentro. Tudo muito natural. &#8220;E ent\u00e3o ficamos ali observando por uns 20 minutos, como se f\u00f4ssemos bab\u00e1s, at\u00e9 que o filhote dormiu e decidimos partir&#8221;, conta o bi\u00f3logo carioca Emiliano Esterci Ramalho. Em cerca de dez anos observando a<strong> on\u00e7a-pintada <\/strong>nas florestas de v\u00e1rzea da<strong> Amaz\u00f4nia<\/strong>, ele nunca tinha visto seu objeto de estudo t\u00e3o \u00e0 vontade naquele <strong>ambiente aqu\u00e1tico.<\/strong><\/p>\n<p>A evid\u00eancia de que antes suspeitava agora parece incontest\u00e1vel: dono de incr\u00edvel flexibilidade ecol\u00f3gica, o maior<strong> felino<\/strong> das Am\u00e9ricas pode viver no alto das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo a 12 quil\u00f4metros do solo seco mais pr\u00f3ximo, as on\u00e7as n\u00e3o se sentiram amea\u00e7adas e pareciam tranquilas em casa&#8221;, conta Emiliano. Para o pesquisador da Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel Mamirau\u00e1, que h\u00e1 seis anos monitora o ziguezague florestal dos bichanos, deparar ao vivo com a on\u00e7a-m\u00e3e &#8211; apelidada de &#8220;Cot\u00f3&#8221; por n\u00e3o ter rabo &#8211; nessa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma parte importante de um in\u00e9dito quebra-cabe\u00e7a ecol\u00f3gico: descobrir o que as on\u00e7as fazem quando toda a floresta da Reserva Mamirau\u00e1 fica alagada. Nenhum dos oito animais monitorados desde 2008 abandonou o ambiente inund\u00e1vel da v\u00e1rzea nos tr\u00eas ou quatro meses anuais de cheia &#8211; um comportamento inusitado e nunca antes observado em felinos de grande porte.<img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/planetasustentavel.abril.com.br\/imagem\/national-geographic-oncas-dagua-2.JPG\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"422\" border=\"0\" \/><\/p>\n<div class=\"img_thumb\" style=\"margin-bottom: 0px;\"><em>O bi\u00f3logo Emiliano Ramalho, com a antena na m\u00e3o (acima), tenta localizar as on\u00e7as marcadas com colares de telemetria VHF e GPS na Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel Mamirau\u00e1, que fica a 1 hora de barca da cidade de Tef\u00e9<\/em><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Emiliano conta essas e outras hist\u00f3rias dos felinos selvagens para um grupo de turistas hospedados na Pousada Flutuante Uacari, base para quem visita Mamirau\u00e1, quando o telefone toca. S\u00e3o 22 horas de uma noite de lua cheia em mar\u00e7o, e uma emerg\u00eancia o obriga a interromper a palestra: um jovem bolsista que tinha sa\u00eddo pela manh\u00e3 para instalar armadilhas fotogr\u00e1ficas n\u00e3o havia voltado do trabalho de campo &#8211; assim como o guia &#8220;mateiro&#8221; que o acompanha.<\/p>\n<p>Estudar um animal desse porte no <strong>ambiente in\u00f3spito<\/strong> da maior floresta do planeta (e a mais de 500 quil\u00f4metros da capital mais pr\u00f3xima, Manaus) \u00e9 uma atividade de risco, e Emiliano teme pelo pior. Convoca por r\u00e1dio moradores locais para o acompanharem, equipa-se, assume o volante de uma voadeira e desaparece na escurid\u00e3o do Rio Solim\u00f5es floresta adentro. N\u00f3s, visitantes, n\u00e3o sab\u00edamos, mas os trai\u00e7oeiros rios da regi\u00e3o j\u00e1 tinham feito o pr\u00f3prio pesquisador capotar com o bote met\u00e1lico tr\u00eas vezes: duas delas ao passar sobre os gigantescos peixes <strong>pirarucus<\/strong> durante o dia e outra ao atropelar um <strong>jacar\u00e9<\/strong> \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Nos dias anteriores, ao explorar uma mil\u00e9sima parte desse exuberante<strong> laborat\u00f3rio natural<\/strong> de mais de 1 milh\u00e3o de hectares, eu j\u00e1 havia constatado que on\u00e7as, pirarucus e jacar\u00e9s s\u00e3o apenas alguns temas dos 104 projetos de pesquisa e manejo conduzidos atualmente em Mamirau\u00e1. Criada nos anos 1990 a partir do sonho do primat\u00f3logo Jos\u00e9 M\u00e1rcio Ayres (1954-2003) de preservar o ber\u00e7o do uacari-branco (um macaco de cara vermelha que se acreditava s\u00f3 existir ali), a primeira <strong>reserva de desenvolvimento sustent\u00e1vel <\/strong>do Brasil nasceu com um conceito inovador para a \u00e9poca: proteger o peculiar ambiente de v\u00e1rzea amaz\u00f4nico, produzir ci\u00eancia de qualidade e envolver as popula\u00e7\u00f5es tradicionais na <strong>conserva\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies<\/strong> &#8211; em vez de tir\u00e1-las de seu universo, como era feito at\u00e9 ent\u00e3o com o pretexto de que toda \u00e1rea de conserva\u00e7\u00e3o deveria ficar intacta.<\/p>\n<div class=\"img_thumb\" style=\"margin-bottom: 0px;\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/planetasustentavel.abril.com.br\/imagem\/national-geographic-oncas-dagua-4.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"422\" border=\"0\" \/><\/div>\n<div class=\"img_thumb\" style=\"margin-bottom: 0px;\"><em>A crian\u00e7a salta para o rio em uma das comunidades de Mamirau\u00e1. Assim como para os animais da mata, a \u00e1gua determina o ritmo da vida ao longo do ano.<\/em><\/div>\n<p>A pesquisa sobre os h\u00e1bitos arbor\u00edcolas e aqu\u00e1ticos das on\u00e7as-pintadas na v\u00e1rzea amaz\u00f4nica atrai a aten\u00e7\u00e3o da sociedade cient\u00edfica internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiro aparece o filhote. 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